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sexta-feira, 8 de maio de 2026

A chave - 85

 

Há coisas difíceis de entender e muito menos de aceitar. Coisas e pessoas. É o caso. O ser humano é dotado, entre outras coisas, de inteligência. Uns mais, outros menos… mas, mais ou menos, todos somos inteligentes. Os animais são inteligentes. As plantas são inteligentes. A natureza é inteligente. Por toda a infinidade universal abunda a inteligência. É por isso que há coisas que não tenho como entender.

“Confundiste a esferográfica com uma chave (!)”, dizia ela. What!?... Fiquei literalmente sem conseguir entender tamanha parvoíce, tamanho disparate… claro que ninguém vai confundir uma esferográfica com uma chave! Uma chave é uma chave e uma esferográfica é uma esferográfica!?

Realmente a chave não estava em linha de vista com ela, porque a secretária estava parcialmente tapada com um monte de papéis que estavam do lado dela. Contudo, se fosse uma criança, acredito que não teria reagido assim, de jeito nenhum. Ter-se-ia levantado para procurar a chave que não estava a ver. Eu acho!?

Ela podia e deveria ter deduzido isso. Se eu tinha falado em chave e ela só via uma esferográfica, tanto mais que não conseguia ver a cem por cento o tampo da secretária, algo estaria fora da sua linha de vista. Isto seria o normal, o razoável.

Logo ela, que se ofereceu para ir comigo ao stand, no caso de eu ter alguma dúvida e ela poder ajudar, no que seria uma mais valia!? Primeiro, eu não precisava de ajuda porque sabia muito bem o que queria e se dúvidas houvesse o Alexandre estava lá para isso, para atender as pessoas o melhor que podia, o que fazia na perfeição. Como me arrependia de lhe ter dito que sim quando ela me perguntou se podia ir comigo!

Mas como era possível ser tão idiota ao ponto de achar que é possível alguém fazer uma confusão daquelas!? E pior, acreditar nisso! Porque ela, sim, acreditou que a esferográfica podia ser confundida e logo por uma chave! É preciso não ter mesmo dois dedos de cabeça. Aquilo não lhe pareceu ser uma coisa absurda? Não, não é possível!

E quando, em resposta à minha pergunta, se a chave era igual àquela, a que estava em cima da secretária e que ela não viu, o Alexandre lse levantou para me mostrar a chave do carro, ela não achou o comportamento dele demasiado normal, completamente em desacordo com o dela… isso não lhe deu nenhum sinal de que ela, sim, estava redondamente enganada consigo mesma?!

Mas não, continuou a desdenhar e a ridicularizar aquilo que achou ser o meu comportamento, por mais estúpido que ele fosse. Ela tinha imensos problemas de relacionamento com toda a gente em geral, a começar pela própria família. Todos estavam sempre enganados, porque ela nunca assumia os seus erros. Eram sempre, sempre os outros.

Claro, aí estava a explicação. A loucura dela em achar que era possível uma confusão daquelas, só por isso bastava para compreender porque razão isso acontecia. A toda poderosa estava sempre certa. Já os outros, sempre errados, que no caso, era eu. Como lidar com uma pessoa assim!?

Quando aquilo acabou e saímos dali, e finalmente tive um acerto de contas com ela, explicando-lhe que ela não tinha visto a chave porque estava tapada com coisas na sua frente, logo se armou em vítima, a coitada não tinha culpa de nada, pois não tinha visto a chave, a única coisa que via era apenas e somente a esferográfica. De acordo com a conclusão dela mesma, a vítima era ela, só ela e eu tinha que entender isso. Eu era muito injusta se não entendesse isso. Imagine-se uma coisa destas!? Quem pode aguentar?

Uma mulher de sessenta e poucos anos que toda a vida tinha sido hospedeira do ar – também, para ser hospedeira do ar não é preciso ser uma inteligência especial -, mãe de família, avó, etc., mas sempre pendurada em mim porque se sentia muito sozinha. Agora dava para entender:

“Confundiste a esferográfica com uma chave!?” – Boa!

 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Albertina - 84

 

A aula de História da Religião era muito interessante. A sala estava sempre completamente cheia. O professor, que dava aulas no ISCE, era apenas um dos que se desdobravam para também dar aulas na Universidade Sénior de Odivelas, uma vez que o espaço era o mesmo.

Todas as aulas eram interessantes para os seniores, mas aquelas eram mesmo especiais. A matéria só por si não teria o interesse que tinha se fosse outra pessoa a dar. É que aquele não tinha “papas na língua” e chamava tudo pelos nomes. Ouvi-lo falar era um verdadeiro desafio para aquelas cabeças, provavelmente à espera do trivial, do b e a ba, etc... mas não era isso que o professor nos falava.

