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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

O Carlos - 59

 

O Carlos tinha dezanove anos, era quase uma criança, mas um grandalhão que parecia ter uns quarenta. Alto, excepcionalmente bem constituído, um vozeirão que chegava a impressionar, uma figura que era mais um figurão. 

Tinham-me dito que viria uma pessoa para me ajudar. Não dei importância ao assunto. Contra tudo e todos eu sempre conseguia dar conta do recado e ter tudo sob controlo. Podia ir para casa de rastos, cansada, exausta, deitar-me a pensar no planeamento de trabalho para o dia seguinte, mas o facto é que não sabia ser de outra maneira. Eles sabiam e tinham bastante consciência disso, por isso mesmo providenciaram a contratação de uma pessoa temporária, até ver. E um dia alguém entrou na sala acompanhado do Carlos, que eu não conhecia, nem fazia ideia de onde tinha saído aquela ávis rara. 

Entraram os dois e parei o meu trabalho. Fiquei a olhar para ambos e foram feitas as devidas apresentações. O Carlos ia ficar sentado à minha frente, no outro lado da sala, junto à janela. E seríamos só os dois. Isto era nas antigas instalações nos Estúdios do Lumiar. Uma sala pequena, interior, feita de divisórias de vidro, contígua à dos legendadores. Umas instalações improvisadas, como improvisado era quase tudo ali. 

O Carlos era tudo aquilo que já descrevi e muito mais. Tinha um porte invejável e um ar sério. Mas o ar sério era só fachada, porque em boa verdade era o maior gozão que se possa imaginar. Era moreno, de cabelo escuro e olhos azuis. Já o tinham industriado e dado umas noções básicas do trabalho que ia fazer, mas teria que se apoiar em mim, pelo que, pouco a pouco fazia perguntas, contudo, era esperto e inteligente dado que, em pouco tempo estava perfeitamente à vontade no que fazia. 

A vida dele não tinha sido muito fácil, por isso estava ali, tão novo e com os estudos incompletos. A mãe tinha morrido muito nova e ele já tinha tido várias madrastas, bastante mais novas do que o pai, com as quais sempre se dava mal. O pai tinha a vida dele e volta e meia discutiam e desentendiam-se e o Carlos queria a sua independência o mais depressa possível. O que lhe pagavam ali não era mau, mas ele queria muito mais. Era ambicioso e caminhava rápido, porque queria tudo de uma só vez. 

Quando chegou era modesto, certinho, calmo, educado e polido, mas rapidamente se começou a transformar. O trabalho não oferecia resistência e ele tinha capacidades de sobra. Era de fácil relacionamento, pelo que não lhe foi nada difícil enturmar-se com o pessoal com quem tinha que se relacionar. E aos poucos fomos ficando amigos, assim como aos poucos me ia relatando toda a vida dele, passada e presente. 

Conforme já disse, era muito alto, cerca de 1,90 e tinha uma figura que oferecia respeito, no entanto, não passava de um garoto, o que era natural, devido à sua idade de apenas dezanove anos. 

Duas pessoas a trabalhar no mesmo espaço, cerca de sete horas por dia, infalivelmente acabam por saber da vida uma da outra com todos os pormenores porque, inclusive, os telefonemas são ouvidos na íntegra. Era impossível não escutar as conversas dele, como ele as minhas. E o Carlos tinha a particularidade de estar em dois mundos ao mesmo tempo. O sério e o brincalhão. O que tinha que ser sério era a sério, mas o que podia ser e servir para brincar era mesmo para brincar até não poder mais. 

Como o seu objectivo era dinheiro, o que ganhava ali não o satisfazia nem um pouco. Assim, arranjou trabalho na noite, onde era garçon numa discoteca, o que o fazia entrar pela noite dentro, mas que segundo ele, compensava. O problema era o desgaste físico, porque as suas horas de sono eram drasticamente reduzidas e o fazia andar sempre cansado e a precisar de dormir. 

Não raras vezes eu dava por ele a dormitar, apoiado numa mão com o cotovelo em cima da secretária. E se, de repente, vinha alguém eu tinha que chamá-lo para não ser apanhado a dormir, o que não abonava nada a seu favor. Isto quando dava por isso, porque nem sempre me apercebia. Se tivesse muito trabalho ou coisas complicadas para resolver, passava-me ao lado. 

