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quinta-feira, 2 de junho de 2016

A Cidade Sagrada - 29


Varanasi, tão espiritualizada, tão desejada, tão amada!... Como era possível? As ruelas por onde passávamos eram tão estreitas que, para passar uma bicicleta, tínhamos que nos desviar, parar e encostar às paredes esburacadas e imundas. Não era tudo assim. Havia ruas largas, espaçosas, mas por todo o lado a mesma aparência do auge da miséria. Misericórdia!

 

Caminhávamos praticamente em fila indiana e a certa altura, peguei na pachmina, enrolando-a à volta do rosto, deixando só os olhos de fora. Havia tanto mosquito e tanta mosca, que temia que me entrassem pelo nariz e pela boca, mesmo fechada. O cheiro no ar era indescritível. Tudo aquilo era nojento. Varanasi, a cidade sagrada, não era diferente do resto da Índia. A diferença é que, para além do habitual, havia ainda as chamadas cerimónias religiosas na margem do Ganges, para onde nos dirigíamos agora, com horas e horas de sono em atraso. 

 

O hotel era razoável. Não!… era bom, muito bom, mesmo. No entanto, já tinha havido um probleminha que me chateou. Pouco depois de termos dado entrada e nos acomodarmos, voltei ao piso zero, mais precisamente à recepção, para adquirir rupias. Tive que esperar um pouco porque estava a ser atendida uma das raparigas do grupo que, por acaso era indiana, não de naturalidade, mas de sangue. Logo que ela se retirou, o balcão ficou livre e aproximei-me do recepcionista, um senhor que aparentava uns cinquenta anos, com um ar muito solene e que estava de olhos postos nuns papéis quaisquer, sem me dar a menor atenção. Esperei um pouco mais e como ele continuasse a ignorar-me, interrompi-o, fazendo-o perceber que estava à espera de ser atendida. Levantou um pouco a cabeça e com um ar superior e enjoado, perguntou-me o que queria. Disse-lhe que precisava de trocar dinheiro. Deu-me um papel que preenchi, devolvendo-lhe. Levou para trás do balcão, continuou a fazer ou a fingir que fazia não sei o quê, deixando-me a secar, sem uma palavra, nem uma explicação.

 

Com a outra tinha sido tão rápido, porque demorava tanto comigo? Algo não estava bem. Passado um pouco mais, resolvi perguntar porque estava a demorar. Olhou-me de lado e com toda aquela calma que tanto me irritava, respondeu-me que tinha que esperar, dando-me a entender que quem mandava era ele e tinha que me submeter à sua “vontade”. Não gostei. Era óbvio que estava a gozar com a minha cara. Então, vali-me do meu trunfo, se assim se pode dizer. Tirei do saco de mão o passaporte, abri e coloquei sobre o balcão, em frente aos olhos dele, que não entendeu o meu gesto, claro. E disse-lhe, com tom de poucos amigos e um pouco ameaçador: “O senhor atendeu a minha amiga com toda a rapidez e a mim está a dificultar as coisas porquê? É por causa da nacionalidade? Porque ela é indiana e eu não? Quem sabe não está enganado?!” 

 

Aí, ele levantou os olhos por cima dos óculos, mantendo a cabeça baixa, mas olhou para mim, ainda sem perceber onde eu queria chegar. “Sabe, as aparências enganam”, dizia-lhe eu, enquanto ele me olhava, não entendendo nada e talvez pensando “está a passar-se”. Então, a verdade que ele não esperava, veio ao de cima. E continuei: “Não é pelo facto de ela ter a sua cor que é indiana, porque ela - e marquei o “ela” - pode ter a aparência, mas, para sua informação, não é Indiana. Eu sim, apesar de não parecer, eu nasci na Índia, conforme pode ver.

 

Com ar de poucos amigos, mas já um tanto cauteloso, discretamente, dignou-se olhar para o passaporte e confirmando o que eu acabara de lhe dizer, virou-se, foi direito lá atrás do balcão, contou o dinheiro e voltou de imediato, pondo-o junto ao meu passaporte e com um ar completamente diferente, disse: “Minha senhora, o seu dinheiro”. Estava feito. Chateada que nem um peru, agradeci e subi aos meus aposentos, esbaforindo por todos os lados. Racistas dum raio, pensei comigo mesma.

 

Entretanto, no segundo dia, depois de virmos das cerimónias no Ganges, com aquele folclore todo ao pôr-do-sol, estávamos exaustos e fomos directos para o hotel. À chegada, tivemos uma super recepção. Havia polícia por todo o lado. Em cada esquina um policial com uma espingarda ou metralhadora, sei lá, apontada à porta principal. Impressionava.

 

O que é isto(?), pensei comigo mesma. Bom, não fiz mal a ninguém, sou apenas uma turista, não tenho com que me preocupar. Resolvi ignorar, mas fomos revistados, apalpados e só acabou quando transpusemos a porta do hotel. Do lado de dentro ainda havia um polícia, mas a coisa era pacífica. Acabou. Subimos e fomos tomar um duche. Primeiro foi a Mina, minha companheira de quarto, depois eu. Enquanto ela estava na casa de banho, percebi que havia uma movimentação anormal e muito especialmente no quarto ao nosso lado, onde havia muita gente, porque eu os ouvia falar muito alto e a porta estava sempre a bater, porque entravam e saíam e não havia sossego. Era esquisito.

 

Entretanto, a Mina saiu da casa de banho e fui eu. Quando estava a meio do duche ouvi baterem à porta. Estranhei, mas não liguei, limitando-me a ficar atenta. A Mina era bastante surda, o suficiente para não ouvir. Bateram novamente, com mais força. Não gostei. Não era uma bater amistoso, era um bater que adivinhava problema. Saltei do duche, enrolei-me no lençol de banho e espreitei pelo buraco da porta, que era enorme. Fiquei surpresa quando vi vários homens, sendo que um deles era um policial e ainda tinham um cão, um pastor alemão. O que é isto, pensei, o que quer esta gente? Rapidamente, pensei e agi.

 

Abri a porta, tal qual estava, enrolada na toalha, mas abri só um pouquinho, escondendo-me atrás dela, não totalmente, para eles verem que estava no banho e com a testa franzida, de interrogação, perguntei: “O que querem, não posso atender, estou no banho”, fechando imediatamente a porta na cara deles. Silêncio. Durante uns segundos, nada se passou, ninguém falou. Eles não estavam à espera de ter uma recepção daquelas. Deviam achar que intimidavam toda a gente. E depois de alguns segundos, bateram novamente, com mais força. Não atendi e fiquei à espera. Foi então que um deles falou em inglês, dizendo “abram, é a polícia”. Isso já eu sabia, mas também não me apetecia facilitar-lhes a vida e respondi-lhes que não estava vestida. Abra, repetiram eles. Bom, não podia abusar da situação e abri. Empurraram a porta, escancarando-a, dizendo-me para voltar para a casa de banho que ninguém nos faria mal. Assim fiz porque, verdade seja dita, não foram nada meigos.

