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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Áustria - 67

 

Como é bom viajar! E a Áustria?! A Áustria onde eu nunca sonhei que um dia haveria de ir… não por achar que não valesse a pena, muito pelo contrário, mas porque nunca pensei que se proporcionasse. E assim, do nada, lá fui eu no avião, rumo ao centro da Europa, cheia de fronteiras à sua volta e onde o mar não consegue chegar. Terra de grandes nomes, génios autênticos e únicos.

E como é linda a Áustria, meu deus! É flores por todo o lado. Até a sopa tem flores! E não foi por não saber falar alemão que não me fiz entender com eles. Perfeitamente. Foi realmente uma viagem surpresa. Os meus tios quiseram ir mais uma vez à Áustria, de onde tinham muito boas recordações. Como dizem os filhos, a sua única preocupação era descobrirem no globo, algum sitiozinho onde ainda não tivessem posto os pés. Ali não era o caso, mas por muito viajarem, este foi um dos destinos por eles repetido.

Levaram a vida a viajar. As férias eram única e exclusivamente largar tudo, fazer as malas com as suas melhores vestimentas e lá iam eles. O resto era o resto e o que quer que fosse podia esperar. Nada mais tinha importância na vida deles como tinham as viagens. Depois, chegavam sempre muito cansados, precisando de descansar, ou seja, de nada fazer. Mas assim que havia a mais pequena possibilidade de viajar, não havia cansaço que os impedisse. Todas as forças voltavam como que por magia. Era uma coisa impressionante.

É claro que depois de se reformarem foi ainda pior. As viagens eram minuciosamente pensadas e estudadas e por vezes era chegar a casa, desfazer a bagagem para serem novamente feitas e embarcar na próxima. Algumas vezes viajei com eles, como foi o caso da Áustria, por já estarem na casa dos oitenta, com algumas doenças e fragilidades físicas e os meus primos terem receio. Aí, eu tirava férias e ia com eles, para não os impedir de viajar e todos ficarem mais tranquilos.

A Áustria foi um desses destinos em que fui essencialmente por eles. Mas não me arrependo nem por um instante. Até porque sem eles talvez nunca tivesse ido, apenas porque me eram prioritários outros destinos. Mas fui e foi muito bom, tanto para mim como para eles. Aliás, se eu não tivesse ido, teria sido muito complicado. Nessa viagem a minha tia passou o tempo todo a comentar que sem mim, não sabia como se iam arranjar, porque o meu tio já não conseguia dar resposta a muita coisa e ela reclamava, mas estava sempre na dependência dele. Enfim, a idade tem as suas limitações. Mas para mim foram experiências muito bem aproveitadas e muito importantes, porque eu conheci o mundo, aprendi e tirei partido de tudo quanto vivi.

A aventura foi logo à chegada. Havia uma reserva de um carro de aluguer para nos podermos deslocar. O carro que nos deram tinha mudanças automáticas. Nem o meu tio nem eu tínhamos conduzido um carro sem mudanças, por isso pedimos para trocarem. Impossível, porque já não tinham carros com mudanças manuais, pelo que tivemos mesmo que aceitar o que havia. A minha tia logo entrou em pânico, porque o marido não ia conseguir conduzir. Então não tive outro remédio senão tomar as rédeas e sentar-me eu mesma ao volante. Só que, na verdade, eu também não tinha a menor ideia de como aquilo funcionava e era complicado meter-me à estrada sem a mais pequena noção do funcionamento daquela coisa. Mesmo assim, fui forçada a arrancar, mas logo a seguir tive que parar, sair do carro e muito sem jeito, ganhar forças para pedir auxílio ao primeiro condutor que apareceu.

Fui ter com ele, perguntei-lhe se sabia falar inglês, mas ele disse que não. Bom, assim mesmo, porque não havia alternativa, comecei a dizer-lhe, acompanhando a minha linguagem com gestos, que não sabia como funcionavam as mudanças. Ele entendeu perfeitamente a minha dificuldade, saiu do carro e dirigiu-se ao nosso, onde a minha tia já estava toda em alvoroço com o habitual “e agora?” e agora, etc. O homem chegou perto, entrou, sentou-se ao volante e começou a falar em alemão, ao mesmo tempo que exemplificava. E eu só via a minha (nossa) vida a andar para trás. Pensei mesmo que não íamos conseguir sair dali. Mas, se já ali estávamos e até ali tínhamos chegado, havia que tentar. E assim foi. Percebi e não percebi, o que ele explicou. O homem saiu do carro, agradeci e ele seguiu a sua vida para nós seguirmos a nossa também.

Ganhei coragem e entrei no carro, como se tivesse entendido na maior perfeição tudo o que ele tinha acabado de explicar, num perfeito alemão, sabendo que eu não entendia patavina. Mas tudo bem. Querer é poder. E lá pus o carro a trabalhar. Com o andamento, as coisas foram indo e aos poucos comecei a “perceber” ou a convencer-me de que estava a perceber exatamente o que estava a fazer. O carro, esse, não se queixava. E como também não era nosso, paciência. O facto é que durante os dez dias em que estivemos na Áustria, aquele carro só conheceu as minhas mãos e os dois acabámos por nos entender conforme pôde ser. Ele não me deixou ficar mal e eu não o tratei assim tão mal, uma vez que ele nunca falhou. De regresso a Portugal, quando finalmente peguei no meu carro, até me esqueci de que não estava na Áustria e que era o meu carro, um carro com mudanças manuais em vez de automáticas. Lá tive que me readaptar. Naquele momento até já dava jeito um carro automático. Paciência, a vida é como é.

E como foi bom, deslizar por aquelas estradas fora, muitas delas por baixo da terra, em túneis de muitos quilómetros, que para mim era uma novidade completa. Pelo menos o trânsito fluía, sem paragens e sem stress. Também pela primeira vez na vida, por várias vezes fui obrigada a estacionar em parques de estacionamento interiores, de uma grandiosidade impressionante, que quando entrava só pensava para comigo mesma que não ia conseguir encontrar o carro no regresso. Mentira. Fácil, fácil. E as aventuras não paravam de suceder.

Uma vez. Numa bomba de gasolina em que parámos para abastecer, dei essa tarefa ao meu tio, uma vez que era ele a pagar, enquanto entrei lá dentro para comprar uma garrafa de água. Dentro do carro, a minha tia gritava para o marido, que o melhor era ele ir comigo, senão eu não conseguiria fazer-me entender, pelo facto de não falar alemão. Gritei-lhe que não era preciso, para grande espanto dela. E lá fui eu. Entrei, fiquei na fila para o pré-pagamento e quando chegou a minha vez limitei-me a dizer “wasser, bitte…”. Eu não sei alemão, mas não há ninguém que não saiba como se diz água!? Não há ninguém que não saiba como se diz “por favor”?! Era só o que eu precisava! Depois, o que ele respondeu, não sei, mas apontou para o lado esquerdo, pelo que depreendi que devia estar por ali. Paguei e fui na direção que ele indicou. Lá estava ela, a “wasser” e pronto, lá fui eu com a minha água, toda contentinha. Quando cheguei perto dos meus tios e ela me viu com a garrafa na mão, ficou de olhos arregalados, só porque achou mesmo que eu não conseguia comprar uma porcaria de uma garrafa de água!?

Eles ensaiavam o seu bom alemão. Empurravam um para o outro e evitavam falar, apesar de saberem falar muito bem. Eu, pelo menos, não sabia mesmo. E nem isso me impediu de me fazer entender. Como se diz em bom português “para bom entendedor meia palavra basta”. E pronto.