A nossa relação era muito boa e quando digo que era muito boa significa que tanto nos amávamos como nos odiávamos. Às vezes ele fazia coisas ou dizia coisas com o intuito de  me provocar, porque era um provocador nato, e eu ficava sem paciência para o aturar. Era uma criança grande. Quantas vezes entrámos em luta e atirávamos coisas um ao outro! Claro que não tínhamos observadores, por isso é que as coisas descambavam desta maneira. 

Um dia daqueles em que ele estava particularmente cansado, resmungando por tudo e por nada e de muito mau humor, e eu estava com muito trabalho para fazer, a páginas tantas desliguei-me completamente da presença dele para melhor me concentrar naquilo que era responsabilidade minha e poder dar conta do recado. E assim fiquei muito tempo, embrenhada nos meus papéis, nos meus assuntos, esquecendo tudo à minha volta, inclusive a existência do Carlos. Ali acorriam muitos colegas a levantar documentos de despesa e a pedir adiantamentos para material técnico e outras coisas. E estávamos constantemente a ser interrompidos para fazer face ao que nos vinham solicitar. 

Concentradíssima nas minhas coisas e desligada do meu querido colega que naquele dia estava particularmente chato, chegou alguém que, por acaso, não era para mim. Era para ele. Interrompi o que estava a fazer para dar as boas tardes e cumprimentar o colega e reparei na ausência do Carlos. O colega que chegou queria exactamente uma coisa que não era comigo mas com ele. Perguntou por ele e respondi que devia ter ido tomar um café ou fumar um cigarro lá fora, mas que não devia demorar. O colega ficou ali um bocado, mas percebendo que eu não lhe podia dar atenção enquanto o outro não chegava, foi-se embora dizendo que voltaria depois. Ok. E continuei o meu trabalho. 

Pouco depois, apareceu outro, que também queria qualquer coisa com o Carlos. Mais uma vez interrompi o trabalho e disse que ele já estava ausente há algum tempo, portanto não deveria demorar. Mas também ele não podia esperar e foi-se embora. Continuei o meu trabalho e às tantas comecei a achar que a ausência do Carlos estava a ser muito prolongada. Que estranho? Por onde andaria? Não era normal aquilo acontecer. Até o telefone tocou várias vezes, umas para mim, outras para ele e lá tive que dizer que de momento não estava. Mas de facto estava a achar que alguma coisa não estava bem. 

E o tempo foi passando e o Carlos nada de aparecer. Era realmente muito estranho. E fiquei tentando adivinhar onde andaria ele. Não se tinha ido embora, isso era certo. E a bem da verdade eu nem tinha ideia de ele ter saído. Mas então? 

E novamente enfiada no meu trabalho, começo a ouvir uma espécie de respiração pesada que não entendi o que era. E mais um pouco e começo a ouvir aquilo que achei que era um ressonar. Mas não, não podia ser. Não estava ali mais ninguém a não ser eu, donde vinha aquele som? Mas aquilo não parou, pelo contrário, continuava. Parei tudo. O som vinha do lado do Carlos. Mas ele nem lá estava? Levantei-me e fui até à secretária dele. Uhau! Que susto! 

O maluco do Carlos não tinha saído. Em vez disso, como o sono era muito, tinha-se enfiado debaixo da secretária, todo encolhidinho para conseguir caber e perante a minha máxima consternação e o meu maior espanto, alheio a tudo, de cócoras, mas como se estivesse no sétimo céu, dormia profundamente!...  

 

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Maktub - 58



Eu era ainda muito pequena quando comecei a ter um sonho que se tornou recorrente. Um sonho que se desencadeou na infância e me acompanhou pela vida fora até muito tarde, até um dia desaparecer de vez. Muito provavelmente desapareceu quando já não precisava mais dele.

 

Não era um sonho agradável, nem um pouco. Era sempre a mesma imagem e o mesmo formato. Eu acordava e pensava, cá está ele uma vez mais, a invadir os meus sonhos e a perturbar o meu acordar.