 

Para a Mina, passou tudo ao lado. Quando os ouvi sair, saí da casa de banho e perguntei-lhe o que lhe tinham dito. Respondeu que não tinham trocado uma só palavra. Limitaram-se a passar um detector de metais sobre toda a bagagem e saíram. Só isso? Sim, respondeu ela. São muito estúpidos, pensei, pois se houvesse alguma coisa, podia estar na casa de banho onde nem entraram!?

 

Mais tarde percebi qual era o problema. Era o mês do Ramadão e estavam muitos muçulmanos na Índia, o que para mim foi uma surpresa. Até já tínhamos visto uma manifestação, onde também havia polícias. Mas se eram muçulmanos, porque não iam para o Paquistão ou Bangladesh e deixavam os hindus em paz com as suas inúmeras crenças? Era mesmo querer confusão e nunca estarem satisfeitos com nada. 

 

E ali estava eu, metida naquele filme, em andanças pela Índia. Nunca pensei… Varanasi, a cidade sagrada!... Era tudo menos sagrado. Era do mais profano que podia haver. Como é que podiam chamar-lhe a cidade sagrada!? Alguma vez o teria sido? Isso já não sei. Mas aquilo era um verdadeiro pesadelo, em todos os sentidos. Quando na tarde anterior fomos às lojas, eu estava no balcão, à espera que a menina me trouxesse o kajhal que lhe tinha pedido e não havia ar condicionado. Era um espaço enorme, um grande armazém e se o calor lá fora era infernal, lá dentro era insuportável. De tal ordem, que eu não conseguia ter os olhos abertos, por causa do suor que me caía em bica sobre as pálpebras e tinha que estar constantemente a limpar a água para poder abrir os olhos. Até me sentia envergonhada. Dizia uma palavra e parava para limpar os olhos e a cena continuava. E o pior é que não via isso nelas. Estavam sequinhas, bonitinhas… parecia que não eram feitas da mesma matéria que eu.

 

As cerimónias do nascer e pôr-do-sol na cidade sagrada eram iguais todo o santo dia. Repetiam-se todos os dias. Mas era tudo como se fosse a primeira vez. É claro que tudo naquela terra é sagrado, tão sagrado que não tem explicação. É uma imundície por todo o lado, mas Varanasi, realmente, consegue superar. No rio, as pessoas fazem tudo, tudo o que se possa imaginar: cozinhar, comer, tomar banho, beber água, mijar, cagar, lavar roupa, orar, dormir tranquilamente em qualquer lugar ou em qualquer situação e todos fazem tudo o que querem, sem ligar absolutamente nenhuma importância ao que se passa ao seu redor. Ninguém perturba ninguém. Enquanto uns deitam flores à água, outros fazem cremações dos seus mortos. Tudo ali acontece ao mesmo tempo. Quem tem parentes doentes, deficientes, exibe-os como se sentindo abençoados com aquele “presente” que consideram uma bênção. É de loucos. É difícil saber quem é mais louco que o outro. Contudo, os turistas ficam deliciados com aquilo. Acham tudo muito bonito, muito especial, muito santo. Deve ser por causa do povo que vive na rua porque, em vez de fazerem casas para as pessoas, invariavelmente fazem templos, um atrás do outro. Templos é o que realmente faz falta para preservar a tradição e o paganismo. E toda a gente acha aquilo lindo, carregado de um forte misticismo. Esquecem-se é da carga de energia negativa que é emanada para todo o planeta. Disso ninguém fala, ninguém tem a coragem de o dizer.

 

Mas Varanasi até é um nome bonito, sonante, leve, agradável… é a Índia e a Índia, com todos os seus defeitos, contradições, etc..., é um grande mistério porque, na verdade, apesar dos horrores a que assistimos e da diversidade da sua cultura; por trás da hipocrisia, da verdade que se esconde, da inocência, da injustiça, da iniquidade, da desigualdade, das mil e uma doutrinas, do bem e do mal, da fome… Varasnasi, como toda a Índia, é ao mesmo tempo doce, pacífica, calma e tranquilidade. Um sonho confuso, um encontro insólito, um prazer amargo, uma experiência única, num parque místico de diversões infinitas, onde o mistério impera a toda prova, sem a menor possibilidade de se esgotar, de se esfumar, porque é a Índia e porque não há nada igual.



sábado, 23 de abril de 2016

Areia Branca - 28

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Uma receita original - 27


Um dia a minha tia telefonou-me a perguntar se queria ir lá jantar. Perguntei-lhe o que era o jantar e respondeu-me que ia fazer ervilhas com ovos escalfados. Como o meu marido era um pouco esquisito com as comidas, era preciso saber sempre, qual seria o menu, para ver se servia ou não. Ele era açoriano e estava acostumado a umas coisas um pouco diferentes, o que implicava ter uma certa cautela. Continuava agarrado às comidinhas da mãe que, por sinal, era uma excelente cozinheira, mas era uma cozinha um pouco pesada para o meu gosto e às vezes era difícil conciliar os nossos hábitos. Porém, ervilhas com ovos, parecia-me bem.

 

Em casa dos meus tios sempre houve empregada a tempo inteiro, pelo que a minha tia nunca na vida fora habituada a cozinhar, assim como o meu tio. Mas quando se reformou, decidiu que não precisava mais de uma empregada a tempo inteiro e decidiu dedicar-se à culinária. E assim, ervilhas com ovos, era o que nos apresentaria para o jantar, cozinhado por si mesma.

 

Telefonei ao meu marido, mas havia um pormenor. Tínhamos em casa um amigo açoriano, que estava de passagem. A nossa casa era a hospedaria dos açorianos que vinham a Lisboa de passagem. Estávamos constantemente com gente em casa. Desta vez era o Ferreira, que era amigo do meu marido desde criança. Então, liguei para a minha tia para lhe dizer que talvez não pudéssemos por causa do nosso amigo, mas logo ela respondeu que o levássemos também. Ele concordou e na hora certa lá fomos jantar a casa dos tios. Por esta altura, o meu filho teria uns dois, três anitos no máximo. Era bastante pequeno.

 

O Ferreira era um tipo bem disposto, curtido à brava, que sempre nos fazia rir até mais não. Era casado, tinha dois rapazes também pequenos e lá em casa a mulher tratava de tudo excepto das refeições, porque o Ferreira, bom cozinheiro que era, fazia questão de ter essa tarefa por sua conta, o que muito aliviava a mulher.

 

Então, chegámos e entrámos. Fomos para a sala de estar, onde estava o meu tio e demos início às apresentações. Estava tudo já em família. O Ferreira nunca se calava, estava sempre a falar e a fazer piada com tudo. Ele era assim mesmo, um humorista inato e logo começou a inspeccionar o local por sua conta, fazendo discretamente as suas apreciações, que só quem o conhecia bem é que entendia, caso contrário passava despercebido. E lá fomos conversando, rindo, até que chegou a hora de ir para a mesa.

