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terça-feira, 21 de abril de 2026

Albertina - 84

 

A aula de História da Religião era muito interessante. A sala estava completamente cheia. O professor, que dava aulas no ISCE, era apenas um dos que se desdobravam para também dar aulas na Universidade Sénior de Odivelas, uma vez que o espaço era o mesmo.

Todas as aulas eram interessantes para os seniores, mas aquelas eram mesmo especiais. A matéria só por si não teria o interesse que tinha se fosse outra pessoa a dar. É que aquele não tinha “papas na língua” e chamava tudo pelos nomes. Ouvi-lo falar era um verdadeiro desafio para aquelas cabeças, provavelmente à espera do trivial, do b e a ba, etc., mas não era isso que o professor nos falava.

História da Religião dada por aquele homem era um tesouro. Muitas novidades para os seniores que, formatados por toda uma vida, de acordo com padrões completamente fora da realidade e por tabus irrealistas, ouviam muito provavelmente pela primeiríssima vez, alguém que os desafiava a ver um outro ângulo da essência das coisas, da vida, transformando as lendas e tudo o mais por aí fora.

Era um virar de página tão deslumbrante como fascinante. Era interessante ver a reacção das pessoas, as suas caras de indignação e de espanto, perante a descoberta dos erros de uma vida inteira. E enquanto os outros ficavam de boca aberta, achando que aquele homem era um louco, um doido varrido, eu mostrava uma total atenção ao que ele dizia, perfeitamente compatível com o meu conhecimento e talvez espantada sim, mas não pelas mesmas razões dos outros. Enquanto os outros mostravam estranheza com as coisas que saíam da boca dele, pensando com toda a certeza como se atrevia a dizer aqueles disparates, eu pensava que aquele homem era verdadeiramente corajoso, partilhando todo o seu conhecimento connosco, sem nos poupar à verdade maior, em vez de ser apenas mais um a contar histórias que nenhuma coerência tinham.

Era uma dádiva e tanto, poder contar com aquilo. Nunca esperei que aos sessenta anos de idade, encontrasse alguém que falava a mesma linguagem que eu e não tivesse o mais pequeno pudor em expor-se. Ele era uma figurinha que passava completamente despercebida, de muito baixa estatura e magrinho, mal se dava por ele. Contudo, o que saía da sua boca era grande demais. Espantoso! Nem vou entrar em pormenores, mas posso abreviar o assunto dizendo que ali tudo contava: a vida na terra, fora da terra (extraterrestres) e a vida espiritual, mediunidade, reencarnação, etc.

Estávamos em aula, a sala completamente cheia, secretárias em grupos de quatro à direita e à esquerda com uma passagem pelo meio. O professor falava no topo, junto ao quadro, mas às vezes avançava, entrando pelo meio das secretárias, para trás e para a frente. Albertina estava sentada do meu lado esquerdo. Ela era um pouco “posso, quero e mando”, só que ali era a universidade sénior, não era a casa dela ou que ela achava que podia ser. No meio da aula, ou seja, no meio do discurso do professor, ouviu-se um telemóvel tocar. As pessoas deviam tirar o som, mas às vezes esqueciam-se ou então não queriam mesmo. Ninguém se mexeu, todos continuaram direccionados no que o professor estava a falar. O telemóvel continuava a tocar e nada. Albertina vira-se para mim e em voz alta faz questão de ignorar o discurso do professor para me advertir na sua voz de comando: agora também já é demais!

Não posso dizer que não me senti acusada e um tanto humilhada em praça pública. Mas logo virei o jogo. Entendi, mas ignorei, fazendo de conta que não a entendia. Claro que eu percebi exactamente o que estava a acontecer, mas às vezes também sou mazinha e dá-me gozo ver até que ponto vão as coisas. Foi o que fiz. Albertina tinha acabado de me dar um raspanete, por causa de um telemóvel a tocar. Fiquei na minha, continuando centrada no que o professor dizia, o que para mim era muito mais interessante. “Os incomodados que se mudassem…”, não era bem o caso, mas para lá caminhava.

Perante o comentário proferido em tom autoritário e crítico de Albertina, na sua característica pronúncia lá de xima “agora também já é demais”, e como tudo continuasse na mesma e o telemóvel a tocar, indiferente a tudo porque ninguém se acusava, independentemente do sítio de onde vinha o som, a sala ficou em silêncio… silêncio absoluto… os narizes no ar e os olhares a começarem a ficar estranhos, inquisidores, naturalmente. Eu tranquila e calma como convinha, porque não estava para me chatear. Já conhecia muito bem a peça, além de que estava plenamente consciente do que se estava a passar. Albertina tinha-se proposto pôr-me em xeque!? Dar-lhe troco para quê e meter-me num assunto que não me interessava absolutamente nada?! Nada!

Passaram-se alguns segundos e de repente, Albertina mete a mão na mala, com o telemóvel na mão levanta-se e com um ar perfeitamente doutoral, com o indicador levantado, no meio do silêncio total e enquanto vai em direcção à porta da sala diz: “ai(!)… isto tem uma justificaxão… é que eu ontem alterei o xom de toque do telemóvel!?...


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