 

Enquanto criança perguntava a mim mesma porque havia de sonhar com aquilo? Porque "aquilo" incomodava-me. Era quase um pesadelo, embora não tivesse a mesma força. E à medida que fui crescendo não tive outro remédio senão habituar-me a acordar, lembrando mais uma vez o repetidíssimo sonho, para não me esquecer nunca dele, embora eu já o soubesse de cor. Às vezes repetia-se na mesma semana, outras vezes podia ter intervalos maiores, de várias semanas, de vários meses e até anos. À medida que eu crescia tornava-se  mais espaçado, mas sempre o mesmo sonho, sempre igual. E se bem que, inicialmente, ou porque era muito pequena ou porque não queria “ver”, eu me perguntava o porquê de sonhar aquilo, bem depressa fui obrigada a admitir que aquilo tinha um propósito, uma advertência, uma mensagem muito bem codificada e não dava mais para fingir que não era nada. De facto, mais tarde eu haveria de perceber que "aquilo" estava bem relacionado com toda a história da minha vida, com todo o percurso que estava à minha frente.

 

Eu entrava numa sala ou num quarto, não sei, porque não havia mobiliário algum. Eram quatro paredes brancas e uma porta aberta, por onde eu entrava e onde começavam imediatamente a cair do tecto, também branco, enormes blocos cilíndricos presos por uma corda, que desciam, caindo no chão de forma aleatória. Um após outro, ou seja, mal um assentava no chão já outro estava a despencar do tecto. Eram enormes, pelo que, se caíssem em cima de mim, matam-me, sem qualquer sombra de dúvida. E eu ia saltitando, naquele espaço limitado, ia-me desviando ao acaso, sem nunca saber de onde sairia o próximo, para me poder desviar e proteger daquele inferno. O chão chegava a ficar cheio, sem mais espaço e quando assim era e eu não acordava para interromper aquela aflição, eles começavam a cair por cima dos que já estava no chão, enquanto eu continuava a movimentar-me sem parar, apenas para dar tempo a que não me apanhassem. Era aflitivo. Era um desafio que ia sempre aumentando e punha à prova a minha capacidade de resposta, sendo que essa resposta não se compadecia de inteligência ou de conhecimento, ou fosse do que fosse. Era o factor “sorte” que orientava a escolha. Ou então uma intuição. “Talvez” aqui, “talvez” ali. O facto é que ao acordar eu sempre tinha a mesma sensação de que, no fim de contas, eles, os cilindros de pedra, nunca me apanhavam. Eu sempre conseguia safar-me.

 

O sonho tinha dois lados, como uma moeda. Os prós e os contras, como tudo na vida, com a seguinte mensagem: “a tua vida vai ser sempre em função da tua orientação, aliada a uma especial intuição, onde os perigos estarão sempre à espreita, todavia, a sorte, ou a tua boa estrela sempre te guiará”.

 

Assim, aprendi a não ter medo. Aprendi que a vida é tudo o que temos que enfrentar, seja bom ou não. É o destino, como dizem os árabes - “maktub”.

 


quarta-feira, 8 de abril de 2020

Covid 19 - 57


Dois mil e dezanove / dois mil e vinte, um ano diferente. Um ano que nunca mais esqueceremos.

 

Um ano difícil e que exigiu de todos, independentemente do sexo, da idade e da etnia; da cultura, da religião, da posição social e estatal, uma atitude firme e uma fé inabalável. Uma paciência sem limites e uma aceitação quase infinita.

 

Um ano em que todas as nossas capacidades foram postas à prova de fogo e que apelou à boa vontade de todos e de cada um em particular. Um ano em que tivemos que nos superar a nós mesmos e que testou todos os nossos horizontes, fazendo-nos sair da nossa zona de conforto, das nossas rotinas, das nossas famílias e do nosso universo unidimensional. Um ano completamente inesperado, que nenhum ser humano podia prever, nem sonhar e muito menos viver.

 

Um ano terrível e para muitos particularmente doloroso, que tiveram que abdicar do último adeus aos seus entes mais queridos. Um ano em que assistimos nas redes de comunicação social a imagens de verdadeiros horrores, em que o caos se instalou e por todo o lado imperou. Um ano que nos fez chorar lágrimas de grande angústia e o desespero muitas vezes nos dominou. Um ano em que o medo teve o seu lugar de destaque e com ele fomos obrigados a ver, sentir e vivenciar a dor, porque onde ela passou.