 

Para começo de jantar, a mesa estava posta com muito pouco cuidado e a minha tia dizendo que não fazia cerimónia, se não nos importávamos que fossem os tachos para a mesa, e mais isto e mais aquilo. Pois, o que haveríamos de dizer!? Quando havia empregada não dispensava todos os requintes e mais alguns, agora, tudo mudara de figura. Mas podia ter-se empenhado um pouquinho mais. Ainda por cima, sabendo que levávamos um amigo. Mas pronto. Bom, à mesa, continuámos com as nossas graças, pois com o Ferreira, era certo haver sempre motivo para rir.

 

A minha tia que ia da sala para a cozinha e vice-versa, fazendo-se toda atarefada e empenhada no jantar à família, naquele dia alargada, lá vinha então com um tacho para a mesa. Voltou a dizer que se sentia à vontade e, portanto, não ia fazer cerimónias, pedindo desculpa por causa do tacho, mas... francamente, deve ter escolhido o tacho mais antigo e mais velho que tinha, porque era feio que eu sei lá. Além do mais, estava todo martelado. Um horror! Nós olhávamos, mas já estávamos habituados às excentricidades dela. O Ferreira olhava e dizia entre dentes - “mas o que é isto?” -, com aquela sua bela pronúncia açoriana que não tem igual. E eu pensava “nem sabes onde te vieste meter”. Ok, depois falaríamos sobre o assunto e dar-lhe-ia algumas explicações para ele entender.

 

Mas era tão estranho aquele tacho na mesa, que percebi que todos os olhares estavam concentrados nele. Porque seria? Sabíamos que o jantar eram ervilhas com ovos escalfados. Mas parecia que aquele tacho não se adaptava muito bem a ervilhas com ovos escalfados. Pelo menos, uma panela! Um tacho, não, pensava eu. O meu marido, sempre com ar de gozo, que ele sempre gozava com a minha tia. E o Ferreira olhava incrédulo, para o mau aspecto daquele tacho na mesa. Depois, devia ter acabado de sair do lume, porque o vapor subia, subia. Cheiro não havia. Ervilhas com ovos escalfados têm o seu cheiro característico, mas dali não saía cheiro nenhum. O meu tio calado como sempre e todos na expectativa. Porque seria que estávamos todos na expectativa? Aparentemente, não precisava ou não devíamos.

 

Instintivamente, levantei-me um pouco, para dar uma espreitadela. Ah, devia ser engano. Ao mesmo tempo, o meu filho, que tinha saltado para o meu colo, ergueu-se também para espreitar e foi o primeiro a dar sinal: “ai, mãe, o que é que eu como?” - começando a choramingar. Disse-lhe, rapidamente, que não se preocupasse, que ia arranjar outra coisa para ele comer. 

 

O que é que se passava!? Ervilhas, não vi nem uma para amostra. O tacho estava cheio de água a ferver até acima, com uns feijões verdes a boiar para lá e para cá, ora subindo ora descendo e no fundo do tacho, ovos cozidos com casca. Pensei para comigo mesma “o que é isto?” E perguntei em voz alta: “então não tinhas dito que eram ervilhas?” E a minha tia responde, com o ar mais tranquilo deste mundo: “pois, mas não encontrei ervilhas e resolvi o problema com feijão verde”. E perante o meu ar perplexo, desconcertado e sem saber o que fazer e o que dizer, enquanto os outros dois já riam, tão discretos quanto possível, mas sem se conseguirem controlar, a minha tia continuava a desculpar-se: “então paciência, também não é assim tão diferente?” Não é diferente? Pensava eu em voz alta. E os ovos? E ela continuava: “cada um descasca o seu, não é assim tão complicado!".

 

 

E assim ficámos todos, todos, a olhar, mas sem ninguém se aventurar a servir-se. Apenas o meu tio foi “obrigado” a servir-se e a comer “só um bocadinho”, como ele fez questão de dizer, porque estava sem “vontade” de jantar. Saímos dali e fomos jantar. 

 

Mas esta receita tão inovadora nunca mais foi esquecida.



 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

África - 26


Uma das coisas de que sempre gostei foi de correr riscos. Sempre gostei de sentir a adrenalina, quando algo perturbador se aproxima de nós. Contudo, os meus riscos foram sempre calculados, de modo que as hipóteses de darem errado sempre foram acauteladas. Não deixaram por isso de ser um risco maior ou menor. Em cem por cento de cautela, havia sempre um por cento ou talvez um pouco mais, das coisas correrem mal. Por isso, se alguma vez tivesse falhado, sabia bem de quem era a responsabilidade. Ainda assim, correr o risco valia a pena, pela pura adrenalina, mas falhar, não podia acontecer.

 

Em criança, com cinco anos, vivia em África, onde a minha vida era uma liberdade sem limites porque, literalmente, fazia o que queria. O meu pai passava uma boa parte do dia no quartel e a minha mãe em casa, fazendo alguma coisa ou simplesmente descansando, ao ar livre. Nunca passou pela cabeça de ambos, as coisas que eu fazia. Sempre fui uma aventureira inata. Descobria por minha conta e risco o que queria e me interessava. Sempre tive a noção do perigo e protegia a minha irmã, mais nova do que eu e bem assim, os amiguinhos, porque sabia que não tinha que metê-los nos mesmos apuros em que eu me metia. Além de que, a confiança que tinha em mim, não tinha nos outros. Os outros, considerava-os crianças. Em relação a mim mesma, sempre me considerei meio criança, meio adulta. Sempre soube que havia em mim um passo um pouco mais adiante em relação às outras crianças. E isso, de certa forma, fazia-me sentir responsável por eles. Por isso, o que servia para mim, não servia para eles, não permitindo que, só porque estavam comigo, fizessem as mesmas loucuras que eu. Podiam assistir, ver, mas tinham que estar quietos. 

 

Eu trepava às árvores, pior do que os garotos da minha idade, o que muito aborrecia o meu pai, que passava a vida repetindo que eu era uma menina e não um rapaz e que havia coisas que as meninas não podiam fazer. Mas aquela conversa não me interessava. Eu não tinha a menor intenção de lhe desobedecer, em todo o caso, subiria às árvores todas as vezes que os cajueiros tivessem um só caju, que seria para mim e para mais ninguém. Chateados, os garotos, sempre haveria um que acabava por me denunciar e depois era a parte que doía, porque eu sabia que o meu pai ficava muito aborrecido. Claro que o problema dele era que eu caísse e me machucasse, mas eu achava que isso nunca ia acontecer. Era tão simples subir às árvores!? E os cajus justificavam. Não havia fruto mais bonito e delicioso que um cajú madurinho e suculento. Não havia nada igual. O problema, também, é que eles não tinham tempo de amadurecer, porque eu não lhes dava essa oportunidade, desde que uma vez perdi uma bela duma manga, apenas porque estava à espera que ela estivesse no ponto certo. Claro que à mangueira não podia subir. Mas nem precisava. A pernada do ramo quase entrava por uma das varandas do primeiro andar da casa do quartel onde morávamos nessa altura. Contudo, na altura certa, a manga desapareceu. E não é que não houvesse mangas em casa. Mas aquela era minha. Alguém roubara a minha manga, o que me deixou triste durante alguns dias, enfiada pelos quatro cantos da casa.

