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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Maktub - 58



Eu era ainda muito pequena quando comecei a ter um sonho que se tornou recorrente. Um sonho que se desencadeou na infância e me acompanhou pela vida fora até muito tarde, até um dia desaparecer de vez. Muito provavelmente desapareceu quando já não precisava mais dele.

 

Não era um sonho agradável, nem um pouco. Era sempre a mesma imagem e o mesmo formato. Eu acordava e pensava, cá está ele uma vez mais, a invadir os meus sonhos e a perturbar o meu acordar.

 

Enquanto criança perguntava a mim mesma porque havia de sonhar com aquilo? Porque "aquilo" incomodava-me. Era quase um pesadelo, embora não tivesse a mesma força. E à medida que fui crescendo não tive outro remédio senão habituar-me a acordar, lembrando mais uma vez o repetidíssimo sonho, para não me esquecer nunca dele, embora eu já o soubesse de cor. Às vezes repetia-se na mesma semana, outras vezes podia ter intervalos maiores, de várias semanas, de vários meses e até anos. À medida que eu crescia tornava-se  mais espaçado, mas sempre o mesmo sonho, sempre igual. E se bem que, inicialmente, ou porque era muito pequena ou porque não queria “ver”, eu me perguntava o porquê de sonhar aquilo, bem depressa fui obrigada a admitir que aquilo tinha um propósito, uma advertência, uma mensagem muito bem codificada e não dava mais para fingir que não era nada. De facto, mais tarde eu haveria de perceber que "aquilo" estava bem relacionado com toda a história da minha vida, com todo o percurso que estava à minha frente.

 

Eu entrava numa sala ou num quarto, não sei, porque não havia mobiliário algum. Eram quatro paredes brancas e uma porta aberta, por onde eu entrava e onde começavam imediatamente a cair do tecto, também branco, enormes blocos cilíndricos presos por uma corda, que desciam, caindo no chão de forma aleatória. Um após outro, ou seja, mal um assentava no chão já outro estava a despencar do tecto. Eram enormes, pelo que, se caíssem em cima de mim, matam-me, sem qualquer sombra de dúvida. E eu ia saltitando, naquele espaço limitado, ia-me desviando ao acaso, sem nunca saber de onde sairia o próximo, para me poder desviar e proteger daquele inferno. O chão chegava a ficar cheio, sem mais espaço e quando assim era e eu não acordava para interromper aquela aflição, eles começavam a cair por cima dos que já estava no chão, enquanto eu continuava a movimentar-me sem parar, apenas para dar tempo a que não me apanhassem. Era aflitivo. Era um desafio que ia sempre aumentando e punha à prova a minha capacidade de resposta, sendo que essa resposta não se compadecia de inteligência ou de conhecimento, ou fosse do que fosse. Era o factor “sorte” que orientava a escolha. Ou então uma intuição. “Talvez” aqui, “talvez” ali. O facto é que ao acordar eu sempre tinha a mesma sensação de que, no fim de contas, eles, os cilindros de pedra, nunca me apanhavam. Eu sempre conseguia safar-me.

 

O sonho tinha dois lados, como uma moeda. Os prós e os contras, como tudo na vida, com a seguinte mensagem: “a tua vida vai ser sempre em função da tua orientação, aliada a uma especial intuição, onde os perigos estarão sempre à espreita, todavia, a sorte, ou a tua boa estrela sempre te guiará”.

 

Assim, aprendi a não ter medo. Aprendi que a vida é tudo o que temos que enfrentar, seja bom ou não. É o destino, como dizem os árabes - “maktub”.

 


quarta-feira, 8 de abril de 2020

Covid 19 - 57


Dois mil e dezanove / dois mil e vinte, um ano diferente. Um ano que nunca mais esqueceremos.

 

Um ano difícil e que exigiu de todos, independentemente do sexo, da idade e da etnia; da cultura, da religião, da posição social e estatal, uma atitude firme e uma fé inabalável. Uma paciência sem limites e uma aceitação quase infinita.

 

Um ano em que todas as nossas capacidades foram postas à prova de fogo e que apelou à boa vontade de todos e de cada um em particular. Um ano em que tivemos que nos superar a nós mesmos e que testou todos os nossos horizontes, fazendo-nos sair da nossa zona de conforto, das nossas rotinas, das nossas famílias e do nosso universo unidimensional. Um ano completamente inesperado, que nenhum ser humano podia prever, nem sonhar e muito menos viver.