 

Um ano verdadeiramente infernal para todos quantos tiveram que se desdobrar para se manter e manter os outros sob cuidados de saúde física, mental, espiritual. Um ano que se atravessou no caminho de todos, alterando projectos, trabalho, viagens, sonhos... traçando o seu próprio destino, cumprindo o seu exacto caminho. Um ano em que a terra estremeceu e mostrou ao homem que quem manda é o universo e que perante a essência do criador nada somos.

 

E mais... que é preciso, é urgente fazer a mudança, a mudança que começa em nós mesmos. A mudança que fará toda a diferença quando deixarmos de pensar menos no “ter” e muito mais no “ser”.

 

Um ano amargurado em que muitos foram exaustivamente massacrados com uma carga de trabalhos redobrados em quantidade e qualidade, enquanto outros simplesmente pararam, para serem obrigados a ter tempo para si e para o seu agregado familiar ou simplesmente se desorientaram por não saber o que fazer.

 

Mas, acima de tudo, dois mil e dezanove / dois mil e vinte – o ano em que o mundo mudou - ficará na história da humanidade como o ano que nos ensinou a ser mais fortes do que nunca antes ousámos ser.

 

O ano em que aprendemos a valorizar tanto a vida, que nos fez compreender, de uma vez por todas, que a vida é hoje.

 

sexta-feira, 20 de março de 2020

IC 17 - 56


Da varanda da minha casa olho a paisagem à volta, vejo a serra que felizmente ainda tem muito verde para espraiar a vista e relaxo. Quando estou cansada ou entediada vou até à varanda e aprecio a vista.

Algures, por entre a serra, vejo a IC 17 e deparo-me sempre com o trânsito infernal que nela passa. Também eu por lá passei e vezes sem conta fiquei parada durante muitos anos enquanto trabalhava. Felizmente, desde há algum tempo, não preciso mais de enfrentar essas confusões, a não ser esporadicamente, por algum motivo pontual. Tirando isso, dessa parte já me livrei. E fico observando o correr do trânsito.

Nos fins de semana o trânsito corre, não fica parado e não raras vezes tentei fazer o exercício mental de contar em simultâneo os carros que passam para norte e para sul. Desde a primeira vez que fiz isto, percebi logo que era uma causa impossível. Uma impossibilidade completa. Mas como sou teimosa, quando penso numa coisa que quero fazer e não consigo, em vez de desistir, vou sempre tentando. Mas isto é uma coisa que eu sabia perfeitamente que não iria conseguir nunca.

A mente, a minha mente, é uma mente “normal”, felizmente, e uma mente normal não tem os poderes cognitivos tão alargados que consiga fazer duas contagens ao mesmo tempo. Contar num sentido é uma coisa e mesmo que sejam muitos carros, a coisa vai. Fazê-lo simultaneamente e em dois sentidos, mesmo que fosse em sentidos iguais, duas contagens é impossível. Pelo menos para mim, e desafio quem quer que seja a fazê-lo. Não faz.

O cérebro dos humanos não tem a menor capacidade de fazer esse prodígio. Pode até haver quem tenha essa capacidade. Mas isso são excepções. Já vi na televisão programas sobre esse assunto e com efeito há pessoas, raríssimas, que têm uma mente prodigiosa que consegue cálculos matemáticos em grande escala, em apenas segundos. Conseguem o que mais ninguém consegue. Como(?), não faço a menor ideia, porque eu jamais faria. Tenho que aceitar que são cérebros diferentes, sem as limitações que os outros, os “normais” têm. Parece mentira, mas acontece.

Quanto a mim e como gosto de desafios, vou sempre tentando, ainda que de antemão tenha a certeza de que não é possível. Por isso, quando chego ao segundo ou terceiro de uma das direcções para passar ao primeiro da outra direcção, já estou toda baralhada e volto ao princípio, à espera de não ficar bloqueada e desejando que os carros passem o mais distanciados possível uns dos outros, tanto para a direita como para a esquerda, para me darem tempo. É um exercício inútil, mas eu vou fazendo. E perdendo, também. Sempre. Disso não há dúvidas. Ou não havia.