 

Em Bissau, nos arredores da cidade, onde vivíamos, nas casas que o exército disponibilizara para os militares, a vida era uma aventura. Desde que acordava, até à hora de me deitar, era uma festa. Contudo, a verdadeira festa acontecia durante a noite, depois de me deitar. É que, quase todos os dias depois do almoço, a minha mãe fazia-nos dormir uma sesta e com o calor, às vezes dormia de mais e à noite, sobrava energia. O quarto dos meus pais dava para a estrada nacional, mas o nosso, dava para o mato. Mato cerrado. E quando não conseguia dormir, começava a ouvir algo que inicialmente achava estranho, mas que com o tempo começou a ser habitual e mais do que isso, familiar. Eu ouvia um batuque ritmado e forte, acompanhado de uma espécie de canto. Eram vozes que se manifestavam de um modo particularmente estranho, porque indefinido. Aquilo não parava. Entrava pela noite dentro, despertando a minha curiosidade de criança e aguçando o meu desejo de correr riscos. Eu tinha que descobrir o que era aquilo. Eu tinha que ver. E no meio da noite escura, na ausência total de luz, apenas com a luz da lua, levantava-me, certificava-me de que a minha irmã no seu berço dormia tranquilamente, punha uma cadeira junto à janela que estava sempre aberta, protegida com uma armação de rede por causa dos mosquitos e sem fazer o menor ruído, tirava a rede que colocava em baixo, no chão, e saltava para o lado fora.

 

Então, na noite mágica, era só eu e eu. Sozinha, usava os sentidos com toda a atenção, para perceber de que lado vinha o batuque e depois era só seguir naquela direcção. Se o som se perdia era porque estava na direcção errada. E assim, ia chegando perto, cada vez mais perto, olhando para trás, para não perder de vista a direcção de casa, caso contrário, ficaria perdida no mato, sendo que esse era um dos riscos que não podia correr - perder-me -, de jeito nenhum, porque mais do que tudo, eu queria a minha casa e a minha família. E só de cuecas, por causa do calor, só tinha medo de uma coisa: as cobras. Morria de medo das cobras. E como sabia que o mato estava cheio delas, ia sempre aos saltinhos, pulando de pé em pé, para fugir delas e não terem tempo de me apanhar, achava eu.

 

Tudo isto acontecia enquanto a minha irmã, com menos de dois anos, dormia tranquilamente, para não falar dos meus pais, que estavam longe, longe, a milhas de pensar no que a sua primogénita, tão bem comportada e sobretudo, tão sensata, como a minha mãe sempre fazia questão de realçar, andava a fazer durante as noites em que não conseguia dormir. E na verdade eu era sensata porque tinha a exacta noção do que fazia, dos riscos que corria, mas também tinha a noção de que aquela era a minha verdadeira natureza e que algo invisível me protegia sempre, como se na verdade nunca estivesse completamente sozinha, protegida de tudo e mais alguma coisa. E só por isso eu não tinha medo, coisa que fui tendo cada vez mais, à medida que fui crescendo e foram acontecendo coisas que eu não entendia porque tinham que acontecer.

 

E sempre fugindo às cobras, lá ia eu atrás do batuque. À medida que o som aumentava, a minha excitação era maior, porque sabia que estava a chegar. Parava um pouco para reflectir se havia de avançar ou retomar o caminho de volta para casa, mas acabava sempre por continuar. O perigo era mais sedutor. À medida que me aproximava, primeiro de longe, sem ser avistada, escondida no capim ou no canavial, via o espectáculo todo. Os homens e as mulheres faziam uma roda, com faixas de grandes e bonitas penas à volta da cabeça. Uns dançavam, cantavam e outros tocavam nos tambores. Aquilo era bonito! Eu queria ver de perto, por isso ia-me aproximando devagarinho, para não os assustar e perceberem que eu era inofensiva. 

 

A princípio assustavam-se, porque aceleravam o batuque e especialmente as mulheres, entravam em histeria ou transe mais acelerado, em sinal de alerta. A minha estranha e enigmática presença, devia ser tão surpreendente para eles, como aquele espectáculo para mim. Só que, para mim, tinha sido uma escolha. Escolha minha. Para eles, não. Eles estavam a ser invadidos por algo insólito, que não tinham como compreender. Como, no meio da noite, uma criança branca, tão pequena, aparecia ali no mundo deles, vinda de onde, perdida… devia ser muito complicado para aquelas cabeças?! 

 

Naquela altura eu não tinha como saber. Só muito mais tarde soube que eles eram feiticeiros e, portanto, estavam em pleno ritual, por qualquer motivo que só eles sabiam. A minha presença ali, infalivelmente, interferia nas intenções deles, no destino deles e isso deveria ter uma interpretação transcendental qualquer. Com certeza a minha presença encaixava no ritual, do qual eles tiravam uma qualquer ilação.

 

E quando eu já estava muito próxima deles e percebia que não me iam fazer mal, porque se quisessem já o teriam feito, e em vez disso continuavam olhando para mim mas, de certa forma, ignorando-me, eu chegava a entrar no círculo, onde ficava, encantada, extasiada, por fazer parte daquela festa, que para mim era única e exclusiva. Ninguém mais sabia daquilo. E ficava, ficava, às vezes até me sentava um pouco nas pedras do terreiro, deliciada, observando todos os gestos, movimentos, batuques e até as suas expressões. Depois, quando o sono começava a chamar por mim, levantava-me e tomava o caminho de volta, com o coração um pouco apertado, não fosse perder-me no caminho. Quando, ao longe, avistava a casa, então, respirava aliviada. Estava a salvo.

 

No meio destas aventuras todas, nunca ninguém me fez mal, nunca ninguém me tocou ou me incomodou. Eu sentia-me em casa, em família. Hoje, penso que aqueles rituais, independentemente do motivo por que se realizavam, deviam estar ligados às fases lunares, quero dizer, deviam acontecer com determinadas fases da lua, não sei.

 

Depois, havia os crocodilos. As casas ficavam à beira da estrada nacional. Do outro lado da estrada, a caminho do quartel, na cidade de Bissau, havia o mercado e um pouco antes do mercado, havia um fosso que vinha lá do meio do canavial e como era um fosso, fazia um desnível no terreno. Como era tudo terra batida, com as chuvas, a parte de cima do fosso tinha uma abertura pequena, e lá em baixo havia crocodilos. Sempre que se juntava um grupo de criançada havia que fazer alguma coisa. Na melhor das hipóteses inventava-se e lá íamos nós para os crocodilos. Como a minha mãe confiava muito em mim, eu andava sempre com a minha irmã atrás e tal como as nativas, tinha uma faixa que amarrava à cintura, onde sentava a minha irmã e rodava para trás, colocando-a às minhas costas, com o pano amarrado à cintura, o que fazia com imensa facilidade e assim a carregava para todo o lado, apesar dos avisos da minha mãe, que achava que aquilo me fazia muito mal às costas. É claro que fiquei com uma escoliose e uma cifose, o que não foi por acaso. E lá ia com a criançada toda para os crocodilos.

