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sábado, 16 de abril de 2022

Gabriel - 70

 

Era o mês de maio e Conchinha, tia da minha nora, estava prestes a fazer mais um aniversário, que sempre festejava em grande estilo, com toda a família e alguns amigos mais próximos. Por isso, uma vez mais, estavam todos reunidos para festejar num restaurante previamente contratado e fechado para o efeito. Concha, como uma boa Angolana, gostava de festa. Tudo para eles era motivo para festejar, o que muito me agradava. A minha vida era um pouco monótona, porque só trabalho e casa e nada mais, e aquela família vinha a calhar, com todos os seus costumes e tradições.

As pessoas começaram a chegar e a tomar os seus lugares e aos poucos o espaço ia ficando composto. De vazio começou a encher. Estava na hora e todos tinham fome, mas faltavam duas pessoas: a prima Xaxão e o filho Lito. Toda a gente queria começar, mas Concha insistia que sem os primos chegarem não daria início ao almoço. Enquanto isso, íamos conversando uns com os outros, até que perguntei à minha nora quem eram os que faltavam, mas ela disse que achava que eu não os conhecia, apressando-se a mencionar que eram muito boas pessoas e que ela gostava particularmente do primo, porque era uma pessoa especial, muito educado e tudo de bom. Fiquei bem impressionada, mas realmente nunca tinha ouvido falar deles.

E nesta espera toda, de repente, duas pessoas aproximam-se do lado de fora da porta do restaurante. Viriam ao engano, uma vez que estava aberto só para nós?! Ao mesmo tempo ouço vozes: “ah, os primos chegaram”. Então não era engano, eram mesmo eles, o que era óbvio, por serem Angolanos… e finalmente iríamos começar a almoçar. Contudo, aquela chegada tinha-me deixado sem palavras e um pouco baralhada, porque longe de imaginar…

Em trinta e oito anos que trabalhei na RTP conheci muita gente e podia ter conhecido ainda muito mais. Se tomasse o cafezinho da ordem, se fumasse, etc…, mas como nunca fiz nada disso, não tinha essas oportunidades para conhecer mais gente. Por isso que digo que conheci muita gente, naturalmente, por ser uma empresa muito grande, mas é claro que podia ter conhecido muito mais.

Quando a RTP e a RDP se juntaram numa empresa só e os trabalhadores ficaram juntos, acabei por conhecer ainda mais pessoas e no meio desta confusão toda, onde aconteceram muitas histórias, um dia cruzo-me com um indivíduo de bom aspeto, bonitão, Angolano de pele muito clara. Um homem interessante, que antes eu nunca tinha visto, mas os nossos olhares não foram indiferentes. Ambos sentimos uma certa atração ou um certo magnetismo, talvez pelo facto de ser Angolano e ter uns olhos azuis incríveis… e não pelo facto de serem azuis, que não são os da minha preferência. Gosto de uns olhos escuros, bem escuros e profundos, mas no caso dele, sendo Angolano, achei muito curioso. Em todo o caso, não tinha porque dar importância ao assunto. Mas era funcionário, com toda a certeza, porque não tinha nenhuma identificação especial.

E este encontro repetiu-se algum tempo depois, sendo que se deu a mesma surpresa, o mesmo choque de magnetismo, o que mais uma vez não escapou a nenhum de nós. E também, mais uma vez, a coisa passou, porque não havia motivo para ser diferente. Não estava interessada em descobrir ou perceber fosse o que fosse.

Mais tarde, um outro dia qualquer, uma terceira vez este cruzamento aconteceu, só que desta vez, ele chegou bem perto de mim e sem mais nem menos, abraçou-me e beijou-me nos lábios, deixando-me completamente atónita e desconfortável, pelo que o fiz parar imediatamente com aquela maluquice que não tinha cabimento.

Ele era um indivíduo bonito, com um ar educado, mas com uma pitada de malandrice. E naquela empresa realmente havia de tudo. Gente capaz de todas as atitudes possíveis e imaginárias. Mas nunca pensei que tivesse a ousadia de fazer uma coisa daquelas, independentemente de onde estava, de quem estava, que quem viu ou não. E muito menos comigo, com quem não tinha a menor intimidade. Para mim era uma loucura completa. E o que fiz foi pirar-me o mais depressa possível, tentando digerir o que tinha acabado de acontecer. Isto passou, até que acabou por cair no esquecimento.

Por esta altura eu era secretária da Direção Técnica, pelo que estava rodeada de engenheiros e técnicos de vária natureza. E por ser secretária da Direção, tinha uma posição estratégica naquele espaço, para estar o mais acessível tanto aos de dentro da Direção, como aos de outros serviços.

Um dia entra um indivíduo pelo open space adentro, que por força das circunstâncias veio parar à minha frente. Quando olho para ele, era o tal, o “atrevido”. Lá vinha ele com o seu ar de menino bem comportado e pelo menos ali não se atreveria a repetir a mesma brincadeira ou outra qualquer. Ao ver-me claro que ficou surpreendido. Agora já tinha a minha referência, porque até então, não sabíamos nada um do outro.

Ambos sorrimos discretamente e como era minha obrigação, perguntei-lhe o que desejava. Gabriel, que trabalhava na Informação da Rádio, vinha pedir um certo material técnico para uma reportagem que ia fazer em Angola. Fui ao gabinete do diretor e relatei o necessário, contudo, o diretor do momento, porque por ali passaram muitos diretores, cada um mais incompetente que o outro, não mostrou qualquer empenho em resolver o assunto, facto que muito estranhei. E perante o seu distanciamento e a sua falta de interesse, a minha cabeça imediatamente começou a trabalhar. Ali passava-se alguma coisa que escapava ao meu entendimento. Seria por ele ser Angolano? Não, não era possível. Ambas as empresas estavam cheias de gente das áfricas e eu nunca tinha percebido ter havido um caso de racismo. Além disso trabalhávamos com a Cooperação com os países africanos, o que era mais um motivo para resolver o problema de Gabriel, ou fosse de quem fosse. Trabalho é trabalho, mas sua excelência o diretor deixou bem claro, com todas as letras, que não tinha como o ajudar e que resolvesse o assunto como quisesse.

Que coisa tão estranha? O rapaz estava no sítio certo. Nós éramos a Direção Técnica e também não era por ele ser da Rádio, porque ele próprio, o diretor, era da Rádio! O que diabo estava a acontecer eu não sabia explicar. Mas alguma coisa estaria por detrás daquela cena, isso eu não tinha dúvidas. E para me certificar comecei a fazer perguntas, na qualidade de secretária, perguntas de carisma inocente, mas não, aqui e ali, ponta aqui, ponta ali, mas a única coisa que percebi é que ele não gostava do Gabriel e, portanto, como agora estava na qualidade de diretor, achou que tinha o direito de fazer o que entendesse.

Achei isto perfeitamente fora de contexto e não queria ouvir nada daquilo. Para mim, atitudes destas não eram toleráveis. Ninguém tinha o direito de se aproveitar do “poder” para evidenciar o seu ego e agora é tudo meu. Uma desclassificação total. Porque se alguém pensa que enriquece pessoalmente, interiormente, com atitudes destas, engana-se redondamente. Mais uma vez o profissionalismo estava em falta total. Se fosse eu que mandasse era imediatamente despedido, pura e simplesmente. Mas como eu não era ninguém, saí do gabinete, decidida a, de alguma outra forma, tentar ajudar o Gabriel. Fosse quem quer que fosse, eu sempre fazia o que podia para resolver e solucionar, porque era para isso que eu trabalhava e me pagavam. E fui ter com um engenheiro, pedindo-lhe que resolvesse o problema cuidadosamente. Nem lhe disse que já tinha falado com o diretor. Agora era por minha conta e risco e queria ver quem é que me ia impedir.