 

Um ano terrível e para muitos particularmente doloroso, que tiveram que abdicar do último adeus aos seus entes mais queridos. Um ano em que assistimos nas redes de comunicação social a imagens de verdadeiros horrores, em que o caos se instalou e por todo o lado imperou. Um ano que nos fez chorar lágrimas de grande angústia e o desespero muitas vezes nos dominou. Um ano em que o medo teve o seu lugar de destaque e com ele fomos obrigados a ver, sentir e vivenciar a dor, porque onde ela passou.

 

Um ano verdadeiramente infernal para todos quantos tiveram que se desdobrar para se manter e manter os outros sob cuidados de saúde física, mental, espiritual. Um ano que se atravessou no caminho de todos, alterando projectos, trabalho, viagens, sonhos... traçando o seu próprio destino, cumprindo o seu exacto caminho. Um ano em que a terra estremeceu e mostrou ao homem que quem manda é o universo e que perante a essência do criador nada somos.

 

E mais... que é preciso, é urgente fazer a mudança, a mudança que começa em nós mesmos. A mudança que fará toda a diferença quando deixarmos de pensar menos no “ter” e muito mais no “ser”.

 

Um ano amargurado em que muitos foram exaustivamente massacrados com uma carga de trabalhos redobrados em quantidade e qualidade, enquanto outros simplesmente pararam, para serem obrigados a ter tempo para si e para o seu agregado familiar ou simplesmente se desorientaram por não saber o que fazer.

 

Mas, acima de tudo, dois mil e dezanove / dois mil e vinte – o ano em que o mundo mudou - ficará na história da humanidade como o ano que nos ensinou a ser mais fortes do que nunca antes ousámos ser.

 

O ano em que aprendemos a valorizar tanto a vida, que nos fez compreender, de uma vez por todas, que a vida é hoje.

 

sexta-feira, 20 de março de 2020

IC 17 - 56


Da varanda da minha casa olho a paisagem à volta, vejo a serra que felizmente ainda tem muito verde para espraiar a vista e relaxo. Quando estou cansada ou entediada vou até à varanda e aprecio a vista.

Algures, por entre a serra, vejo a IC 17 e deparo-me sempre com o trânsito infernal que nela passa. Também eu por lá passei e vezes sem conta fiquei parada durante muitos anos enquanto trabalhava. Felizmente, desde há algum tempo, não preciso mais de enfrentar essas confusões, a não ser esporadicamente, por algum motivo pontual. Tirando isso, dessa parte já me livrei. E fico observando o correr do trânsito.

Nos fins de semana o trânsito corre, não fica parado e não raras vezes tentei fazer o exercício mental de contar em simultâneo os carros que passam para norte e para sul. Desde a primeira vez que fiz isto, percebi logo que era uma causa impossível. Uma impossibilidade completa. Mas como sou teimosa, quando penso numa coisa que quero fazer e não consigo, em vez de desistir, vou sempre tentando. Mas isto é uma coisa que eu sabia perfeitamente que não iria conseguir nunca.

A mente, a minha mente, é uma mente “normal”, felizmente, e uma mente normal não tem os poderes cognitivos tão alargados que consiga fazer duas contagens ao mesmo tempo. Contar num sentido é uma coisa e mesmo que sejam muitos carros, a coisa vai. Fazê-lo simultaneamente e em dois sentidos, mesmo que fosse em sentidos iguais, duas contagens é impossível. Pelo menos para mim, e desafio quem quer que seja a fazê-lo. Não faz.

O cérebro dos humanos não tem a menor capacidade de fazer esse prodígio. Pode até haver quem tenha essa capacidade. Mas isso são excepções. Já vi na televisão programas sobre esse assunto e com efeito há pessoas, raríssimas, que têm uma mente prodigiosa que consegue cálculos matemáticos em grande escala, em apenas segundos. Conseguem o que mais ninguém consegue. Como(?), não faço a menor ideia, porque eu jamais faria. Tenho que aceitar que são cérebros diferentes, sem as limitações que os outros, os “normais” têm. Parece mentira, mas acontece.