 

Isto, só por si, não seria muito grave, não fora a questão do fosso estar aberto na superfície e nos pormos a espreitar lá para baixo, a chamar nomes aos crocodilos, como que a provocá-los. Mas pior do que isso é que a abertura do fosso dava para cair lá em baixo e eu, sempre com a tolice de gostar de correr riscos, tinha aí uma óptima oportunidade para sentir a adrenalina a subir até furar os tímpanos, porque mandava todos sentarem-se, do mesmo modo que sentava a minha irmã, muito bem sentadinha numa pedra, que sempre tinha o cuidado de arranjar, maneirinha, para ela ficar bem confortável, dizendo-lhe para não sair dali de jeito nenhum, no que ela me obedecia sem reclamação alguma e, afastando os outros miúdos, saltava sobre a abertura do fosso. A cada salto que dava, afastava-me o suficiente para ganhar velocidade necessária e abrir as pernas o mais possível, caso contrário, caía lá em baixo e os crocodilos faziam uma festa comigo. Eu sabia disso. Tinha plena consciência, mas o risco era uma tentação. De cada vez que saltava, havia um silêncio profundo e um medo quase aterrador, que se transformava numa verdadeira festa, logo que os dois pés atingiam o lado oposto e a miudagem batia palmas de contente e depois também queriam fazer. Mas aí eu não deixava. Eu confiava em mim, nos outros não e não me agradava ver nenhum deles cair lá em baixo e ser devorado pelos crocodilos, que estavam constantemente a levantar aquelas carcaças horrendas, abrindo a bocarra toda, com quantos dentes tinham, como que dizendo “que apetitosos que vocês são!” 

 

Depois, íamos ao canavial, cortávamos canas bem compridas, descíamos à parte mais baixa do fosso, a vala, e quando os crocodilos vinham na nossa direcção, de boca aberta, enfiámos as canas pelas goelas adentro e corríamos novamente para a parte de cima, onde estávamos relativamente em segurança, desde que não caíssemos lá em baixo. Quando nos fartávamos dos crocodilos regressávamos a casa esfalfados das brincadeiras que ninguém imaginava.

 

 

África foi um maravilhoso presente que a vida me deu. Depois de ter perdido a minha Índia, com três anos de idade e de ter sido trazida para Portugal, onde tudo me parecia estranho e feio, sem graça, onde as pessoas vivam com as portas trancadas e não havia liberdade nem espaço para as brincadeiras, África foi o melhor que a vida me podia ter dado naquela altura, o que me deixaria uma saudade imensa para toda a vida.


domingo, 14 de fevereiro de 2016

O ciganito - 25

O ciganito andava no supermercado saltitando de um lado para o outro enquanto a avó cigana, não fazia outra coisa senão repreendê-lo e chamá-lo à atenção por tudo o que fazia. 


O garoto devia ter uns quatro anitos e não obedecia em nada à avó, que já estava exausta e só se ouvia “nã faças isso(?), na faças aquilo(?), já te disse para na tirares más coisas(?), nunca más vens comigo(?), tu nã serás maluco!?” E tudo isto, naquela peculiar pronúncia cigana em que parece que estão sempre a perguntar, porque a acentuação recai na parte final da frase e seja lá o que for que estiverem a dizer é sempre igual, tornando-se uma cantilena monótona e cansativa. 


Por lá andei, entretida com as minhas compras, esbarrando com o ciganito que continuava a fugir e a judiar da avó que, por sua vez, não tinha mão nele e não conseguia controlá-lo de maneira nenhuma. Pulava por todo o lado, metia-se à frente das pessoas e não parava de tirar o que lhe apetecia, achando-se o dono de tudo o que estava à sua volta. 


Feitas as compras, dirigi-me às caixas, tentando perceber qual delas tinha menos gente e depois de me decidir, lá fiquei numa delas aguardando a minha vez na fila. Passado uns minutos, já eu me tinha esquecido do ciganito e sua avó, lá vêm eles para a caixa ao lado da minha. O garoto, que nunca deixou de estar irrequieto, continuava a estoirar a paciência da avó: “Na mexas nisso(?) Na tires más nada(?) Anda cá ao pé de mim(?) Na tás ouvindo!? 


Mas o puto não queria mesmo saber daquela conversa e continuava a fazer o que lhe dava na gana, o que fez durante todo o tempo que esteve no supermercado. Tirava um sumo, abria, começava a beber e largava em qualquer sítio, para pegar noutro ou noutra coisa qualquer. Chocolates e mais chocolates, bolachas… era tudo dele. Eu até estava arrepiada, porque pensei que nada daquilo iria parar à caixa. Mas aí, estava enganada. Surpreendentemente, a avó cigana, teve o cuidado de ir atrás do garoto e juntar tudo o que ele tirava. E ainda assim, pensei que era para deitar no lixo, mas não, foi mesmo para passar na caixa. Nem sempre somos justos nos nossos pensamentos. 


Já no final das compras, ainda chamou o neto para trazer os papéis de uns chocolatinhos que o garoto continuava a tirar dos expositores junto às caixas e naquela lenga-lenga cigana o chamou várias vezes, sem que ele respondesse à sua chamada, até porque quanto mais ela o chamava, mais ele fugia e quanto mais o repreendia, mais asneiras fazia. 


Mas, a certa altura, quando já tudo estava quase passado na caixa e como já não tinha como fugir - foi aí que dei por bem empregado o tempo que gastei naquela ida ao supermercado, porque por dentro, eu ria como há muito não me acontecia -, perante a máxima consternação de toda a assistência, incluindo eu, claro, debaixo dos olhares que se cruzaram enquanto baixavam, em sinal de insulto, insolência e tudo o mais que se possa imaginar, o garoto de quatro anitos, vem direito à avó, mas sem chegar perto, apenas inclinando-se na sua direcção, a mãozita esticada e o dedo indicador apontado para ela, grita: “vai pá tua cona… vai pá a tua c… vai pá tua c…” . Três vezes gritou alto e em bom som, sem deixar dúvidas para ninguém do que estava a dizer e de cada vez que o dizia até a alma doía! 


A indignação estava no ar, assumida com todos os seus direitos, deveres e até obrigações, por toda a gente ali presente, testemunhando ao vivo e a cores, as palavras obscenas e horrendas, vindas daquela criança de tão tenra idade. Uma coisa inadmissível, nunca “ouvista” até então. Doeu tanto, que parecia que todos se tinham encolhido um pouco, desejando sair daquela cena no mais breve espaço de tempo possível. E eu também(!)… 


Só a avó cigana ficou perfeitamente indiferente, pelo menos por fora. Não se aborreceu, não se incomodou, não deu alarme de espécie alguma, como se nada tivesse acontecido, no que provavelmente, estaria certa. Aquela linguagem para ela devia ser a usual. Portanto, porque haveria de espantar-se? Os incomodados que se mudassem… 


E parecia que tudo voltava ao normal, quando a avó cigana voltou a chamar o neto, André, mais uma, duas, três vezes e o neto, uma vez mais se aproximou dela, desta vez para lhe dizer novamente, alto e bom som, “cagona”, repetindo-o as vezes que lhe apeteceu e rematando com a língua de fora. E mais uma vez todos os olhares indignados se viraram e reviraram, enquanto eu já estava na fase do hilário e completamente desligada da indignação, tendo resolvido encarar aquele episódio numa desportiva, até porque a senhora cigana também, uma vez mais, não ligou a mínima importância ao assunto. 