Gabriel era um indivíduo inteligente e de parvo não tinha nada. Percebeu perfeitamente que havia problema. Talvez ele tivesse outros elementos que eu não tinha. Mas ele era discreto e calmo. E para ser muito franca, ficou muito impressionado com a maneira como me empenhei para lhe resolver o problema, ultrapassando todas as barreiras. Agradeceu muito e foi-se embora. Uns dias depois iria então para Luanda fazer mais uma reportagem, pois era esse o seu trabalho. Depois disso, não voltei a vê-lo, não nos voltámos a cruzar.

 

Agora estávamos todos no Restaurante quando a porta se abriu e os últimos convidados acabavam de entrar, acompanhados por Conchinha que, uma vez mais, começou a fazer as honras da casa que lhe cabiam e que ela tanto gostava de fazer. Para mim era alargar o conhecimento de mais uns membros daquela numerosíssima família, que nunca mais acabava. Havia sempre mais alguém para conhecer. Desta vez, a prima Xaxão e o filho Lito.

Concha começou os cumprimentos e quando chegou à minha pessoa, ela indicou, a Xaxão, muito prazer, e o Lito. O Lito e eu ficámos a olhar um para o outro, sem saber o que dizer. Concha começou a dizer o meu nome e a minha função na RTP, coisa que ela sempre fazia e me deixava um pouco irritada. Mas antes de continuar, interrompi para dizer: nós já nos conhecemos.

Ah, já!? Concha pareceu um pouco surpreendida, mas logo ligou as coisas. Ah, sim… esboçando um sorriso adequado. Então já se conhecem(!?)… etc., etc., etc…

Efectivamente já tínhamos a nossa história, com uma pequena diferença. O Gabriel que estava agora na minha frente, tinha olhos castanhos, tal qual veio ao mundo, sem as habituais lentes de contato azuis, que sempre fazia questão de exibir e que tanto me intrigavam(!?)…

 

 

domingo, 27 de março de 2022

Vai vem - 69

 

Quando eu nasci não tinha nada. Apenas e somente o grande, imenso e infinito amor dos meus pais, que até hoje está dentro de mim.

Mas esse amor depressa se apagou aqui, para continuar para lá desta vida, das portas que nos transportam à eternidade. A minha mãe partiu deste mundo quando eu tinha dez nos de idade e o meu pai, militar de carreira, partiu para a guerra em África.

Fui crescendo como pude e um dia fiz-me à vida, para recuperar a minha própria identidade. E casei. Quando casei, não tinha nada, a não ser o emprego e a casa alugada onde vivia. Mas ganhei e ganhei muito. O meu marido era de uma família sobejamente abastada. Sem serem propriamente ricos, não tinham problemas de dinheiro. A minha sogra vivia no seu belo solar, na cidade de Ponta Delgada, ilha de S. Miguel, Açores. Um solar com cavalariças, que há muito não eram usadas. Não era nenhum palácio, mas era um casarão. E para mim, que não tinha nada, aquilo era um verdadeiro luxo.

Alguns colegas de trabalho, diziam-me que eu o tinha escolhido por causa do dinheiro dele. Diziam isto meio a sério meio a brincar, mas eu era tão ingénua, que nem fazia a mais pequena ideia do porquê desta observação. Na verdade, eu não sabia nada da vida deles e muito menos do que tinham ou do que não tinham. E nem isso me dizia respeito, como é evidente.

Todavia, com o tempo, fui conhecendo as fazendas da mãe e dos tipos padres e aos poucos, comecei a perceber o que queriam dizer aqueles comentários fora de propósito. Mas não foi por essa razão que me casei com ele. Não casaria com ele nem com ninguém por causa do dinheiro. Apesar de tudo, eu era independente, uma coisa que aos dezassete anos conquistei por mim mesma, e isso me bastava. Nunca exigi nada de especial da vida, a não ser paz e sossego. E a minha liberdade estava acima de qualquer coisa.

Mas, de facto, aos poucos fui percebendo que havia propriedades onde se produzia muita banana e outras coisas. De vez em quando íamos até lá para ver das bananeiras e passar tempo, o que era muito agradável. E pensava que, de repente, a vida me tinha presenteado com tanta coisa boa. Porque apesar de nada daquilo ser meu, eu usufruía, pelo facto de ser casada com ele. Usufruía, quanto mais não fosse, de poder ir até lá e passar bons momentos com o meu marido. Só isso já me bastava para achar que aquilo também era um pouco meu.

Todavia, o nosso relacionamento tornou-se complicado de mais para poder prosseguir e aos trinta e seis anos fui obrigada a divorciar-me. E, claro, tudo o que tinha daquele casamento, nada ficou, porque nada era meu. A vida dá, a vida tira. Mas ganhei um filho para a vida e isso não é pouca coisa. É o sonho de toda a mulher que quer ser mãe.

Mais tarde conheci um paquistanês com quem me relacionei durante sete anos. Durante esses anos, houve uma altura em que ele foi para a Grécia trabalhar. Como estávamos cheios de saudades um do outro, ele insistiu para que eu tirasse férias e fosse ter com ele. Pois bem, sem prejuízo da minha vida profissional, lá fui eu de férias para a Grécia, durante três semanas, porque também não queria deixar o meu filho muito tempo sem mim, embora estivesse em companhia do pai.

E a Grécia foi um presente e tanto da vida, apenas porque estava com ele. De outra forma não sei se lá teria ido. Mas mesmo que fosse, não seria nunca a mesma coisa. O Riaz arranjou uma vivenda mesmo em frente ao mar, aquele mar quente e maravilhoso, onde apetece entrar e nunca sair. Era uma vivenda espetacular, com um jardim enorme onde abundavam as flores de vária ordem, muito em especial as rosas. E como cheiravam! Todas as tardes ia lá uma pessoa para o regar, por isso estava especialmente bem cuidado. E entre a casa, ou seja, o jardim e o mar, havia apenas a distância de uma estrada que circundava a ilha. Eu saía de casa, dava meia dúzia de passos e estava à beira da água. Aquilo era o meu paraíso. Sempre sonhei com uma casa à beira mar. Pois aí estava ela. Seria apenas por três semanas, mas isso não importava. Pior seria se nunca tivesse tido. Foi por pouco tempo, mas simplesmente maravilhoso.

Na Grécia fui tratada como uma rainha. Mais uma vez a vida estava a presentear-me e como!? Recebia elogios de toda a ordem e as mulheres adoravam os meus vestidos. Na Grécia comi marisco acabado de ser apanhado, que faziam questão de me oferecer. Frutas e legumes, os mais frescos e tantas coisas mais. Na Grécia as crianças dançaram o Zorba para mim, o que foi uma coisa indescritível. Simplesmente fabuloso. Conheci Atenas e outras ilhas. Foram umas férias de sonho, absolutamente. E tudo isso a vida me deu.

Mas ao fim de sete anos o nosso relacionamento teve que terminar e mais uma vez fiquei sozinha com o meu filho e nada mais. As pessoas vêm, as pessoas vão.

Anos mais tarde, quando a televisão e a rádio se juntaram, a empresa aumentou e ficámos todos juntos, sendo que passei a ter muito mais colegas. Aos poucos fomo-nos habituando uns aos outros, com alguns namoros e até casamentos à mistura. E um dia comecei a falar com um colega da Rádio, com quem fui tendo mais intimidade e os dois começámos um relacionamento. Era sozinho e tinha uma irmã casada e com filhos, que vivia no Canadá. O seu sonho era ir visitá-los, mas não sozinho, o que sempre acontecia. E gostaria muito de ir comigo. Na verdade, eu também nunca tinha pensado em ir ao Canadá. Não era propriamente um país que estivesse nas minhas prioridades. Contudo, porque não!? Se a vida me estava a abrir o caminho, era seguir em frente. E lá fomos nós.

