Translate

sábado, 27 de julho de 2019

O gesto é tudo - 48


Eram quatro horas da tarde e levantei-me para ir à casa de banho. Quando cheguei ao corredor de acesso comecei a ouvir vozes que logo identifiquei: a Cristina e a Maria João. E apesar de não estar consciente do teor da conversa, mesmo sem querer, apanhei a questão.

Não raras vezes, as coisas que se passam ao nosso redor nos escapam, sobretudo se forem coisas que não nos dizem nada ou que não sejam connosco. Contudo, ao mais pequeno pormenor que capte a nossa atenção, percebemos que afinal o nosso subconsciente absorveu tudo, ainda que sem consciência disso. É uma espécie de armazém que guarda em stock e que vai buscar apenas se for necessário. E foi isso mesmo que aconteceu. Eu ouvia apenas vozes mas não me tinha apercebido de que estava a fazer parte do seu contexto.

E de repente lembrei-me de uma cena idêntica. A situação era exactamente a mesma, mas com outros actores em cena. Eu vou no corredor para ir à casa de banho e ainda cá fora começo a ouvir duas colegas. Uma falava de uma personagem feminina muito em voga na altura, uma socialite cujo nome não vem ao caso e que naquele momento também não foi pronunciado pela pessoa que dela falava, que tinha aparecido na televisão, etc, etc, etc… mas a outra a quem ela se dirigia não identificava. Não querendo dizer o nome, a Ana dizia no preciso momento em que entrei na casa de banho, “aquela parva”…  e ao dizer estas palavras, imediatamente passou na minha mente a imagem da pessoa em causa. Mas perante a descrição de “aquela parva”, a outra não identificava de maneira nenhuma e a Ana continuou “sim… a que anda com o outro”… e uma vez mais passou na minha mente a imagem do tal “outro”, com toda a nitidez. “Oh, sei lá quem é a que anda com o outro?!”… resmungava a colega. Neste momento, acabada de entrar no mesmo espaço físico, esclareci imediatamente o assunto, dizendo o nome da “parva”, bem como o do “outro” em questão. A Ana que já estava impertinente, talvez pela falta de perspicácia da colega, respondeu logo “pois claro, vê lá se ela – referindo-se à minha pessoa – não percebeu logo”? Era preciso dizer os nomes?!

Pensando bem, talvez não fosse assim tão evidente, pois há sempre personalidades em badalação a dar que falar, pelo que podiam sem outros personagens. O facto é que pelo jeito dela falar, imputando-lhe uma conotação de um certo desprezo, a imagem passou imediatamente na minha frente. Podiam ser milhentas, é verdade. Mas aquela era a pessoa de quem se falava na actualidade. Ainda assim, podia ser outra. O facto é que eu apanhei. E mesmo quando a Ana disse “que anda com o outro”, também podiam ser imensas. Mas a Ana referia-se a uma determinada pessoa e foi essa que eu visualizei. E é claro que não foi por acaso. A minha capacidade telepática estava cem por cento receptiva, coisa muito normal em mim.

Neste momento a cena era a mesma ou muito idêntica, só que o assunto era trabalho e o outro não. A Cristina precisava de resolver um problema e a Maria João dizia-lhe que tinha que ir falar com uma colega da televisão, porque elas eram da rádio, e estava a explicar-lhe quem era. Mas a Cristina não chegava lá. E por mais precisas que fossem as indicações ela não conseguia saber, respondendo sempre o mesmo, que não sabia quem era. A Maria João insistia em “uma que costuma ir almoçar com…, que faz…, que vai…, que e que… mas a Cristina não via nada. As duas já estavam cansadas, uma por explicar, a outra por não conseguir perceber. E então eu entro e sem dizer uma única palavra, faço uma exibição, imitando a outra que ela dizia que não sabia quem era. Levo as mãos um pouco à frente do peito, uma ao lado da outra, com os dedos um pouco expostos. Coloco um pé à frente do outro, a cabeça empinada e o nariz no ar, enquanto me vou virando à direita e à esquerda… e… fez-se luz. A Cristina deu um grito “Ah, já sei!”… e disse já sei, de um modo que queria dizer que estava farta de saber quem era. Claro!...

A Maria João passou-se de todo e reclamava “olha para esta… estou eu aqui há horas a dar todas as explicações detalhadas e nada. Chega esta, dá dois passos e já sabe!”... A Cristina ria, ria e dizia “pois, com os gestos que ela fez”!...

Sem dúvida, o gesto é tudo.


sábado, 8 de junho de 2019

Alice - 47


Alice voltava, apressada, para meu grande descanso(!)…

 

Degrau por degrau eu ouvia os passinhos de uma pequenina com pouco mais dois anos apenas, numa noite escura e fria de inverno. Ela era uma graça. Às vezes com trancinhas enfeitadas e coloridas, outras vezes com o cabelo solto e todo espetadinho, era uma perfeita miniatura da típica mulher Africana. Filha de pais Guineenses, com uma irmã já com quinze anos de um casamento anterior da mãe, era esta irmã que tomava conta dela quase todo o tempo. Fazia de mãe, de pai e estava sempre a cuidar dela.

 

Alice subiu até ao patamar e foi direita à porta de casa. Como não chegava à campainha, com as mãozinhas pequeninas deu várias pancadas para se fazer ouvir. Eu estava na minha casa, com a porta entreaberta, porque estava à espera de uma amiga e quando ouvi o elevador parar no terceiro andar, achei que era ela, a minha amiga. Mas não era. Em todo o caso, como ela deveria estar a chegar, continuei com a porta encostada, sem voltar a fechá-la, ao mesmo tempo que espiava Alice.