Outra vez, na bilheteira de uma estação de comboios, foi uma tourada das grandes, apenas para pedir três bilhetes. Eles complicavam muito as coisas. Penso que queriam mostrar que, apesar de serem estrangeiros, tinham o mérito de saber muito bem alemão e, portanto, começavam a fantasiar, isto é, queriam adicionar ao discurso uma série de coisas que eram absolutamente desnecessárias, tanto assim, que nem sabiam como começar. Então começava um e apenas dizia uma ou duas palavras para logo ser abruptamente interrompido pelo outro que dizia “eu falo”. E começava a falar para também ser imediatamente interrompido pelo outro que logo dizia, não, eu é que sei, e por aí adiante. O homem da bilheteira olhava estupefacto para os dois, sem perceber nada e sem entender o comportamento de ambos. A páginas tantas, quando achei que a situação já estava insustentável e tinha ultrapassado todos os limites, espontaneamente, entrei eu, interpelando-os e falando apenas isto "drei tickets", que nem tive tempo de dizer por favor, ao que o homem logo respondeu “ah, três bilhetes”, para seu grande alívio, que já estava muito chateado.

A minha tia, virando-se para mim, muito desapontada, vociferou “olha para isto… estamos nós aqui há horas tentando dar o nosso melhor e vem ela com duas palavras apenas e o problema está resolvido”?! E estas cenas repetiam-se constantemente. Há que ser práticos e mais nada.

Outra vez, estávamos num barco, porque apesar de ser uma nação sem litoral e, portanto, sem mar, nem por isso perde para a beleza. A Áustria é repleta de lagos que tornam a paisagem uma verdadeira delícia e naturalmente riquíssima. Porque a Áustria é muito mais do que os museus e a ópera, os grandes compositores e muitas coisas mais. A Áustria é realmente muito mais do que isso. Os lagos, por exemplo, que tão bem compõem a paisagem e onde se faz uma travessia naquelas embarcações simples, mas muito agradáveis, é uma coisa maravilhosa. Para uns, é apenas uma atração turística, para outros, um importante meio de transporte do dia a dia.

Numa dessas vezes em que andámos de barco, sentámo-nos no bar para comer alguma coisa e para mim pedi apenas uma água e um strudel, com que todos os dias me deliciava. Eles foram servidos e eu fiquei pendurada. Terminaram e foram para a borda do barco apreciar a paisagem. Passado pouco tempo veio um empregado e fiz-lhe sinal com a mão e o dedo indicador, para perguntar pelo meu pedido. Ele entendeu e logo respondeu qualquer coisa, acenando que sim com a cabeça, enquanto a mão dava sinal para aguardar mais um pouco. Percebi e continuei à espera. Logo em seguida apareceram os meus tios que, vendo-me ainda sem nada na frente, ficaram admirados, sendo que a minha tia deu logo ordem ao meu tio, ao seu jeito muito peculiar, para saber porque é que eu ainda não tinha sido servida. Respondi-lhe que não era necessário, que já tinham vindo e estava quase a sair. A minha tia calou-se, para logo se espantar uma vez mais, dizendo “mas como é que sabes isso, se tu não sabes falar”? Expliquei-lhe que os meus gestos e os dele eram compatíveis e nada mais. Mas ela ficava sempre alerta e sempre espantada. A comunicação é um dom, quero dizer, pode ser um dom, sim.

Mas a chegada não foi pacífica. Não foi mesmo. Para além do problema do carro com as mudanças automáticas, houve ainda outro problema embaraçoso. Chegámos à tardinha. Com a história do carro e outras coisas mais, a noite caiu. Estava na hora de recolher, de darmos entrada na pousada, onde iriamos ficar alojados durante o tempo em que íamos lá ficar. Eles, que tudo sabiam ou achavam que sabiam, não conseguiam atinar com o lugar. Um dizia que era para a direita, o outro dizia que era para a esquerda e eu no meio daquele burburinho, sem saber o que fazer. Ao fim de umas duas horas de andarmos para lá, para cá, à procura do local, parámos na estrada, junto a um parque de campismo para perguntar. Mas ninguém soube dar a informação que precisávamos. Estávamos completamente no escuro. No escuro, porque era noite cerrada e no escuro, porque não sabíamos o que fazer. Eles continuavam a discutir quem tinha ou não razão e eu a ver a nossa vida malparada.

A Páginas tantas, já farta da discussão e percebendo que não nos ia levar a lado nenhum, literalmente, decidi que a partir daquele momento descartava totalmente as informações deles e ficávamos por minha conta. Mais uma vez a minha tia se espantou, declarando que eu era maluca. Eles que eram eles não sabiam, como eu haveria de saber?! E não sabia, sem dúvida nenhuma que não sabia, não tinha a menor ideia, estava completamente sem saber o que fazer. Mas estava ainda mais cansada dos dois a brigarem e sem conseguirem solucionar o problema. Por isso, declarei alto e bom som, que a partir daquele momento o problema era meu e só meu. E como vais fazer? Vais adivinhar? Nem respondi. Pensei para comigo mesma, quando não há mais nada que se possa fazer, entrega-se para o universo e ele resolve aquilo que está acima das nossas possibilidades. O universo tem sempre a resposta. É preciso saber ouvi-lo. E assim fiz.

Liguei o carro e fiz-me à estrada. Ao fim de uma meia dúzia de quilómetros de condução, avisto algures na serra uma luz ou umas luzes. E pensei, é para ali que vou. Alguém há-de dar alguma indicação precisa. Mas tu não sabes o que é aquilo(?!), dizia a minha tia. Não interessa, não quero saber, é para ali que vou. Depois logo se vê.  Saio da estrada, sempre naquela direção. Estrada para a direita, estrada para a esquerda, sempre na direção das luzes. Finalmente paro o carro. Tínhamos chegado ao sítio das luzes. 

Chegámos! Chegámos!... Dizia a minha tia numa super excitação e o meu tio com um ar nitidamente aliviado, descontraído, mas sem dizer uma única palavra, como era seu habitual. E eu sem perceber nada. Chegámos! Olha se não fosses tu, passávamos a noite ao relento?! 

Foi então que percebi que, quase por obra e graça do espírito santo, como se costuma dizer, sem fazer a mais pequena ideia, estávamos no sítio certo...

Que canseira aqueles dois me davam!

 

 

domingo, 9 de janeiro de 2022

Conchinha - 66

 

Estávamos num Centro Comercial e Conchinha queria comprar uns sapatos. Na verdade, nunca chegámos a perceber se queria comprar ou experimentar. Sim, porque experimentava, experimentava e nada lhe agradava. Mas havia algo de estranho nisto. Quando ela via um modelo de que gostava, pedia sempre o mesmo número, um número quase de criança, o que raramente havia, e quando havia estava muito apertado para o seu pé. Quem a atendia apressava-se a ir buscar o tamanho maior, que ela logo rejeitava, alegando que o número tinha que ser aquele, porque era aquele o número dela. E porquê? Porque, dizia ela, tinha pés de “princesa”, do qual não abdicava de jeito nenhum, ainda que os pés tivessem que sofrer as passas do Algarve, pois o importante era ter pés de princesa. Todos sabemos que às vezes, dependendo do modelo, o tamanho poderá ser alterado, coisa que ela não conseguia admitir. Enfim, cada um com suas manias e Filomena e eu olhávamos uma para a outra, trocando olhares com mensagens codificadas, sem necessidade de palavras. Já conhecíamos muito bem a peça, com estas e outras manias.