Finalmente, já com tudo pago e o saco das compras na mão, a senhora cigana vira-se para o neto, talvez tentando salvar a situação, dizendo-lhe: “diz adeus à menina! (?)”, “diz adeus à menina! (?)”, uma jovem dos seus dezoito anos, toda bonitinha, muito bem arranjada e maquillada, com um ar todo certinho, que começava já a passar as compras do cliente seguinte. A miúda olha para o garoto e acena-lhe com a mão, enquanto a cigana continuava a dizer “diz adeus à menina, André! (?)”... 


Eu estava louca da vida para ver o desfecho daquela cegada, pensando, será desta que a cigana salva a situação? E lá foi o ciganito a correr novamente, para chegar ao pé da menina, com um sorriso todo bonitinho e simpática, a que o ciganito, fiel à sua linguagem e deixando a avó surpreendidíssima, como se fosse a primeira vez que o neto tivesse dito uma asneira, aos saltos e aos pulos, o garoto respondeu alto e bom som:

 

- Mijona(?)!... Mijona(?)!... Mijooona!

 

O garoto devia ter uns quatro anitos e não obedecia em nada à avó, que já estava exausta e só se ouvia “nã faças isso(!), na faças aquilo(!), já te disse para na tirares más coisas(!), nunca más vens comigo(!), tu nã serás maluco?” E tudo isto naquela peculiar pronúncia cigana em que parece que estão sempre a perguntar, porque a acentuação recai na parte final da frase e seja lá o que for que estiverem a dizer é sempre igual, tornando-se uma cantilena monótona e cansativa.

 

Por lá andei entretida com as minhas compras, esbarrando com o ciganito que continuava a fugir e a judiar da avó que, por sua vez não tinha mão nele e não conseguia controlá-lo de maneira nenhuma. Pulava por todo o lado, metia-se à frente das pessoas e não parava de tirar o que lhe apetecia, achando-se o dono de tudo o que estava à sua volta.

 

Feitas as compras, dirigi-me às caixas, tentando perceber qual delas tinha menos gente e depois de me decidir, lá fiquei numa delas aguardando a minha vez na fila. Passado uns minutos, já eu me tinha esquecido do ciganito e sua avó, lá vêm eles para a caixa ao lado da minha. O garoto que, nunca deixou de estar irrequieto, continuava a estoirar a paciência da avó: “Na mexas nisso(?) Na tires más nada(?) Anda cá ao pé de mim(?) Na tás ouvindo?

 

Mas o puto não queria mesmo saber daquela conversa e continuava a fazer o que lhe dava na gana, o que fez durante todo o tempo que esteve no supermercado. Tirava um sumo, abria, começava a beber e largava em qualquer sítio, para pegar noutro ou noutra coisa qualquer. Chocolates e mais chocolates, bolachas, era tudo dele. Eu até estava arrepiada, porque pensei que nada daquilo iria parar à caixa, mas aí eu estava enganada. Surpreendentemente, a avó cigana teve o cuidado de ir atrás do garoto e juntar tudo o que ele tirava. E ainda assim, pensei que era para deitar no lixo, mas não, foi mesmo para passar na caixa. Nem sempre somos justos nos nossos pensamentos.

 

Já no final das compras, ainda chamou o neto para trazer os papéis de uns chocolatinhos que o garoto continuava a tirar dos expositores junto às caixas e naquela lenga-lenga cigana o chamou várias vezes sem que ele respondesse à sua chamada, até porque quanto mais ela o chamava, mais ele fugia e quanto mais o repreendia, mais asneiras fazia.

 

Mas, a certa altura, quando já tudo estava quase passado na caixa e como já não tinha como fugir - foi aí que dei por bem empregado o tempo que gastei naquela ida ao supermercado porque, por dentro, eu ria como há muito não me acontecia -, perante a máxima consternação de toda a assistência, incluindo eu, claro, debaixo dos olhares que se cruzaram enquanto baixavam, em sinal de insulto, insolência e tudo o mais que se possa imaginar, o garoto de quatro anitos, vem direito à avó, mas sem chegar perto, apenas inclinando-se na sua direcção, a mãozita esticada e o dedo indicador apontado para ela, grita “vai pá tua cona”… vai pá a tua c… vai pá tua c… , três vezes gritou alto e em bom som, sem deixar dúvidas para ninguém do que estava a dizer e de cada vez que o dizia até a alma doía.

 

A indignação estava no ar, assumida com todos os seus direitos, deveres e até obrigações, por toda a gente ali presente, testemunhando ao vivo e a cores as palavras obscenas e horrendas, vindas daquela criança de tão tenra idade. Uma coisa inadmissível, nunca “ouvista” até então. Doeu tanto, que parecia que todos se tinham encolhido um pouco, desejando sair daquela cena no mais breve espaço de tempo possível. E eu também(!)…

 

Só a avó cigana ficou perfeitamente indiferente, pelo menos por fora. Não se aborreceu, não se incomodou, não deu alarme de espécie alguma, como se nada tivesse acontecido, no que provavelmente, estaria certa. Aquela linguagem para ela devia ser a usual. Portanto, porque haveria de espantar-se? Os incomodados que se mudassem…

 

E parecia que tudo voltava ao normal, quando a avó cigana voltou a chamar o neto, André, mais uma, duas, três vezes e o neto, uma vez mais se aproximou dela, desta vez para lhe dizer novamente, alto e bom som, “cagona”, repetindo-o as vezes que lhe apeteceu e rematando com a língua de fora. E mais uma vez todos os olhares indignados se viraram e reviraram enquanto eu já estava na fase do hilário e completamente desligada da indignação, tendo resolvido encarar aquele episódio numa desportiva, até porque a senhora cigana também, uma vez mais, não ligou a mínima importância ao assunto.

 

Finalmente, já com tudo pago e o saco das compras na mão, a senhora cigana vira-se para o neto, talvez tentando salvar a situação, dizendo-lhe: “diz adeus à menina(?)”, “diz adeus à menina(?)”, uma jovem dos seus dezoito anos, toda bonitinha, muito bem arranjada e maquillada, com um ar todo certinho, que começava já a passar as compras do cliente seguinte. A miúda olha para o garoto e acena-lhe com a mão, enquanto a cigana continuava a dizer “diz adeus à menina, André(?)”...

 

Eu estava louca da vida para ver o desfecho daquela cegada, pensando, será desta que a cigana salva a situação? E lá foi o ciganito a correr novamente, para chegar ao pé da menina, com um sorriso todo bonitinho e simpática, a que o ciganito, fiel à sua linguagem e deixando a avó surpreendidíssima, como se fosse a primeira vez que o neto tivesse dito uma asneira, aos saltos e aos pulos, o garoto respondeu alto e bom som:

 

- Mijona(?)!... Mijona(?)!... Mijooona!



