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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Cenas da vida conjugal - 51



Meu marido nunca gostou de se levantar cedo. Por sorte tinha um trabalho que lhe permitia escolher o horário que lhe conviesse e por isso estava quase sempre à noite, o que fazia com que pudesse dormir até bem tarde. Um horário assim significava entrar às quatro horas da tarde e terminar mais ou menos à meia-noite, dependendo do alinhamento da emissão. Além disso, independentemente da hora a que chegava a casa, ia direito para o computador, sendo que a hora a que se deitava entrava pela noite dentro. Já eu não podia fazer o mesmo porque, como a maioria dos trabalhadores, o meu horário era de dia e sempre o mesmo, manhã e tarde.

 

Isto era bastante complicado de gerir, não para ele que só fazia aquilo que queria, mas para mim, que tinha que levantar o meu filho à mesma hora, sair comigo, levá-lo à ama e mais tarde à escola e por aí adiante. No regresso a cena repetia-se. Eu ia buscá-lo e regressávamos os dois a casa. O pai nunca ou, raramente, estava connosco. E quando assim não era, a verdade é que a situação ficava ainda pior porque, se ele podia dar-se ao luxo de entrar atrasado, já eu não podia, pelo menos em teoria. Anos a fio, dava-me uma grande sobrecarga sob todos os aspectos, porque nunca andávamos a par e passo.

 

Mas aí, chegou o dia em que começou a sentir uma necessidade de se habituar a levantar mais cedo e até fazer uma tentativa de escolher um horário de dia e aproveitar o tempo de maneira diferente. Isto era uma verdadeira fantasia, porque o que ele fazia fora da empresa, fosse a que horas fosse, era sempre o mesmo: trabalhar. Esse era o mundo dele. Não estarei errada se pensar que nunca na vida preparou uma refeição, nem que fosse só para ele, muito menos para a família. Nem me lembro de alguma vez ter ido ao supermercado para fazer compras para casa… era assim.

 

Mas realmente dizia que queria “mudar de vida”. Como então? Começar a levantar-se à mesma hora que eu e o filho. Era isso que ele queria, ou dizia que queria, mas todos os dias acontecia o mesmo. Nós levantávamo-nos, despachávamo-nos e ele lá, entre vale de lençóis, dormindo sem fazer o menor esforço para se levantar. Em todo o caso, todos os dias se lamentava, dizendo que queria tanto levantar-se cedo(!)… queria, mas não se tinha levantado. E todos os dias era a mesma cena, lamentações por causa de não se ter levantado cedo. Até que se lembrou que eu tinha que chamá-lo, isto é, acordá-lo. Era isso que era preciso. A partir daí a minha missão, além do que já tinha para fazer, era ser o despertador dele. A mim ninguém me chamava, mas tudo bem. Estava combinado, eu passaria a acordá-lo todas as manhãs. Se era essa a solução para resolver o problema de se levantar de manhã, como parecia tanto querer, porque não? Acordá-lo-ia conforme seu pedido.

 

E começou a minha tarefa de chamá-lo todos os dias. Despachava-me a mim e ao filho e já na hora de saída ou enquanto tomávamos o pequeno almoço, lá ia eu chamá-lo. E embora eu estivesse simplesmente a ir ao encontro de um pedido dele, era difícil, porque ele não reagia nada bem e era um constrangimento e tanto. Uma grande chatice. Mas nada que não fosse previsível. E todas as manhãs tínhamos esta saga. Se ao menos resultasse, enfim, mais sacrifício menos sacrifício... o pior é que não resultava. Balbuciava, virava-se para o outro lado e ficava. Levantar-se era exactamente o que não fazia. E a cena repetia-se todos os dias, o que me deixava terrivelmente frustrada, saindo de casa já aborrecida.

 

Mas as coisas conseguiram piorar. Durante o dia, quando nos encontrávamos no trabalho e ele se confrontava com o facto de continuar a não se levantar e a entrar tarde, teve outra ideia magnífica. A culpa era minha(!?) Era minha porque não fazia muito esforço para o acordar, isto é, tinha que ser mais insistente, mais firme, porque ele queria mesmo levantar-se de manhã. Sorte malvada! Só deus sabe o que me custava toda aquela situação a somar a todas as outras que não vêm ao caso e ainda assim, claro, a culpa era minha. Até porque a culpa era sempre minha, fosse do que fosse, nem podia ser de mais ninguém.

 

Mais empenho, mais vezes a chamá-lo, a dizer-lhe que era ele quem tinha pedido, se é que se tinha esquecido disso, enfim, uma verdadeira luta que se repetia diariamente, sem solução aparente. E a cada vez que o chamava ele respondia que já ia, que já tinha ouvido, mas continuava na cama. O meu dia começava sempre com uma significativa carga negativa. E as desculpas iam sempre no sentido de me fazer sentir incompetente e culpada. Pois claro. Começou a desculpar-se, dizendo que nem me tinha ouvido chamá-lo, que se tinha respondido era inconscientemente, que eu não queria saber, não o ajudava… etc… etc.