Quanto a mim e como gosto de desafios, vou sempre tentando, ainda que de antemão tenha a certeza de que não é possível. Por isso, quando chego ao segundo ou terceiro de uma das direcções para passar ao primeiro da outra direcção, já estou toda baralhada e volto ao princípio, à espera de não ficar bloqueada e desejando que os carros passem o mais distanciados possível uns dos outros, tanto para a direita como para a esquerda, para me darem tempo. É um exercício inútil, mas eu vou fazendo. E perdendo, também. Sempre. Disso não há dúvidas. Ou não havia.

Sim, não havia...

Agora, nos dias que correm, fui surpreendida com um facto. Venho à varanda, olho a paisagem, observo o horizonte, a serra, o céu, ora limpo ora delineado de nuvens, vejo a IC 17 e de repente, com o maior espanto, consigo fazer a contagem, o que é simplesmente incrível. Quem diria que esse dia chegaria!? E fico parada, segurando os números apenas para não me esquecer. É mesmo incrível!?

Quando me dei conta disto entrei em processo de meditação automático e percebi que, seja pelos motivos que forem, não há nada que não seja possível. Ou melhor, não há “impossíveis” definitivos, o que significa que a “esperança” é aquilo que nunca morre. Não, não é a última coisa a morrer, porque se morrer não é esperança. É aquilo que nunca morre, mesmo depois de morrermos. Quantas coisas não se realizam depois da nossa morte(?!)... Mas isso é outro assunto.

No caso, temos a contagem dos carros que passam na IC17, uma das mais movimentadíssimas vias, por ser a circular exterior da área metropolitana de Lisboa. Agora eu olhava e com toda a facilidade, os números fixavam-se na minha memória, sem a mais pequena dificuldade.

Milagre? Não. Alguma coisa mudou em mim? Também não. As minhas capacidades continuam exactamente as mesmas, certa de que com a idade não hão-de melhorar, só pioram. E a IC17 também não mudou, continua a passar no mesmo sítio. Então, a que se deve esta mudança súbita, perante um facto que era dado como certo, não conseguir contar em simultâneo os carros que passam para norte e os que passam para sul?!

Fiquei contente com o facto? Nem por isso. Mas eu sempre quis ser capaz dessa proeza!? Mas agora já não queria. Ou seja, preferia mil vezes continuar a não ser capaz de contar, porque isso é que era normal. Estava sem palavras para comigo mesma. Até o meu pensamento estava lento, lento e sem saber o que pensar, olhava a via rápida e era um verdadeiro desalento. Silenciosa, calma e tranquila, comparado com o que era. Tão diferente, tão anormalmente diferente. Mas ao menos isso podia fazer com que me sentisse um pouco feliz, por finalmente poder fazer a contagem que eu tanto desejava ser capaz. Mas não. Porque agora dava-se o inverso. Agora eu queria voltar a não ser capaz de contar, como antes, como era, como deveria ser.

E somos mesmo complicados, ou nem tanto. Mas agora e, mais do que nunca, eu não queria mesmo ser capaz de contar os carros. Queria ver a IC 17 bem cheia. E mais, queria poder sair de casa livremente e ir para onde muito bem me apetecesse. Poder falar às pessoas sem o mais pequeno constrangimento. Olhar para as ruas e ver gente e mais gente a circular. Os jardins e os parques cheios de crianças a brincar e a correr, felizes e contentes. Queria poder continuar a encontrar-me com os meus amigos e as minhas amigas, combinar almoços e jantares e festas e quanta coisa mais.

Queria ver a minha neta ao vivo e a cores, poder abraçá-la e beijá-la muito e matar saudades. Queria ir à praia apanhar sol e caminhar à beira mar. Queria andar nas ruas à procura de motivos para fotografar. Queria conviver e confraternizar como habitualmente fazia…

E mais... bem mais do que tudo, eu só queria ser capaz de saber esperar. Esperar que o Covíd 19 se fosse embora de vez, para voltar a olhar para a IC 17 sem conseguir contar os carros que por lá passam...

 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

O Poço - 55


Era um belo dia de Outono em que a folhagem cobre todo o chão, juntando-se aqui, juntando-se ali e especialmente nalguns sítios, nomeadamente, no poço, completamente coberto de folhas secas, caídas das árvores e arrastadas pelo vento.

 

Apesar de Outono o dia estava lindo, o céu azul transparente e o sol afagava docemente, como que acarinhando, a nossa pele. A quinta era um convite ao bem estar, ao lazer, à boa disposição. Sobretudo, depois da excelente refeição com que fomos presenteados. Pessoas humildes, mas gente muito boa, que davam o que tinham de melhor em todos os aspectos.