As duas são irmãs, Filomena e Concha, sendo que ambas têm um problema muito complicado: vivem num fuso horário completamente diferente do das outras pessoas. É como se vivessem no outro lado do mundo. Não têm horas para nada e quando se combina alguma coisa é um verdadeiro suplício. Em todo o caso, nunca admitem que estão atrasadas, etc… etc… etc. São vidas e maneiras de estar na vida. Já eu sou o oposto. É ao minuto, ao segundo ou um pouco antes, conforme o caso. Enfim…

Um dia, Filomena perdeu o cartão de débito. Uma chatice. À hora que foi os bancos já estavam fechados, por isso, teria que ficar para o dia seguinte. No outro dia à noite quando lhe telefonei para saber se tinha dado baixa do cartão fiquei de queixo caído quando ela me disse que chegou lá e já estava fechado. Mas disse-me isto como se o banco tivesse fechado propositadamente para não a atenderem. Perguntei-lhe a que horas tinha ido, claro, teve o dia todo para se arranjar e embonecar e chegou ao banco aos quarenta e cinco do segundo tempo, bateu a cara na porta e ainda teve o desplante de pedir para a atenderem!? Claro que não foi atendida. Como é possível?!

Uma vez combinámos ir ao cinema. Era uma matiné por volta das cinco ou seis horas da tarde. Já contando com os atrasos dela dei-lhe meia hora de antecedência. Quando cheguei à porta chamei-a pelo telemóvel. Disse que era só calçar os sapatos. O tempo passava e ela não aparecia. Voltei a ligar, era só pegar na mala. Continuei à espera e tive que ligar mais uma vez. Era só passar batom nos lábios. Quando finalmente chegou ao carro, já tinha passado a meia hora de tolerância e mais outra meia hora. Portanto, o cinema já era. Mas ela continuava a achar que se tinha atrasado só um pouquinho.

Concha é igual ou pior ainda. E andamos sempre juntas para concertos, cinemas, idas ao Centro Comercial, almoços ou jantares, pelo que com elas é uma verdadeira tortura. Mas são minhas companheiras de vida, minhas irmãs do coração e só por isso tudo vale a pena.

Agora eu tinha um telemóvel novo e estava a instalar as fotos nos respetivos números, o que se torna mais fácil de identificar. Como estava com as duas pedi-lhes para me deixarem fazer as fotos delas. É claro que houve logo um ensaio e um cuidado de estarem bem, retocando os lábios e passando as mãos nos cabelos a compor os rostos. Esperei o tempo necessário e quando concluíram tirei as fotos. Não foi uma nem duas, foram várias, para uma e para outra, porque ambas queriam escolher. Disse-lhes que era apenas para pôr nos números de telefone para quando estabelecesse ligação com elas, mas isso não invalidava. Queriam estar aprovadíssimas por elas mesmas, o que não tem mal nenhum, apenas um pouco de exagero. Mas tudo bem. E com toda a paciência delas e minha, por razões diferentes, lá concluí o que me interessava. Isto foi feito no Centro Comercial, entre o experimentar de sapatos que nunca mais acabava, com a permissão das duas, perfeitamente cientes do que se tratava.

Um dia, depois de um concerto, em que já estávamos só nos duas, Conchinha e eu, no carro dela, passando mesmo em frente ao Corte Inglês, Concha começa a dizer que podíamos dar um saltinho lá para comer alguma coisa. E enquanto pensa e não pensa, decide parar na faixa de rodagem como se fosse em segunda fila, mas sem sequer encostar e chegar à direita. Parou bem ao centro, sem sinais luminosos a indicar a paragem e sem a mais pequena preocupação, sacou o telemóvel da mala e começou a escrever uma mensagem. Atenta a tudo o que dali vinha, achei estranho e um perfeito disparate tudo o que estava a acontecer. Parar ali, sem mais nem menos e pegar no telemóvel para responder a uma mensagem, numa zona movimentadíssima como aquela, até me encolhi toda, pois o sinal de perigo era muito grande. Os carros que vinham de trás com toda a facilidade podiam bater e de quem era a culpa?

Chamei-a a atenção, com uma certa calma, mas ela respondeu que era urgente responder àquela mensagem. Mas aqui e agora neste sítio, com o carro assim, mesmo a pedir para levar uma batida por trás? Ela achou que não, que não estava nada assim tão mal e que os outros é que tinham que ter cuidado, pois poderiam esperar um bocadinho. E continuava que o que estava a fazer era muito importante.

Eu estava pior que estragada e agoniada de todo, com uma atitude tão irresponsável! Sabia perfeitamente que dali tudo era possível, mas ainda assim, estava sempre a ser surpreendida. É que as coisas podem piorar sempre(!). Nunca sabemos qual é o limite.

Não tendo como demovê-la daquela loucura e achando que ela tinha idoneidade mais do que suficiente para perceber a que estava a sujeitar-se e a mim também, o que me restava fazer era alhear-me e entregar-me à sua vontade, uma vez que quem estava ao volante era ela. Assim, peguei também no meu telemóvel e concentrei-me nele, a ver uma coisas.

A páginas tantas, Conchinha arranja maneira de dar uma olhadela de soslaio e pergunta “mas a menina tem aí a minha foto?” Sim, respondi, a foto associada ao número de telefone. Não percebi muito bem o que ela queria com aquela pergunta e não liguei ao assunto. Mas ela continuou “mas a minha foto está aí no seu telemóvel?”

Conchinha, que tem mais dez anos do que eu, tem a mania de me tratar assim. Aliás não é só a mim. Ela dá-se uns ares de uma senhora muito fina e muito requintada, o que nos dá um certo gozo. Já nasceu assim e será sempre assim. Além disso, a sua idade em vez de aumentar, como a de toda a gente, vai baixando, ao ponto de as irmãs na brincadeira dizerem que ela já é mais nova do que a filha, simplesmente porque acha que não aparenta ter mais do que quarenta anos, quando tem quase o dobro.

Voltei a responder que sim. Mas eu não sabia, interpelou ela, não sabia que tinha aí a minha foto. Ora essa, respondi, então não tirei uma vez no Centro Comercial, a ti e à Filu? Ah, mas eu não sabia que era para ter aí no telemóvel. Treta, claro que sabia e muito bem. Até tive que tirar uma série delas porque ela não se contentava com nenhuma, por isso fiquei sem perceber a reacção dela. E disse-lhe que tinha pedido às duas, dizendo-lhes para que efeito era, no que elas concordaram. Mas Conchinha continuava afirmando que não sabia e resumindo e concluindo, não queria que eu tivesse a foto dela no telemóvel. Pensei para comigo mesma, isto é de doidos. Para começar, continuávamos paradas num lugar daqueles e sem necessidade nenhuma. Depois começa a enviar mensagens e depois ainda começa a chatear a minha paciência com uma porcaria daquelas?!

E continua a insistir que não quer a foto dela ali. Apague, ordenou com o indicador bem esticado. Apago? Mas porquê? Porque eu não quero a minha foto aí? Essa agora, de repente lembrou-se daquilo e faz uma birra que nem uma criança pequena! Mas apago porquê? Estou mandando. Apague imediatamente a minha foto.

Por instantes fiquei calada, pensando, mas porque é que eu tenho que apagar? Qual é o problema? Ela sabia perfeitamente quando lhe tirei a foto que era apenas para aquilo, pois eu nem Face Book uso. Não tinha a mais pequena possibilidade de achar que ia utilizar a foto para… sei lá o quê. E então ordena que apague no meu próprio telemóvel? O telemóvel é meu! Eu apago se quiser! Se lhe tivesse tirado a fotografia sem ela dar por isso eu até entendia, mas do jeito que foi, não. Aquilo não tinha pés nem cabeça!

Acontece que quando as pessoas têm atitudes que eu não consigo compreender, por mais disparatadas que sejam, não desisto de tentar entender. Acho que é importante compreender o ser humano. Eu também tenho as minhas manias, as minhas coisas e somos todos diferentes uns dos outros. Cada um é um mundo. Um mundo secreto, um mundo desconhecido. É interessante penetrar nesse outro mundo e perceber o que há lá. É uma experiência que pode ser importante. Desconsiderar isso não é talvez a melhor atitude.