 

Na verdade, Alice já se habituara à confusão daquela casa e às festas com montes de gente que não fazia nada, a não ser beber e comer. Faziam-se festas por tudo e por nada. Inventavam-se festas para convidar os amigos e pôr música em altos berros que ninguém conseguia ouvir a não ser mesmo o barulho. Só o barulho. De tal modo que, para falarem uns com os outros e se fazerem entender, tinha que ser aos gritos. E para falarem ao telemóvel saíam de casa e vinham para o patamar, uma área razoável, uma vez que são seis apartamentos por andar, e aí ficavam, um, dois, três, uns quantos, cada um falando mais alto que o outro, o que a eles parecia não incomodar, porque as festas aconteciam com bastante frequência e os amigos sempre os mesmos. Eram umas a seguir às outras. Não havia sossego para ninguém. A mãe e a irmã iam para a cozinha e o pai ficava na sala a conviver com os amigos, sempre a entrarem e a sairem e uma confusão dos diabos. Mas Guineense é mesmo assim. Até que um dia um vizinho se chateou e chamou a polícia que interveio e a partir daí as coisas acalmaram bastante.

 

Alice anda por ali, de um lado para o outro. Não importa se são horas de tomar banho, de comer ou de dormir. Se quiser beber de um copo de alguém, imediatamente lhe dão o que ela quer. Se quiser comer seja o que for, chocolates, rebuçados, doces, o que quer que seja, um dá-lhe uma coisa, outro dá-lhe outra e ninguém chega a saber o que é que ela comeu e bebeu de verdade ou não. Se tiver sono encosta-se num canto qualquer ou num buraco do sofá e dorme no meio de tudo aquilo.

 

A televisão está num qualquer canal e os miúdos todos pegam no comando e mandam e desmandam. Ninguém presta atenção em nada. Independentemente do que está a passar na tv, a música está a todo o vapor, passando por colunas potentíssimas, que quase não cabem dentro de casa. Alguns ficam de pé, a fumar, encostados às janelas. Ninguém consegue falar com ninguém. Uns recostam-se e quase dormem. Outros estão sempre de telemóvel na mão, nas suas redes sociais preferidas. E Alice também se entretém muito com os telemóveis, que usa até descarregar a bateria, o que nada a atrapalha. Trata logo de ir pôr a carregar e alguém lhe passa outro para a mão.

 

A mãe trabalha durante o dia e quando volta para casa está cansada. Muitas vezes deita-se para descansar e adormece. Alice janta ou não, conforme. Se disser que tem fome, talvez lhe dêem um yogurt, um sumo de pacote ou cocacola, que é rápido e fácil. Guineense passa muito tempo a descansar na cama. Ou é porque está frio ou porque está calor.

 

Alice vai para a creche, onde passa o dia e onde gosta muito de estar porque tem muitos amiguinhos e brinca muito. É uma criança muito sociável e gosta de se fazer comunicar. Também canta e dança lindamente. É mesmo uma graça a dançar. Não que lhe tenham ensinado, mas porque vê muitos vídeos no telemóvel e imita com uma perfeição impressionante. Parece que já nasceu ensinada. Porque não é só a dança em si, é toda a incorporação dos gestos, de todo o seu corpo que fala e as expressões encantadoras que o seu rosto assume enquanto dança, é realmente enternecedor. O pai e a mãe babam a ver a sua menina bebé dançar, o que não é sem razão.

 

Alice aguardava que lhe abrissem a porta e eu continuava à espera da minha amiga. Se não estivesse à espera dela não tinha assistido à chegada do elevador, o que só mesmo por mero acaso. E o acaso fez com que visse saírem três adultos e uma criança: a mãe de Alice, a irmã e o primo, que está a viver temporariamente lá em casa, enquanto não arranja trabalho e um lugar para ele. Os quatro saíram do elevador e um de cada vez foram em direcção à porta de casa, que fica do lado oposto, em frente à minha. Um por um, entraram em casa, brincando, gracejando. Um por um dos três adultos, apenas, porque Alice não entrou. No meio dos três, Alice saiu do elevador e sozinha começou a descer as escadas. Fiquei atenta, à espera que alguém a seguisse, mas ninguém a seguiu(!).

 

No segundo andar, mesmo por baixo deles, mora outra família guineense que tem duas garotas da idade da irmã e com quem ela às vezes fica. Talvez ela quisesse ir ter com elas ou talvez não. O facto é que quando ouviu a porta fechar-se e sem que ninguém a tivesse seguido, insegura, voltou atrás, pelo menos por esta vez...

 

Às pancadas na porta alguém acorre abrindo e num misto de verdadeiro espanto e contentamento, exclama,  “Alice!?... … …”



domingo, 14 de abril de 2019

As Formigas - 46


Quando eu era criança tinha a mania de tapar os buracos dos carreiros de formigas. Sempre que ia brincar para os jardins, aí andava eu à caça delas e dos buracos. Até que um dia, estando com o meu pai, que presenciou uma cena destas, logo se insurgiu, perguntando-me porque razão estava a fazer aquilo, que não deveria fazer em hipótese alguma.

 

Fiquei muito consternada e na minha inocente ingenuidade, respondi-lhe que corria a tapar os buracos porque eram muito grandes e elas podiam cair lá dentro e morrer sufocadas. Com tal resposta, o meu pai logo percebeu que eu fazia aquilo sempre que encontrava formigas e voltou a ralhar, dizendo-me que não o podia fazer, explicando que os buracos eram as casas das formigas, por isso elas caminhavam para lá, sim.

 

Com esta explicação fiquei sem palavras e sem acção. O que ele acabava de me dizer era algo pertinente e agora eu estava em aflição comigo mesma. Acabava de perceber que era uma potencial assassina de formigas e que ao invés de as salvar, as matava, sendo que não era essa a minha intenção, de jeito nenhum.

 

Era bem criança, mas lembro-me perfeitamente de ter pensado em quantas asneiras fazemos por ignorância e se o meu pai não estivesse presente e não me tivesse feito aquela chamada de atenção para me corrigir, certamente eu continuaria a fazer o mesmo, matando todas as formigas que encontrava, convencida de que estava a salvá-las. Por momentos senti-me muito mal comigo mesma e completamente frustrada, como se tivesse acabado de receber um atestado de estupidez ao mais alto nível. Matar as formiguinhas, um bichinho tão pequenino, tão indefeso! Eu era muito má. Como era possível?