 

O gado pastava livremente enquanto estávamos sentados em volta da mesa conversando disto e daquilo, vagarosamente, sem pressa de nada. As crianças brincavam e a quinta parecia que sorria alegremente para nós.

 

Para quem nasce na cidade, vive na cidade, a oportunidade de estar entre a natureza é uma verdadeira dádiva. Era assim que eu me sentia. Presenteada pela vida. E aquilo é que era correr, espreitar tudo, observar as sementeiras, contar as árvores de fruto, tudo era motivo de admiração e observação. E o poço!...

 

O poço já deveria ser muito velho. Já devia ter dado muita água, regado muita terra, alimentado muito gado e muita gente, como não?! Uma quinta não sobrevive sem um poço. Agora, o tempo tinha passado, tudo era diferente, mas o poço lá estava coberto pela folhagem. Por baixo da folhagem devia haver terra seca ou enlameada, se é que alguma coisa sobrava.

 

E não havia tédio. De alguma forma, todos se distraíam. Ao fim do dia partiríamos, mas até lá, era aproveitar com todo o agrado o que a natureza tinha de melhor para nos oferecer.

 

E a brincadeira foi para o jogo das escondidas, onde cada um arranjava um sítio melhor que o outro. Estava realmente um dia excepcional e um clima maravilhoso. E o poço!... O poço, que sem saber porquê, tanto me cativava, activando a minha imaginação. Mas ali não havia nada. Apenas folhas e mais folhas, um verdadeiro amontoado de folhas. Seria interessante que assim não fosse, que estivesse limpo e cheio de água. A água é sempre interessante de se observar. E imaginava o poço a funcionar, com baldes carregados de água a saírem de lá para várias funcionalidades. Olhava a espessa camada de folhas e tentava imaginar água limpa, onde tudo se reflectiria. Rostos, corpos, árvores, céu, sonhos… enfim. Era uma pena o poço tão seco e abandonado.

 

No meio de tanta brincadeira e descontracção, de um dia que parecia perfeito, apeteceu-me entrar no poço, passar para o seu interior. Sem hesitar, pulei o muro que o circundava, com cuidado para não me desequilibrar e cair, não fosse magoar-me, o que não dava jeito nenhum e fiquei de pé, prontinha para cair lá dentro. E no preciso momento em que me predisponho a saltar para dentro, eis que uma pedra vinda não sei de onde, alguém que se lembrou de a atirar, passa no meio da folhagem, ao mesmo tempo que se ouvia um som característico como um “tlim”… desaparecendo por completo, enquanto um repuxo de água se solta, atingindo uns bons centímetros de altura, para voltar a cair por sobre a folhagem, abrindo caminho, apartando as folhas secas, deixando-me com a respiração cortada e completamente em desequilíbrio, quase sem tempo para apenas recuar, olhando abismada as folhas que continuavam a deslocar-se, mostrando toda a água e mais água, que se aclarava e se aquietava à medida que as folhas se afastavam, levando o meu enorme espanto, que seguia o rumo da pedra, perdendo-se pelo poço dentro para no fundo repousar e não mais voltar...(!?) 


quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Uma pequena distracção - 54


João Bosco Soares da Mota Amaral, Presidente do Governo Regional dos Açores. Tudo estava no começo: a RTP nos Açores e Mota Amaral no Governo. Até eu, que me tinha transferido de armas e bagagens para a Delegação da RTP em S. Miguel, Ponta Delgada.

 

Mais ou menos seis meses depois de ter chegado aos Açores conheci aquele que viria a ser o meu marido e pai do meu filho, o António. A empresa abriu concurso para admissão de técnicos nos seus quadros e ele que tinha recentemente chegado à sua terra natal e andava à procura de emprego, depois de ter passado uns anos em Angola, no cumprimento do serviço militar obrigatório, vinha agora concorrer, tendo sido admitido como operador de câmara, o que o fazia andar por todo o lado, na cobertura de tudo o que era notícia, acompanhando os jornalistas em todos os trabalhos televisivos. 