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Quequto - 24


Quequto era aquele garoto irrequieto e indisciplinado, que estava sempre a levar broncas por causa do seu mau feitio e outras coisas mais. Mas o que poucos sabiam é que ele era também sensível e cheio de ideais que, talvez não parecesse, mas em relação aos quais corria atrás. Eu sabia, porque duas vezes por semana tinha que levar com ele e tinha que ter tanta paciência com ele, como ele comigo. 

Durante muito tempo teve um disco que era sempre o mesmo: "vou ser como o Ronaldo! Vou ser igual a ele!" Cansei de ouvir esta ladainha vezes sem conta. Por tudo e por nada, ou seja, porque se sentia diminuído e inferiorizado, muito provavelmente, umas vezes com razão, outras nem tanto, sei lá. Oito anos apenas… nem sempre é fácil. Até porque uns têm tudo e outros não têm nada.

O facto, é que eu já não podia ouvir aquela cena do vou ser igual ao Ronaldo. Até a uma simples pergunta que lhe fazia, antes de responder directamente à questão, primeiro saía aquele disco. Logo, aquela afirmação era pertinente. Se não sou bom naquilo que os outros querem que eu seja, vou já avisando que serei um “clone” do Ronaldo.

Então, um dia, comecei a pensar na forma de alterar aquela distorção de personalidade. Porque para mim, aquilo não soava nada bem. Querer ser igual a alguém é mau, porque implica uma anulação do eu. Eu quero ser o outro. E ninguém é o outro. Cada um só é igual a si mesmo. Para isso tem que se encontrar.

E o Quequto, um menino das Áfricas, de família humilde, carenciada, etc..., não fugia à regra. E não era por ter apenas oito anos que não era relevante. Enfim, a minha cabeça começou a ponderar naquele assunto e a passar a mensagem para o sítio certo: o coração. 

Um dia, enquanto estávamos no apoio, a trabalhar com as crianças, mais uma vez apanho o Quequto com o disco do costume, sempre acompanhado de uma falsa superioridade, pelo facto de querer ser igual ao outro. E não esperei mais. Pus as mãos nos ombros dele, abanando-o ligeiramente, mas com muita firmeza enfrentei-o olhos nos olhos e depois de um curto silêncio em que o trouxe inteiro a mim, fazendo-o focar toda a atenção nas palavras que ele ia ouvir, não sem algum receio e inquietação, pois acho que pensou que seria mais uma bronca, disse-lhe simplesmente: “ouve o que te vou dizer. Ouve bem, com muita atenção e nunca, mas nunca te esqueças disto - e a ansiedade dele crescia, mas aguentou-se sem me interromper -, tu não vais ser igual ao Ronaldo, ouviste? - E o olhar dele estava fixo e imóvel, sem saber se ficava de rastos ou se explodia, como era seu costume com tudo - Tu não vais ser igual ao Ronaldo, nunca. Sabes porquê? - E os olhos dele enchiam-se de brilho e ficavam ainda maiores - Porque tu vais ser muito melhor do que ele. Mas muito, muito melhor. Por isso, nunca mais te quero ouvir dizer que vais ser igual a ele. Quando fores um jogador profissional, nunca mais ninguém vai falar do Ronaldo, porque tu vais ser muito melhor do que ele”.

Baixou a guarda e continuou a olhar para mim, como se estivesse anestesiado. Jamais pensou que poderia ouvir de alguém semelhante coisa. Tenho a certeza de que, por momentos, ele experimentou a sensação do sonho impossível, que na realidade não é impossível. O facto é que ficou curado e nunca mais, nunca mais voltou a falar do Ronaldo. 

Em contrapartida, começou a ganhar cada vez mais confiança em si mesmo, no que se referia ao aprendizado, que era o pretendido.

Eu acredito que o Quequto um dia poderá vir a ser melhor do que o Ronaldo. Quem diz ele, diz outro qualquer. 

Porque não?!

 

sábado, 28 de novembro de 2015

Sofia - 23


Sofia era uma jovem mimada e às vezes, chata até dizer "chega". Passava a vida a ligar-me para saber se estava em casa, vir a correr ter comigo e ficar, ficar até já não a poder ver nem ouvir. E se não estivesse em casa, havia de arranjar maneira de se encontrar comigo onde quer que fosse. Precisava sempre muito de falar comigo. Era sempre tudo muito importante e só podia ser comigo. Era eu que sabia sempre o que ela havia de fazer e falava comigo sobre todas as coisas da vida dela. Concordava sempre comigo, mas depois… depois, acabava sempre por fazer completamente o contrário e tudo dava sempre errado. Era fatal como o destino.

 

Imensamente desordenada, sem método algum. Era difícil compreender como conseguia segurar o emprego, uma multinacional onde trabalhava há vários anos como gerente e onde era supereficiente. Isso é que me intrigava, porque fora desse contexto, Sofia, com trinta e três anos, que podia ser minha filha, era uma completa desnorteada. 


Mas era linda! Linda de morrer, a danada. Tinha sempre um ar de modelo, capa de revista. Era demais. Adorava ser fotografada porque era muito fotogénica e algumas vezes fomos para sítios especialmente bonitos para a fotografar, o que na verdade era fácil. Era fácil captar o que de melhor tinha: o sorriso, a simpatia, a sedução, a figura bonita e o ar transcendental e ao mesmo tempo enigmático com que posava, tudo junto, traduzia-se num excelente resultado em termos fotográficos.  

 

Era muito simpática. Um doce!… Mas uma chata, também. Às vezes muito lamechas, parecia uma gata a pedir carinho, mimo e eu não tinha muita paciência para essa parte. O problema é que ela tinha uma relação péssima com a mãe e para lá de boa com o pai o que, em minha opinião, segundo o que ela me contava, enciumava um pouco a mãe. E a minha missão foi precisamente essa. Restabelecer a ligação dela com a mãe, que tinha ficado perdida algures no tempo. 

 

Quando ela corria para mim, para me colocar alguma questão, pedindo-me ajuda para qualquer situação, porque estava sempre em apuros, se eu não lhe dava razão, depois de me ouvir, respondia, rindo: “pareces mesmo a minha mãe”. Mas quando eu achava que ela estava certa e ficava do lado dela, dizia: “tu entendes-me… porque é que a minha mãe não consegue ver as coisas como tu?”

 

Mas eu gostava muito dela, embora, na maior parte do tempo, a achasse uma chata muito grande, porque me cansava demais, não me dando descanso e estava sempre a esquecer-se de que eu não tinha a idade dela.  O namorado, com quem viveu sete anos, um dia cansou-se e deixou-a. Ficou mal, não aceitou a situação e decididamente fui eu que levei com a crise em cima. Não dava um passo que não fosse comigo, fosse para onde fosse. Não me dava trégua. Quando eu pensava que ia ter um tempinho para mim, lá vinha ela com qualquer invenção, invadindo a minha vida e a minha privacidade, como um verdadeiro furacão. Tudo fazia para passar o menor tempo possível em casa, sozinha, porque dizia que sentia um enorme vazio pela falta dele. 