 

Pela vida fora nunca me esqueci daquele episódio, porque ele foi um grande alerta para mim, apesar de ser muito pequena. O que me ficou, foi as coisas erradas que fazemos apenas por ignorância! E não devem ser poucas. Ao longo de toda uma vida esse somatório deve atingir um número alarmante. O que fazer? Não nascemos ensinados!?

 

Até hoje, toda a minha aprendizagem tem sido no sentido de esvaziar a ignorância e a importância que dou a tudo, desde as mais pequenas coisas, tem que ver com evitar danos por conta da desinformação. Já basta o que fazemos errado voluntariamente, porque somos como somos.

 

Quando dizemos que errar é humano, não estamos a dizer que errar é desumano e essa é a verdade verdadeira. Errar é desumano. E se muitas vezes não sabemos que não estamos no caminho certo, porque acontece, também muitas e muitas vezes sabemos bem que estamos no lado errado e nem por isso nos importamos. Parece que é importante fazer o “mal”. Isso, porque o nosso ego nos está a dar força para continuar, por alguma razão específica.

 

No momento, Brasil e Estados Unidos da América, através dos seus líderes, fazem uma escolha, uma escolha que não é pacífica, nem um pouco, mas fazem-na, querendo mostrar ao mundo que a sua escolha é certa: armas para todos. Eles sabem ou não sabem que é a escolha errada? Eles sabem. Aqui não há ignorância possível. Até uma criança compreende isso. A quem querem eles convencer de que as armas vão “salvar” seja o que for? Armas não são para salvar. Armas são para matar. E um povo que apoia uma decisão destas está a sujeitar-se a uma sentença de morte, seja de que maneira for, porque tudo está sujeito a uma lei universal que ninguém tem o poder de alterar, simplesmente porque é inalterável: a lei de causa e efeito.

 

Tanto quanto sei, só há um caminho: baixar armas. Acabar com todo o material de guerra. É difícil, é complicado? Porquê? Acaba-se o negócio das armas? Quem está interessado nisso?!

 

Se não houvesse armas, haveriam outras guerras, mas essas guerras seriam de outra natureza. Guerras de consciência, que apenas teriam egos para trabalhar, mas isso seria pouca coisa, naturalmente, porque não adianta saber mundos e fundos, ser isto e aquilo, se não soubermos o básico. Isto significa que temos um mundo com líderes que sabem muito, ou muito pouco, eu diria, pois até hoje não aprenderam a fazer o trabalho de esvaziar a ignorância. E esses sim, matam formigas, não por falta de informação, mas porque lhes dá prazer. Um prazer mórbido, delinquente. E o mundo inteiro atento ou desatento… aplaude(!)…


domingo, 23 de dezembro de 2018

A "sagrada" bíblia - 45


Que me lembre e desde que me reconheço e me entendo por gente, que me questiono e me interrogo sobre questões existenciais como: quem sou eu, o que é a vida, o que estamos todos aqui a fazer, etc… um rol de perguntas que me vinham à cabeça e ainda mais o porquê de estar sempre a pensar nessas coisas. As outras pessoas não pensavam nessas coisas, achava eu. Viviam a sua vida, o que quer que ela fosse, levantavam-se e deitavam-se, seguiam a sua rotina e o seu rumo, sem essas preocupações, pensava eu… enquanto que eu estava sempre numa luta comigo mesma por causa dessas respostas que, ao mesmo tempo, não tinha onde ir buscá-las. Se tentava perguntar, logo me conseguiam fazer mudar de assunto, dizendo-me que quando crescesse haveria de saber. Mas isso era muito tempo!

O facto é que toda a gente parecia conviver bem sem falar e sem querer saber disso, o que para mim era um verdadeiro enigma. Como era possível não se olharem no espelho sem conseguirem ir ao seu interior? Quando me via no espelho, para além do que estava à vista, sentia sempre que havia mais do que isso. Eu não era só o aquilo. E achava que os outros também não. Para mim, em cada criatura, havia o exterior e o interior, que não era assim tão interior. E então, esse interior que me parecia envolvido de mistério e segredos, onde estava ele, o que era isso?

A minha família era católica por tradição e, portanto, a igreja foi-me imposta desde sempre. Não pelos meus pais, que não faziam questão de ser religiosos, mas pela restante família, avó e tios. Além disso, a escola também fornecia educação católica e tudo era muito católico na minha vida. Como gostava de saber das coisas e como era suposto a bíblia conter toda a verdade da vida, eu lia.

A caquetese era a única base de informação a que tinha acesso. Havia caquetese na igreja e catequese na escola. E todas as crianças aprendiam o que vinha nos catecismos e só isso. E ouviam e decoravam aquelas coisas todas que tinha que se saber na ponta da língua, desde a mais tenra idade, porque seriam guardadas para nos acompanharem pela vida fora até sempre. Quem é Deus? Deus é o nosso pai do céu. Onde está Deus? Deus está em toda a parte.  E assim por aí adiante.

Questionar? Impossível. Questionar, só por si, já era um grande pecado. Tudo era muito sagrado, inalterável e imutável. E todas as histórias que nos contavam e que se liam na Bíblia, eram um grande mistério. Pai do céu?!... Em toda a parte?!... Mas se diziam que era assim, assim tinha que ser. E a minha “formatação” começou a trancar-me, como aconteceu com tanta gente. Não há perguntas, não há questões. Há que acreditar e aceitar, caso contrário, caíamos em pecado e íamos para o inferno. Um horror! Eu tinha pesadelos. E não era só eu. Havia outras crianças a quem acontecia o mesmo. Pelo menos isso ajudava-me a identificar-me um pouco com alguém e a não me sentir tão infeliz e tão só.