 

Até ao dia em que me cansei e decidi pôr ponto final. E quando eu decido uma coisa não há quem me demova. Está decidido, está decidido. Não sei se é bom ou mau, mas é assim, desde que me conheço. Ele sabia perfeitamente que eu o chamava e sabia o esforço que eu fazia para ele se levantar. Se não se levantava, decididamente, era porque não queria e agora eu não estava mais disposta a continuar a deixá-lo brincar comigo daquela maneira. Ele sabia que estava a mentir e que eu sabia disso. Estava a fazer de mim parva. Então, eu só tinha que fazer o jogo dele, mais nada. E pensei, se ele não está disposto a reconhecer que o problema é dele e se joga para cima de mim, indeterminadamente, que não o chamo, que não ouve, etc…, sabendo perfeitamente que isso não é verdade, então vamos jogar os dois e vamos ver quem ganha.

 

E a partir daí deixei, simplesmente, de me dar ao trabalho de sequer o chamar ou acordar. Fim de capítulo. Se quisesse que fosse à luta. De qualquer maneira ele já fazia questão de me atirar à cara que era eu que não o acordava, pois era isso que eu iria fazer. Eu não lhe daria mais o trabalho de me mentir descaradamente. E pronto, acabou-se a saga. E agora era ele que vinha ter comigo dizendo que não o tinha chamado. De facto, não o tinha chamado. Ele tinha toda a razão. Mas isso eu não lhe dizia. Tinha chegado a minha vez de “fingir”. E perante toda a indignação dele em relação ao facto de o não ter chamado, reagi como de costume, dizendo que o tinha acordado, sim, como todos os dias o fazia e mais uma vez ele tinha ignorado, o que era falso porque, na verdade, eu não o tinha chamado. Primeiro ficou na dúvida, depois talvez até tenha acreditado, tendo em conta tudo o que estava para trás.

 

No segundo dia voltou a questionar-me e tranquilamente voltei a dizer-lhe que o tinha acordado como todos os dias e que já estava habituada à reacção dele e, portanto, já não tinha nada para dizer. Nesse dia a dúvida ficou. E no terceiro dia a cena repetiu-se, voltei e mentir, o que me deu um enorme gozo, e mais calma do que nunca, encolhi os ombros, respondendo simplesmente que era o costume, sem mais reacção da parte dele. 

 

A ficha tinha caído. Ele agora sabia que eu estava a mentir e era essa a minha intenção. E como não estava em posição de exigir nada, porque sabia que durante todo o tempo tinha estado a "brincar" com a minha paciência, calou-se de vez e o assunto acabou, o que já não era sem tempo.

 

Amor com amor se paga e "para grandes males, grandes remédios”!...

 


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O carro da Lúcia - 50


A Lúcia era minha colega, minha amiga e uma parceira incrível para todo o tipo de coisas, porque sempre nos punha a rir, sobretudo quando menos se esperava, porque tinha um sentido de humor invejável que a fazia estar sempre bem, contagiando todos. Conseguia tirar partido de tudo, até quando a coisa era séria e feia. Quando parecia que o drama estava instalado, a Lúcia largava aquelas gargalhadas fortes e desconcertantes, que faziam o milagre de transformar o drama da vida numa verdadeira festa ou quase.

 

Um dia a Lúcia comprou um carro novinho em folha - zero quilómetros. Estava feliz da vida. O dela já estava estava velhote, com bastantes anos, de modo que depois de muito ver e de muito pensar, aconselhada por um primo entendido na matéria, decidiu-se por um Honda Jazz, na altura bastante publicitado.

 

Dava gosto ver a felicidade dela, o prazer e a satisfação que aquele carro lhe proporcionava. Já andava há tanto tempo para concretizar aquela necessidade, filha única, a mãe decidiu dar-lhe uma ajudinha e o carro novo lá saiu. E agora queria que todas as amigas e colegas vissem e experimentassem o seu Honda, mais precisamente Honda Jazz. Já tinha levado as primas e seus respectivos filhos a passear no carro novo e passava a vida a convidar toda a gente para experimentarem o seu Honda novinho em folha, como ela fazia sempre questão de mencionar.

 

E um dia chegou a minha vez. Num fim-de-semana combinámos um passeio e lá fomos nós. Ela queria que eu conduzisse mas eu recusei-me. Gosto muito de conduzir mas é no meu carro, assim como também não me agrada que os outros conduzam o meu. Carro gosta e habitua-se a ser conduzido pelo seu dono. E assim, lá fui conduzida pela Lúcia, cuja felicidade era bem visível. Eu estava contente por ela, pois era um gozo muito bem merecido.

 

Fomos pela marginal fora, passando por todas as praias, apreciando o bom tempo, o sol, o calor, a luz do início do outono, conversando disto e daquilo, mas volta e meia a conversa era o seu rico Honda. E ela achava o carro tão bom que, estando eu na iminência de ter que trocar de carro, queria convencer-me a comprar um Honda.

 

Bom, em primeiro lugar, Honda não é propriamente a minha marca de eleição. É assim, cada um tem as suas manias e eu tenho as minhas. Mas Honda não. Além disso, durante os quilómetros que já tínhamos rodado, eu achava que o carro não era propriamente grande coisa. Primeiramente, pensei que era da condutora, mas com o andamento comecei a notar que o carro não desenvolvia, não tinha pedalada. E para ser sincera com ela, como sempre sou, disse-lhe que achava estranho o desempenho do carro. 