Comecei então a forçar a pergunta. Mas porquê? E embora ela continuasse no mesmo registo, eu estou mandando, etc…, continuei a ignorar, só podia, a menos que ela me desse uma boa razão, o que eu não antevia nem imaginava. E como eu não obedecia e ela não queria ser vencida, depois de uma luta para lá, para cá e tal e coisa, Concha descaiu-se e deixou sair o maior absurdo que já ouvi, vindo de qualquer pessoa, mas dela, uma mulher que, à parte as suas manias e esquisitices – todos as temos -, é culta, vivida, com um historial interessantíssimo e uma experiência de vida com um certo peso. Concha respondeu exactamente isto: "às vezes tenho tonturas e eu não sabia porquê. Agora já sei..."

Eu pensava que não estava a ouvir bem. Mas ela continua: sim, o telemóvel está sempre a movimentar-se de um lado para o outro e isso faz muito mal à minha cabeça…(?!)

E eu continuava sem palavras, tentando digerir o que acabava de ouvir e perguntando a mim mesma “mas ela disse isto?”, à espera que fosse apenas uma brincadeira, que nem por isso fez com que eu apagasse a foto, enquanto ela reafirmava convicta e de viva voz “agora já sei porque tenho tonturas” … (?!)


sábado, 31 de julho de 2021

Céu azul - 65

 

A vila acorda ao som da passarada. Das gaivotas e tudo o mais, mas sobretudo das gaivotas, que falam umas com as outras a torto e a direito e até parece que falam com os humanos como se fazendo entender, numa conversa que nunca mais acaba, alto e bom som. Os incomodados que se mudem!

A vida está de volta com todo o sol brilhando na fusão do mar com o céu azul ao fundo, numa tela imensa onde tudo se reflete, com as palmeiras que levemente balançam ao sabor da aragem… enfim, com toda a rotina inerente à vida.

É o mercado com os compradores e os mercadores, a feira com os feirantes, os que vendem e os que compram. A azáfama completa de apenas mais um dia. É só mais um dia. Mas não é. É um dia especial como o são todos os dias. Mas o que o faz mais especial é o despertar da consciência de uma maneira diferente. É quando todos os canais se abrem proporcionando o desfrutar de toda a plenitude que é a vida, com todos os sons, todas as cores, toda a existência maravilhosa num maior contacto com a natureza. Mas parece que só as gaivotas têm essa consciência(?!).

E isso sim, é diferente, porque não é o quotidiano. Para muitos são as férias desejadas, para outros é mesmo só mais um dia a seguir ao outro. Contudo, para todos, a vila acorda em grande estilo, com tudo a funcionar. São os que já vão para a praia, os que ainda ficam na cama a descansar um pouco mais, os que já estão na cozinha a preparar as refeições, os que se dirigem ao mercado ou aos supermercados para comprar o que é preciso e o que não é. A vila pode até fazer uma pausa à noite, enquanto todos dormem. A vida, essa não pára, não descansa.

É sim mais outro dia, mas em que podemos sempre fazer igual ou diferente. Um dia em que podemos estar em plena sintonia com o universo e “despertar” do sono em que estamos adormecidos a vida inteira, no qual vive mergulhada a humanidade. É uma oportunidade quase única, porque tudo nos passa sempre ao lado, despercebido, sem nada valorizarmos, sem uma percepção diferente do habitual.

É uma manhã que não está em calendário nenhum, porque não importa o dia da semana ou do mês e nem do ano. O que importa é que está selada nos registos akáshicos como imperdível e trazendo um prazer absoluto à existência do ser humano, mas muito mais do que isso, à alma, porque é nessa sintonia que conseguimos a união e a inserção com o Todo.

É um daqueles momentos únicos de rara beleza, em que o espírito fala mais alto e se sobrepõe a toda a matéria, não esquecendo o seu valor, mas situando-se muito para além da vulgaridade. E do mesmo modo que não importa o lugar do calendário, também não importa o lugar físico.

Não se trata de dormir na cama de um hotel de luxo de cinco estrelas; entre as sedas finíssimas de um palácio, ou das rendas riquíssimas de um ”castelo”. Não importa se há paredes e um tecto, conforto ou desconforto. Este despertar único pode até ser sobre pedras, sobre a terra, sobre a água… 

O que o diferencia verdadeiramente, dando-lhe o poder de tamanha transformação dos sentidos, é o infinito de um céu azul sem igual.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Olá! - 64

 

Nos dias que correm nada acontece. Até a memória parece que se extinguiu, ao ponto de já nada me dar para me entreter. Tudo parado. Todos fechados em casa, por conta de uma pandemia que assolou o mundo: Covid 19, a única coisa que realmente domina a vida com as mortes e os infectados. Não há crianças a brincar na rua, nos parques, em lado nenhum. Não há passeios, ajuntamentos e muito menos festas e viagens. Ninguém pode estar com ninguém, nem mesmo com a família, pois cada um se tem que proteger o melhor possível para fugir à possibilidade de infecção.

Saí para ir à Farmácia comprar um medicamento que tomo para a tensão arterial. Já passava da uma hora da tarde, hora do confinamento, mas por isso mesmo decidi deixar a ida à Farmácia para essa altura, uma vez que a Farmácia é um dos poucos lugares onde se pode ir depois do horário do confinamento obrigatório. Obrigatório sim, mas são muitas horas, muitos dias, muito tempo de clausura. As pernas precisam de andar e a cabeça precisa de arejar. Para não falar em “respirar”…

Já tinha almoçado, já tinha feito as tarefas caseiras todas e mais algumas e decidi aproveitar a ida à Farmácia para dar movimento ao corpo e ao mesmo tempo mudar um pouco o registo visual que bem precisado estava. Nem aos vizinhos se podia ir, porque cada um tem a sua vida, os seus contactos, cada um é um universo diferente, com o seu próprio mundo e, lamentavelmente, nada confiável.

O medo domina-nos, persegue-nos para todo o lado. É preciso estar sempre de vigia. Fazer um desvio aqui, outro ali. Fingir que não, mas sim, contribuir para a não contaminação, uma vez que ninguém pode garantir que está inócuo, sem infecção, que pode muito bem ser silenciosa, sem voz e sem rosto, completamente invisível. Uma tragédia inconformável, infelizmente sem volta a dar, a não ser esperar, esperar.

E lá fui eu, pé ante pé, sem a menor pressa de nada e muito menos de voltar para casa, onde não há ninguém, a não ser a televisão e o telefone para quebrar o silêncio. Ah..., o computador, claro. Pé ante pé no alcatrão e na calçada, nada nem ninguém. A única coisa que eu ouvia eram as minhas próprias passadas, de resto, mais nada. Um silêncio de cortar a alma. Um vazio intolerável. E a vida a passar-nos ao lado. Quanto tempo mais?

Ah, os pássaros! Esses sim, ouviam-se que era uma maravilha. Mais do nunca. A esses não há vírus ou outra coisa qualquer que lhes tire a liberdade. A liberdade, que é das coisas que eu mais prezo no ser humano. Quanta inveja! Escutando melhor, havia o eco de tudo ao fundo. O eco dos poucos carros a circular ao longe, o eco de vozes talvez vindas de dentro das casas, tudo indefinido, tudo distante da realidade, distante do palpável.

E ao fim de dez minutos de andar num passo bem descontraído e tão lento quanto possível, chego à Farmácia. Aguardo um pouco cá fora, pois tem duas pessoas à minha frente, posicionadas com o distanciamento conveniente, para não falar das máscaras que nos tornam ainda mais distantes uns dos outros. Ninguém reconhece ninguém…

Mas chega a minha hora de entrar até que, finalmente, me encontro perante a farmacêutica que me vai atender. Uma garota muito nova, bonita, simpática e sorridente que, como todos os outros, nos atende sempre muito bem, com muito à vontade, até com um certo trato familiar que tão bem assenta e um pouco de conversa descontraída, para saber se está tudo bem, tudo nos conformes, sem problemas de maior. E já com o medicamento pago, saio da farmácia para dar lugar a outro que já está à espera para entrar.