Fui crescendo e, apesar de tudo, a informação foi chegando de variadíssimas maneiras. Os meus olhos iam-se abrindo e o meu espírito sempre pedindo mais. Todavia, sempre que lia a Bíblia, apesar das contradições e das questões confusas, eu ainda estava “formatada” e havia muita coisa que ainda não tinha chegado, por causa do “véu” que me cobria desde criança. É difícil. É mesmo muito difícil. E quando pensamos que já crescemos espiritualmente e já nos livrámos de toda a carga do passado, é mentira. A coisa ainda está lá bem enraizada, e assim somos apanhados de surpresa. O que fazer?

 

Meu filho Henrique, quando era criança, recebeu de presente da avó paterna um livro de histórias intitulado “A Bíblia para crianças”. O livro tinha desenhos bonitos, alusivos às diversas passagens bíblicas mais relevantes e adaptados às crianças. E como ele gostava que lhe lesse uma história já na cama, antes de dormir, achei que não havia mal nenhum nisso, e comecei a ler-lhe a bíblia. E devo dizer que foi esse o meu grande “despertar”. Foram essas leituras inocentes, a uma criança sem vínculos à religião, virgem na sua formação de ser humano, livre de dogmas e formatações, que me fizeram abrir os olhos e despir a totalidade do véu que tudo embaciava. Foi o meu filho de cinco aninhos quem me ensinou a ler a Bíblia. Lembro-me como se fosse hoje. Até levantou a cabeça do travesseiro com a indignação da contradição que se deparava.

A história era a de Abel e Caim. Caim, filho de Adão e Eva, supostamente o primeiro homem e a primeira mulher, como todos sabem, mata seu irmão Abel. Perante isto, e como castigo, Deus expulsa-o do Paraíso e fica com medo de que alguém o mate. Esta é a história, sem entrar em mais detalhes, porque não necessita. E o meu querido filho, incomodado, pergunta “mas se não existe mais ninguém além de Adão e Eva, quem é que o vai matar? Perante esta observação fiquei a gaguejar e na verdade sem resposta. Mas foi aí que se deu o verdadeiro clique.

Perguntando a mim mesma se alguma vez eu tinha pensado nisso, para ser sincera, claro que sim. A questão é que, muito provavelmente fechava os olhos, porque ainda estava programada para aceitar tudo o que lia, sem sinal da mais pequena dúvida ou observação, apesar de já estar numa fase de “desmame”, isto é, de grande afastamento da religião. Mas foi aí que fui obrigada a pensar e repensar que a criança tinha razão e que eu sempre soube que aquilo era uma grande mentira ou simplesmente uma história mal contada.

Recentemente, adquiri um livro muito interessante, intitulado “A Bíblia não é um Livro Sagrado” de um autor Italiano, Mauro Biglino, e como foi bom ler esse livro! É que, finalmente, alguém via as coisas da mesma perspectiva que eu. Alguém com bases e formação correcta, falava do que sempre se escondeu por trás dos panos. Alguém que teve a coragem e a lucidez de mostrar o que é e o que não é. E assim, a páginas tantas, mais precisamente na página 146 do referido livro, pode ler-se:

“Após ter assassinado Abel (Gn. 4), Caim não foi punido, mas simplesmente afastado e naquele momento exclama apavorado: “Seja quem for que me encontre, matar-me-á”. Mas quem poderia ser este “seja quem for”, já que sobre a Terra deveriam existir somente os seus pais, Adão e Eva?”

E mais… continuando, o autor descreve:

“A narração bíblica prossegue, informando-nos de que ele encontrou uma esposa, teve um filho e construiu uma cidade… Mas, para quem construiu ele uma cidade, se não existiam outros homens?”

Quando li isto, logo me veio à memória esse episódio do meu filho, criança, chamando-me a atenção para o facto. Parecia que tinha sacado do meu livro de memórias aquela situação embaraçosa da falta de poder para responder. Passaram mais de trinta anos, mas aquela memória foi de imediato accionado, tão embaraçosa fora a situação.

E assim, por aí adiante, o autor vai descortinando tudo e pondo a nu uma verdade que se esconde por uma eternidade sem fim. Tal como ele, na verdade não penso que a bíblia seja uma mentira. Acho é que foi interpretada da maneira que deu jeito e por quem assim o quis. Umas vezes por falta de informação nas questões da tradução, outras vezes porque era o que dava jeito. A ignorância da humanidade sempre foi muito bem aproveitada. É sempre importante, pois assim é bastante mais fácil conduzi-la. O “sagrado” é coisa que não existe nesse contexto. A elaboração do “homo sapiens” é um projecto pensado e elaborado por seres alienígenas com tecnologias impensáveis para nós. As igrejas e demais locais de culto não foram construídos para essa função, mas adaptados a isso, simplesmente porque eram a “morada dos deuses”. E a morada dos deuses era tudo o que havia de mais profano sobre a terra.

Durante grande parte da minha existência procurei, procurei, procurei… até que um dia encontrei esta preciosa coisa que me fez para de procurar, porque aí estava contida uma verdade intemporal, que me fez parar as buscas incessantes e sossegar:

“A vida é evolutiva e nunca criada a partir do nada. Todos estamos ligados.”  - Pasteur pensou, Pasteur escreveu. 

E quando li isto, percebi que tinha encontrado a resposta. É que, na verdade, não havia nada para procurar, mas apenas “assistir” à evolução, à passagem do tempo. Somos viajantes do espaço, por mais que isto seja difícil de encaixar. Todas as igrejas e demais lugares “santos”, carregados de ouro e outros metais preciosos roubados à mãe terra, não passam de uma pequena amostra do orgulho, da vaidade e da soberba dos “deuses” que por aqui passaram e alguns por aqui ficaram, misturando-se com a obra que criaram à sua imagem e semelhança, para seu próprio benefício – o homem, o Adam ou ADN. Israel e a Palestina é uma guerra sem fim, que não faz o menor sentido, simplesmente porque é uma guerra que não é nossa, mas dos “deuses” que a começaram e nunca mais acabou.

Somos o resto, os restos de uma mega civilização que se adiantou e se aproveitou do nosso ADN de todas as maneiras e feitos. Tudo o que somos de bom e mau está aí. Está na hora de acordar e crescer.