 

Ela não concordava nada comigo, pois claro e dali começou um desacordo entre as duas. Desfazia-se em elogios com o carro, que era muito dinâmico, que aqueles carros andavam muito e eram bastante nervosos, etc… mas eu não via nada disso. Podia ser da condução? Podia, mas não era só isso. Já tínhamos feito quilómetros suficientes e eu não percebo nada de carros nem de mecânica, contudo, o que eu via era um carro cuja performance não me convencia, mas de jeito nenhum. E continuei a dizer-lhe o que achava, que o carro não andava. Ela tentava convencer-me do contrário, em vão. Por mais que ela se esforçasse e dissesse o melhor possível do carro, aquele carro para mim não servia. Estava muito aquém do exigido para ser o meu carro. Definitivamente não gostei e na minha modesta opinião, aquele carro não andava.

 

A Lúcia não estava a gostar da minha apreciação sobre o seu querido carro, mas eu não podia mentir-lhe. Era o que era. Contudo, se para ela estava bem, que bom! O carro era dela, não era meu?! Se eu comprasse aquele carro, ele saía do stand para voltar a entrar. Para mim um carro tem que andar. E não é que eu tenha carros de corrida, nem tão pouco seja uma condutora de carregar no acelerador. Considero-me uma condutora bastante cautelosa, mas um carro tem que andar, tem que ter um mínimo de desenvolvimento e o que eu via era que aquele carro era “pobre” demais nesse aspecto. Não, eu não queria nada daquilo. Mas ela estava feliz, deixá-la lá estar como queria. Por sinal, isto foi até comentado no trabalho com os colegas e ela fez questão de frisar que eu não tinha gostado do carro, mas mantive a minha opinião. Porquê mudar?

 

O tempo passou e a Lúcia sempre muito contente com o seu carrinho. Passou sensivelmente um ano e um dia a Lúcia recebeu uma carta da Honda. Nessa carta pediam-lhe que, logo que lhe fosse possível, se dirigisse ao concessionário mais próximo para um assunto do seu interesse. Tudo bem. A Lúcia foi ao stand e o carro foi directo para a oficina. Falaram com ela, fizeram o que tinham a fazer e o Honda voltou à rua conduzida pela Lúcia.

 

Quando chegou à RTP com a carta na mão, veio ter comigo, gritando e ainda mais feliz do que antes: “amiga, tinhas razão, os carros da série em que o meu estava incluído tinham um erro de fábrica que só agora foi detectado; trocaram uma peça e agora sim, agora o meu carro anda. Agora o meu carro anda!… Tinhas razão!... ... …



domingo, 28 de julho de 2019

Uma mãe chata - 49


Eu era uma mãe chata. Pelo menos era assim que era vista, como uma mãe muito chata, porque cuidava do meu filho. E estavam sempre todos a pôr-me mil defeitos, porque não o deixava assim, porque não o deixava assado, porque isto e porque aquilo, mas todos queriam desmandar ou mandar na minha maneira de ser “mãe”. Mas nunca me deixei levar pelos comentários nem pelas vozes dos outros. O meu filho era responsabilidade minha e só minha. Portanto, família, amigos, ninguém tinha que se meter na maneira como eu educava o meu filho.

Uma vez, estando de férias nos Açores, era uma noite de verão e fomos visitar uns amigos, amigos do peito, que viviam perto de Ponta Delgada. Eles tinham um filho com quinze anos e uma menina com três anos. Era muito grande a diferença de idades entre ambos, por isso aquela menina era tratada como uma princesa. E a São, a minha amiga, não fugia à regra de achar que eu era muito chata como mãe.

Estava uma noite de Agosto muito quente e fomos desinquietá-los para virem connsco até à marginal, apanhar um pouco de ar fresco, mas eles não estavam para aí virados. O meu filho tinha nessa altura cinco anos e ele e a menina, a Catarina, logo começaram a brincar um com o outro, como é normal. E como não se largavam um do outro, convencemos os pais preguiçosos a deixarem vir a menina connosco para fazer companhia ao Henrique e brincarem mais um pouco. A São chamou-me à parte e quase em segredo disse que não deixava a Catarina aos cuidados de ninguém, porque aquela menina era um presente da vida. Apareceu quando eles já não pensavam mais em ter filhos. E de repente vem a Catarina e foi um alegria e tanto. E então, continuando a conversa quase secreta, confessou-me que excepcionalmente a deixaria ir porque era comigo e sabia que comigo estava bem entregue.

Entendi o recado. E percebi o contrassenso da questão. Então, para cuidar do meu próprio filho eu era sempre tida como muito chata, mas para cuidar da filha dela já não era. Só ia comigo porque sabia como eu era cuidadosa, era essa a palavra. E que comigo ela sabia que estava bem entregue. Esta vida tem coisas curiosas. E lá fomos passear na avenida marginal, cheia de gente, onde as crianças brincaram, correram, riram e gritaram até à hora de ir levar a Catarina a casa.

