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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Palavras árabes - 37


O tio padre não largava aquela bíblia de maneira nenhuma. Em todos os lugares que parávamos, logo ele arranjava um sítio para pousar e abrir a sua tão sagrada bíblia, onde enfiava o rosto por inteiro: olhos, nariz e boca; tudo duma vez, por trás da sua santa e atenta leitura. 

É verdade que ele andava sempre com ela atrás, para todo o lado, inclusive em casa. Mas aquele passeio às Furnas, em dia de domingo, tinha sido ideia dele. Fazia sentido que se alheasse um pouco das leituras para se integrar num passeio familiar, sobretudo com os sobrinhos netos em volta. Mas por mais que tentássemos pô-lo a falar e a comunicar connosco, não havia maneira de o trazermos a nós, respondendo apenas com breves monossílabos “ham, hem, hom, hum…” fingindo estar a dar atenção, mas o facto é que dali não saía. Nem com toda a gritaria das crianças. Nada conseguia interrompê-lo. Aquilo já me estava a chatear. Foi então que me lembrei de uma brincadeira que não pude evitar. 

Cheguei-me devagar, devagarinho, junto dele, para não o assustar e afastar-se ainda mais do que já estava e sempre de mansinho, como quem não quer nada, perguntei-lhe: 

- Sabe que os árabes têm muitas palavras começadas por “al”? 

E levantando ligeiramente a cabeça, ao mesmo tempo que olhava para mim, respondeu:

- “Hum…” – sem perceber aonde eu queria chegar, claro.

É verdade ou não? – Continuava eu – Os árabes têm um vasto leque de palavras começadas por “al”, inclusive, nós herdámo-las – e olhando em frente, com os olhos postos no horizonte, acenou que sim com a cabeça e antes que voltasse a mergulhar o nariz de novo na santa e sagrada bíblia, como quem não quer nada, perguntei:

- Sabe como é que se diz, por exemplo… “rapaz” em árabe? 

Continuando com o olhar fixo no horizonte, como que a ver se a palavra lhe caía do céu, abanou a cabeça em sentido negativo. Então respondi:

- Rapaz, em árabe, diz-se: “almoço”. 

E os olhos dele deixavam de estar fixos e meio perdidos no horizonte, para se fixarem em mim, com o sobrolho meio franzido e o rosto balançando levemente para cima e para baixo, de quem está apreciando, julgando, pensando em algo que nunca lhe tinha passado pela cabeça. A esta altura, o sobrinho mais novo e meu marido, que estava posicionado atrás, sem ser visto pelo tio, já ria com gargalhadas silenciosas, sem se conseguir conter, mas sem querer quebrar a brincadeira que, para o tio, parecia ser uma coisa séria. 

E antes que voltasse a pôr a cabeça novamente na sagrada bíblia, mais uma vez o interceptei, continuando:

- E sabe como é que se diz… “cara” em árabe? 

É claro que ele não sabia e nem nunca tinha pensado nisso. Por isso, novamente desviando o olhar da minha pessoa para se fixar na distância, ficou em silêncio durante alguns segundos, até que o interrompi, dizendo:

- “Cara” em árabe diz-se “alface”.

Olhando para mim, dizia ele:

- Que interessante!...

E enquanto voltava a mexer a cabeça, balanceando-a levemente para voltar a perder-se no horizonte, apreciando a tão extraordinária informação sobre o vocabulário árabe, que nunca tinha imaginado, nem pensado, dizia:

- Curioso!  

E até já sorria, um sorriso muito débil, lá muito no fundo. O certo é que eu estava a conseguir arrancá-lo à sua leitura preferida. Eu estava contente com aquela cena. Estava a resultar. E de novo perguntei:

- E… “auto-estrada”?

- Não faço ideia – respondeu. Não faço a menor ideia.

Dei-lhe uns instantes para ver o seu pensamento andar um pouco à nora e passado uns segundos, respondi:

- “Alpista”.

- “Alpista”? – Repetia ele – É interessante! – E repetia a palavra, exportando-a infinito afora, dando-lhe toda a liberdade para existir e para a admirar. E como a coisa se proporcionasse, decidi continuar:

- E sabe como é que se diz em árabe “supositório”? 

O tio padre olhou para mim muito depressa e mais atento que nas outras palavras, parecendo querer saber imediatamente a resposta, sem se fazer esperar muito.

- Como é?