Com todos os dramas, complicações, aflições de todo o género, catástrofes e epidemias, temporais e outras coisas mais, até hoje não sei se a vida faz sentido ou não. Mas é bom viver.


O segredo - 44



Como era lindo!… pensava ela. A imagem dele estava gravada desde o dia em que o vira pela primeira vez. Nessa altura, pensou… se tivesse menos dez anos, não precisava de mais, menos dez anos eram o bastante e ele não escaparia porque, se havia um adjectivo que a caracterizava bem demais era “aventureira”. 

 

Mas a aventura não era por “casos” ou “flirts”… não era nada disso. Aventura era ela personificada, porque nunca deixara de viver nada por conta dos outros e dos preconceitos ultrapassados e enfadonhos em que a maioria das pessoas se deixava envolver, inibindo-se de viver, em nome de falsos moralismos.

 

Realmente, isso não se lhe aplicava. Desde os dezassete anos que tomara as rédeas da sua vida e isso sim, fizera dela uma aventureira nata. A vida tinha o gosto da aventura, porque tudo o que fazia e tudo em que se metia, era para ser vivido a cem por cento, caso contrário, não estaria lá. Amava a vida com todo o respeito e a alegria que lhe conferia e lhe atribuía, pela sua simples existência neste mundo, onde nada se podia perder, a não ser aquilo que realmente não era preciso e isso sim, era para definitivamente descartar para todo o sempre. 

 

Há três anos que ali estava com a família. Não a mulher e os filhos, porque esses tinham ficado no seu país. Ele viera para ficar, arranjar papéis e então trazer a família já em segurança. Mas vivia com os irmãos. E a vida era trabalhar para ganhar dinheiro e enviar para a família, a fim de lhes proporcionar uma vida melhor, até os poder trazer e fugir à guerra, à vida miserável que tinham, apesar dos cursos que tinham tirado. Num país em guerra, de nada serve ser isto ou ser aquilo. Num país em guerra, tudo é inútil, todo o esforço é em vão e nunca se poderão fazer planos. É duro, mas é a realidade.

 

De vez em quando, cruzavam-se nas escadas, nos elevadores e da mesma maneira que ele sabia que não lhe era indiferente, também ela sabia que alguma atracção exercia sobre ele, mas as reticências eram tantas que não havia ponta por onde se pegar. Era a diferença de idades, eram os irmãos, eram as culturas - a barreira das culturas(!) - embora, até certo ponto, ela soubesse lidar com isso. Mas não, não podia ser, era muito complicado.

 

Todavia, sempre que se cruzavam, ele encarava-a com uma curiosidade impossível de esconder e impossível de não perceber. Parecia que alguma coisa ficava sempre por dizer, algo que precisava de sair, mas que acabava sempre por ficar engasgado, por conta da inibição que também sempre se sobrepunha. Lá teria as suas razões, também ele. Era melhor… era melhor que tudo ficasse assim, por ali mesmo, tudo no seu lugar.

 

Até que um dia, ao sair do elevador, abrindo a porta e antes de ter tempo de sair, alguém abre a porta mais rápido e quase esbarram um no outro. E nesse dia não houve tempo para pensar, nem ficar inibido e a pergunta saiu. Eram onze horas da noite e apesar do programa ter sido bom, ela vinha cansada, querendo chegar a casa e dormir. Ao esbarrar nele, inesperadamente os olhares de ambos se fixaram inevitavelmente, de um jeito quase hipnótico. Atordoada, veio à realidade com a pergunta inquisidora e que foi mais forte do que ele “onde vai?”. Claro que o que ele queria saber era de onde ela vinha, porque vinha a chegar sozinha àquela hora. Mas o seu fraco português fez o que pôde.

 

Apanhada de surpresa, atrapalhada, apressou-se a responder “classic music concert”, como se sentindo coagida a dar-lhe satisfações. Como se, de repente, sem mais nem menos, ele fosse seu dono… e com mil e uma questões na cabeça, ao mesmo tempo que surpreendida com o que se estava a passar com ela - porque, enquanto a sua voz interior perguntava a si mesma o que a tinha levado a dar-lhe justificações da sua vida -, a ponto de se ter deixado levar. E para tudo isto não havia resposta.

 

E antes mesmo que terminasse a frase “classic music con…” já ele respondia “ah...” ao mesmo tempo que acenava que sim com a cabeça, em sinal de aprovação. E não havendo mais nada para dizer, ela saiu de vez do elevador para lhe dar passagem, enquanto os seus olhares se refugiavam um no outro, até a porta se fechar novamente e cortar de vez aquele momento embaraçador, mas mágico.

 

Já em casa, enquanto se despia para se deitar, pensava em mil e uma razões para aquela pergunta intempestiva. E uma delas, é que era absolutamente impensável, na terra dele, uma mulher sair assim, sozinha e ainda chegar a casa àquela hora da noite. E muitas outras coisas… mas a verdade é que não era nada daquilo. Sabia bem qual era a verdadeira razão daquela pergunta. Ele queria lá saber das horas e do resto. Ele queria mesmo era ter a posse de todas as suas horas, não só daquela, mas de todos os dias e saber como era a vida dela, que para ele era um grande mistério, apenas porque a desejava, independentemente da idade, de não ser a mulher mais bela do mundo, disto e daquilo… a verdade é que sentia por ela uma atracção irresistível, que ele próprio não compreendia e nem se daria a esse trabalho.