Um dia a minha prima-irmã, bem mais irmã do que prima porque fomos criadas juntas e que era uma das primeiras a criticar-me e sempre a repreender-me porque eu era muito chata para o meu filho, teve que se ausentar para África, onde ela fazia trabalhos de campo, na qualidade de antropóloga. Ela é bastante mais nova do que eu e nessa altura tinha o primeiro filho, o Afonso, com precisamente nove meses. Desde que ele nascera ainda nunca se tinha separado dele. Mas aí estava um trabalho do qual não gostaria de abdicar. E como resolver o problema? Ela tinha uma empregada o dia inteiro em casa com quem o Afonso ficava até ela ou o pai chegarem, mas para o deixar sem ela, só com o pai, era complicado. Deixá-lo com os avós era uma hipótese, mas apenas se não houvesse outra melhor. A quem é que ela recorreu? Pois é, telefonou-me porque precisava de falar comigo, contou-me que tinha que ir para a Guiné, mas só podia ir com o filhote bem entregue para poder ficar completamente descansada. E na verdade eu era a única pessoa em quem ela podia confiar plenamente. Eram nove dias fora de casa. E tinha que ser eu, só eu e mais ninguém. Pois é, mas não podia ser. Eu trabalhava e não podia ficar em casa a cuidar do filho dela. Nunca pude com o meu, ia ser com o dela? Ficou com os avós e ficou muito bem.

As pessoas são estranhas. Para cuidar do meu filho era muito isto, muito aquilo, mas para os delas era a única em quem confiar. Fantástico! Afinal era uma mãe chata ou era apenas uma mãe cuidadosa?!


sábado, 27 de julho de 2019

O gesto é tudo - 48


Eram quatro horas da tarde e levantei-me para ir à casa de banho. Quando cheguei ao corredor de acesso comecei a ouvir vozes que logo identifiquei: a Cristina e a Maria João. E apesar de não estar consciente do teor da conversa, mesmo sem querer, apanhei a questão.

Não raras vezes, as coisas que se passam ao nosso redor nos escapam, sobretudo se forem coisas que não nos dizem nada ou que não sejam connosco. Contudo, ao mais pequeno pormenor que capte a nossa atenção, percebemos que afinal o nosso subconsciente absorveu tudo, ainda que sem consciência disso. É uma espécie de armazém que guarda em stock e que vai buscar apenas se for necessário. E foi isso mesmo que aconteceu. Eu ouvia apenas vozes mas não me tinha apercebido de que estava a fazer parte do seu contexto.

E de repente lembrei-me de uma cena idêntica. A situação era exactamente a mesma, mas com outros actores em cena. Eu vou no corredor para ir à casa de banho e ainda cá fora começo a ouvir duas colegas. Uma falava de uma personagem feminina muito em voga na altura, uma socialite cujo nome não vem ao caso e que naquele momento também não foi pronunciado pela pessoa que dela falava, que tinha aparecido na televisão, etc, etc, etc… mas a outra a quem ela se dirigia não identificava. Não querendo dizer o nome, a Ana dizia no preciso momento em que entrei na casa de banho, “aquela parva”…  e ao dizer estas palavras, imediatamente passou na minha mente a imagem da pessoa em causa. Mas perante a descrição de “aquela parva”, a outra não identificava de maneira nenhuma e a Ana continuou “sim… a que anda com o outro”… e uma vez mais passou na minha mente a imagem do tal “outro”, com toda a nitidez. “Oh, sei lá quem é a que anda com o outro?!”… resmungava a colega. Neste momento, acabada de entrar no mesmo espaço físico, esclareci imediatamente o assunto, dizendo o nome da “parva”, bem como o do “outro” em questão. A Ana que já estava impertinente, talvez pela falta de perspicácia da colega, respondeu logo “pois claro, vê lá se ela – referindo-se à minha pessoa – não percebeu logo”? Era preciso dizer os nomes?!

Pensando bem, talvez não fosse assim tão evidente, pois há sempre personalidades em badalação a dar que falar, pelo que podiam sem outros personagens. O facto é que pelo jeito dela falar, imputando-lhe uma conotação de um certo desprezo, a imagem passou imediatamente na minha frente. Podiam ser milhentas, é verdade. Mas aquela era a pessoa de quem se falava na actualidade. Ainda assim, podia ser outra. O facto é que eu apanhei. E mesmo quando a Ana disse “que anda com o outro”, também podiam ser imensas. Mas a Ana referia-se a uma determinada pessoa e foi essa que eu visualizei. E é claro que não foi por acaso. A minha capacidade telepática estava cem por cento receptiva, coisa muito normal em mim.

Neste momento a cena era a mesma ou muito idêntica, só que o assunto era trabalho e o outro não. A Cristina precisava de resolver um problema e a Maria João dizia-lhe que tinha que ir falar com uma colega da televisão, porque elas eram da rádio, e estava a explicar-lhe quem era. Mas a Cristina não chegava lá. E por mais precisas que fossem as indicações ela não conseguia saber, respondendo sempre o mesmo, que não sabia quem era. A Maria João insistia em “uma que costuma ir almoçar com…, que faz…, que vai…, que e que… mas a Cristina não via nada. As duas já estavam cansadas, uma por explicar, a outra por não conseguir perceber. E então eu entro e sem dizer uma única palavra, faço uma exibição, imitando a outra que ela dizia que não sabia quem era. Levo as mãos um pouco à frente do peito, uma ao lado da outra, com os dedos um pouco expostos. Coloco um pé à frente do outro, a cabeça empinada e o nariz no ar, enquanto me vou virando à direita e à esquerda… e… fez-se luz. A Cristina deu um grito “Ah, já sei!”… e disse já sei, de um modo que queria dizer que estava farta de saber quem era. Claro!...