 

Então, um dia, sugeri-lhe que fizesse algumas mudanças em casa. Mudando o cenário, talvez fosse mais fácil desligar-se da presença dele. Compreendeu o meu ponto de vista e aceitou, mas com a condição de ser eu a fazer isso, porque ela não sabia que volta dar à questão. Pronto, como é que eu não tinha pensado nesse pormenor?! Mas também, se andávamos sempre juntas para todo o lado: praias, cinemas, restaurantes e outras coisas mais, é claro que tinha que sobrar para mim. 

 

Era verão, um calor desgraçado! Entrámos pela garagem para estacionar o carro e subimos no elevador até ao quarto andar. Na entrada da porta, do lado de fora, estava uma coisa parecida com um sol, em metal. Perguntei-lhe para que era aquilo, respondeu que para dar sorte. Para dar sorte? Só me faltava esta! Mas já me esquecia dessa faceta da Sofia. Ela era ou tinha a mania que era esotérica, toda metida a espiritualista. Frequentava e fazia cursos e workshops de tudo o que se possa imaginar, onde gastava uma porrada de massa, mas não faltava a nada dessas coisas. Astrologia, reickys, massagens, palestras, enfim, era um rol das mais variadas fantasias, que nunca mais acabava. Ah… vegetariana, que ela fazia questão de dizer a toda a gente, com um ar de quem era única, uma “ávis” rara. Dizia “eu sou vegetariana” com um certo ar de superioridade, como se realmente fosse única no planeta. Só não dizia que comia salmão, marisco e o que lhe apetecia, porque gostava. Assim como, também, as coisas naturais eram todas muito boas, mas fumava e disso não abdicava, o que não dava com nada. E sobre todos os cursos que fazia, nada do que aprendia era para pôr em prática. Mas tinha feito o curso. Aliás, mais um para a colecção ou para o curriculum da Sofia.

 

E lá estava o sol para dar sorte. Tudo bem, se ela acreditava naquilo, fazer o quê? Cada um acredita no que quer. Abriu a porta, entrei e logo tropecei num tapete que, por pouco, não me fez cair. Mas isso não interessava, o que interessava era o tapete que eu tinha maltratado e que era muito especial. Cuidado com o tapete(!), dizia ela. Perguntei porquê, porque tinha um desenho duma treta qualquer que era sagrado. Fiquei feita parva a olhar para ela, enquanto ria, meia tola, com ar feliz das suas coisas especiais. Olhei uma vez mais para o tapete tão especial, que para mim era um trapilho, nada mais, que nem o desenho se percebia e que atrapalhava grandemente a entrada em casa. OK, era a casa dela. Por mim, saía já dali. 


A seguir, entrámos na cozinha. Uma bela janela carregada de vasos e vasinhos de plantas aromáticas, todas a morrer, porque ela não cuidava delas. E, à parte isso, era uma cozinha normal, desarrumada e muito mal organizada, do meu ponto de vista. Mas era a cozinha dela.

 

Entrámos na sala e era tanta coisa a chamar a minha atenção que eu não sabia para onde olhar primeiro. Um festival de budas e deusas, espanta espíritos, luas e sóis, velas e cacarecos que nunca mais acabava. Aquilo parecia uma loja esotérica. Incenso por todo o lado e um monte de coisas que não serviam para nada. Mas era a sala dela!...

 

No meio da sala tinha um sofá com chaise longue, virado para a parede, como se na frente tivesse uma tv. Acontece que a tv não estava lá. Estava num canto, que mal se dava por ela. No centro da parede, bem em frente ao sofá, tinha uma tela enorme, um borrão em azul e branco. Perguntei-lhe o que era aquilo, respondeu que um quadro que lhe dava muita tranquilidade. Mas aquilo é horrível(!), disse-lhe eu. Olhou para lá e riu, aquele riso simpático, mas de tonta, que nem tem argumentação possível. “Oh, mas gosto dele”, respondeu com um ar lânguido, como se fosse uma deusa ou uma ninfa. “Dá-me paz e tranquilidade…”. “Pois... por isso é que não queres estar em casa, por conta dessa paz e dessa tranquilidade”, respondi-lhe. Continuou a rir e agarrou-se ao meu pescoço, beijando-me no rosto, como tinha o hábito de fazer, o que muito me irritava. É que, em casa, enfim, mas na rua, num centro comercial, num lugar público, aquilo parecia uma exibição de lésbicas e eu afastava-a logo, o que muito a chateava. Mas eu queria lá saber! O que eu não queria era parecer o que não era… enfim.

 

Bom, dei uma olhadela em volta e percebi imediatamente o que podia mudar para alterar o panorama. As coisas não eram feias, eram giras, o problema é que era muita tralha. Um exagero! Mas com a Sofia era assim mesmo. Passei a mão na mesa e tinha uma camada de pó que parecia inacreditável. Depois olhei para uma estante e também estava carregada de pó, que devia pesar mais do que os livros que lá estavam. Perguntei-lhe há quanto tempo não limpava a casa e sempre rindo, desculpou-se, dizendo que não tinha tempo para isso. Eu nem queria acreditar no que ouvia. Chateei-a, dizendo-lhe que aquilo era inadmissível e que em nada correspondia à imagem que ela queria passar aos outros de “pura”, “intocável”, que era tudo falso. “Oh, não sejas assim”, respondeu, rindo. Olhei para o tecto e vejo uma enorme teia de aranha num canto, tão grande que me deu medo. Pedi-lhe uma vassoura e foi buscá-la. Quando percebeu que era para matar a aranha, empurrou-me e tirou-me a vassoura da mão para não matar a “pobre da aranha”. Coitada da aranha! Sofia, a vegetariana, não podia matar os animais, nem danificar a natureza, mas deixou o gato fechado em casa, naquele calor sufocante de um verão tórrido, que quase matou o pobre animal, que teve de ser reanimado, porque não podia respirar e as plantas, as suas belas plantas, nem água viam, estavam todas a morrer de sede. “Ah, não tenho estado em casa” … boa. Muito boa.

 

 

No corredor, a cena era a mesma. Pó, só pó e sujidade por todo o lado. Aí, chateei-me a sério e disse-lhe que ela não precisava de casa para viver. Para viver assim, podia ir para a rua, não precisava de casa nenhuma. Mas ela só ria e quanto mais eu ralhava mais ela ria. Mas o melhor estava para chegar. Tinha uma bela varandinha que ligava dois quartos e fui ver. Olhei para o chão e vi um carreiro de formigas como nunca tinha visto. Aquilo não era um carreiro, era um verdadeiro exército e tranquilamente, lá iam elas. Vi o percurso e percebi que era por conta de um pequeno pires, que estava num extremo da varanda. Então, ingenuamente, retirei o pires, a fim de libertar a varanda daquela praga. Lá vem a Sofia a correr “deixa estar, deixa estar…” não entendi logo, mas entendi depois, quando ela se apressou a trazer um frasco de mel, que verteu sobre o pires, onde acrescentou um pouco ao que já havia. Era para alimentar as formiguinhas e não morrerem de fome (!?)…