História da Religião dada por aquele homem era um verdadeiro tesouro. Muitas novidades para os seniores que, formatados por toda uma vida, de acordo com padrões completamente fora da realidade e por tabus irrealistas ouviam, muito provavelmente pela primeiríssima vez, alguém que os desafiava a ver um outro ângulo da essência das coisas, da vida, desmistificando as lendas e tudo o mais por aí fora.

Era um virar de página tão deslumbrante como fascinante. Era interessante ver a reacção das pessoas, as suas caras de indignação e de espanto, perante a descoberta dos erros de uma vida inteira. E enquanto os outros ficavam de boca aberta, achando que aquele homem era um louco, um doido varrido, eu mostrava uma total atenção ao que ele dizia, perfeitamente compatível com o meu conhecimento e talvez espantada sim, mas não pelas mesmas razões dos outros. Enquanto os outros mostravam estranheza com as coisas que saíam da boca dele, pensando com toda a certeza como se atrevia a dizer aqueles disparates, eu pensava que aquele homem era verdadeiramente corajoso, partilhando todo o seu conhecimento connosco, sem nos poupar à verdade maior, em vez de ser apenas mais um a contar histórias que nenhuma coerência tinham.

Era uma dádiva e tanto, poder contar com aquilo. Nunca pensei que aos sessenta anos de idade, encontrasse alguém que falava a mesma linguagem que eu e não tivesse o mais pequeno pudor em expor-se. Ele era uma figurinha que passava completamente despercebida, de muito baixa estatura e magrinho, mal se dava por ele. Contudo, o que saía da sua boca era grande demais. Espantoso! Nem vou entrar em pormenores, mas posso abreviar o assunto dizendo que ali tudo contava: a vida na terra, fora da terra (extraterrestres) e a vida espiritual, mediunidade, reencarnação, etc.

Estávamos em aula, a sala completamente cheia, secretárias em grupos de quatro à direita e à esquerda com uma passagem pelo meio. O professor falava no topo, junto ao quadro, mas às vezes avançava, entrando pelo meio das secretárias, para trás e para a frente. Albertina estava sentada do meu lado esquerdo. Ela era um pouco “posso, quero e mando”, só que ali era a universidade sénior, não era a casa dela ou o que ela achava que podia ser. No meio da aula, ou seja, no meio do discurso do professor, ouviu-se um telemóvel tocar. As pessoas deviam tirar o som, mas às vezes esqueciam-se ou então não queriam mesmo. Ninguém se mexeu, todos continuaram direccionados no que o professor estava a falar. O telemóvel continuava a tocar e nada. Albertina vira-se para mim e em voz alta faz questão de ignorar o discurso do professor para me advertir na sua voz de comando: agora também já é demais!

Entendi, mas ignorei, fazendo de conta que não a entendia. Não posso dizer que não me senti acusada e um tanto humilhada em praça pública. Mas logo virei o jogo, porque percebi exactamente o que estava a acontecer, contrariamente aos outros, que provavelmente não entenderam ou então entenderam errado. Mas às vezes também sou mazinha e dá-me gozo ver até que ponto vão as coisas. Foi o que fiz. Albertina tinha acabado de me dar um raspanete, por causa de um telemóvel a tocar. Fiquei na minha, continuando centrada no que o professor dizia, o que para mim era muito mais interessante. “Os incomodados que se mudassem…”, não era bem o caso, mas para lá caminhava.

Perante o comentário proferido em tom autoritário e crítico de Albertina, na sua característica pronúncia lá de xima “agora também já é demais”, e como tudo continuasse na mesma e o telemóvel a tocar, indiferente a tudo porque ninguém se acusava e independentemente do sítio de onde vinha o som, a sala ficou em silêncio… silêncio absoluto… os narizes no ar e os olhares a começarem a ficar estranhos, inquisidores, naturalmente. Eu tranquila e calma como convinha, porque não estava para me chatear. Já conhecia muito bem a peça, além de que estava plenamente consciente do que se estava a passar. Albertina tinha-se proposto pôr-me em xeque!? Dar-lhe troco para quê e meter-me num assunto que não me interessava absolutamente nada?! Nada!

Passaram-se alguns segundos e de repente... Albertina mete a mão na mala, saca do telemóvel, levanta-se e com um ar perfeitamente doutoral, com o indicador levantado, no meio do silêncio total e enquanto vai em direcção à porta da sala, diz: “ai(!)… isto tem uma justificaxão… é que eu ontem alterei o xom de toque do telemóvel!?...