A Maria João passou-se de todo e reclamava “olha para esta… estou eu aqui há horas a dar todas as explicações detalhadas e nada. Chega esta, dá dois passos e já sabe!”... A Cristina ria, ria e dizia “pois, com os gestos que ela fez”!...

Sem dúvida, o gesto é tudo.


sábado, 8 de junho de 2019

Alice - 47


Alice voltava, apressada, para meu grande descanso(!)…

 

Degrau por degrau eu ouvia os passinhos de uma pequenina com pouco mais dois anos apenas, numa noite escura e fria de inverno. Ela era uma graça. Às vezes com trancinhas enfeitadas e coloridas, outras vezes com o cabelo solto e todo espetadinho, era uma perfeita miniatura da típica mulher Africana. Filha de pais Guineenses, com uma irmã já com quinze anos de um casamento anterior da mãe, era esta irmã que tomava conta dela quase todo o tempo. Fazia de mãe, de pai e estava sempre a cuidar dela.

 

Alice subiu até ao patamar e foi direita à porta de casa. Como não chegava à campainha, com as mãozinhas pequeninas deu várias pancadas para se fazer ouvir. Eu estava na minha casa, com a porta entreaberta, porque estava à espera de uma amiga e quando ouvi o elevador parar no terceiro andar, achei que era ela, a minha amiga. Mas não era. Em todo o caso, como ela deveria estar a chegar, continuei com a porta encostada, sem voltar a fechá-la, ao mesmo tempo que espiava Alice.

 

Na verdade, Alice já se habituara à confusão daquela casa e às festas com montes de gente que não fazia nada, a não ser beber e comer. Faziam-se festas por tudo e por nada. Inventavam-se festas para convidar os amigos e pôr música em altos berros que ninguém conseguia ouvir a não ser mesmo o barulho. Só o barulho. De tal modo que, para falarem uns com os outros e se fazerem entender, tinha que ser aos gritos. E para falarem ao telemóvel saíam de casa e vinham para o patamar, uma área razoável, uma vez que são seis apartamentos por andar, e aí ficavam, um, dois, três, uns quantos, cada um falando mais alto que o outro, o que a eles parecia não incomodar, porque as festas aconteciam com bastante frequência e os amigos sempre os mesmos. Eram umas a seguir às outras. Não havia sossego para ninguém. A mãe e a irmã iam para a cozinha e o pai ficava na sala a conviver com os amigos, sempre a entrarem e a sairem e uma confusão dos diabos. Mas Guineense é mesmo assim. Até que um dia um vizinho se chateou e chamou a polícia que interveio e a partir daí as coisas acalmaram bastante.

 

Alice anda por ali, de um lado para o outro. Não importa se são horas de tomar banho, de comer ou de dormir. Se quiser beber de um copo de alguém, imediatamente lhe dão o que ela quer. Se quiser comer seja o que for, chocolates, rebuçados, doces, o que quer que seja, um dá-lhe uma coisa, outro dá-lhe outra e ninguém chega a saber o que é que ela comeu e bebeu de verdade ou não. Se tiver sono encosta-se num canto qualquer ou num buraco do sofá e dorme no meio de tudo aquilo.

 

A televisão está num qualquer canal e os miúdos todos pegam no comando e mandam e desmandam. Ninguém presta atenção em nada. Independentemente do que está a passar na tv, a música está a todo o vapor, passando por colunas potentíssimas, que quase não cabem dentro de casa. Alguns ficam de pé, a fumar, encostados às janelas. Ninguém consegue falar com ninguém. Uns recostam-se e quase dormem. Outros estão sempre de telemóvel na mão, nas suas redes sociais preferidas. E Alice também se entretém muito com os telemóveis, que usa até descarregar a bateria, o que nada a atrapalha. Trata logo de ir pôr a carregar e alguém lhe passa outro para a mão.

 

A mãe trabalha durante o dia e quando volta para casa está cansada. Muitas vezes deita-se para descansar e adormece. Alice janta ou não, conforme. Se disser que tem fome, talvez lhe dêem um yogurt, um sumo de pacote ou cocacola, que é rápido e fácil. Guineense passa muito tempo a descansar na cama. Ou é porque está frio ou porque está calor.

 

Alice vai para a creche, onde passa o dia e onde gosta muito de estar porque tem muitos amiguinhos e brinca muito. É uma criança muito sociável e gosta de se fazer comunicar. Também canta e dança lindamente. É mesmo uma graça a dançar. Não que lhe tenham ensinado, mas porque vê muitos vídeos no telemóvel e imita com uma perfeição impressionante. Parece que já nasceu ensinada. Porque não é só a dança em si, é toda a incorporação dos gestos, de todo o seu corpo que fala e as expressões encantadoras que o seu rosto assume enquanto dança, é realmente enternecedor. O pai e a mãe babam a ver a sua menina bebé dançar, o que não é sem razão.