E foi mais uma viagem inesperada e maravilhosa. Visitámos imensa coisa, inclusive a ilhas, as Cataratas do Niagará e muito mais, que ele fez questão que eu ficasse a conhecer. Gostei muito e mais uma vez agradeci à vida o presente que me dava. Se não o tivesse conhecido, provavelmente não teria ido ao Canadá, que muito me surpreendeu pela positiva. Depois, ao fim de nove meses, porque ele tinha um problema de alcoolismo e começou a ter uns comportamentos estranhos, tivemos que pôr fim ao nosso relacionamento e mais uma vez fiquei sozinha e agora sem o meu filho, que já tinha ganho a sua independência.

Mais tarde conheci uma pessoa com quem tive uma verdadeira história de amor. Já nos conhecíamos há muitos anos, mas não tínhamos a menor intimidade nem à vontade, nem nada. Apenas o trabalho nos ligava, com todo o profissionalismo possível e todas as inerentes formalidades. Um dia ele divorciou-se, de um casamento de toda uma vida, com filhos já homens e de repente começámos a falar, à descoberta um do outro.

E como foi bom! Foi uma coisa fantástica, porque tínhamos a mesma ideia um do outro, completamente fora da realidade. Ele era uma pessoa fantástica. Tratava-me com mil cuidados, como uma verdadeira princesa. Todos os fins de semana íamos para a casa de campo, nos arredores de Alcobaça, uma casa bem grande, com uma área muito bem cuidada, com uma bela e bonita piscina de água doce e algumas árvores de fruto. Era um sítio maravilhoso, que eu adorava, e que me dava uma paz incrível.

Mais uma vez a vida me presenteava do nada, dando-me tudo aquilo, sem eu ter feito nada para o ganhar, nem nada ter pedido. Mas se era dele, era um pouco meu, pelo que eu muito beneficiava.

Uma vez por mês íamos a Trás-os-Montes, onde ele tinha nascido e onde ainda tinha a mãe e mais alguns parentes. Aquilo era bom demais. Um casarão enorme, com sete quartos, no meio de toda aquela liberdade decorada das mais belas flores, que a mãe cuidava com todo o amor. Os pastores passavam por ali, ao fim da tarde, porque tinham cerca de quinhentas cabeças de gado. Quando passeávamos de carro por aquelas terras, que ele fazia questão de me dar a conhecer, depois de andarmos quilómetros sem fim apenas vendo a paisagem, ele parava o carro, saíamos e ele brincando, tapava-me os olhos para depois os destapar e me dizer, tudo o que vês daqui, é meu. São as terras da minha mãe. Amendoeiras e oliveiras que nunca mais acabava. E eu olhava, espantada, sem conseguir realizar dentro da minha cabeça, como se podia ter tanta coisa. Apenas porque nunca tive nada.

A cerca de cem metros da casa da mãe, em Trás-os-Montes, passava um riacho de água limpa e pura como nunca vi igual, que deslizava suavemente num leito natural de pedras de todos os tamanhos. E ao passar, a água tilintava uns sons deliciosos, que traziam muita paz ao meu coração e um bem estar espiritual infinito. Tudo ali era selvagem, mas de uma grande beleza. E eu sempre pensava para comigo, que fiz eu para merecer tudo isto? Aquilo era um lugar dos “deuses”!

O nosso relacionamento era perfeito. Melhor, era impossível e eu tinha uma vida mais que feliz. Ele era um verdadeiro gentleman, como eu nunca tinha conhecido e dizia-me que eu era mais importante do que a sorte grande, porque se lhe tivesse saído a sorte grande ele teria o dinheiro, mas não me tinha a mim. E eu era muito mais importante para ele do que todo o dinheiro do mundo. Isto era lindo de ouvir. E como eu o compreendia!

Mas como tudo era bom demais para ser verdade, ao fim de sete meses, quinze dias antes da data que ele tinha marcado para nos casarmos e seguirmos uma semana em lua de mel para Paris, onde eu nunca tinha ido, simplesmente e surpreendentemente, adoeceu e no espaço de uma semana, ao cabo de três intervenções cirúrgicas, não resistiu e partiu para sempre. Eu também não tinha pedido aquilo. Mas a vida dá, a vida tira.

As coisas vêm, as coisas vão. As pessoas vêm, as pessoas vão. Não adianta querer agarrar seja o que for, seja quem for.

O vai vem da vida…


quinta-feira, 24 de março de 2022

Os Museus - 68

 

Quando eu era criança, a minha primeira escola foi na metrópole, depois da vinda de África, onde eu era uma criança completamente feliz. Os meus pais e a minha irmã de dois anos ficaram em África, mas eu vim para Portugal, com a desculpa de que tinha que ir à escola. Desculpa, porque, só mais tarde fiquei a saber o verdadeiro motivo, que agora não vem ao caso, mas na altura foi essa a razão apontada. Já era difícil a situação de ter sido separada dos meus pais e ainda por cima ter que deixar África que eu amava, onde tinha liberdade total e fazia o que queria. Eu não gostava da metrópole e muito menos dos hábitos e da maneira como as pessoas viviam, fechadas em casa, sem o menor contacto com a natureza, com frio, chuva e dias tristes. Chuva sim, mas chuva quente. E aqui a chuva trazia o frio, o vento e tudo muito desagradável. Mas era o que era. E lá fui eu para a escola, porque no ano seguinte iria para o ensino oficial e era preciso ir já a saber ler.

A escola era a casa de uma senhora de idade que, para além de viúva, tinha perdido o seu único filho ainda muito jovem e que era padre. A senhora vivia sozinha, numa casa enfadonha e tenebrosa, um verdadeiro museu, onde ela idolatrava os seus mortos. Logo à entrada da porta, a primeira divisão que se via era um quarto transformado numa minicapela, que até um banco de igreja tinha. Um altar com um cristo na cruz no centro, flores por todo o lado, com toalhas arrendadas, tudo muito caprichado, mas muito escuro e lúgubre, apenas com a luz de uma vela.

Depois era a cozinha, onde ela nos dava as aulas, porque apesar de ser uma cozinha, estava transformada em escola. Tinha bancos corridos junto às paredes e enquanto ela cozinhava e fazia outras coisas, era aí que nos ensinava. Luz, era coisa que muito pouco havia. Bastantes crianças, todas ali enfiadas e onde se passava o dia. Levávamos o almoço de casa e só saíamos ao final da tarde, quando alguém nos ia buscar.

Até aqui, todas as crianças passaram pelo mesmo que eu. Só que à hora da saída, todas tinham quem as fosse buscar. Já eu não. Eu ficava, ficava, ficava… completamente esquecida e abandonada. Era todos os dias a mesma cena. Se aquela casa já era de uma tristeza sem fim durante todo o dia, quando todas as crianças saiam e só ficava eu, tudo piorava de uma maneira avassaladora. A solidão aumentava. O escuro ficava mais escuro. A má disposição dela ganhava proporções alarmantes, porque se sentia importunada com a minha presença, sem ninguém para me ir buscar. Era o frio, a humidade, a angústia e o desespero de me deixarem ali, sem o cuidado de me irem salvar daquele mausóleo infernal. Ela gritava comigo e com uma certa razão, que ninguém queria saber de mim. Apesar de eu não me queixar, de não dizer nem ai nem ui e de tudo ouvir sem resmungar. Mas não havia nada que eu pudesse fazer. Estava terminantemente proibida de sair sozinha, apesar de ser muito perto de casa, pelo que tinha que esperar até que os meus avós chegassem a casa para me irem buscar.