 

Mota Amaral, como Presidente do Governo Regional, andava sempre em viagem e a televisão atrás dele, claro está. Era um indivíduo discreto, reservado, com muita ética profissional e muito seguro de si, o que lhe conferia um certo à vontade e que lhe ficava muito bem, porque sabia estar, como se comportar e penso que agradava a toda a gente, pelo menos como pessoa. Com os jornalistas e operadores da RTP tinha até uma certa familiaridade, pelo muito que conviviam. Era uma constante, como facilmente se compreende. E sempre que havia que ir ao encontro dele e de quem o acompanhava para o efeito, o pessoal identificava-o por "Joãozinho", sem que nisto houvesse o menor desrespeito pela sua pessoa. Conforme já disse, toda a gente gostava dele.

 

Nesta altura, eu e o António já namorávamos e ele ficava uns dias em casa da mãe e outros em minha casa. Andava de cá para lá e de lá para cá, porque era quase ao virar da esquina e assim não se desligava por completo da casa materna, sendo que era bom estarmos juntos sempre que nos apetecia. Com isto, começou a haver muita coisa espalhada lá por casa, isto é, pela minha casa. Ele foi sempre muito desarrumado, muito desligado de tudo. As coisas ficavam onde calhava e mais nada. Talvez porque tinha a mãe que tudo fazia por ele e pelo irmão. Veio para minha casa e foi a bagunça completa. Sendo que sou o oposto, as coisas nunca foram fáceis. Ele devia achar que era a mim que cabia a missão de arrumar, só que não é possível andar atrás de ninguém a guardar e a arrumar isto e aquilo, uma coisa a seguir à outra, não é de todo possível, nem física nem psicologicamente, é uma canseira terrível e uma enorme frustração.


Tinha sido mais um dia de ir esperar Mota Amaral do seu regresso de Lisboa. Ao final da tarde, como acontecia muitas vezes por aquela altura, o pessoal reunia-se num café para conversar, descontrair, contar umas piadas e dar umas boas risadas. Encontravam-se uns amigos, comiam-se umas cracas, etc... e a piada daquele dia era a respeito da reportagem de Mota Amaral. 


Da mesma maneira que na RTP tratávamos João Bosco da Mota Amaral, carinhosamente, por "Joãozinho", também ele quando queria brincar usava os diminuitivos com o pessoal. E naquele dia lá foi um jornalista com um operador de câmara. Mota Amaral tinha acabado de chegar ao aeroporto, vindo de Lisboa com o seu pessoal e caminhava por ali fora em direcção à saída, onde o aguardava o motorista. Seguindo-o, o jornalista ia fazendo perguntas, ao mesmo tempo que o fazia parar aqui, parar mais ali, enquanto o câmara o seguia filmando-o e toda a sua atenção se concentrava na filmagem. As máquinas ainda não eram como agora. Eram mais pesadas, mais antigas, mais difíceis de manejar e carregar.


Mota Amaral vinha sempre de frente para ele e ele recuando para o apanhar sempre de frente. enquanto ia falando com o jornalista. Contudo, não lhe passou despercebido o insólito, isto é, o "pormenor" que não era pequeno e quase inconscientemente não parava de olhar para os pés do operador. António também começou a achar estranho o olhar insistente do Presidente do Governo Regional, para o que parecia serem os seus pés, mas longe de imaginar o motivo. Quando a reportagem terminou e os microfones se desligaram e a câmara parou de funcionar, bem mais descontraído, "Joãozinho" Mota Amaral não se conteve e em pleno aeroporto de Ponta Delgada, no meio de todo o pessoal que o acompanhava, e de mais uns quantos mirones que sempre gostavam de seguir o Presidente e estar de volta a dar fé de tudo, debaixo das luzes da ribalta, "Joãozinho" olha uma vez mais para os pés do operador de câmara que estava na sua frente e rindo diz "eh!... Antoninho, que aconteceu?" e dizia isto rindo, rindo, ainda que discretamente, mas rindo com gosto.

 

"Antoninho" olha, finalmente, e curioso, para os seus próprios pés e percebe a piada. Despistado como era, tinha os sapatos desirmanados, ou seja, um par de cada nação, o  que muito divertiu "Joãozinho", pelas boas risadas que deu com gosto.



segunda-feira, 2 de setembro de 2019

A Carla - 53



Há dias encontrei um ex-colega de trabalho e os dois começámos a tagarelar disto e daquilo, mais precisamente sobre a empresa, os colegas, alguns que já partiram, outros que também se reformaram e por aí adiante. Muitas novidades, outras nem tanto. Foi o caso.