Como é(?) - Perguntava, interessadíssimo pelo assunto, na sua belíssima pronúncia açoriana e com um ar deliciosamente ingénuo. Tive que responder. Tive que satisfazer a sua curiosidade, mas não era assim tão rapidamente como ele parecia querer. Fazia parte da brincadeira criar algum “suspense”. Por isso fiquei olhando para ele, ansioso pela minha resposta, enquanto o sobrolho permanecia franzido. E finalmente satisfiz a sua curiosidade:

- Supositório, em árabe, diz-se “Alcoentre”.

- Hum?... – Dizia ele com a boca entreaberta, o queixo ligeiramente descaído e um ar estupefacto. 

Foi então que desatámos a rir, achando que já chegava de atazanar a vida dele. Quando percebeu que tinha sido apanhado na brincadeira, também riu com satisfação. E na verdade pareceu-me até aliviado por aquilo não passar de uma brincadeira, se não, como é que ele não iria saber?!

O tio padre não era estúpido nem burro. O tio padre só tinha um defeito: ser padre. É que o facto de ser padre o fazia ter todo o tipo de limitação e, portanto, como homem de boa fé, acreditava ou não, mas caso não acreditasse, não tinha essa consciência, o que vem a dar no mesmo.

E o passeio às Furnas foi salvo pelas palavras árabes.



quarta-feira, 26 de julho de 2017

Uma capa para o I Pad - 36


Uma capa para o I Pad, era disso que eu precisava. Já tinha andado a ver e não encontrava nada do que queria. Agora estava no sítio certo e mais uma vez iria procurar, porque me fazia falta. Já tinha visto na Worten e não havia o que eu queria. A Rádio Popular estava ali bem na minha frente e não perdi mais tempo.

Entrei e comecei a averiguar. Passei pelos corredores com tudo e mais alguma coisa, menos capas para tablets. Mas de repente ei-las, ali na minha frente. Aproximei-me e comecei a inspecionar. Havia várias, de várias cores, mas ainda não era bem aquilo. Chamei um dos empregados e perguntei se havia mais. Olhou e respondeu que não. Era tudo o que havia. Pensei, mais uma vez não encontro o que quero. Até já tinha visto nos chineses e nos indianos. A questão é que o meu I Pad, coitado, já estava um pouco desactualizado, isto é, tratava-se de um modelo já antigo. Os mais recentes tinham medidas diferentes. Esse é que era o problema. Mas precisava de uma capa. Aquela estava muito velha, a desfazer-se e eu andava sempre com ele. Por isso precisava mesmo.

Bom, cingi-me ao que havia para o modelo e apesar de não ser exactamente o que precisava, era pegar ou largar, pois arriscava-me a não arranjar mais nada e isso não era conveniente. Aquelas capas protegiam apenas a parte fronteira do I pad e nada mais. Uma folha única, num material que parecia pele e que aderia no lado esquerdo por sistema de íman e assim ficava seguro no tablet.

Olhei bem para elas e mais uma vez pensei que não era nada daquilo que queria. Eu queria uma coisa consistente, que desse bastante protecção. Nada a fazer. Era pegar ou largar. Já tinha corrido tudo, por isso sabia que era a única chance. Abri uma, experimentei, vi e voltei a ver, enfim, se não havia alternativa, tinha que me habituar àquilo. Era um pouco estranho, mas o que fazer? Por outro lado, era mais fácil de encaixar na pasta, porque ocupava muito menos espaço. De tanto experimentar, até já me ia habituando à ideia. Estava resolvido. Vi as cores e decidi que queria a preta, sem sombra de dúvida. E finalmente vi o preço. Aí, apanhei um baque. Cinquenta euros, nada mais nada menos do que cinquenta euros. C’um caraças(!), não faziam a coisa por menos. Mas eu precisava daquela porcaria, caramba! Paciência, lá iam cinquenta euros à vida. Fazer o quê? E dirigi-me para a caixa de pagamento.

Enquanto me dirigia para a caixa, ia olhando a capa e pensando com os meus botões, que cinquenta euros por aquilo era perfeitamente inconcebível. E por mais voltas que desse, não conseguia perceber como é que uma folha de dezoito por vinte e quatro centímetros, de um qualquer material, com um lado de metal aderente por íman, poderia custar aquele dinheiro todo!? Não se justificava de maneira nenhuma. Mesmo que fosse pele, ainda assim, não podia valer aquele dinheiro. Era um roubo. E eu era obrigada a pagar aquilo? Não estava nada satisfeita, nem um pouco. Se pagasse tanto, mas ao menos se justificasse? Não era o caso. Quanto é que aquilo para mim valeria? Para ser bem franca, bem honesta, nem cinquenta, nem trinta e nem vinte. Dez(?)… nem isso. Não, na verdade, aquilo por cinco euros já estava bastante bem. Não, nem cinco euros. Na verdade, não dava mais que três ou dois euros. Era isso. Dois euros pagavam aquilo, porque realmente não valia mais do que isso. Cinquenta!?... Era um delírio. Um atentado à bolsa de quem quer que fosse.