Sim, não havia...

Agora, nos dias que correm, fui surpreendida com um facto. Venho à varanda, olho a paisagem, observo o horizonte, a serra, o céu, ora limpo ora delineado de nuvens, vejo a IC 17 e de repente, com o maior espanto, consigo fazer a contagem, o que é simplesmente incrível. Quem diria que esse dia chegaria!? E fico parada, segurando os números apenas para não me esquecer. É mesmo incrível!?

Quando me dei conta disto entrei em processo de meditação automático e percebi que, seja pelos motivos que forem, não há nada que não seja possível. Ou melhor, não há “impossíveis” definitivos, o que significa que a “esperança” é aquilo que nunca morre. Não, não é a última coisa a morrer, porque se morrer não é esperança. É aquilo que nunca morre, mesmo depois de morrermos. Quantas coisas não se realizam depois da nossa morte(?!)... Mas isso é outro assunto.

No caso, temos a contagem dos carros que passam na IC17, uma das mais movimentadíssimas vias, por ser a circular exterior da área metropolitana de Lisboa. Agora eu olhava e com toda a facilidade, os números fixavam-se na minha memória, sem a mais pequena dificuldade.

Milagre? Não. Alguma coisa mudou em mim? Também não. As minhas capacidades continuam exactamente as mesmas, certa de que com a idade não hão-de melhorar, só pioram. E a IC17 também não mudou, continua a passar no mesmo sítio. Então, a que se deve esta mudança súbita, perante um facto que era dado como certo, não conseguir contar em simultâneo os carros que passam para norte e os que passam para sul?!

Fiquei contente com o facto? Nem por isso. Mas eu sempre quis ser capaz dessa proeza!? Mas agora já não queria. Ou seja, preferia mil vezes continuar a não ser capaz de contar, porque isso é que era normal. Estava sem palavras para comigo mesma. Até o meu pensamento estava lento, lento e sem saber o que pensar, olhava a via rápida e era um verdadeiro desalento. Silenciosa, calma e tranquila, comparado com o que era. Tão diferente, tão anormalmente diferente. Mas ao menos isso podia fazer com que me sentisse um pouco feliz, por finalmente poder fazer a contagem que eu tanto desejava ser capaz. Mas não. Porque agora dava-se o inverso. Agora eu queria voltar a não ser capaz de contar, como antes, como era, como deveria ser.

E somos mesmo complicados, ou nem tanto. Mas agora e, mais do que nunca, eu não queria mesmo ser capaz de contar os carros. Queria ver a IC 17 bem cheia. E mais, queria poder sair de casa livremente e ir para onde muito bem me apetecesse. Poder falar às pessoas sem o mais pequeno constrangimento. Olhar para as ruas e ver gente e mais gente a circular. Os jardins e os parques cheios de crianças a brincar e a correr, felizes e contentes. Queria poder continuar a encontrar-me com os meus amigos e as minhas amigas, combinar almoços e jantares e festas e quanta coisa mais.

Queria ver a minha neta ao vivo e a cores, poder abraçá-la e beijá-la muito e matar saudades. Queria ir à praia apanhar sol e caminhar à beira mar. Queria andar nas ruas à procura de motivos para fotografar. Queria conviver e confraternizar como habitualmente fazia…

E mais... bem mais do que tudo, eu só queria ser capaz de saber esperar. Esperar que o Covíd 19 se fosse embora de vez, para voltar a olhar para a IC 17 sem conseguir contar os carros que por lá passam...

 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

O Poço - 55


Era um belo dia de Outono em que a folhagem cobre todo o chão, juntando-se aqui, juntando-se ali e especialmente nalguns sítios, nomeadamente, no poço, completamente coberto de folhas secas, caídas das árvores e arrastadas pelo vento.

 

Apesar de Outono o dia estava lindo, o céu azul transparente e o sol afagava docemente, como que acarinhando, a nossa pele. A quinta era um convite ao bem estar, ao lazer, à boa disposição. Sobretudo, depois da excelente refeição com que fomos presenteados. Pessoas humildes, mas gente muito boa, que davam o que tinham de melhor em todos os aspectos.