De regresso a casa começo novamente a ouvir os meus passos na calçada. Mais uma tarde em casa, inventando e reinventando, para a cabeça não dar um nó maior, um nó que não tenha saída. Tento sacudir os pensamentos negativos, valorizar o pouco de sol que nos visita no meio dos dias húmidos e tristes e continuo a minha caminhada, impondo a mim mesma uma persistente disciplina no que me vai no pensamento, para não o deixar ir ao deus dará.

E mal começo a afastar-me da farmácia ouço, repentinamente, vindo do nada, mas muito bem definido, nada tendo a ver com o eco da mistura de todos os outros sons dispersos que se ouvem, um “olá(!)” tão espontâneo quanto delicioso. Olá, pensei eu. Um olá que em princípio nada tinha a ver comigo, com a minha pessoa. Em todo o caso, era agradável de ouvir. Viesse de onde viesse era bom ouvir. Soava bem e diferenciava o silêncio, que era mais que muito. E em princípio não seria comigo, mas com quem mais poderia ser, se não havia por ali mais ninguém?!

Olhei vagarosamente em volta, como quem não quer nada e, de facto, não havia ninguém para aquele surpreendente olá. Para quem seria então? E de repente ouço nas minhas costas, mas algures acima, uma voz sussurrando “não te ouviu”. Não te ouviu? E a voz repetiu com a mesma vivacidade e a mesma surpresa “olá(!)”. Não, agora eu tinha que me virar e verificar, porque alguma coisa me dizia que, afinal, poderia ser para mim e exclusivamente para mim, uma vez que não havia vivalma por perto.

Foi então que, sem querer perder mais tempo, me virei e do primeiro andar por cima da farmácia, exposto na varanda, vi uma pequeníssima criatura com um bracito esticado e a mãozinha toda aberta acenando e olhando para mim. Um garotinho aí de uns três anos que, por trás do gradeamento da sua varanda, voltou a dizer “olá”, olhando para mim, na expectativa de que eu lhe devolvesse o olá que ele fazia tanta questão de exibir.

E como não? Não era possível ignorar aquele gesto tão simples, tão inesperado, tão carinhoso. Uma graça... pensei para comigo mesma. Fiquei parada a admirá-lo, também ele vítima da clausura, não tendo mais o que fazer, decidiu ir para a varanda descobrir algum transeunte com quem quebrar a sua monotonia caseira. Olá, dizia ele, acenando com a mãozinha pequena e fofa. E rapidamente lhe respondi “olá”, seguida de um beijo que lhe enviei com a minha mão, que o atirou na sua direcção, enquanto ficou a acenar-lhe com todo o entusiamo que aquele pequeno gesto me tinha transmitido.

Correspondendo ao meu beijo, com a sua mãozita pequena me enviou um, dois, três beijos rápidos, que voaram na minha direcção. Estava feliz, como pude perceber, por ter tido aquela simples recepção. E eu estava extasiada, também numa felicidade imensa, imparável, que por momentos me salvara dos pensamentos tristes e pesados que invadiam as minhas ideias. Não importava quem era aquela criança, da mesma maneira que ele tão pouco se importou com quem era eu. Eu era apenas eu, que por ali passou no momento em que precisou de ver alguém para ter a quem falar, a quem cumprimentar à sua maneira pueril e natural. Se não tivesse olhado para trás teria sido muito burra. E ali ficámos os dois a admirarmo-nos um ao outro, felizes, na nossa espontânea comunicação sem hora marcada. Era de lá os bracitos dele no ar e de cá os meus também, e as nossas mãos abanando, abanando, numa estreita cumplicidade amorosa sem igual, sem antes nem depois.

E parei para retomar o meu caminho de regresso a casa, à minha habitual solidão, onde o conforto desconfortável me aguardava, agora porém com a alma renovada, iluminada e sem dúvida com um ânimo novo que me guiou o curto caminho, com um sorriso fresco nos lábios, para deixar de ouvir o eco do silêncio, do vazio, da vida parada, onde nada acontece a não ser as infecções e as mortes.


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

O jardineiro - 62


Eu queria muito plantar uma árvore. Não é que já não o tivesse feito noutros tempos, noutras circunstâncias, em outras terras. Mas agora era diferente. Os ajardinados do condomínio onde vivo, apesar dos cuidados regulares do pessoal da Câmara, têm-se degradado ao longo dos anos. No início eram muito bonitos, com algumas árvores, muitos arbustos e canteiros floridos, que embelezavam o lugar. Contudo, com o passar do tempo, muito se têm deteriorado e modificado para pior, não para melhor. Os animais domésticos que vão a passear à rua com os seus donos, muitas vezes também contribuem para isso, porque quem os leva não tem o cuidado que deveria ter. Mas não é só isso. Parece que há mesmo quem goste de estragar por puro prazer. É uma coisa que não consigo compreender.

Como gosto da natureza e de uma paisagem bonita, os jardins sempre fizeram as minhas delícias, pela variedade de forma e de cor que as plantas e as flores podem adquirir. Depois, há a diferença entre o Inverno e o Verão e toda esta modificação é por demais interessante de observar. Por isso, ando sempre de olho nos jardins. E o que reparo, com grande tristeza, é que cada vez estão mais pobres, porque à medida que as plantas vão morrendo, muitas vezes por razões não naturais, não voltam a ser repostas e assim, sucessivamente, os relvados vão ficando mais monótonos porque, além da relva, não têm mais nada.

Falando com uma vizinha especialmente minha amiga, também ela comentou o facto de achar que, um dos relvados em especial, estava muito pobre em matéria de vegetação. E as duas começámos a ponderar hipóteses de fazer alguma coisa no sentido de inverter essa tendência. Mas o quê? Umas árvores de fruto seria interessante. Era um espaço tão desaproveitado e que podia ser muito bem rentabilizado, por isso a ideia de árvores de fruto agradou a ambas. Mas teria que ser uma coisa que se aguentasse com o clima e que não desse muito trabalho. E de repente ela lembrou-se que tinha em casa um pequeníssimo abacateiro a despontar na terra de um vaso. Tinha tido abacates e depois de comer um, em vez jogar o caroço fora decidiu pôr na terra e passado algum tempo começou a despontar. Um abacateiro? Seria uma boa ideia? 

Comecei à procura de informação e percebi que precisava de muita água, pelo que a melhor altura para o plantar no jardim seria no início do Outono, quando chegam as primeiras chuvas. Porém, a esta altura, era início de Verão. Se por um lado era bom por causa do calor, por outro, corria o risco de secar, o que não queríamos que acontecesse em hipótese alguma. Era certo que era apenas uma experiência, contudo, gostaríamos que desse certo. E depois de muito pensar, decidimos que não iríamos esperar pelo Outono. Íamos pô-lo na terra e todos os dias teríamos o cuidado de o regar convenientemente para que se aguentasse. Assim fizemos.

Um belo dia, com luvas de plástico e uma pequena pá, lá fomos para o jardim e bem no centro do relvado vazio, começámos a cavar o suficiente para enterrarmos bem o pé de abacateiro que já tinha uns bons centímetros de altura e folhinhas a rebentar. Uma graça! E embora perdido no imenso relvado, pensávamos que, se resultasse, iria ficar ali muito bem. É claro que os vizinhos que passavam ficavam muito admirados e queriam saber o que raio estávamos a fazer. E cada um dava a sua sugestão e metiam o bedelho onde não eram chamados. Alguns até já queriam outro ali e mais ali, etc…, dando sugestões que pareciam mais uma ordem, o que me pareceu uma coisa espantosa!