 

Alice aguardava que lhe abrissem a porta e eu continuava à espera da minha amiga. Se não estivesse à espera dela não tinha assistido à chegada do elevador, o que só mesmo por mero acaso. E o acaso fez com que visse saírem três adultos e uma criança: a mãe de Alice, a irmã e o primo, que está a viver temporariamente lá em casa, enquanto não arranja trabalho e um lugar para ele. Os quatro saíram do elevador e um de cada vez foram em direcção à porta de casa, que fica do lado oposto, em frente à minha. Um por um, entraram em casa, brincando, gracejando. Um por um dos três adultos, apenas, porque Alice não entrou. No meio dos três, Alice saiu do elevador e sozinha começou a descer as escadas. Fiquei atenta, à espera que alguém a seguisse, mas ninguém a seguiu(!).

 

No segundo andar, mesmo por baixo deles, mora outra família guineense que tem duas garotas da idade da irmã e com quem ela às vezes fica. Talvez ela quisesse ir ter com elas ou talvez não. O facto é que quando ouviu a porta fechar-se e sem que ninguém a tivesse seguido, insegura, voltou atrás, pelo menos por esta vez...

 

Às pancadas na porta alguém acorre abrindo e num misto de verdadeiro espanto e contentamento, exclama,  “Alice!?... … …”



domingo, 14 de abril de 2019

As Formigas - 46


Quando eu era criança tinha a mania de tapar os buracos dos carreiros de formigas. Sempre que ia brincar para os jardins, aí andava eu à caça delas e dos buracos. Até que um dia, estando com o meu pai, que presenciou uma cena destas, logo se insurgiu, perguntando-me porque razão estava a fazer aquilo, que não deveria fazer em hipótese alguma.

 

Fiquei muito consternada e na minha inocente ingenuidade, respondi-lhe que corria a tapar os buracos porque eram muito grandes e elas podiam cair lá dentro e morrer sufocadas. Com tal resposta, o meu pai logo percebeu que eu fazia aquilo sempre que encontrava formigas e voltou a ralhar, dizendo-me que não o podia fazer, explicando que os buracos eram as casas das formigas, por isso elas caminhavam para lá, sim.

 

Com esta explicação fiquei sem palavras e sem acção. O que ele acabava de me dizer era algo pertinente e agora eu estava em aflição comigo mesma. Acabava de perceber que era uma potencial assassina de formigas e que ao invés de as salvar, as matava, sendo que não era essa a minha intenção, de jeito nenhum.

 

Era bem criança, mas lembro-me perfeitamente de ter pensado em quantas asneiras fazemos por ignorância e se o meu pai não estivesse presente e não me tivesse feito aquela chamada de atenção para me corrigir, certamente eu continuaria a fazer o mesmo, matando todas as formigas que encontrava, convencida de que estava a salvá-las. Por momentos senti-me muito mal comigo mesma e completamente frustrada, como se tivesse acabado de receber um atestado de estupidez ao mais alto nível. Matar as formiguinhas, um bichinho tão pequenino, tão indefeso! Eu era muito má. Como era possível?

 

Pela vida fora nunca me esqueci daquele episódio, porque ele foi um grande alerta para mim, apesar de ser muito pequena. O que me ficou, foi as coisas erradas que fazemos apenas por ignorância! E não devem ser poucas. Ao longo de toda uma vida esse somatório deve atingir um número alarmante. O que fazer? Não nascemos ensinados!?

 

Até hoje, toda a minha aprendizagem tem sido no sentido de esvaziar a ignorância e a importância que dou a tudo, desde as mais pequenas coisas, tem que ver com evitar danos por conta da desinformação. Já basta o que fazemos errado voluntariamente, porque somos como somos.

 

Quando dizemos que errar é humano, não estamos a dizer que errar é desumano e essa é a verdade verdadeira. Errar é desumano. E se muitas vezes não sabemos que não estamos no caminho certo, porque acontece, também muitas e muitas vezes sabemos bem que estamos no lado errado e nem por isso nos importamos. Parece que é importante fazer o “mal”. Isso, porque o nosso ego nos está a dar força para continuar, por alguma razão específica.

 

No momento, Brasil e Estados Unidos da América, através dos seus líderes, fazem uma escolha, uma escolha que não é pacífica, nem um pouco, mas fazem-na, querendo mostrar ao mundo que a sua escolha é certa: armas para todos. Eles sabem ou não sabem que é a escolha errada? Eles sabem. Aqui não há ignorância possível. Até uma criança compreende isso. A quem querem eles convencer de que as armas vão “salvar” seja o que for? Armas não são para salvar. Armas são para matar. E um povo que apoia uma decisão destas está a sujeitar-se a uma sentença de morte, seja de que maneira for, porque tudo está sujeito a uma lei universal que ninguém tem o poder de alterar, simplesmente porque é inalterável: a lei de causa e efeito.