Pus em cima do balcão e quando o empregado pegou no leitor da barra de códigos, deu-me um “vaipe” e disse: “não, desculpe, mas não vou levar”. Como ele parecia não me ter ouvido, repeti: “desculpe, mas não vou levar, é muito caro, não vale o preço”.

O rapaz parecia não me dar a menor importância e continuava com o leitor a passar. Já o tinha passado várias vezes, sem que eu conseguisse perceber porque o fazia, mas não me respondia e estava muito empenhado no que estava a fazer. De repente, parou e pediu-me para esperar um pouco. Pensei, mas vou esperar porque cargas de água, se já lhe disse que não vou levar? Vi-o dirigir-se ao corredor onde estava o mesmo material e trazer outro. Voltou à caixa e passou o segundo no mesmo leitor. Olhava para um e para outro e voltou novamente a ir buscar um terceiro e um quarto. Não havia dúvidas, porque cada um era de cor diferente. O que eu tinha escolhido era o único preto. E mais uma vez insisti: “não quero, desculpe, é muito caro”. Mas ele continuava empenhado não sei em quê, com as capas para trás e para a frente, fazendo-me sinal para esperar, esperar… esperar o quê(?), pensava eu. Estive vai não vai para me ir mesmo embora, mas ele estava a ser insistente e alguma coisa me dizia para ter um pouco de paciência e esperar.

E fui esperando, enquanto ele resolveu chamar outro colega. E foram novamente os dois ao mesmo sítio, ver… não sei o quê. E eu à espera, sem fazer a menor ideia do que se passaria e nem estava muito interessada. Só queria mesmo era ir-me embora. E veio outro empregado e estavam já todos à volta daquele assunto, que tanto discutiam, sem que eu tivesse a mais pequena ideia do que poderia ser. E mais uma vez voltou à caixa, mas desta vez, delicadamente, chamou-me, pedindo-me para o acompanhar. E eu pensando: “mas que grande chato… o que é que ele quer(?)… já lhe disse que não quero!” E conforme pensei, disse em voz alta. Então, para meu grande espanto, o sujeito, passando novamente a capa preta pelo leitor, perguntou: “são dois euros, a senhora está interessada?” E ficou olhando para mim, à espera da minha decisão.

Dois Euros? Perguntei, meio confusa. Como, dois euros? Não eram cinquenta? Sim, respondeu ele. Todos os outros passam com cinquenta euros, mas este passa com um euro e noventa e nove cêntimos e é o único com este preço, se a senhora ainda estiver interessada, é o preço dele…

Mas é diferente dos outros(?), perguntei. Não, é exactamente igual. Já estive a ver com os meus colegas, não há diferença absolutamente nenhuma. A única diferença é no preço. Não sabemos explicar porquê. Mas está tudo certo. O leitor diz que é precisamente um euro e noventa e nove. Quer levar? …

Ah, claro. Por esse preço não tenho dúvidas, respondi perplexa, porque se eles não sabiam, não era eu que ia saber. Enfim, aquele estava ali à minha espera, sem dúvida nenhuma. E lá fui eu, contentinha da silva. Finalmente tinha uma capa nova. Não era bem aquilo. Mas por um euro e noventa e nove, estava óptimo e saí de mansinho, o mais rapidamente possível, para não se arrependerem e voltarem atrás. Estava feito.

 Bingo!


quinta-feira, 30 de março de 2017

Os tios padres - 35


Era o ano de 1980, ano em que o meu filho nasceu. Eu estava nos Açores, mais propriamente em Ponta Delgada, ilha de S. Miguel, onde vivia e trabalhava, mesmo no início das Delegações da RTP nos Açores, o que foi uma bela experiência. 

E foi também nesse ano que, no quinto mês de gravidez, deixei os Açores e retornei à base, Lisboa, acompanhada pelo meu marido, uma vez que ele já tinha percebido que lá, todo o seu potencial profissional e intelectual, sempre seria subaproveitado, sem a mais pequena possibilidade de o expandir e fazer crescer. 