A questão é que ninguém liga, ninguém quer saber, todos têm muito em que pensar e o que fazer, percorrendo os assentos dos cafés os dias inteiros, concentrando-se apenas e somente no seu umbigo, além das beatas que atiram para o chão, dos cigarros que não param de fumar e etc…., contudo, quando alguém tenta fazer um pequeno gesto que pode marcar a diferença, as vozes fazem-se ouvir, como se sempre tivessem estado na ribalta e na primeira fila do espectáculo da vida. Sim, porque, ali, o público éramos nós, a minha amiga e eu. E ainda assim, para outros, a figura que estávamos fazendo, de rabo para o ar com as mãos na terra, parecia-lhes um pouco imprópria, para não dizer muito “reles” ou outras coisas piores que lhes ia na cabeça.

Não nos incomodámos nada com isso e continuávamos o nosso plano para deixar o pé de abacateiro o mais bem instalado possível, na sua nova morada e a única coisa em que nos centrávamos era no gozo e na satisfação que aquilo nos estava a dar no momento, e, depois, a curiosidade do desenrolar dos acontecimentos. Púnhamo-nos a adivinhar como ele se iria aguentar, se iria resistir e adaptar-se à mudança. E caso vingasse, o facto de termos ali uma árvore de fruto plantada pelas nossas mãos, era deveras um sentimento muito agradável. Se desse frutos, então, seria a cereja em cima do bolo. Mas mesmo se não desse, só o facto de ela crescer e estar ali, para nós já era uma dádiva enorme. Só isso.

Com efeito, o pé de abacateiro, nos primeiros dias da sua existência em plena liberdade no jardim, era uma emoção e tanto para nós. O cuidado e a preocupação que exigia, dava-nos a sensação de que tínhamos entre mãos um bebé que carecia de todos os nossos cuidados e de toda a nossa atenção. Era uma alegria ir espreitá-lo e perceber que continuava lá, direitinho. Às vezes eu pensava que, se calhar, deveríamos ter esperado pelo Outono porque, de facto, o calor secava-o muito. Mas ele era rijo. E, se umas folhinhas secavam, logo outras apareciam e estávamos sempre em apuros. Ora tristes, porque parecia que estava a secar, ora felizes e sorridentes, porque mais folhas novas surgiam. Houve até várias tentativas de o fazer desaparecer, não sei porquê. Só sei que mais do que uma vez cheguei ao pé dele e estava abafado, com porcarias em cima dele, mostrando bem a intenção de quem o tinha feito. Mas eu não ia deixar-me intimidar por ameaças que não tinham outra intenção senão a de desrespeitar a natureza, ao mesmo tempo que não dignificavam quem o que tinha feito.

É preciso esclarecer que, quando me veio esta ideia, a primeira coisa que fiz, foi enviar um email para a Junta de Freguesia, com conhecimento para outras entidades oficiais, pedindo a devida e formal autorização para este acto, uma vez que era uma intervenção numa área que não me pertencia. Contudo, a resposta a esse conteúdo nunca chegou. Nem sim, nem não, o que me deixava um pouco chateada e na dúvida. Até que um dia encontrei um jardineiro que estava a regular a rega automática e então nem pensei duas vezes, tendo ido imediatamente falar com ele. E da conversa com ele resultou que eu podia perfeitamente fazê-lo. Ele era o responsável do pessoal que trabalhava naquela área e portanto deixou-me completamente à vontade para o efeito. Disse-me, inclusivamente, que havia pessoas que o faziam. Apenas precisava de falar com os colegas para que, quando viessem cortar a relva, por distracção, não passassem a máquina por cima. Nesse sentido, quando plantei o abacateiro, tive todo o cuidado em fazer uma cerca com pedras brancas em volta, o que o deixou bastante bem destacado. E com esta conversa fiquei mais aliviada e não pensei mais no assunto. A minha decisão foi para a frente.

O Verão passou e o abacateiro desenvolvendo-se lindamente. A certa altura nem precisou mais dos nossos cuidados especiais, porque todas as noites a rega automática entrava em funcionamento e a água que recebia era mais que suficiente para o seu crescimento. Estava finalmente vingado e independente.

Um dia eu vinha a subir as escadas que ligam a praceta de baixo à minha, num nível mais acima e vejo um jardineiro a cortar a relva, mesmo junto ao abacateiro. Corri na direcção dele para lhe pedir com delicadeza, o cuidado devido com a planta. Era um indivíduo na casa dos trinta e muitos, de aspecto rude, pele muito estragada do sol e parava a máquina para dar uma fumaça no cigarro que mantinha entre os dedos. 

Quando cheguei ao pé dele, imediatamente parou, desviando o cigarro, o que muito agradeci. Pedi-lhe apenas que tivesse o máximo cuidado com o abacateiro que estava em início de vida, para ver se ele vingava. Olhou para a planta e perguntou se me estava a referir àquilo, apontando com o dedo. Respondi que sim e que por ser ainda muito pequeno, poderia passar despercebido, apesar das pedras em círculo à sua volta. 

Ele continuou a olhar vagarosamente para a planta e foi fazendo umas perguntas em relação ao assunto em questão. Pela pronúncia percebi imediatamente que era brasileiro. E no seu jeito de falar, lento e afável, genuinamente brasileiro, foi-me tranquilizando, dizendo que eram sempre cuidadosos com o que faziam. Ficou um pouco espantado por se tratar de um abacateiro, por conta do clima, mas era tudo uma questão de sorte. E mais umas quantas coisas acerca do mesmo. Dar fruto, não dar fruto... até me disse que não me preocupasse quanto a isso que ele mesmo poderia, na altura certa, fazer uma enxerto ou coisa que o valha, para o tornar produtivo. Mas se calhar nem seria preciso. 

Comentou que, num espaço tão grande, bem podia haver mais árvores de fruto. Pois, respondi-lhe que pensava o mesmo. Por isso mesmo tinha começado com aquele e se vingasse, o meu plano era “invadir” os jardins com outras árvores. Aquela seria a experiência de partida. E só então ele percebeu que tinha sido eu a mentora do projecto. Quando se apercebeu disso, perguntou, na sua bela pronúncia brasileira que eu tanto gosto e tanto amo, quem tinha plantado ali o abacateiro. 

Pensando que ele já tinha percebido isso, respondi com toda a naturalidade, que tinha sido eu. Ah… você? Perguntou. Sim, respondi novamente, sem falsa modéstia, mas com a maior das humildades. E o jardineiro, uma pessoa simples, bem simples, de aspecto displicente e até um pouco rude, mas só por fora, porque por dentro já tinha mostrado grandiosidade de espírito, o jardineiro do meu condomínio, a pessoa mais banal, talvez sem instrução, de baixo nível social e sei lá mais o quê, espantado, espantadíssimo, uma vez mais perguntava, “mais foi você qui plantou…?” Sim, fui eu, respondi, sem perceber muito bem quanto espanto e quanta admiração, pensando até se teria feito alguma coisa errada. 

E olhando bem para mim, bem fundo nos meus olhos, enquanto eu também olhava para ele bem dentro dos seus olhos, à espera do desfecho de tanta admiração, um pouco desconcertada até, surpreendentemente, aquela criatura de natureza humilde, deixando-me  sem palavras, respondeu: “Parabéns… parabéns, viu!”

Parabéns(!)... dizia ele...

Esperava tudo menos uma reacção daquelas. Esperava que ele me chateasse a paciência porque aquilo lhe dava mais trabalho a cortar a relva. Esperava que ele nem falasse comigo. Esperava que ele encolhesse os ombros, desdenhando a existência do abacateiro. Esperava tudo, tudo, menos a reacção que teve. 

De repente, percebi o quanto somos preconceituosos, mesquinhos e tanta coisa mais. O importante, ali, o inusitado e o que realmente é relevante, é que o homem, que aparentemente era insignificante, pelas suas roupas, por tudo, bem pelo contrário, não era nada disso. Pelo contrário, sim, era um ser altamente sensível, um diamante em bruto, que simplesmente teve a nobreza de saber apreciar e valorizar um pequeno gesto de ter plantado uma árvore que, para ele, contrariamente ao meu superficial julgamento, era uma coisa muito especial.