 

Tanto quanto sei, só há um caminho: baixar armas. Acabar com todo o material de guerra. É difícil, é complicado? Porquê? Acaba-se o negócio das armas? Quem está interessado nisso?!

 

Se não houvesse armas, haveriam outras guerras, mas essas guerras seriam de outra natureza. Guerras de consciência, que apenas teriam egos para trabalhar, mas isso seria pouca coisa, naturalmente, porque não adianta saber mundos e fundos, ser isto e aquilo, se não soubermos o básico. Isto significa que temos um mundo com líderes que sabem muito, ou muito pouco, eu diria, pois até hoje não aprenderam a fazer o trabalho de esvaziar a ignorância. E esses sim, matam formigas, não por falta de informação, mas porque lhes dá prazer. Um prazer mórbido, delinquente. E o mundo inteiro atento ou desatento… aplaude(!)…


domingo, 23 de dezembro de 2018

A "sagrada" bíblia - 45


Que me lembre e desde que me reconheço e me entendo por gente, que me questiono e me interrogo sobre questões existenciais como: quem sou eu, o que é a vida, o que estamos todos aqui a fazer, etc… um rol de perguntas que me vinham à cabeça e ainda mais o porquê de estar sempre a pensar nessas coisas. As outras pessoas não pensavam nessas coisas, achava eu. Viviam a sua vida, o que quer que ela fosse, levantavam-se e deitavam-se, seguiam a sua rotina e o seu rumo, sem essas preocupações, pensava eu… enquanto que eu estava sempre numa luta comigo mesma por causa dessas respostas que, ao mesmo tempo, não tinha onde ir buscá-las. Se tentava perguntar, logo me conseguiam fazer mudar de assunto, dizendo-me que quando crescesse haveria de saber. Mas isso era muito tempo!

O facto é que toda a gente parecia conviver bem sem falar e sem querer saber disso, o que para mim era um verdadeiro enigma. Como era possível não se olharem no espelho sem conseguirem ir ao seu interior? Quando me via no espelho, para além do que estava à vista, sentia sempre que havia mais do que isso. Eu não era só o aquilo. E achava que os outros também não. Para mim, em cada criatura, havia o exterior e o interior, que não era assim tão interior. E então, esse interior que me parecia envolvido de mistério e segredos, onde estava ele, o que era isso?

A minha família era católica por tradição e, portanto, a igreja foi-me imposta desde sempre. Não pelos meus pais, que não faziam questão de ser religiosos, mas pela restante família, avó e tios. Além disso, a escola também fornecia educação católica e tudo era muito católico na minha vida. Como gostava de saber das coisas e como era suposto a bíblia conter toda a verdade da vida, eu lia.

A caquetese era a única base de informação a que tinha acesso. Havia caquetese na igreja e catequese na escola. E todas as crianças aprendiam o que vinha nos catecismos e só isso. E ouviam e decoravam aquelas coisas todas que tinha que se saber na ponta da língua, desde a mais tenra idade, porque seriam guardadas para nos acompanharem pela vida fora até sempre. Quem é Deus? Deus é o nosso pai do céu. Onde está Deus? Deus está em toda a parte.  E assim por aí adiante.

Questionar? Impossível. Questionar, só por si, já era um grande pecado. Tudo era muito sagrado, inalterável e imutável. E todas as histórias que nos contavam e que se liam na Bíblia, eram um grande mistério. Pai do céu?!... Em toda a parte?!... Mas se diziam que era assim, assim tinha que ser. E a minha “formatação” começou a trancar-me, como aconteceu com tanta gente. Não há perguntas, não há questões. Há que acreditar e aceitar, caso contrário, caíamos em pecado e íamos para o inferno. Um horror! Eu tinha pesadelos. E não era só eu. Havia outras crianças a quem acontecia o mesmo. Pelo menos isso ajudava-me a identificar-me um pouco com alguém e a não me sentir tão infeliz e tão só.

Fui crescendo e, apesar de tudo, a informação foi chegando de variadíssimas maneiras. Os meus olhos iam-se abrindo e o meu espírito sempre pedindo mais. Todavia, sempre que lia a Bíblia, apesar das contradições e das questões confusas, eu ainda estava “formatada” e havia muita coisa que ainda não tinha chegado, por causa do “véu” que me cobria desde criança. É difícil. É mesmo muito difícil. E quando pensamos que já crescemos espiritualmente e já nos livrámos de toda a carga do passado, é mentira. A coisa ainda está lá bem enraizada, e assim somos apanhados de surpresa. O que fazer?

 

Meu filho Henrique, quando era criança, recebeu de presente da avó paterna um livro de histórias intitulado “A Bíblia para crianças”. O livro tinha desenhos bonitos, alusivos às diversas passagens bíblicas mais relevantes e adaptados às crianças. E como ele gostava que lhe lesse uma história já na cama, antes de dormir, achei que não havia mal nenhum nisso, e comecei a ler-lhe a bíblia. E devo dizer que foi esse o meu grande “despertar”. Foram essas leituras inocentes, a uma criança sem vínculos à religião, virgem na sua formação de ser humano, livre de dogmas e formatações, que me fizeram abrir os olhos e despir a totalidade do véu que tudo embaciava. Foi o meu filho de cinco aninhos quem me ensinou a ler a Bíblia. Lembro-me como se fosse hoje. Até levantou a cabeça do travesseiro com a indignação da contradição que se deparava.