 

Aquela mulher, que entrava e saía a qualquer hora, com o ar mais indiferente deste mundo, que sempre estava sozinha ou com amigas, sem uma companhia masculina; aquela mulher que tinha um ar ainda jovem e vestia como uma adolescente: jeans, leggings, vestidos compridos, frescos e fluidos, mostrando o corpo magro e bem delineado, aquela mulher era uma fonte de atracção e de mistério; um grande enigma para ele, com trinta e oito anos apenas. Se ele, a viver com os irmãos, se sentia tão só, com a esposa longe, sem amor por perto, impedido de uma vida sexual normal, por via das circunstâncias; para quem a vida era apenas trabalho, comer e dormir - tudo isto em nome da promessa de uma vida melhor, que tardava em chegar - aquela mulher sozinha, como ultrapassaria ela a sua solidão? Como poderia ela estar sempre sozinha?…

 

Já tinha entrado na sua casa com um dos irmãos, por conta de uma pequena questão técnica, para a qual necessitara de intervenção exterior. Por isso os chamou e ficara deliciado com a casa. Aquilo era um verdadeiro refúgio de amor. Ali, havia qualquer coisa no ar que era indecifrável. Ali, estava-se bem. Também não sabia muito bem se era da casa, se apenas da presença dela. Mas tudo ali se conjugava. Tudo era perfeito. O meio-ocidental, meio-oriental, tudo funcionava maravilhosamente bem, fazendo-o lembrar do que precisava de conquistar, jamais esquecendo as suas origens. Até nisso ela era fabulosa.

 

Os olhos dele brilhavam, com aquele brilho que só eles têm. Aquilo era um mundo mágico que o seduzia e o deixava completamente perdido. Tudo ali era simples, sem luxo, mas prático, confortável e funcional. Mas muito mais do que isso: acolhedor, convidativo. Mas era também muita paz e muito amor que sentia ali. A pessoa que vivia ali só podia ser uma pessoa muito especial. Aquilo era tudo o que ele precisava. Aquela misteriosa mulher não tinha idade. Podia ter uma idade qualquer, que a ele em nada lhe importava. O que importava era o que ela era e o que ela representava. E ela era sem dúvida, a única pessoa que o podia ajudar.

 

Ali tão perto, era só atravessar o patamar. Meia dúzia de metros, apenas, a separar as portas de casa. Mas depois havia as outras quatro. E ainda os outros andares. E estavam sempre a entrar e a sair. Mas o pior de tudo eram os irmãos. O que fariam se soubessem? Seria uma chacina. Ainda por cima ele era o mais velho, aquele que tinha que dar o exemplo! E tudo apenas por um pouco de paz, um pouco de amor. Sexo, sim, mas mais do que isso, beijar, acariciar, sentir a ternura do contacto da pele com pele. Entrar em casa e arrancá-la ao que estivesse a fazer; pegar nela ao colo e deitá-la em cima da cama, naquele quarto sensacional, com uma tapeçaria oriental na cabeceira, em tons de azul e verde; aquele quarto de uma simplicidade incrível, era um convite ao erotismo, aos sentidos mais sublimes, submetidos ao prazer do amor e da sensualidade. Aquela mulher era o caminho para a sua liberdade.

 

Enquanto ele observava tudo minuciosamente, ela seguia-o atenta e curiosa no pormenor com que reparava em tudo. Sentia-se lisonjeada mas, ao mesmo tempo, um pouco devassada. Contudo, não lhe podia recusar esse privilégio. E aos poucos, foi-se libertando e até aguçando a sua curiosidade, que não deixava de a fascinar. Afinal, ele era o tal, especial. Ele era lindo! Isso era inegável. Até as amigas vizinhas, já o tinham comentado. Mas elas eram novas, era perfeitamente natural. Em todo o caso, o facto é que ele era mesmo bonito. E não era só a beleza física. Era a altura, o porte, o ar com um misto de timidez e o sorriso só no olhar. Era aquela cor morena de quem está permanentemente bronzeado do sol. Era uma coisa que só ele tinha ou que só ela via, porque não se podia explicar.

 

E quando ela fez questão de lhe mostrar a casa de banho, um espaço tão importante como os demais, ele ficou em êxtase profundo. Com o olhar, percorreu as quatro paredes e deteve-se no quadro dos banhos turcos, com as mulheres semi-nuas na água e dizia oh, oh… estava impressionado com a beleza da pintura, mas o facto de as mulheres estarem quase despidas com os seios à mostra, deixava-o mudo, engasgado, ao ponto de ela ter de intervir para lhe fazer lembrar que aquilo não eram mulheres nuas; aquilo era arte e a arte era para ser apreciada e admirada sem qualquer julgamento. Ele respondia “yes, yes…” numa voz tão sublime quanto velada, num tom de submissão e rendição absoluta. Era de uma doçura impressionante!

 

 

Como era lindo!… pensava ela. Não tinha mudado nada, desde a primeira vez que o vira. A sua doçura continuava igual. Tudo nele continuava na mesma. Doce, terno, com aquela maliciosa ingenuidade e aquele olhar misterioso de sempre, apesar de que todas as portas tinham sido definitivamente abertas. Sem regras, sem limites, sem objecções; sem compromissos, apenas o compromisso da felicidade através do amor que proporcionavam um ao outro, tudo no maior sigilo, para não ser corrompido nem interrompido contra a vontade de ambos. Tudo o que havia para partilhar era aquele amor indefinido, intemporal, sem reclamações, sem exigência alguma. Só a liberdade prevalecia. Só a liberdade era permitida e permanecia. Para isso se tinham quebrado definitivamente as algemas, banido todos os credos e tudo o mais. Ali não havia lugar para a voz dos outros. Já era tão pouco o tempo que tinham um para o outro, sem contar com a ginástica que era preciso fazer para não dar nas vistas e manter tudo no maior segredo. Era um esforço e tanto, segurar aquela adrenalina que não parava de disparar, quando se continuavam a cruzar e se metiam outros pelo meio, porque a vida continuava. 

 

Aliás, tudo continuava na mesma, exactamente igual, apenas eles tinham revertido o jogo, porque já não eram mais estranhos um para o outro. Quando uma porta se fechava, logo a outra se abria, para deixar entrar por toda a casa, pelo ar que respiravam, pelo calor que seus corpos embrenhados emanavam, todo aquele prazer que os fazia respirar com mais leveza e viver com a mesma intensidade, cada momento como se fosse simultaneamente o primeiro e o último. O único, porque também o único segredo de suas vidas.