E ela dividia-se entre a cozinha e a capela, onde tinha as fotos do filho e do marido, porque estava constantemente a ir rezar. Ajoelhava-se e ali ficava, ora em silêncio profundo, ora rezando baixinho. Tudo ali era mórbido. A luz desaparecia completamente para dar lugar à noite. E eu ali sozinha, sem ninguém, rodeada de velharias, de roupas feias e pretas, num ambiente austero e deprimente, que cheirava a mofo, sem cor, sem alma, sem vida. Um verdadeiro inferno. O primeiro de muitos que se seguiriam.

Mas a vida acontece e as coisas mudam, umas vezes para melhor, outras nem tanto. Assim, cresci, amadureci e vivi, até ao dia em que fui visitar um museu. E lembro-me de que a sensação não foi realmente das melhores. E outro, e aconteceu exatamente a mesma coisa. Eu não me sentia bem naqueles lugares. E por aí fora, todos os museus que fui visitando, todos eles me transmitiam a mesma sensação nostálgica e me deixavam mal e só me apetecia ir embora. Podia até gostar do que via, mas só o facto de estar lá dentro já me deixava triste e sem vontade de apreciar como os outros. Sempre os achei tristes, escuros, onde só havia coisas velhas, coisas antigas e por mais esforço que fizesse nada daquilo me chamava.

Mas os museus são lugares por demais visitados, aonde acorre um número incalculável de pessoas de todo o mundo, em todo o mundo. Quem não gosta de museus? Eu nunca conheci ninguém que não gostasse. Quando há uma viagem seja aonde for, as primeiras coisas em que se fala é nos museus que se quer conhecer. Há museus de toda a ordem, com conteúdos os mais variados. E as pessoas acorrem em massa para ver, visitar, conhecer, apreciar, admirar e enriquecer a sua cultura. Os museus permitem compreender muito do que ficou para trás, entender a história da humanidade, acompanhar o percurso do homem desde que dá os primeiros passos até aos nossos dias.

É, pois, muito importante, guardar e estimar essas relíquias, o que quer que sejam, para que os que vêm depois as conheçam e de alguma forma partilhem dessa vivência. Assim, podemos acompanhar a evolução e o crescimento dos povos, sob todos os ângulos e pontos de vista. Os museus encerram tesouros, independentemente do valor real que contenham no seu interior. Dir-se-ia mesmo que o maior tesouro é a história, a verdadeira história, muito mais do que todo o ouro do mundo.

Por tudo isto, é perfeitamente compreensível e admirável, que toda a gente goste de museus, que toda a gente seja apaixonada por museus. Eu tinha pena de não sentir o mesmo que os outros, mas realmente foi sempre muito difícil entrar num museu e fazer uma visita calma e serena como toda a gente parecia fazer. E sempre que podia fugia deles, porque lá vinham as memórias enfadonhas com que recusava enfrentar-me. Escutava no meu íntimo, penetrava no mais fundo do meu ser, onde as memórias começavam a acessar e a vir à tona, no álbum de recordações do meu passado, onde tudo estava devidamente marcado e assinalado, onde as más lembranças vinham novamente ao de cima, fazendo-me sentir mal, porque havia uma certa analogia. Era o “velho”, o “antigo”, o “escuro”. Tudo lá de trás. Vinha tudo do mesmo saco, pelo menos na minha maneira de ver e de sentir e era uma experiência verdadeiramente muito má.

Hoje já existem museus modernos, de arquitetura muito avançada e arrojada, que fazem toda a diferença. São leves e respira-se bem, porque têm uma energia muito própria. Aí, quando entro, a minha atitude é outra. Aí é possível caminhar, apreciar sem stress, sem nostalgia. A luz entra sem pedir licença, para se poder admirar do fundo da nossa alma e acima de tudo, sem as sombras tenebrosas do passado.


terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Áustria - 67

 

Como é bom viajar! E a Áustria?! A Áustria onde eu nunca sonhei que um dia haveria de ir… não por achar que não valesse a pena, muito pelo contrário, mas porque nunca pensei que se proporcionasse. E assim, do nada, lá fui eu no avião, rumo ao centro da Europa, cheia de fronteiras à sua volta e onde o mar não consegue chegar. Terra de grandes nomes, génios autênticos e únicos.

E como é linda a Áustria, meu deus! É flores por todo o lado. Até a sopa tem flores! E não foi por não saber falar alemão que não me fiz entender com eles. Perfeitamente. Foi realmente uma viagem surpresa. Os meus tios quiseram ir mais uma vez à Áustria, de onde tinham muito boas recordações. Como dizem os filhos, a sua única preocupação era descobrirem no globo, algum sitiozinho onde ainda não tivessem posto os pés. Ali não era o caso, mas por muito viajarem, este foi um dos destinos por eles repetido.

Levaram a vida a viajar. As férias eram única e exclusivamente largar tudo, fazer as malas com as suas melhores vestimentas e lá iam eles. O resto era o resto e o que quer que fosse podia esperar. Nada mais tinha importância na vida deles como tinham as viagens. Depois, chegavam sempre muito cansados, precisando de descansar, ou seja, de nada fazer. Mas assim que havia a mais pequena possibilidade de viajar, não havia cansaço que os impedisse. Todas as forças voltavam como que por magia. Era uma coisa impressionante.

É claro que depois de se reformarem foi ainda pior. As viagens eram minuciosamente pensadas e estudadas e por vezes era chegar a casa, desfazer a bagagem para serem novamente feitas e embarcar na próxima. Algumas vezes viajei com eles, como foi o caso da Áustria, por já estarem na casa dos oitenta, com algumas doenças e fragilidades físicas e os meus primos terem receio. Aí, eu tirava férias e ia com eles, para não os impedir de viajar e todos ficarem mais tranquilos.

A Áustria foi um desses destinos em que fui essencialmente por eles. Mas não me arrependo nem por um instante. Até porque sem eles talvez nunca tivesse ido, apenas porque me eram prioritários outros destinos. Mas fui e foi muito bom, tanto para mim como para eles. Aliás, se eu não tivesse ido, teria sido muito complicado. Nessa viagem a minha tia passou o tempo todo a comentar que sem mim, não sabia como se iam arranjar, porque o meu tio já não conseguia dar resposta a muita coisa e ela reclamava, mas estava sempre na dependência dele. Enfim, a idade tem as suas limitações. Mas para mim foram experiências muito bem aproveitadas e muito importantes, porque eu conheci o mundo, aprendi e tirei partido de tudo quanto vivi.

A aventura foi logo à chegada. Havia uma reserva de um carro de aluguer para nos podermos deslocar. O carro que nos deram tinha mudanças automáticas. Nem o meu tio nem eu tínhamos conduzido um carro sem mudanças, por isso pedimos para trocarem. Impossível, porque já não tinham carros com mudanças manuais, pelo que tivemos mesmo que aceitar o que havia. A minha tia logo entrou em pânico, porque o marido não ia conseguir conduzir. Então não tive outro remédio senão tomar as rédeas e sentar-me eu mesma ao volante. Só que, na verdade, eu também não tinha a menor ideia de como aquilo funcionava e era complicado meter-me à estrada sem a mais pequena noção do funcionamento daquela coisa. Mesmo assim, fui forçada a arrancar, mas logo a seguir tive que parar, sair do carro e muito sem jeito, ganhar forças para pedir auxílio ao primeiro condutor que apareceu.

Fui ter com ele, perguntei-lhe se sabia falar inglês, mas ele disse que não. Bom, assim mesmo, porque não havia alternativa, comecei a dizer-lhe, acompanhando a minha linguagem com gestos, que não sabia como funcionavam as mudanças. Ele entendeu perfeitamente a minha dificuldade, saiu do carro e dirigiu-se ao nosso, onde a minha tia já estava toda em alvoroço com o habitual “e agora?” e agora, etc. O homem chegou perto, entrou, sentou-se ao volante e começou a falar em alemão, ao mesmo tempo que exemplificava. E eu só via a minha (nossa) vida a andar para trás. Pensei mesmo que não íamos conseguir sair dali. Mas, se já ali estávamos e até ali tínhamos chegado, havia que tentar. E assim foi. Percebi e não percebi, o que ele explicou. O homem saiu do carro, agradeci e ele seguiu a sua vida para nós seguirmos a nossa também.