 

O gado pastava livremente enquanto estávamos sentados em volta da mesa conversando disto e daquilo, vagarosamente, sem pressa de nada. As crianças brincavam e a quinta parecia que sorria alegremente para nós.

 

Para quem nasce na cidade, vive na cidade, a oportunidade de estar entre a natureza é uma verdadeira dádiva. Era assim que eu me sentia. Presenteada pela vida. E aquilo é que era correr, espreitar tudo, observar as sementeiras, contar as árvores de fruto, tudo era motivo de admiração e observação. E o poço!...

 

O poço já deveria ser muito velho. Já devia ter dado muita água, regado muita terra, alimentado muito gado e muita gente, como não?! Uma quinta não sobrevive sem um poço. Agora, o tempo tinha passado, tudo era diferente, mas o poço lá estava coberto pela folhagem. Por baixo da folhagem devia haver terra seca ou enlameada, se é que alguma coisa sobrava.

 

E não havia tédio. De alguma forma, todos se distraíam. Ao fim do dia partiríamos, mas até lá, era aproveitar com todo o agrado o que a natureza tinha de melhor para nos oferecer.

 

E a brincadeira foi para o jogo das escondidas, onde cada um arranjava um sítio melhor que o outro. Estava realmente um dia excepcional e um clima maravilhoso. E o poço!... O poço, que sem saber porquê, tanto me cativava, activando a minha imaginação. Mas ali não havia nada. Apenas folhas e mais folhas, um verdadeiro amontoado de folhas. Seria interessante que assim não fosse, que estivesse limpo e cheio de água. A água é sempre interessante de se observar. E imaginava o poço a funcionar, com baldes carregados de água a saírem de lá para várias funcionalidades. Olhava a espessa camada de folhas e tentava imaginar água limpa, onde tudo se reflectiria. Rostos, corpos, árvores, céu, sonhos… enfim. Era uma pena o poço tão seco e abandonado.

 

No meio de tanta brincadeira e descontracção, de um dia que parecia perfeito, apeteceu-me entrar no poço, passar para o seu interior. Sem hesitar, pulei o muro que o circundava, com cuidado para não me desequilibrar e cair, não fosse magoar-me, o que não dava jeito nenhum e fiquei de pé, prontinha para cair lá dentro. E no preciso momento em que me predisponho a saltar para dentro, eis que uma pedra vinda não sei de onde, alguém que se lembrou de a atirar, passa no meio da folhagem, ao mesmo tempo que se ouvia um som característico como um “tlim”… desaparecendo por completo, enquanto um repuxo de água se solta, atingindo uns bons centímetros de altura, para voltar a cair por sobre a folhagem, abrindo caminho, apartando as folhas secas, deixando-me com a respiração cortada e completamente em desequilíbrio, quase sem tempo para apenas recuar, olhando abismada as folhas que continuavam a deslocar-se, mostrando toda a água e mais água, que se aclarava e se aquietava à medida que as folhas se afastavam, levando o meu enorme espanto, que seguia o rumo da pedra, perdendo-se pelo poço dentro para no fundo repousar e não mais voltar...(!?) 


quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Uma pequena distracção - 54


João Bosco Soares da Mota Amaral, Presidente do Governo Regional dos Açores. Tudo estava no começo: a RTP nos Açores e Mota Amaral no Governo. Até eu, que me tinha transferido de armas e bagagens para a Delegação da RTP em S. Miguel, Ponta Delgada.

 

Mais ou menos seis meses depois de ter chegado aos Açores conheci aquele que viria a ser o meu marido e pai do meu filho, o António. A empresa abriu concurso para admissão de técnicos nos seus quadros e ele que tinha recentemente chegado à sua terra natal e andava à procura de emprego, depois de ter passado uns anos em Angola, no cumprimento do serviço militar obrigatório, vinha agora concorrer, tendo sido admitido como operador de câmara, o que o fazia andar por todo o lado, na cobertura de tudo o que era notícia, acompanhando os jornalistas em todos os trabalhos televisivos. 