 

De repente ele perguntou-me se me lembrava da Carla, uma colega do Serviço de Manutenção. Claro sim, respondi, a Carla da Drecção Técnica. “Ah, o filho dela é “gay”! E dizia isto com um ar de quem estava convencido de que eu iria ficar chocada ou pelo menos, muito admirada.

 

Convém esclarecer que em relação a este assunto não tenho nada contra, mas também não tenho nada a favor. Cada um é como cada qual. No caso em questão, quando ele me disse isto, não fiquei nada surpreendida. Ao contrário do que ele poderia pensar, para mim aquilo fazia todo o sentido. E porquê?

 

A Carla era uma mulher num sector que até então só tinha homens. Foi portanto, a primeira mulher a trabalhar em electrónica na empresa. Logo de seguida apareceu outra, mas essa outra era completamente diferente. Ambas eram casadas e com filhos. A Carla só tinha um, que por sinal era um rapaz. Lembro-me bem do garoto por lá, desde pequeno. Todos os funcionários, uma vez por outra, tinham necessidade de levar os filhos por não terem com quem ficar. E por tanto, assisti ao crescimento dele, como de muitas outras crianças. Aparentemente, era um miúdo perfeitamente normal. Um menino, apenas isso.

 

Mas a Carla não era uma mulher na verdadeira acepção da palavra, isto é, não era uma mulher comum. Ela era diferente. E não era pelo facto de estar num sector de homens. A outra também estava nas mesmas condições e, apesar de não me lembrar de alguma vez a ter visto maquilhada ou vestida de maneira mais sexy, nem por isso deixava de ser mulher, de ser feminina. Apenas era uma mulher bastante simples. A Carla não. A Carla era diferente. Não tenho como explicar de maneira lógica porque não era pelo facto, por exemplo, de usar o cabelo curto. Durante muitos anos usei o cabelo bem curto e as minhas amigas ficavam surpreendidas dizendo que quanto mais curto eu usava o cabelo mais feminina ficava. Portanto, não era por aí. Também não era o facto de nunca a ter visto de vestidos ou de saias. Usava sempre calças, mas quantas mulheres bem femininas só usam calças por se acharem mais sexys? A Carla, evidentemente, não se pintava, não se enfeitava, era estrictamente básica. Mas a outra colega também. No entanto, olhava-se para ambas e via-se a diferença. Uma era mulher sem margem para dúvidas, já a Carla não. Ela parecia sempre mais homem que mulher. Aliás, ela nunca parecia mulher. Até a voz dela, apesar de ser bastante suave e até meiga, não estava colocada na posição certa.

 

Portanto, não era possível dizer que era por isto ou por aquilo, mas qualquer pessoa olhava e no todo, via uma mulher diferente, apesar das formas avantajadas... apesar de tudo. Isto é tanto verdade que, na distribuição dos trabalhos, havia sempre o cuidado de, olhando a escala de quem estava de serviço, dependendo do trabalho em questão ser ou não adequado a uma mulher e se fosse o caso, e estivesse na vez da colega, a Leonor, o trabalho era imediatamente encaminhado para outro colega, um homem. Na vez da Carla, ninguém pensaria em dar o trabalho a outra pessoa. Ela bastava-se, não precisava de ser poupada à tarefa, qualquer que fosse. Era casada com um indivíduo bastante mais velho, bem parecido e tinha um colega também bastante mais velho que andava sempre a tentar seduzi-la. E em relação a isso ficou sempre a minha dúvida, ou ela não percebia ou fazia que não entendia.  Ela era uma mulher mas, insisto, não era uma mulher comum. O lado masculino nela era muito forte, muito acentuado.

 

E assim, quando o colega com quem eu conversava me contou que o filho dela era “gay”, usava até as unhas pintadas, etc… e havia gozação porque o preconceito sempre há-de existir, não fiquei nem um pouco surpreendida. Fazia todo o sentido. Aquilo era uma coisa genética e simplesmente tinha passado para o garoto. Nada a fazer. Compreendi perfeitamente que não se pode ir contra a própria natureza. As coisas são como são.




Um casal perfeito - 52



O senhor Carlos e a D. Leonor moram numa torre na Praceta contígua à minha. A D. Leonor foi-me apresentada por uma grande amiga, sua vizinha, de quem era também muito amiga e que, infelizmente, já não está entre nós. Sempre os conheci já com bastante idade, mas agora estão mesmo velhotes. Têm uma loja de roupas de homem e senhora muito próxima de casa e a vida deles é da loja para a casa e da casa para a loja. Às vezes, ao domingo, ele pegava no carro e lá iam dar uma voltinha e era tudo.