Ganhei coragem e entrei no carro, como se tivesse entendido na maior perfeição tudo o que ele tinha acabado de explicar, num perfeito alemão, sabendo que eu não entendia patavina. Mas tudo bem. Querer é poder. E lá pus o carro a trabalhar. Com o andamento, as coisas foram indo e aos poucos comecei a “perceber” ou a convencer-me de que estava a perceber exatamente o que estava a fazer. O carro, esse, não se queixava. E como também não era nosso, paciência. O facto é que durante os dez dias em que estivemos na Áustria, aquele carro só conheceu as minhas mãos e os dois acabámos por nos entender conforme pôde ser. Ele não me deixou ficar mal e eu não o tratei assim tão mal, uma vez que ele nunca falhou. De regresso a Portugal, quando finalmente peguei no meu carro, até me esqueci de que não estava na Áustria e que era o meu carro, um carro com mudanças manuais em vez de automáticas. Lá tive que me readaptar. Naquele momento até já dava jeito um carro automático. Paciência, a vida é como é.

E como foi bom, deslizar por aquelas estradas fora, muitas delas por baixo da terra, em túneis de muitos quilómetros, que para mim era uma novidade completa. Pelo menos o trânsito fluía, sem paragens e sem stress. Também pela primeira vez na vida, por várias vezes fui obrigada a estacionar em parques de estacionamento interiores, de uma grandiosidade impressionante, que quando entrava só pensava para comigo mesma que não ia conseguir encontrar o carro no regresso. Mentira. Fácil, fácil. E as aventuras não paravam de suceder.

Uma vez. Numa bomba de gasolina em que parámos para abastecer, dei essa tarefa ao meu tio, uma vez que era ele a pagar, enquanto entrei lá dentro para comprar uma garrafa de água. Dentro do carro, a minha tia gritava para o marido, que o melhor era ele ir comigo, senão eu não conseguiria fazer-me entender, pelo facto de não falar alemão. Gritei-lhe que não era preciso, para grande espanto dela. E lá fui eu. Entrei, fiquei na fila para o pré-pagamento e quando chegou a minha vez limitei-me a dizer “wasser, bitte…”. Eu não sei alemão, mas não há ninguém que não saiba como se diz água!? Não há ninguém que não saiba como se diz “por favor”?! Era só o que eu precisava! Depois, o que ele respondeu, não sei, mas apontou para o lado esquerdo, pelo que depreendi que devia estar por ali. Paguei e fui na direção que ele indicou. Lá estava ela, a “wasser” e pronto, lá fui eu com a minha água, toda contentinha. Quando cheguei perto dos meus tios e ela me viu com a garrafa na mão, ficou de olhos arregalados, só porque achou mesmo que eu não conseguia comprar uma porcaria de uma garrafa de água!?

Eles ensaiavam o seu bom alemão. Empurravam um para o outro e evitavam falar, apesar de saberem falar muito bem. Eu, pelo menos, não sabia mesmo. E nem isso me impediu de me fazer entender. Como se diz em bom português “para bom entendedor meia palavra basta”. E pronto.

Outra vez, na bilheteira de uma estação de comboios, foi uma tourada das grandes, apenas para pedir três bilhetes. Eles complicavam muito as coisas. Penso que queriam mostrar que, apesar de serem estrangeiros, tinham o mérito de saber muito bem alemão e, portanto, começavam a fantasiar, isto é, queriam adicionar ao discurso uma série de coisas que eram absolutamente desnecessárias, tanto assim, que nem sabiam como começar. Então começava um e apenas dizia uma ou duas palavras para logo ser abruptamente interrompido pelo outro que dizia “eu falo”. E começava a falar para também ser imediatamente interrompido pelo outro que logo dizia, não, eu é que sei, e por aí adiante. O homem da bilheteira olhava estupefacto para os dois, sem perceber nada e sem entender o comportamento de ambos. A páginas tantas, quando achei que a situação já estava insustentável e tinha ultrapassado todos os limites, espontaneamente, entrei eu, interpelando-os e falando apenas isto "drei tickets", que nem tive tempo de dizer por favor, ao que o homem logo respondeu “ah, três bilhetes”, para seu grande alívio, que já estava muito chateado.

A minha tia, virando-se para mim, muito desapontada, vociferou “olha para isto… estamos nós aqui há horas tentando dar o nosso melhor e vem ela com duas palavras apenas e o problema está resolvido”?! E estas cenas repetiam-se constantemente. Há que ser práticos e mais nada.

Outra vez, estávamos num barco, porque apesar de ser uma nação sem litoral e, portanto, sem mar, nem por isso perde para a beleza. A Áustria é repleta de lagos que tornam a paisagem uma verdadeira delícia e naturalmente riquíssima. Porque a Áustria é muito mais do que os museus e a ópera, os grandes compositores e muitas coisas mais. A Áustria é realmente muito mais do que isso. Os lagos, por exemplo, que tão bem compõem a paisagem e onde se faz uma travessia naquelas embarcações simples, mas muito agradáveis, é uma coisa maravilhosa. Para uns, é apenas uma atração turística, para outros, um importante meio de transporte do dia a dia.

Numa dessas vezes em que andámos de barco, sentámo-nos no bar para comer alguma coisa e para mim pedi apenas uma água e um strudel, com que todos os dias me deliciava. Eles foram servidos e eu fiquei pendurada. Terminaram e foram para a borda do barco apreciar a paisagem. Passado pouco tempo veio um empregado e fiz-lhe sinal com a mão e o dedo indicador, para perguntar pelo meu pedido. Ele entendeu e logo respondeu qualquer coisa, acenando que sim com a cabeça, enquanto a mão dava sinal para aguardar mais um pouco. Percebi e continuei à espera. Logo em seguida apareceram os meus tios que, vendo-me ainda sem nada na frente, ficaram admirados, sendo que a minha tia deu logo ordem ao meu tio, ao seu jeito muito peculiar, para saber porque é que eu ainda não tinha sido servida. Respondi-lhe que não era necessário, que já tinham vindo e estava quase a sair. A minha tia calou-se, para logo se espantar uma vez mais, dizendo “mas como é que sabes isso, se tu não sabes falar”? Expliquei-lhe que os meus gestos e os dele eram compatíveis e nada mais. Mas ela ficava sempre alerta e sempre espantada. A comunicação é um dom, quero dizer, pode ser um dom, sim.

Mas a chegada não foi pacífica. Não foi mesmo. Para além do problema do carro com as mudanças automáticas, houve ainda outro problema embaraçoso. Chegámos à tardinha. Com a história do carro e outras coisas mais, a noite caiu. Estava na hora de recolher, de darmos entrada na pousada, onde iriamos ficar alojados durante o tempo em que íamos lá ficar. Eles, que tudo sabiam ou achavam que sabiam, não conseguiam atinar com o lugar. Um dizia que era para a direita, o outro dizia que era para a esquerda e eu no meio daquele burburinho, sem saber o que fazer. Ao fim de umas duas horas de andarmos para lá, para cá, à procura do local, parámos na estrada, junto a um parque de campismo para perguntar. Mas ninguém soube dar a informação que precisávamos. Estávamos completamente no escuro. No escuro, porque era noite cerrada e no escuro, porque não sabíamos o que fazer. Eles continuavam a discutir quem tinha ou não razão e eu a ver a nossa vida malparada.