 

 

 

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Danielzinho - 43


“Danielzinho” … Danielzinho… dizia a rapariga loura, bonita, de olhos azuis e pele muito branca. Parecia uma nórdica. De trato fino, comedida e educada, de onde teria ele desencantado aquela angélica criatura?! Sim, porque precisava de ser um anjo para aturar o Daniel. Sentados à mesa, frente a frente, os gestos dele, amplos, descoordenados e desajeitados, para não dizer abrutalhados, com algo de agressivo, estavam em completa discordância com os dela. A vida tem destas coisas, aparentemente estranhas e eu não conseguia desviar o olhar e a atenção deles, porque aquilo não encaixava. Havia ali uma disparidade muito grande. E já a tinha visto várias vezes ali, a almoçar com ele no refeitório da RTP, o que me intrigava ainda mais.

 

Daniel era engenheiro. Tinha sido aluno dos Pupilos do Exército, onde tirou o curso, mas qualquer incidente na sua vida o tinha perturbado tanto, que se tornara um psicopata. Passava a vida encharcado em medicamentos e era uma lista interminável de antidepressivos e ansiolíticos, que nunca mais acabava. Tinha coisas estranhas, atitudes e… todo ele era estranho. 


Olhando uma primeira vez, era uma pessoa normal e até era engraçado, bem parecido, mas depois, quando começava a falar, logo se percebia que ali havia coisa. Alguns chamavam-lhe o “maluco”, mas ele não era maluco. Era descompensado, isso sim e à conta disso levava por arrasto uma série de maluquices sem conta. Também havia quem tivesse medo dele, mas não era caso para tanto, embora, em boa verdade, não possa dizer que fosse totalmente inofensivo. Estou a lembrar-me, por exemplo, de uma altura em que todos os dias ele ia à Mesquita, à hora do almoço e vinha contar-me aquilo com um ar triunfante, que me dava um sinal de alerta, quero dizer, de que algo se passava; aquilo queria dizer alguma coisa. Com efeito, descobri pouco tempo depois, que ele ia à mesquita àquela hora, para tirar partido do almoço de borla, à custa dos muçulmanos que, quando se aperceberam disso, logo trataram de correr com ele, claro. Por isso, o ser inofensivo dele não era evidente tanto assim. Daniel era astuto e tinha a mania que era esperto, o que fazia com que sempre acabasse por se dar mal, que é o que geralmente acontece com gente desta natureza e muito especialmente com ele, pelos problemas que já tinha.

 

Um dia ofereceu-se para ir jantar comigo. Digo, ofereceu-se, porque eu sabia de antemão que não era um convite. Ele não seria capaz dessa proeza e, além disso, nunca tinha dinheiro. Mas fui, até porque ele não tinha amigos, nem ninguém que se interessasse por ele. Claro que por esta altura, a rapariga loura que era namorada dele, já tinha ido à vida. Era duro aturá-lo. Durante o jantar, Daniel fez tanta cena, disse tanto disparate, que só me apetecia dar-lhe um tabefe e ir-me embora. A meio do jantar, disse-me que tinha feito um óptimo negócio. Fiquei a olhar para ele à espera do que seria um óptimo negócio. Em pleno jantar, descalça um sapato que coloca sobre a mesa e metendo a mão dentro do sapato, saca da palmilha nojenta, fedorenta, dizendo-me para sentir o toque. Olhei para ele aterrada com tamanho disparate. Seria possível que aquela criatura não se desse conta do que estava a fazer!? Como era possível ser tão desprovido de sensatez, de ética e não ter a noção de que há coisas que não se fazem em hipótese alguma, sendo que aquela era uma delas? Estávamos a jantar, o sapato estava sujo e cheirava mal e ele metia a mão em cima da palmilha, sem quaisquer escrúpulos e queria que eu fizesse o mesmo?! A minha vergonha era tanta que me apetecia dizer em voz alta “não conheço este senhor de lado nenhum e não tenho nada a ver com ele!”. Mas era tarde. Agora tinha que gramar, senão, o que faria eu com ele ali a jantarmos na mesma mesa?...

 

Mas então o excelente negócio que havia feito é que aquela horrorosa palmilha, que só de olhar para ela já me dava náuseas, segundo ele, fazia uma série de coisas ao mesmo tempo, tais como: massagem, relaxamento, fisioterapia... e o rol nunca mais acabava. Fazendo as contas a cada uma das especialidades da dita cuja, aí estava o óptimo negócio que ele tinha feito. E nem se levantou para ir lavar as mãos… eu já não o podia ver nem ouvir! E nem vou enumerar nem contar a série de asneiras que continuavam sem parar.

 

Daniel trabalhava nas instalações do Campo Grande, que um dia foram encerradas e por isso foi transferido para a sede da RTP, na Avª 5 de Outubro, tendo ficado sob a chefia do engenheiro RS, uma pessoa espectacular, um excelente profissional, educado, fino, de muito bom trato, uma pessoa a quem não havia o que apontar. Mas, para seu azar, Daniel ficou colocado no mesmo gabinete dele, o que passou a ser uma dor de cabeça para o engenheiro. Certo dia, em que o chefe não estava lá, por ter saído em serviço, Daniel fechou a porta e trancou por dentro. Para quê? Para dormir, certamente, mas primeiro tratou de pôr uns pauzinhos de incenso, provavelmente para o ajudarem a adormecer, o que aconteceu, claro, só que o fumo saía por debaixo da porta e foi preciso chamar a segurança para a abrir e perceber o que se estava a passar. Daniel acordou muito confuso e com a voz toda embargada disse que estava a "meditar"… enfim… só se esqueceu de que estava a trabalhar, mas isso era para esquecer.