 

Nunca tive contacto com ele, mas com ela sim. De vez em quando, cruzávamo-nos na rua e cumprimentávamo-nos, sendo que me falava com muito agrado, muita simpatia, muita educação, mas sobretudo com muito carinho. E algumas vezes desabafava comigo situações da sua vida familiar. Foi ela que cuidou dos pais e dos sogros até ao fim das suas vidas e falava-me disso com algum sofrimento, mas sempre com um imenso respeito por todos eles, nunca demonstrando aborrecimento pelo cansaço ou sobrecarga que isso lhe tenha causado, o que seria normal. Era uma senhora impecável, sem nada a apontar. E comigo, era de um carinho tão grande, que dava gosto cumprimentá-la. Sempre tinha um sorriso bonito - porque ela era bonita -, nada forçado, com que terminava a conversa e falava-me mesmo com muita meiguice. Falava do marido com uma imensa ternura e dos vizinhos com toda a amabilidade. Era uma pessoa que demonstrava um grande equilíbrio emocional e sempre me pareceu bem adaptada à vida com uma resistência incrível. O marido muito cedo montou o negócio da loja, que por sinal até tem o nome dela e disso viveram sempre.

 

Nunca tiveram filhos. Viviam um para o outro. Como já disse, ela cuidou dos pais e dos sogros até ao fim, até que ficaram sozinhos, agora mais tranquilos, mais sossegados e a vida deles era muito pacata, muito tranquila. Muitas vezes, da minha varanda eu a via à janela, espreitando. Acenava-lhe e ela fazia-me adeus, muito contente. Era uma senhora muito agradável e até doce.

 

Mas tudo isto parece que faz parte de outra vida. É que as coisas mudaram. E mudaram drasticamente. O senhor Carlos continua a ser o mesmo. Alto, magro, velhote como sempre, mas direito que nem um fuso, sempre com seu charuto na mão e a fumaça no ar, nele nada mudou. Pelo menos, aparentemente. Já ela… não é mais a mesma, com grande pena minha.

 

De longe em longe, ainda a vejo à janela, por entre os vidros e as cortinas corridas de lado a lado para que ninguém possa ver o que está para lá. Mas há pessoas que são assim. As janelas não se podem abrir para os outros não “espreitarem”(!). Quanto à D. Leonor, a questão é que comecei a perceber que já não me falava como dantes. Ela até ficava contente quando me via e a partir de certa altura começou a ignorar-me, a esconder-se ainda mais. Lá teria os seus motivos, mas não dei especial importância. Talvez problemas de visão... talvez.

 

Entretanto, precisei de um tecido fino para acrescentar um forro de um vestido e para não ter que ir mais longe, fui até à loja do senhor Carlos. Normalmente era ela que estava ao balcão e ele ficava cá fora a apanhar ar e a dar as suas fumaças de cachimbo, com ar de patrão. Mas como já disse, tudo mudou. E como!

 

Entrei e ao balcão estava agora ele, o “patrão”. Estranhei, mas ainda assim, não dei especial importância. Mas, de repente, vejo a D. Leonor sentada num banco, num canto da loja junto à parede, olhando através da grande montra cheia de roupas completamente ultrapassadas. A posição dela e o ar distante e frio foram iguais desde que entrei até que saí. Cheguei, cumprimentei-os, disse o que queria, que por acaso não consegui e tive que ir a outro lado, mas o que importa é que foi ele que me atendeu, sempre senhor do seu nariz, com a sua postura de costume, como se nada estivesse a acontecer. A D. Leonor nada disse, não se moveu, não saiu da apatia em em que estava, não se desligou da ausência completa que a absorvia e na qual estava mergulhada, sem a menor vontade de regressar à realidade, ao aqui e agora. Estava longe, longe, completamente perdida no infinito. E foi assim que os deixei.

 

Esta cena incomodou-me demais. Saí de lá arrasada com o que tinha acabado de testemunhar. A D. Leonor estava numa completa solidão, ignorada por si mesma, mas também pelo marido, que não foi capaz de pronunciar uma só palavra sobre o estado da mulher, sabendo que nós nos falávamos tão bem. O que se passaria com a senhora? Aquilo não era uma briga de casal. Fui-me embora a pensar naquilo e a ficha caiu. Aquilo tinha um nome: Alzheimer! Só podia.