E eu agradeci à vida por ter encontrado no meu caminho aquela criatura sem rosto, de alma grande, grande. Era eu que deveria dar-lhe os parabéns e não ele a mim. O seu gesto foi de uma rara beleza e jamais esquecerei, pois é ele que está de parabéns, não eu.


quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Mohamed - 61

 

Mohamed era paquistanês com nacionalidade inglesa. E como um bom muçulmano, fazia questão de ser tratado por “Mohamed”, esquecendo por completo o seu nome. É que assim ninguém teria dúvidas quanto às suas origens. E fazia parte de uma equipa de técnicos ingleses contratados pela RTP, para a instalação do novo Estúdio com equipamento todo moderno àquela data.

Eu acabava de chegar do Hare Krisnha, onde tinha ido almoçar e onde de vez em quando ia, para variar a comida. Por acaso havia arroz indiano que eu adoro e decidi levar um prato para me deliciar ao lanche. Ao entrar na RTP dirigi-me imediatamente ao novo estúdio onde encontraria Mohamed, a fim de partilhar com ele o meu precioso arroz, pois calculei que ele o apreciaria tanto quanto eu.

Mahomed não saía daquele estúdio nem por nada. Os outros cumpriam um horário, saíam para ir almoçar, para ir jantar, etc…, Mohamed não arredava pé enquanto não terminasse a tarefa a que se tinha proposto e assim passava os dias ali enfiado, quase sem comer nem dormir. Sem comer, porque não comia da nossa comida. Sem dormir, por conta das largas horas em que se embrenhava. Tinha o computador pessoal sempre ligado apenas para falar com a mulher e os filhos pequenos e matar saudades.

Agora trabalhava sozinho. A equipa tinha-se ido embora, só ele ficara. Todo o trabalho estava por sua conta. A única pessoa com quem falava era comigo. Negava-se a falar com quer que fosse.

O dia anterior tinha sido um pesadelo. O Director reuniu com os subdiretores e segundo eles, Mohamed tinha criado um problema. Um problema não, um problemão. E, como intermediária, fui imediatamente chamada. Eu não conseguia compreender porque não falavam directamente com ele ou porque não mandavam um técnico? Melhor ou pior, toda a gente falava inglês. Seria preconceito por ele ser muçulmano? O facto é que foi em mim que delegaram as conversações. É certo que eu era secretária de Direcção, mas ainda assim não seria só por isso. Provavelmente achavam-se todos bons demais para falar com um reles técnico de manutenção de televisão, de origens pouco desejáveis, de acordo o padrão deles. Mas o rapaz até tinha nacionalidade inglesa!?...

Enfim, o certo é que o material tinha chegado num camião TIR que, conforme ordens expressas de Mohamed, estava estacionado mesmo à porta principal do edifício da RTP. E isso implicava muita coisa indesejável. Interrupção de trânsito em plena Avenida 5 de Outubro e àquela hora! A qualquer que fosse a hora já era mau, mas às seis horas da tarde era péssimo. Seria mesmo necessário ordem policial para desviar o trânsito, o que causaria aos condutores um enorme transtorno.

E lá tinha que ir eu levar o recado. É claro que eu chegava ao pé dele e não dizia que sua excelência o meu director não queria o camião TIR à porta. Eu chegava e dizia-lhe muito simplesmente “aqueles idiotas” não querem o camião TIR aqui. Mas isso eles não sabiam nem tinham que saber. E Mohamed estava-se nas tintas. Ele queria e quem mandava era ele. Estava-se nas tintas para quem quer que fosse. E a bem da verdade, também se recusava a falar fosse com quem fosse, a não ser comigo. Dizia que não queria conversas com ninguém, apenas tinha que fazer o trabalho dele e ninguém lhe dava ordens. Realmente eu seria a última pessoa a dar-lhe ordens. Era apenas portadora delas, que eram mais mensagens que outra coisa. Mas agora a questão ia um pouco mais além. Era preciso dissuadi-lo a encontrar uma solução para meter os equipamentos no interior do edifício sem que o camião tivesse que estacionar à porta. Para isso teriam que vir em carrinhas pequenas, transferidos do camião parqueado num sítio que não perturbasse a ordem pública, para então se dirigirem à RTP e descarregarem os equipamentos.

E quem disse que Mohamed queria isso? Ele dizia que os equipamentos eram muito sensíveis e não podiam andar a passar de um lado para o outro. Portanto, essa hipótese estava completamente fora de questão.

Muito bem. Percebi, tomei nota e voltei aos meus superiores hierárquicos para lhes comunicar a decisão dele e o motivo da recusa em retirar o camião da porta da RTP. Os três ficaram lixados, por assim dizer, não sabendo mesmo o que fazer. A questão era tão delicada que começaram a implorar-me que o convencesse a dissuadi-lo. Apelaram para o facto de ele se entender muito bem comigo e da necessidade de não serem eles a interferir para não haver problemas e chatices a outro nível. Acontece que eu também achava que não tinha nada que me chatear por causa dum problema daqueles que, verdadeiramente, não me dizia respeito. Só porque ele estava englobado na minha direcção? O director e subdiretores e quem quer que fosse mais, que se metessem ao barulho. Mas ele a si ouve-a, diziam eles. E uma espécie de chantagem emocional começou a eclodir…

Uns anos atrás, uma outra situação análoga também surgiu com um rapaz dos países de leste que esteve a fazer um estágio na RTP e como era técnico de manutenção, foi dado à nossa direcção. E surgiram tantos problemas, que o coitado vinha ter comigo a queixar-se, sendo que uma vez até as lágrimas lhe vieram aos olhos. Os colegas não reagiram nada bem à sua presença. Implicavam com ele por tudo e por nada, criando à sua volta um mau ambiente desgraçado. A verdade é que lhe dificultavam imenso a vida só porque ele era estrangeiro. E como  fazia parte do meu nipe administrativo, era comigo que ele vinha ter e era comigo que desabafava. Era a única pessoa que lhe dava algum apoio. Para mim é indiferente a nacionalidade, a raça, a etnia ou até mesmo a religião de cada um. E sinto-me completamente à vontade se tenho que conviver com quem quer que seja, desde que me respeitem, só isso. Quanto ao resto está tudo bem. Por isso não entendo estas situações. Conviver com outros diferentes de nós é até enriquecedor. Não temos que ser todos iguais!?

E Mohamed continuava a bater o pé que quem mandava era ele. O trânsito na Avenida estava parado. Liguei para a Logística para chamarem a polícia de trânsito que decidiria o que bem entendesse e lavei as mãos desse assunto entre superiores e Mohamed. Essas não eram as minhas funções. E assim se fez, para que ambas as partes se acalmassem. A polícia conduziu o trânsito por outra via e o camião descarregou todo o material com a segurança necessária que Mohamed fez questão de exigir e tudo se acalmou.

O facto é que durante os largos meses em que esteve lá a trabalhar, o assunto Mohamed, de ambas as partes, era recambiado para mim. Ninguém queria ter contactos com ele. Nunca ninguém percebeu que ele era apenas eficiente e responsável e que não estava ali para agradar a ninguém, a não ser para fazer o trabalho para o qual tinha sido pago e incumbido sem falha e sem erro.

E estava eu de prato na mão quando entrou um colega que, com jeito de quem fareja alguma coisa e não encontrando o que procurava, me perguntou como se diria ferro de soldar em inglês. De soldar eu não fazia a menor ideia, por isso limitei-me a dizer “iron”(?) e logo Mohamed se dirigiu ao lugar certo, empunhando um ferro de soldar, que passou para a mão do outro. Este agradeceu, ao mesmo tempo que desdenhava o facto de não se ter lembrado de dizer o mesmo que eu, ou seja “iron”, simplesmente. E foi-se.

