A aula de História da Religião
era muito interessante. A sala estava completamente cheia. O professor, que
dava aulas no ISCE, era apenas um dos que se desdobravam para também dar aulas
na Universidade Sénior de Odivelas, uma vez que o espaço era o mesmo.
Todas as aulas eram interessantes
para os seniores, mas aquelas eram mesmo especiais. A matéria só por si não
teria o interesse que tinha se fosse outra pessoa a dar. É que aquele não tinha
“papas na língua” e chamava tudo pelos nomes. Ouvi-lo falar era um verdadeiro
desafio para aquelas cabeças, provavelmente à espera do trivial, do b e a ba,
etc., mas não era isso que o professor nos falava.
História da Religião dada por
aquele homem era um tesouro. Muitas novidades para os seniores que, formatados
por toda uma vida, de acordo com padrões completamente fora da realidade e por tabus
irrealistas, ouviam muito provavelmente pela primeiríssima vez, alguém que os
desafiava a ver um outro ângulo da essência das coisas, da vida, transformando
as lendas e tudo o mais por aí fora.
Era um virar de página tão
deslumbrante como fascinante. Era interessante ver a reacção das pessoas, as
suas caras de indignação e de espanto, perante a descoberta dos erros de uma
vida inteira. E enquanto os outros ficavam de boca aberta, achando que aquele
homem era um louco, um doido varrido, eu mostrava uma total atenção ao que ele
dizia, perfeitamente compatível com o meu conhecimento e talvez espantada sim,
mas não pelas mesmas razões dos outros. Enquanto os outros mostravam estranheza
com as coisas que saíam da boca dele, pensando com toda a certeza como se
atrevia a dizer aqueles disparates, eu pensava que aquele homem era
verdadeiramente corajoso, partilhando todo o seu conhecimento connosco, sem nos
poupar à verdade maior, em vez de ser apenas mais um a contar histórias que nenhuma
coerência tinham.
Era uma dádiva e tanto, poder
contar com aquilo. Nunca esperei que aos sessenta anos de idade, encontrasse alguém
que falava a mesma linguagem que eu e não tivesse o mais pequeno pudor em
expor-se. Ele era uma figurinha que passava completamente despercebida, de
muito baixa estatura e magrinho, mal se dava por ele. Contudo, o que saía da
sua boca era grande demais. Espantoso! Nem vou entrar em pormenores, mas posso
abreviar o assunto dizendo que ali tudo contava: a vida na terra, fora da terra
(extraterrestres) e a vida espiritual, mediunidade, reencarnação, etc.
Estávamos em aula, a sala
completamente cheia, secretárias em grupos de quatro à direita e à esquerda com
uma passagem pelo meio. O professor falava no topo, junto ao quadro, mas às
vezes avançava, entrando pelo meio das secretárias, para trás e para a frente.
Albertina estava sentada do meu lado esquerdo. Ela era um pouco “posso, quero e
mando”, só que ali era a universidade sénior, não era a casa dela ou que ela
achava que podia ser. No meio da aula, ou seja, no meio do discurso do
professor, ouviu-se um telemóvel tocar. As pessoas deviam tirar o som, mas às
vezes esqueciam-se ou então não queriam mesmo. Ninguém se mexeu, todos
continuaram direccionados no que o professor estava a falar. O telemóvel
continuava a tocar e nada. Albertina vira-se para mim e em voz alta faz questão
de ignorar o discurso do professor para me advertir na sua voz de comando:
agora também já é demais!
Não posso dizer que não me senti
acusada e um tanto humilhada em praça pública. Mas logo virei o jogo. Entendi,
mas ignorei, fazendo de conta que não a entendia. Claro que eu percebi
exactamente o que estava a acontecer, mas às vezes também sou mazinha e dá-me
gozo ver até que ponto vão as coisas. Foi o que fiz. Albertina tinha acabado de
me dar um raspanete, por causa de um telemóvel a tocar. Fiquei na minha,
continuando centrada no que o professor dizia, o que para mim era muito mais
interessante. “Os incomodados que se mudassem…”, não era bem o caso, mas para
lá caminhava.
Perante o comentário proferido em
tom autoritário e crítico de Albertina, na sua característica pronúncia lá de
xima “agora também já é demais”, e como tudo continuasse na mesma e o telemóvel
a tocar, indiferente a tudo porque ninguém se acusava, independentemente do
sítio de onde vinha o som, a sala ficou em silêncio… silêncio absoluto… os
narizes no ar e os olhares a começarem a ficar estranhos, inquisidores,
naturalmente. Eu tranquila e calma como convinha, porque não estava para me
chatear. Já conhecia muito bem a peça, além de que estava plenamente consciente
do que se estava a passar. Albertina tinha-se proposto pôr-me em xeque!? Dar-lhe
troco para quê e meter-me num assunto que não me interessava absolutamente nada?!
Nada!
Passaram-se alguns segundos e de
repente, Albertina mete a mão na mala, com o telemóvel na mão levanta-se e com
um ar perfeitamente doutoral, com o indicador levantado, no meio do silêncio
total e enquanto vai em direcção à porta da sala diz: “ai(!)… isto tem uma
justificaxão… é que eu ontem alterei o xom de toque do telemóvel!?...