A Páginas tantas, já farta da discussão e percebendo que não nos ia levar a lado nenhum, literalmente, decidi que a partir daquele momento descartava totalmente as informações deles e ficávamos por minha conta. Mais uma vez a minha tia se espantou, declarando que eu era maluca. Eles que eram eles não sabiam, como eu haveria de saber?! E não sabia, sem dúvida nenhuma que não sabia, não tinha a menor ideia, estava completamente sem saber o que fazer. Mas estava ainda mais cansada dos dois a brigarem e sem conseguirem solucionar o problema. Por isso, declarei alto e bom som, que a partir daquele momento o problema era meu e só meu. E como vais fazer? Vais adivinhar? Nem respondi. Pensei para comigo mesma, quando não há mais nada que se possa fazer, entrega-se para o universo e ele resolve aquilo que está acima das nossas possibilidades. O universo tem sempre a resposta. É preciso saber ouvi-lo. E assim fiz.

Liguei o carro e fiz-me à estrada. Ao fim de uma meia dúzia de quilómetros de condução, avisto algures na serra uma luz ou umas luzes. E pensei, é para ali que vou. Alguém há-de dar alguma indicação precisa. Mas tu não sabes o que é aquilo(?!), dizia a minha tia. Não interessa, não quero saber, é para ali que vou. Depois logo se vê.  Saio da estrada, sempre naquela direção. Estrada para a direita, estrada para a esquerda, sempre na direção das luzes. Finalmente paro o carro. Tínhamos chegado ao sítio das luzes. 

Chegámos! Chegámos!... Dizia a minha tia numa super excitação e o meu tio com um ar nitidamente aliviado, descontraído, mas sem dizer uma única palavra, como era seu habitual. E eu sem perceber nada. Chegámos! Olha se não fosses tu, passávamos a noite ao relento?! 

Foi então que percebi que, quase por obra e graça do espírito santo, como se costuma dizer, sem fazer a mais pequena ideia, estávamos no sítio certo...

Que canseira aqueles dois me davam!

 

 

domingo, 9 de janeiro de 2022

Conchinha - 66

 

Estávamos num Centro Comercial e Conchinha queria comprar uns sapatos. Na verdade, nunca chegámos a perceber se queria comprar ou experimentar. Sim, porque experimentava, experimentava e nada lhe agradava. Mas havia algo de estranho nisto. Quando ela via um modelo de que gostava, pedia sempre o mesmo número, um número quase de criança, o que raramente havia, e quando havia estava muito apertado para o seu pé. Quem a atendia apressava-se a ir buscar o tamanho maior, que ela logo rejeitava, alegando que o número tinha que ser aquele, porque era aquele o número dela. E porquê? Porque, dizia ela, tinha pés de “princesa”, do qual não abdicava de jeito nenhum, ainda que os pés tivessem que sofrer as passas do Algarve, pois o importante era ter pés de princesa. Todos sabemos que às vezes, dependendo do modelo, o tamanho poderá ser alterado, coisa que ela não conseguia admitir. Enfim, cada um com suas manias e Filomena e eu olhávamos uma para a outra, trocando olhares com mensagens codificadas, sem necessidade de palavras. Já conhecíamos muito bem a peça, com estas e outras manias.

As duas são irmãs, Filomena e Concha, sendo que ambas têm um problema muito complicado: vivem num fuso horário completamente diferente do das outras pessoas. É como se vivessem no outro lado do mundo. Não têm horas para nada e quando se combina alguma coisa é um verdadeiro suplício. Em todo o caso, nunca admitem que estão atrasadas, etc… etc… etc. São vidas e maneiras de estar na vida. Já eu sou o oposto. É ao minuto, ao segundo ou um pouco antes, conforme o caso. Enfim…

Um dia, Filomena perdeu o cartão de débito. Uma chatice. À hora que foi, os bancos já estavam fechados, por isso, teria que ficar para o dia seguinte. No outro dia à noite quando lhe telefonei para saber se tinha dado baixa do cartão, fiquei de queixo caído quando ela me disse que chegou lá e já estava fechado. Mas disse-me isto como se o banco tivesse fechado propositadamente para não a atenderem. Perguntei-lhe a que horas tinha ido, claro, teve o dia todo para se arranjar e embonecar e chegou ao banco aos quarenta e cinco do segundo tempo, bateu a cara na porta e ainda teve o desplante de pedir para a atenderem!? Claro que não foi atendida. Como é possível?!

Uma vez combinámos ir ao cinema. Era uma matiné por volta das cinco ou seis horas da tarde. Já contando com os atrasos dela dei-lhe meia hora de antecedência. Quando cheguei à porta chamei-a pelo telemóvel. Disse que era só calçar os sapatos. O tempo passava e ela não aparecia. Voltei a ligar, era só pegar na mala. Continuei à espera e tive que ligar mais uma vez. Era só passar batom nos lábios. Quando finalmente chegou ao carro, já tinha passado a meia hora de tolerância e mais outra meia hora. Portanto, o cinema já era. Mas ela continuava a achar que se tinha atrasado só um pouquinho.

Concha é igual ou pior ainda. E andamos sempre juntas para concertos, cinemas, idas ao Centro Comercial, almoços ou jantares, pelo que com elas é uma verdadeira tortura. Mas são minhas companheiras de vida, minhas irmãs do coração e só por isso tudo vale a pena.

Agora eu tinha um telemóvel novo e estava a instalar as fotos nos respetivos números, o que se torna mais fácil de identificar. Como estava com as duas pedi-lhes para me deixarem fazer as fotos delas. É claro que houve logo um ensaio e um cuidado de estarem bem, retocando os lábios e passando as mãos nos cabelos a compor os rostos. Esperei o tempo necessário e quando concluíram tirei as fotos. Não foi uma nem duas, foram várias, para uma e para outra, porque ambas queriam escolher. Disse-lhes que era apenas para pôr nos números de telefone para quando estabelecesse ligação com elas, mas isso não invalidava. Queriam estar aprovadíssimas por elas mesmas, o que não tem mal nenhum, apenas um pouco de exagero. Mas tudo bem. E com toda a paciência delas e minha, por razões diferentes, lá concluí o que me interessava. Isto foi feito no Centro Comercial, entre o experimentar de sapatos que nunca mais acabava, com a permissão das duas, perfeitamente cientes do que se tratava.

Um dia, depois de um concerto, em que já estávamos só nos duas, Conchinha e eu, no carro dela, passando mesmo em frente ao Corte Inglês, Concha começa a dizer que podíamos dar um saltinho lá para comer alguma coisa. E enquanto pensa e não pensa, decide parar na faixa de rodagem como se fosse em segunda fila, mas sem sequer encostar e chegar à direita. Parou bem ao centro, sem sinais luminosos a indicar a paragem e sem a mais pequena preocupação, sacou o telemóvel da mala e começou a escrever uma mensagem. Atenta a tudo o que dali vinha, achei estranho e um perfeito disparate tudo o que estava a acontecer. Parar ali, sem mais nem menos e pegar no telemóvel para responder a uma mensagem, numa zona movimentadíssima como aquela, até me encolhi toda, pois o sinal de perigo era muito grande. Os carros que vinham de trás com toda a facilidade podiam bater e de quem era a culpa?

Chamei-a a atenção, com uma certa calma, mas ela respondeu que era urgente responder àquela mensagem. Mas aqui e agora neste sítio, com o carro assim, mesmo a pedir para levar uma batida por trás? Ela achou que não, que não estava nada assim tão mal e que os outros é que tinham que ter cuidado, pois poderiam esperar um bocadinho. E continuava que o que estava a fazer era muito importante.

Eu estava pior que estragada e agoniada de todo, com uma atitude tão irresponsável! Sabia perfeitamente que dali tudo era possível, mas ainda assim, estava sempre a ser surpreendida. É que as coisas podem piorar sempre(!). Nunca sabemos qual é o limite.