 

Passaram-se uns dias e novamente precisei de linha preta que tinha acabado. Como não me apetecia ir mais longe, decidi, uma vez mais, ir à loja do senhor Carlos. E assim também podia ser que conseguisse saber mais alguma coisa da coitada da D. Leonor, que me estava a incomodar muito.

 

Aproximei-me da loja e desta vez ela estava à porta. E, uma vez mais, ele ao balcão. A situação costumava ser inversa. Não que eu fosse lá muitas vezes, mas quando passava ali via sempre ela lá dentro e ele à porta a fumar. Para eu poder entrar ela teve que se desviar um pouco, o que o fez sem nada pronunciar. Todavia, o olhar que me lançou foi um olhar feroz, como se a culpa de ela estar assim fosse minha. Claro que percebi que o problema não era esse. O problema era exclusivamente dela. Entrei e ela foi direita para o seu lugar, o canto da sala e, mais uma vez, ficou a olhar para o exterior, aparentemente indiferente a tudo e todos.

 

O senhor Carlos atendeu-me e eu queria ter a coragem ou o atrevimento de perguntar por ela, mas foi como se ele me tivesse lido o pensamento e, sem mais nem menos, começou a falar. E dizia que a mulher não estava bem. Que toda a vida tinha sido uma companheira dedicada. Tratava da casa, cozinhava, tratava da roupa, enfim, fazia tudo em casa e ainda estava o dia todo na loja e agora não fazia nada, o que muito atrapalhava a vida dele. Já tinha pensado em ir para um lar com ela, mas achava que isso era “morrer”. Gostava de estar cá fora e fazer o que queria e a ideia de um lar não lhe agradava em nada. E continuava a queixar-se de ela agora não querer fazer nada. Estava a ser medicada para a “doença” que ele recusava admitir, mas a medicação não adiantava muito. Claro que a doença era Alzheimer e não era preciso dizer nada. Mas o facto de ele não o admitir era bastante sintomático e relevante.

 

E enquanto ele falava eu olhava discretamente para ela, lendo-lhe os pensamentos. O problema da D. Leonor era apenas o problema de um casamento “perfeito” de toda uma vida. Tinha uma óptima casa. Tinha tido uma vida de certa forma tranquila. Mas estava na ponta final e a tomada de consciência fazia-se presente, dizendo-lhe que tinha feito uma travessia inútil ou quase inútil. Que não tinha vivido a vida que queria ter vivido. Que tinha feito tudo em função dos outros e não tinha tirado partido de nada para si mesma. Uma boa casa para quê, se nem filhos tinha? A loja onde toda a vida tinha sido empregada do marido, o “patrão”. Uma vida de trabalho, dedicada aos outros, onde ela própria se tinha anulado por completo. E só agora ela via isso e como se arrependia! Tarde de mais. Estava velha e cansada. As rugas tinham tomado conta de todo o seu rosto e de todo o seu corpo. No olhar, era visível a revolta da sua alma, a raiva contida e o desprezo por tudo o que a rodeava. Nada mais lhe interessava. Era apenas uma pesada carga ao cima da terra. Como tinha sido tão estúpida consigo mesma? Como se tinha deixado levar até àquele ponto? Tudo tinha passado e não restava nada. Agora não havia mais volta a dar e toda a sua vida tinha sido um vazio e uma inutilidade tremenda, pois tudo ficara por viver.

 

Era isso tudo que passava na cabeça dela. É claro que isso mexia com ela de forma doentia e o “Alzheimer” tinha tomado conta dela. E agora, mais do nunca, chegara a sua vez de ser cuidada, mimada, de ter um pouco de atenção e compreensão da parte de quem mais o devia, o marido, o “patrão”.

 

E enquanto eu tirava o dinheiro da carteira para lhe pagar, ele continuava com as suas queixas do que ela já não fazia, etc, etc, etc… coitado dele que agora tinha que fazer tudo sozinho, etc… etc… etc…, mas o que mais me impressionou e me deixou completamente perplexa e sem palavras foi quando ele disse que é claro que ele sabia muito bem como aquilo tudo lhe passava em dois tempos – e fiquei curiosa -, com dois fortes estalos na cara e ela ficava boa de vez(!?)…