 

Mota Amaral, como Presidente do Governo Regional, andava sempre em viagem e a televisão atrás dele, claro está. Era um indivíduo discreto, reservado, com muita ética profissional e muito seguro de si, o que lhe conferia um certo à vontade e que lhe ficava muito bem, porque sabia estar, como se comportar e penso que agradava a toda a gente, pelo menos como pessoa. Com os jornalistas e operadores da RTP tinha até uma certa familiaridade, pelo muito que conviviam. Era uma constante, como facilmente se compreende. E sempre que havia que ir ao encontro dele e de quem o acompanhava para o efeito, o pessoal identificava-o por "Joãozinho", sem que nisto houvesse o menor desrespeito pela sua pessoa. Conforme já disse, toda a gente gostava dele.

 

Nesta altura, eu e o António já namorávamos e ele ficava uns dias em casa da mãe e outros em minha casa. Andava de cá para lá e de lá para cá, porque era quase ao virar da esquina e assim não se desligava por completo da casa materna, sendo que era bom estarmos juntos sempre que nos apetecia. Com isto, começou a haver muita coisa espalhada lá por casa, isto é, pela minha casa. Ele foi sempre muito desarrumado, muito desligado de tudo. As coisas ficavam onde calhava e mais nada. Talvez porque tinha a mãe que tudo fazia por ele e pelo irmão. Veio para minha casa e foi a bagunça completa. Sendo que sou o oposto, as coisas nunca foram fáceis. Ele devia achar que era a mim que cabia a missão de arrumar, só que não é possível andar atrás de ninguém a guardar e a arrumar isto e aquilo, uma coisa a seguir à outra, não é de todo possível, nem física nem psicologicamente, é uma canseira terrível e uma enorme frustração.


Tinha sido mais um dia de ir esperar Mota Amaral do seu regresso de Lisboa. Ao final da tarde, como acontecia muitas vezes por aquela altura, o pessoal reunia-se num café para conversar, descontrair, contar umas piadas e dar umas boas risadas. Encontravam-se uns amigos, comiam-se umas cracas, etc... e a piada daquele dia era a respeito da reportagem de Mota Amaral. 


Da mesma maneira que na RTP tratávamos João Bosco da Mota Amaral, carinhosamente, por "Joãozinho", também ele quando queria brincar usava os diminuitivos com o pessoal. E naquele dia lá foi um jornalista com um operador de câmara. Mota Amaral tinha acabado de chegar ao aeroporto, vindo de Lisboa com o seu pessoal e caminhava por ali fora em direcção à saída, onde o aguardava o motorista. Seguindo-o, o jornalista ia fazendo perguntas, ao mesmo tempo que o fazia parar aqui, parar mais ali, enquanto o câmara o seguia filmando-o e toda a sua atenção se concentrava na filmagem. As máquinas ainda não eram como agora. Eram mais pesadas, mais antigas, mais difíceis de manejar e carregar.


Mota Amaral vinha sempre de frente para ele e ele recuando para o apanhar sempre de frente. enquanto ia falando com o jornalista. Contudo, não lhe passou despercebido o insólito, isto é, o "pormenor" que não era pequeno e quase inconscientemente não parava de olhar para os pés do operador. António também começou a achar estranho o olhar insistente do Presidente do Governo Regional, para o que parecia serem os seus pés, mas longe de imaginar o motivo. Quando a reportagem terminou e os microfones se desligaram e a câmara parou de funcionar, bem mais descontraído, "Joãozinho" Mota Amaral não se conteve e em pleno aeroporto de Ponta Delgada, no meio de todo o pessoal que o acompanhava, e de mais uns quantos mirones que sempre gostavam de seguir o Presidente e estar de volta a dar fé de tudo, debaixo das luzes da ribalta, "Joãozinho" olha uma vez mais para os pés do operador de câmara que estava na sua frente e rindo diz "eh!... Antoninho, que aconteceu?" e dizia isto rindo, rindo, ainda que discretamente, mas rindo com gosto.

 

"Antoninho" olha, finalmente, e curioso, para os seus próprios pés e percebe a piada. Despistado como era, tinha os sapatos desirmanados, ou seja, um par de cada nação, o  que muito divertiu "Joãozinho", pelas boas risadas que deu com gosto.



segunda-feira, 2 de setembro de 2019

A Carla - 53



Há dias encontrei um ex-colega de trabalho e os dois começámos a tagarelar disto e daquilo, mais precisamente sobre a empresa, os colegas, alguns que já partiram, outros que também se reformaram e por aí adiante. Muitas novidades, outras nem tanto. Foi o caso.