Não tendo como demovê-la daquela loucura e achando que ela tinha idoneidade mais do que suficiente para perceber a que estava a sujeitar-se e a mim também, o que me restava fazer era alhear-me e entregar-me à sua vontade, uma vez que quem estava ao volante era ela. Assim, peguei também no meu telemóvel e concentrei-me nele, a ver uma coisas.

A páginas tantas, Conchinha arranja maneira de dar uma olhadela de soslaio e pergunta “mas a menina tem aí a minha foto?” Sim, respondi, a foto associada ao número de telefone. Não percebi muito bem o que ela queria com aquela pergunta e não liguei ao assunto. Mas ela continuou “mas a minha foto está aí no seu telemóvel?”

Conchinha, que tem mais dez anos do que eu, tem a mania de me tratar assim. Aliás não é só a mim. Ela dá-se uns ares de uma senhora muito fina e muito requintada, o que nos dá um certo gozo. Já nasceu assim e será sempre assim. Além disso, a sua idade em vez de aumentar, como a de toda a gente, vai baixando, ao ponto de as irmãs na brincadeira dizerem que ela já é mais nova do que a filha, simplesmente porque acha que não aparenta ter mais do que quarenta anos, quando tem quase o dobro.

Voltei a responder que sim. Mas eu não sabia, interpelou ela, não sabia que tinha aí a minha foto. Ora essa, respondi, então não tirei uma vez no Centro Comercial, a ti e à Filu? Ah, mas eu não sabia que era para ter aí no telemóvel. Treta, claro que sabia e muito bem. Até tive que tirar uma série delas porque ela não se contentava com nenhuma, por isso fiquei sem perceber a reacção dela. E disse-lhe que tinha pedido às duas, dizendo-lhes para que efeito era, no que elas concordaram. Mas Conchinha continuava afirmando que não sabia e resumindo e concluindo, não queria que eu tivesse a foto dela no telemóvel. Pensei para comigo mesma, isto é de doidos. Para começar, continuávamos paradas num lugar daqueles e sem necessidade nenhuma. Depois começa a enviar mensagens e depois ainda começa a chatear a minha paciência com uma porcaria daquelas?!

E continua a insistir que não quer a foto dela ali. Apague, ordenou com o indicador bem esticado. Apago? Mas porquê? Porque eu não quero a minha foto aí? Essa agora, de repente lembrou-se daquilo e faz uma birra que nem uma criança pequena! Mas apago porquê? Estou mandando. Apague imediatamente a minha foto.

Por instantes fiquei calada, pensando, mas porque é que eu tenho que apagar? Qual é o problema? Ela sabia perfeitamente, quando lhe tirei a foto, que era apenas para aquilo, pois eu nem Face Book uso. Não tinha a mais pequena possibilidade de achar que ia utilizar a foto para… sei lá o quê. E então ordena que apague no meu próprio telemóvel? O telemóvel é meu! Eu apago se quiser! Se lhe tivesse tirado a fotografia sem ela dar por isso eu até entendia, mas do jeito que foi, não. Aquilo não tinha pés nem cabeça!

Acontece que quando as pessoas têm atitudes que eu não consigo compreender, por mais disparatadas que sejam, não desisto de tentar entender. Acho que é importante compreender o ser humano. Eu também tenho as minhas manias, as minhas coisas e somos todos diferentes uns dos outros. Cada um é um mundo. Um mundo secreto, um mundo desconhecido. É interessante penetrar nesse outro mundo e perceber o que há lá. É uma experiência que pode ser importante. Desconsiderar isso não é talvez a melhor atitude.

Comecei então a forçar a pergunta. Mas porquê? E embora ela continuasse no mesmo registo, eu estou mandando, etc…, continuei a ignorar, só podia, a menos que ela me desse uma boa razão, o que eu não antevia nem imaginava. E como eu não obedecia e ela não queria ser vencida, depois de uma luta para lá, para cá e tal e coisa, Concha descaiu-se e deixou sair o maior absurdo que já ouvi, vindo de qualquer pessoa, mas dela, uma mulher que, à parte as suas manias e esquisitices – todos as temos -, é culta, vivida, com um historial interessantíssimo e uma experiência de vida com um certo peso. Concha respondeu exactamente isto: "às vezes tenho tonturas e eu não sabia porquê. Agora já sei..."

Eu pensava que não estava a ouvir bem. Mas ela continua: sim, o telemóvel está sempre a movimentar-se de um lado para o outro e isso faz muito mal à minha cabeça…(?!)

E eu continuava sem palavras, tentando digerir o que acabava de ouvir e perguntando a mim mesma “mas ela disse isto?”, à espera que fosse apenas uma brincadeira, que nem por isso fez com que eu apagasse a foto, enquanto ela reafirmava convicta e de viva voz “agora já sei porque tenho tonturas” … (?!)


sábado, 31 de julho de 2021

Céu azul - 65

 

A vila acorda ao som da passarada. Das gaivotas e tudo o mais, mas sobretudo das gaivotas, que falam umas com as outras a torto e a direito e até parece que falam com os humanos como se fazendo entender, numa conversa que nunca mais acaba, alto e bom som. Os incomodados que se mudem!

A vida está de volta com todo o sol brilhando na fusão do mar com o céu azul ao fundo, numa tela imensa onde tudo se reflete, com as palmeiras que levemente balançam ao sabor da aragem… enfim, com toda a rotina inerente à vida.

É o mercado com os compradores e os mercadores, a feira com os feirantes, os que vendem e os que compram. A azáfama completa de apenas mais um dia. É só mais um dia. Mas não é. É um dia especial como o são todos os dias. Mas o que o faz mais especial é o despertar da consciência de uma maneira diferente. É quando todos os canais se abrem proporcionando o desfrutar de toda a plenitude que é a vida, com todos os sons, todas as cores, toda a existência maravilhosa num maior contacto com a natureza. Mas parece que só as gaivotas têm essa consciência(?!).

E isso sim, é diferente, porque não é o quotidiano. Para muitos são as férias desejadas, para outros é mesmo só mais um dia a seguir ao outro. Contudo, para todos, a vila acorda em grande estilo, com tudo a funcionar. São os que já vão para a praia, os que ainda ficam na cama a descansar um pouco mais, os que já estão na cozinha a preparar as refeições, os que se dirigem ao mercado ou aos supermercados para comprar o que é preciso e o que não é. A vila pode até fazer uma pausa à noite, enquanto todos dormem. A vida, essa não pára, não descansa.

É sim mais outro dia, mas em que podemos sempre fazer igual ou diferente. Um dia em que podemos estar em plena sintonia com o universo e “despertar” do sono em que estamos adormecidos a vida inteira, no qual vive mergulhada a humanidade. É uma oportunidade quase única, porque tudo nos passa sempre ao lado, despercebido, sem nada valorizarmos, sem uma percepção diferente do habitual.

É uma manhã que não está em calendário nenhum, porque não importa o dia da semana ou do mês e nem do ano. O que importa é que está selada nos registos akáshicos como imperdível e trazendo um prazer absoluto à existência do ser humano, mas muito mais do que isso, à alma, porque é nessa sintonia que conseguimos a união e a inserção com o Todo.

É um daqueles momentos únicos de rara beleza, em que o espírito fala mais alto e se sobrepõe a toda a matéria, não esquecendo o seu valor, mas situando-se muito para além da vulgaridade. E do mesmo modo que não importa o lugar do calendário, também não importa o lugar físico.