A história era a de Abel e Caim. Caim, filho de Adão e Eva, supostamente o primeiro homem e a primeira mulher, como todos sabem, mata seu irmão Abel. Perante isto, e como castigo, Deus expulsa-o do Paraíso e fica com medo de que alguém o mate. Esta é a história, sem entrar em mais detalhes, porque não necessita. E o meu querido filho, incomodado, pergunta “mas se não existe mais ninguém além de Adão e Eva, quem é que o vai matar? Perante esta observação fiquei a gaguejar e na verdade sem resposta. Mas foi aí que se deu o verdadeiro clique.

Perguntando a mim mesma se alguma vez eu tinha pensado nisso, para ser sincera, claro que sim. A questão é que, muito provavelmente fechava os olhos, porque ainda estava programada para aceitar tudo o que lia, sem sinal da mais pequena dúvida ou observação, apesar de já estar numa fase de “desmame”, isto é, de grande afastamento da religião. Mas foi aí que fui obrigada a pensar e repensar que a criança tinha razão e que eu sempre soube que aquilo era uma grande mentira ou simplesmente uma história mal contada.

Recentemente, adquiri um livro muito interessante, intitulado “A Bíblia não é um Livro Sagrado” de um autor Italiano, Mauro Biglino, e como foi bom ler esse livro! É que, finalmente, alguém via as coisas da mesma perspectiva que eu. Alguém com bases e formação correcta, falava do que sempre se escondeu por trás dos panos. Alguém que teve a coragem e a lucidez de mostrar o que é e o que não é. E assim, a páginas tantas, mais precisamente na página 146 do referido livro, pode ler-se:

“Após ter assassinado Abel (Gn. 4), Caim não foi punido, mas simplesmente afastado e naquele momento exclama apavorado: “Seja quem for que me encontre, matar-me-á”. Mas quem poderia ser este “seja quem for”, já que sobre a Terra deveriam existir somente os seus pais, Adão e Eva?”

E mais… continuando, o autor descreve:

“A narração bíblica prossegue, informando-nos de que ele encontrou uma esposa, teve um filho e construiu uma cidade… Mas, para quem construiu ele uma cidade, se não existiam outros homens?”

Quando li isto, logo me veio à memória esse episódio do meu filho, criança, chamando-me a atenção para o facto. Parecia que tinha sacado do meu livro de memórias aquela situação embaraçosa da falta de poder para responder. Passaram mais de trinta anos, mas aquela memória foi de imediato accionado, tão embaraçosa fora a situação.

E assim, por aí adiante, o autor vai descortinando tudo e pondo a nu uma verdade que se esconde por uma eternidade sem fim. Tal como ele, na verdade não penso que a bíblia seja uma mentira. Acho é que foi interpretada da maneira que deu jeito e por quem assim o quis. Umas vezes por falta de informação nas questões da tradução, outras vezes porque era o que dava jeito. A ignorância da humanidade sempre foi muito bem aproveitada. É sempre importante, pois assim é bastante mais fácil conduzi-la. O “sagrado” é coisa que não existe nesse contexto. A elaboração do “homo sapiens” é um projecto pensado e elaborado por seres alienígenas com tecnologias impensáveis para nós. As igrejas e demais locais de culto não foram construídos para essa função, mas adaptados a isso, simplesmente porque eram a “morada dos deuses”. E a morada dos deuses era tudo o que havia de mais profano sobre a terra.

Durante grande parte da minha existência procurei, procurei, procurei… até que um dia encontrei esta preciosa coisa que me fez para de procurar, porque aí estava contida uma verdade intemporal, que me fez parar as buscas incessantes e sossegar:

“A vida é evolutiva e nunca criada a partir do nada. Todos estamos ligados.”  - Pasteur pensou, Pasteur escreveu. 

E quando li isto, percebi que tinha encontrado a resposta. É que, na verdade, não havia nada para procurar, mas apenas “assistir” à evolução, à passagem do tempo. Somos viajantes do espaço, por mais que isto seja difícil de encaixar. Todas as igrejas e demais lugares “santos”, carregados de ouro e outros metais preciosos roubados à mãe terra, não passam de uma pequena amostra do orgulho, da vaidade e da soberba dos “deuses” que por aqui passaram e alguns por aqui ficaram, misturando-se com a obra que criaram à sua imagem e semelhança, para seu próprio benefício – o homem, o Adam ou ADN. Israel e a Palestina é uma guerra sem fim, que não faz o menor sentido, simplesmente porque é uma guerra que não é nossa, mas dos “deuses” que a começaram e nunca mais acabou.

Somos o resto, os restos de uma mega civilização que se adiantou e se aproveitou do nosso ADN de todas as maneiras e feitos. Tudo o que somos de bom e mau está aí. Está na hora de acordar e crescer.

Com todos os dramas, complicações, aflições de todo o género, catástrofes e epidemias, temporais e outras coisas mais, até hoje não sei se a vida faz sentido ou não. Mas é bom viver.