Foi então que Mohamed deu conta do prato de arroz que estava na minha mão. Olhando, logo percebeu do que se tratava e esfomeado, sem mais delongas agradeceu, passando das minhas mãos para as dele. A minha ideia era dividir com ele, mas ele já tinha decidido e agora eu já não tinha coragem para lhe dizer nada. E num instante, perante o meu olhar de espanto, o arroz desapareceu. Desapareceu da minha mão e desapareceu da minha vista, porque ele o devorou com uma sofreguidão e tanto. O meu delicioso arroz lá se foi…

Mas tudo bem. A minha boa acção do dia estava feita. Outros dias viriam e mais arroz indiano eu haveria de conseguir, com ou sem Mohamed.

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Um jantar em casa da Clara - 60

 

Um jantar em casa da Clara é sempre um acontecimento e tanto. Há sempre alguma coisa fora do normal. Por exemplo, o jantar é às 20,00 e às 20,30 ela ainda está fora de casa e como se fosse a coisa mais normal desta vida, telefona a pedir a algum dos "convidados" para ir adiantando o jantar, por exemplo. É só um exemplo.

Mas este não foi o caso. O jantar tinha sido feito pela empregada, um bacalhau qualquer no forno, que deveria estar uma delícia. À parte os atrasos normais, tudo parecia correr bem, dentro da normalidade. Vieram umas entradas como de costume, enquanto o bacalhau estava ainda no forno. Muito se conversou e se riu como o habitual. As conversas foram postas em dia e tudo serve para descontrair enquanto o bacalhau estava a tostar.

A salada esgotou-se, o pão, o queijo e os fumados andavam de um lado para o outro, mas já ninguém os queria. O bacalhau estava atrasado, tardava em aparecer ou simplesmente não queria ir para a mesa, quem sabe?!... O facto é que a fome tinha ido passear e estávamos todos muito bem. Mas o tal do bacalhau especial lá apareceu, finalmente, embora não estivesse exactamente no ponto. Mas isso não interessava. Só tinha que ser comido e ponto final.

A enorme travessa deu entrada na sala de jantar, fumegando a toda a pressão. Mesmo já sem fome, é claro que todos gostariam de provar o bacalhau e talvez comer um pouco mais da conta. É normal e a Clara ficaria toda contente, embora não tivesse sido ela a cozinheira, mas isso também já é costume.

Servidos os pratos com cada um dizendo “chega(!)”, só um pouquinho, é muito, está bem assim, etc…, etc…, etc… o bacalhau chegava finalmente a todos os pratos e o vapor pairava em todos eles, pelo que foi preciso esperar e começar pelas bordinhas. Alguns aguardavam que esfriasse, enquanto outros teimavam em arrefecer à pressa. E as garfadas começaram a entrar, com todos queixando-se de que estava realmente muito quente, pois tinha acabado de sair do forno a uma temperatura altíssima.

Chegou a minha vez de experimentar o bacalhau e a primeira garfada entrou também ainda bastante quente. Tão quente que nem deu para saborear devidamente. E seguiu-se a segunda garfada, que me deixou um pouco desconcertada pelo sabor. Seria ainda de estar quente? Esperei uns segundos e fui à terceira garfada. Não, alguma coisa não estava bem. Fui à quarta garfada e corri para a casa de banho mais próxima para deitar fora. O bacalhau estava intragável. Em meu entender estava azedo. Dei o alerta, avisando expressamente o meu filho que não comesse e disse em voz alta que o bacalhau não estava bom. Todos ficaram parados olhando para mim e uns para os outros, enquanto a Clara declarou, com o seu ar de autoridade número um, que não havia a mais pequena possibilidade de tal acontecer. 

Ela podia dizer o que quisesse, o que eu sabia é que o bacalhau estava azedo e intragável. Comer aquilo era ir parar ao hospital, com toda a certeza. E enquanto eu continuava a alertar para terem cuidado, a Clara continuava veemente na sua decisão de “não, não pode ser, é de todo impossível!”. E queria à força que todos comessem o bacalhau, que ela afirmava com toda a segurança que estava perfeito, porque não podia estar estragado.

Mas o bacalhau estava efectivamente azedo, independentemente do esforço que ela fazia para que acreditássemos no contrário. As pessoas começaram a comer e começaram a constactar o facto. Alguma coisa não tinha corrido bem, sem que a Clara não o quisesse admitir. Mas isso também era normal. Contudo, comer aquilo, era impensável. E os pratos começaram logo a ficar parados, os talheres sem ir à boca, enquanto a Clara continuava a debater-se, fervorosamente, na sua tese de que o bacalhau não tinha como estar estragado. A questão é que, contra factos não há argumentos, sejam eles quais forem e venham donde vierem e a Clara não entende isso.

A travessa tinha saído do congelador directamente para o forno. Ah(!), então não era do dia. Era coisa já de trás. Mas isso só por si também não justificava nada. Tinha tido um outro jantar há alguns dias, com uns colegas de trabalho e pediu à Fátima que fizesse duas travessas de bacalhau. Mas só foi preciso uma e por isso a segunda tinha ido directamente para o congelador. Não havia como não estar bom - continuava. Só que, por esta altura, já todos estavam convencidos do mesmo eu. E embora ela tivesse dado duas garfadas sem o admitir, o facto de todos estarem do mesmo lado, pesava, porque agora ela estava sozinha, debatendo-se, ainda, por uma causa aparentemente perdida. E neste momento já ninguém estava mesmo interessado no bacalhau. Além de que também já não havia muita fome, por isso, o bacalhau foi de vez retirado da mesa de jantar, bem como os pratos.

Começaram a chover as alternativas para o bacalhau, já que todos estavam a contar com isso e a Clara queria até ir fazer alguma coisa para substituição. Não querendo dar mais trabalho, todos começámos a dizer que não era preciso mais nada e tal e coisa, coisa e tal, mas o Fernando decidiu que se pediriam pizzas, para concluirmos o jantar. E com o acordo de todos, assim fez.

Entretanto, comentário daqui, comentário dali, a Clara um pouco desapontada, connosco a tentar desvalorizar a questão, que o que importava era estarmos todos juntos, etc…, continuava a falar do outro jantar em que os colegas tanto apreciaram o bacalhau, que estava óptimo e ninguém tinha ficado doente. O bacalhau, que tinha sido feito pela Fátima, mas duas travessas era demais e por isso foi só uma para a mesa. Entretanto, chegam as pizzas e toda a gente com fome ou sem fome, se atirou às pizzas que estavam óptimas, apetitosas e gulosas e já ninguém se lembrava nem queria saber do bacalhau.

Mas a Clara, contra tudo e todos, continuava em jeito de resmunganço, sempre a dar a entender que estava aborrecida e sempre sem entender a cena do bacalhau, que afinal não era absolutamente fresco, uma vez que já tinha sido feito anteriormente para outro evento. Que tinha ido para o congelador e agora tinha sido retirado directamente para o forno.

Sim, mas quando, no outro jantar, se tirou a primeira travessa do forno para ir à mesa, a segunda deu entrada no forno. E só depois de se perceber que essa segunda não era mesmo necessária, se decidiu retirar do forno para ir para a congelação. Ah!?... ah, mesmo!!!…

Pois é. E todos ficámos estupefactos, a olhar para a Clara, com ela mais que surpreendida. É que a travessa entrou no forno bem quente uns minutos, para de seguida ser retirada. O suficiente para arruinar o seu conteúdo, o qual continha ovos.

Estava finalmente esclarecido o mistério do bacalhau azedo, provavelmente cheio de salmonelas, mas que, segundo opinião dela, não tinha a mais pequena hipótese de estar estragado(!?)… 

E fim de papo.