Não se trata de dormir na cama de um hotel de luxo de cinco estrelas; entre as sedas finíssimas de um palácio, ou das rendas riquíssimas de um ”castelo”. Não importa se há paredes e um tecto, conforto ou desconforto. Este despertar único pode até ser sobre pedras, sobre a terra, sobre a água… 

O que o diferencia verdadeiramente, dando-lhe o poder de tamanha transformação dos sentidos, é o infinito de um céu azul sem igual.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Olá! - 64

 

Nos dias que correm nada acontece. Até a memória parece que se extinguiu, ao ponto de já nada me dar para me entreter. Tudo parado. Todos fechados em casa, por conta de uma pandemia que assolou o mundo: Covid 19, a única coisa que realmente domina a vida com as mortes e os infectados. Não há crianças a brincar na rua, nos parques, em lado nenhum. Não há passeios, ajuntamentos e muito menos festas e viagens. Ninguém pode estar com ninguém, nem mesmo com a família, pois cada um se tem que proteger o melhor possível para fugir à possibilidade de infecção.

Saí para ir à Farmácia comprar um medicamento que tomo para a tensão arterial. Já passava da uma hora da tarde, hora do confinamento, mas por isso mesmo decidi deixar a ida à Farmácia para essa altura, uma vez que a Farmácia é um dos poucos lugares onde se pode ir depois do horário do confinamento obrigatório. Obrigatório sim, mas são muitas horas, muitos dias, muito tempo de clausura. As pernas precisam de andar e a cabeça precisa de arejar. Para não falar em “respirar” …

Já tinha almoçado, já tinha feito as tarefas caseiras todas e mais algumas e decidi aproveitar a ida à Farmácia para dar movimento ao corpo e ao mesmo tempo mudar um pouco o registo visual que bem precisado estava. Nem aos vizinhos se podia ir, porque cada um tem a sua vida, os seus contactos, cada um é um universo diferente, com o seu próprio mundo e, lamentavelmente, nada confiável.

O medo domina-nos, persegue-nos para todo o lado. É preciso estar sempre de vigia. Fazer um desvio aqui, outro ali. Fingir que não, mas sim, contribuir para a não contaminação, uma vez que ninguém pode garantir que está inócuo, sem infecção, que pode muito bem ser silenciosa, sem voz e sem rosto, completamente invisível. Uma tragédia inconformável, infelizmente sem volta a dar, a não ser esperar, esperar.

E lá fui eu, pé ante pé, sem a menor pressa de nada e muito menos de voltar para casa, onde não há ninguém, a não ser a televisão e o telefone para quebrar o silêncio. Ah..., o computador, claro. Pé ante pé no alcatrão e na calçada, nada nem ninguém. A única coisa que eu ouvia eram as minhas próprias passadas, de resto, mais nada. Um silêncio de cortar a alma. Um vazio intolerável. E a vida a passar-nos ao lado. Quanto tempo mais?

Ah, os pássaros! Esses sim, ouviam-se que era uma maravilha. Mais do que nunca. A esses não há vírus ou outra coisa qualquer que lhes tire a liberdade. A liberdade, que é das coisas que eu mais prezo no ser humano. Quanta inveja! Escutando melhor, havia o eco de tudo ao fundo. O eco dos poucos carros a circular ao longe, o eco de vozes talvez vindas de dentro das casas, tudo indefinido, tudo distante da realidade, distante do palpável.

E ao fim de dez minutos de andar num passo bem descontraído e tão lento quanto possível, chego à Farmácia. Aguardo um pouco cá fora, pois tem duas pessoas à minha frente, posicionadas com o distanciamento conveniente, para não falar das máscaras que nos tornam ainda mais distantes uns dos outros. Ninguém reconhece ninguém…

Mas chega a minha hora de entrar até que, finalmente, me encontro perante a farmacêutica que me vai atender. Uma garota muito nova, bonita, simpática e sorridente que, como todos os outros, nos atende sempre muito bem, com muito à vontade, até com um certo trato familiar que tão bem assenta e um pouco de conversa descontraída, para saber se está tudo bem, tudo nos conformes, sem problemas de maior. E já com o medicamento pago, saio da farmácia para dar lugar a outro que já está à espera para entrar.

De regresso a casa começo novamente a ouvir os meus passos na calçada. Mais uma tarde em casa, inventando e reinventando, para a cabeça não dar um nó maior, um nó que não tenha saída. Tento sacudir os pensamentos negativos, valorizar o pouco de sol que nos visita no meio dos dias húmidos e tristes e continuo a minha caminhada, impondo a mim mesma uma persistente disciplina no que me vai no pensamento, para não o deixar ir ao deus dará.

E mal começo a afastar-me da farmácia ouço, repentinamente, vindo do nada, mas muito bem definido, nada tendo a ver com o eco da mistura de todos os outros sons dispersos que se ouvem, um “olá(!)” tão espontâneo quanto delicioso. Olá, pensei eu. Um olá que, em princípio, nada tinha a ver comigo, com a minha pessoa. Em todo o caso, era agradável de ouvir. Viesse de onde viesse era bom ouvir. Soava bem e diferenciava o silêncio, que era mais que muito. E em princípio não seria comigo, mas com quem mais poderia ser, se não havia por ali mais ninguém?!

Olhei vagarosamente em volta, como quem não quer nada e, de facto, não havia ninguém para aquele surpreendente olá. Para quem seria então? E de repente ouço nas minhas costas, mas algures acima, uma voz sussurrando “não te ouviu”. Não te ouviu? E a voz repetiu com a mesma vivacidade e a mesma surpresa “olá(!)”. Não, agora eu tinha que me virar e verificar, porque alguma coisa me dizia que, afinal, poderia ser para mim e exclusivamente para mim, uma vez que não havia vivalma por perto.

Foi então que, sem querer perder mais tempo, me virei e do primeiro andar por cima da farmácia, exposto na varanda, vi uma pequeníssima criatura com um bracito esticado e a mãozinha toda aberta acenando e olhando para mim. Um garotinho aí de uns três anos que, por trás do gradeamento da sua varanda, voltou a dizer “olá”, olhando para mim, na expectativa de que eu lhe devolvesse o olá que ele fazia tanta questão de exibir.

E como não?! Não era possível ignorar aquele gesto tão simples, tão inesperado, tão carinhoso. Uma graça(!) ... pensei para comigo mesma. Fiquei parada a admirá-lo, também ele vítima da clausura, não tendo mais o que fazer, decidiu ir para a varanda descobrir algum transeunte com quem quebrar a sua monotonia caseira. Olá, dizia ele, acenando com a mãozinha pequena e fofa. E rapidamente lhe respondi “olá”, seguida de um beijo que lhe enviei com a minha mão, que o atirou na sua direcção, enquanto ficou a acenar-lhe com todo o entusiasmo que aquele pequeno gesto me tinha transmitido.

Correspondendo ao meu beijo, com a sua mãozita pequena me enviou um, dois, três beijos rápidos, que voaram na minha direcção. Estava feliz, como pude perceber, por ter tido aquela simples recepção. E eu estava extasiada, também numa felicidade imensa, imparável, que por momentos me salvara dos pensamentos tristes e pesados que invadiam as minhas ideias. Não importava quem era aquela criança, da mesma maneira que ele tão pouco se importou com quem era eu. Eu era apenas eu, que por ali passou no momento em que precisou de ver alguém para ter a quem falar, a quem cumprimentar à sua maneira pueril e infantil. Se não tivesse olhado para trás teria sido muito burra. E ali ficámos os dois a admirarmo-nos um ao outro, felizes, na nossa espontânea comunicação sem hora marcada. Era de lá os bracitos dele no ar e de cá os meus também, e as nossas mãos abanando, abanando, numa estreita cumplicidade amorosa sem igual, sem antes nem depois.

E parei para retomar o meu caminho de regresso a casa, à minha habitual solidão, onde o conforto desconfortável me aguardava; agora, porém, com a alma renovada, iluminada e sem dúvida com um ânimo novo que me guiou o curto caminho, com um sorriso fresco nos lábios, para deixar de ouvir o eco do silêncio, do vazio, da vida parada, onde nada acontece a não ser as infecções e as mortes.