 

De repente ele perguntou-me se me lembrava da Carla, uma colega do Serviço de Manutenção. Claro sim, respondi, a Carla da Drecção Técnica. “Ah, o filho dela é “gay”! E dizia isto com um ar de quem estava convencido de que eu iria ficar chocada ou pelo menos, muito admirada.

 

Convém esclarecer que em relação a este assunto não tenho nada contra, mas também não tenho nada a favor. Cada um é como cada qual. No caso em questão, quando ele me disse isto, não fiquei nada surpreendida. Ao contrário do que ele poderia pensar, para mim aquilo fazia todo o sentido. E porquê?

 

A Carla era uma mulher num sector que até então só tinha homens. Foi portanto, a primeira mulher a trabalhar em electrónica na empresa. Logo de seguida apareceu outra, mas essa outra era completamente diferente. Ambas eram casadas e com filhos. A Carla só tinha um, que por sinal era um rapaz. Lembro-me bem do garoto por lá, desde pequeno. Todos os funcionários, uma vez por outra, tinham necessidade de levar os filhos por não terem com quem ficar. E por tanto, assisti ao crescimento dele, como de muitas outras crianças. Aparentemente, era um miúdo perfeitamente normal. Um menino, apenas isso.

 

Mas a Carla não era uma mulher na verdadeira acepção da palavra, isto é, não era uma mulher comum. Ela era diferente. E não era pelo facto de estar num sector de homens. A outra também estava nas mesmas condições e, apesar de não me lembrar de alguma vez a ter visto maquilhada ou vestida de maneira mais sexy, nem por isso deixava de ser mulher, de ser feminina. Apenas era uma mulher bastante simples. A Carla não. A Carla era diferente. Não tenho como explicar de maneira lógica porque não era pelo facto, por exemplo, de usar o cabelo curto. Durante muitos anos usei o cabelo bem curto e as minhas amigas ficavam surpreendidas dizendo que quanto mais curto eu usava o cabelo mais feminina ficava. Portanto, não era por aí. Também não era o facto de nunca a ter visto de vestidos ou de saias. Usava sempre calças, mas quantas mulheres bem femininas só usam calças por se acharem mais sexys? A Carla, evidentemente, não se pintava, não se enfeitava, era estrictamente básica. Mas a outra colega também. No entanto, olhava-se para ambas e via-se a diferença. Uma era mulher sem margem para dúvidas, já a Carla não. Ela parecia sempre mais homem que mulher. Aliás, ela nunca parecia mulher. Até a voz dela, apesar de ser bastante suave e até meiga, não estava colocada na posição certa.

 

Portanto, não era possível dizer que era por isto ou por aquilo, mas qualquer pessoa olhava e no todo, via uma mulher diferente, apesar das formas avantajadas... apesar de tudo. Isto é tanto verdade que, na distribuição dos trabalhos, havia sempre o cuidado de, olhando a escala de quem estava de serviço, dependendo do trabalho em questão ser ou não adequado a uma mulher e se fosse o caso, e estivesse na vez da colega, a Leonor, o trabalho era imediatamente encaminhado para outro colega, um homem. Na vez da Carla, ninguém pensaria em dar o trabalho a outra pessoa. Ela bastava-se, não precisava de ser poupada à tarefa, qualquer que fosse. Era casada com um indivíduo bastante mais velho, bem parecido e tinha um colega também bastante mais velho que andava sempre a tentar seduzi-la. E em relação a isso ficou sempre a minha dúvida, ou ela não percebia ou fazia que não entendia.  Ela era uma mulher mas, insisto, não era uma mulher comum. O lado masculino nela era muito forte, muito acentuado.

 

E assim, quando o colega com quem eu conversava me contou que o filho dela era “gay”, usava até as unhas pintadas, etc… e havia gozação porque o preconceito sempre há-de existir, não fiquei nem um pouco surpreendida. Fazia todo o sentido. Aquilo era uma coisa genética e simplesmente tinha passado para o garoto. Nada a fazer. Compreendi perfeitamente que não se pode ir contra a própria natureza. As coisas são como são.