 

Mas o pior de tudo… Daniel teve que deixar o apartamento onde morava, para se mudar para casa dos pais, que tiveram que o receber, embora sem o mobiliário, porque não tinham espaço para isso e talvez nem precisassem. Então, andava muito agoniado por conta desse problema que tinha que resolver. Um dia, falou com o chefe, dizendo que precisava de levar os móveis para a RTP(!?), porque estava sem casa. Perante tal disparate o engenheiro fez de conta que não ouviu, porque ficou tão irritado e enervado com o assunto que saiu a falar sozinho para não ter que disparatar com ele. E vinha pelo corredor fora dizendo umas asneiras que não faziam nada o género dele, sempre muito bem comportado. “É maluco, é doido e agora tenho que aturar isto(?)”, etc..., etc…

 

O facto é que, um belo dia, ligaram da recepção, dizendo que estava uma carrinha de mudanças à porta da RTP, com mobiliário para entregar no gabinete do senhor engenheiro RS, da parte de quem?... O resto é fácil de adivinhar…

 

domingo, 20 de maio de 2018

A mala do chinês - 42


Centro Ásia, Chelas, 60 lojas onde há tudo o que se possa imaginar.

 

A Teresa e eu tínhamos acabado de almoçar e naquele dia não tínhamos o grupo do costume. Todos se tinham dispersado. Cada um com seu motivo, todos faltaram ao convívio, tendo ficado só nós duas.

 

O dia estava bonito e decidimos dar uma volta nos jardins das instalações da RTP. Andando e conversando, passámos junto à vedação que dá para o Centro Ásia, um mega armazém de revenda onde está instalado o mundo do comércio Chinês. Como tínhamos algum tempo, decidimos ir ver as novidades por aquelas bandas.

 

Saímos as portas da RTP para entrarmos nas portas mesmo ao lado, as do Centro Ásia e depois de termos dado uma voltinha rápida e geral, decidimos entrar numa loja de malas que tem malas, malinhas, malões para todos os gostos e feitios. Mas, ao entrarmos, fomos logo informadas pela única pessoa que lá estava a tomar conta daquilo, que só vendiam às caixas e cada caixa tinha uma série de malas ou sacos, o que não nos interessava. E, em princípio, nem comprar nada nos interessava. Só queríamos ver.

 

Era um chinês alto, bastante alto para chinês e magro, muito magro, também. Um rapaz novo, com menos de trinta anos que, após ter dado o recado, voltou a sentar-se no banquinho onde estava antes de se levantar para vir falar connosco.

 

Respondemos que não queríamos comprar nada, mas gostaríamos de dar uma volta só para ver. O chinês, que voltou ao seu posto numa posição nada cómoda, mas que parecia não o incomodar, tinha um recipiente com comida no chão, e a refeição a meio. Podia-se ver que já tinha iniciado, mas depois, por qualquer razão, parou, largou e deixou por ali mesmo, em pleno chão, sem qualquer proteção. Já tinha visto destas cenas na rua, em Nova York, mais precisamente no bairro chinês, por isso não fiquei muito espantada.

 

Claro que o espaço era tudo menos limpo. Pó e lixo era o que não faltava, mas isso não interessava nada. Ele sentava-se com as costas todas curvadas para se apoiar na parede atrás dele e fechava os olhos, tentando dormir. Perante a nossa inesperada entrada, foi obrigado a fazer um pequeno intervalo para nos advertir que não podíamos comprar à unidade. Havia algumas lojas em que isso era possível, ali, porém, ele acabava de nos informar que tal não poderia ser. Não, não podia… reforçava ele, sempre com o mesmo semblante, sem qualquer outra expressão ou reacção. Está bem… não podia, não podia e nós na verdade não tínhamos a menor intenção de comprar o que quer que fosse, porém, informámos que faríamos a nossa ronda só para apreciar, mais nada. Ele não dizia que não, mas sentado mal e porcamente, por assim dizer, estava de olho em nós. Dormia mas não queria ou queria mas não dormia, porque um olho estava fechado e o outro aberto. Era assim uma cena meio estranha. E lá iniciámos a nossa ronda, sob a vigia que dormia atento a cada passo, a cada movimento nosso.

 

Olhávamos os expositores, dávamos dois, três passos e apreciávamos o que estava à nossa frente. Comentávamos, trocávamos impressões e o chinês, como um autómato, abria os dois olhos só para dizer novamente “não pode levale; só a caixa inteila…” mas nós já sabíamos disso, não era preciso ele repetir. Mas respondíamos que sim e continuávamos a nossa visita pela loja, ignorando o chinês. E esta cena repetiu-se vezes sem conta. Nós já sabíamos que mais uma vez ele ia abrir a boca para dar o recado e ele também já sabia que a seguir, a nossa resposta ia ser a mesma, mas aquele diálogo continuou certinho, durante todo o tempo que lá estivemos, que foram cerca de trinta minutos. Já não o podíamos ouvir. Porém, teimosamente, continuávamos na nossa intenção de ver todas as malas, da primeira à última, percorrendo assim o espaço completo da loja.

 

E quando acabámos de ver tudo e estávamos na reta final, já em direcção à porta da rua, faltava apenas um enorme caixote que estava no chão, a pouquíssimos passos de distância do chinês, a Teresa e eu parámos para espreitar e mais uma vez o chinoca lembrou “não pode levale, só a caixa inteila”…! Porém, em vez de responder, como fizera anteriormente, de todas as vezes que ele interviera, fiquei parada num saco que atraiu a minha atenção. Sussurrei com a Teresa que era giro, o que ela confirmou. Fiquei um pouco a contemplar o saco, observando-o de vários ângulos. Olhámos uma para a outra continuando a apreciar e estava decidido, o saco era meu porque eu o queria, mas só aquele e não a caixa “inteila”, claro estava. Mas como havíamos de fazer? Olhámos uma para a outra pensando o mesmo, mas sem perder tempo e com o saco na mão, desprezando completamente as advertências da caixa "inteila", virei-me para o chinês e perguntei fria e secamente: quanto custa?

 

Ao mesmo tempo que sentia o constrangimento da Teresa, que parecia que até tinha ficado com a respiração em suspenso, o chinês levantou a cabeça e sem sequer pestanejar, respondeu: cinco euros. Estava feito(?!).