Mas não foi exactamente essa a razão que nos fez regressar. Isso, sim, mas principalmente, a minha gravidez. Nos Açores não havia médico da especialidade, havendo dois médicos de clínica geral que se dedicavam a isso de modo muito particular. E eu queria um obstetra a sério, em quem pudesse confiar, o que fazia, necessariamente, com que o meu filho nascesse em Lisboa, o que, de facto, aconteceu. Com cinco meses de gravidez lá viemos nós, de armas e bagagens para o Continente, onde o futuro nos aguardava. 

Enquanto estava nos Açores, quase todos os dias ia a casa da senhora minha sogra, que vivia com um dos irmãos padres. Eram dois, mas o outro era prior na Lagoa onde vivia, não muito longe, porque ali nada é longe. As distâncias são todas pequenas. E a minha sogra vivia no seu enorme casarão com o irmão padre de quem cuidava, sendo que o da Lagoa ia lá muitas vezes. Era normal chegar e encontrá-lo lá. Sempre que tinha um tempinho, metia-se no carro e ia a Ponta Delgada ver a irmã, o irmão e os sobrinhos. E como eu morava praticamente ao virar da esquina, todos os dias passava por lá. Às vezes almoçávamos, outras vezes jantávamos e por ali andávamos, entre uma casa e outra. 

Os tios padres eram muito engraçados. De estatura baixa, cheinhos, gostavam de comer e comer bem, as coisas da terra e à moda da terra, que a minha sogra tão bem sabia fazer, pois era uma excelente cozinheira e nunca deixava uma refeição ao acaso, isto é, todas as refeições eram especialmente bem preparadas, regadas com uma boa pinga e tudo bem apimentado com a pimenta que nunca podia faltar. 

Os tios padres, toda a vida habituados a serem bem tratados, se alguma coisa estivesse menos bem, logo tratavam de reclamar. Em nada poupavam a irmã, que era uma santa senhora e nunca se cansava, por mais esfalfada que estivesse. Mas, em nome da igreja, do senhor santo Cristo e mais não sei o quê, tudo ali andava ao sabor da santa madre igreja. E eu sempre aproveitava para os picar quanto ao vinho, dizendo-lhes que os padres não podiam beber e outras coisas, ao que eles se mostravam muito indignados, reclamando: “ora essa, nã podem beber vinho? Quem disse uma cosa dessas?” 

Eu não lhes perdoava. Mal pusessem o pé em ramo verde, já estava em cima, lembrando-os de que eram padres. Também é verdade que se estavam nas tintas, murmurado entre dentes e desdenhando das minhas observações. Mas era tudo na reinação. Por mim, queria lá saber do que eles faziam ou diziam! Era lá com eles. Não era eu que era padre nem freira!?... 

Um dia, entrando em casa, subi as escadas de acesso ao primeiro andar e fui direita à cozinha, onde estava a minha sogra, para a cumprimentar e passando no escritório, estava o padre Domingos fazendo umas arrumações na sua vasta biblioteca pessoal. Mas não estava sozinho. O padre Agostinho, sentado numa cadeira e fumando – outra coisa com que eu sempre os chateava, o tabaco -, observava, indiferente, os afazeres do irmão. 

A páginas tantas, o padre Domingos puxa de uma cadeira para junto de uma das estantes e leva consigo um livro, enquanto faz um esforço para subir na cadeira e chegar à dita estante a guardar o livro. De pé na cadeira com a sua figura engraçada: cabelo bem grisalho, cujas pontas formavam caracóis pequeninos; óculos descaídos na pontinha do nariz, com armações pretas a condizer com a roupa sempre preta e o seu aspecto de barrilinho - porque toda a sua gordura crescia em direcção à barriga; tanto de baixo para cima, como de cima para baixo, tudo se acumulava de vez à volta do umbigo, dando-lhe a forma de um verdadeiro barril -, para não ter de descer novamente, pede ao irmão que lhe chegue um outro livro que estava sobre a sua secretária. 

Naquela bela pronúncia açoriana bem cerrada e comendo as sílabas, que um continental não acostumado nada entende, dirigindo-se ao irmão que continuava sentado com um ar bem tranquilo, para não dizer preguiçoso, de quem não está realmente à espera de nada nem de ninguém que interrompa a sua mui digna e apreciada lazeira, diz-lhe: “oh Agostinho, chega-me aí aquele livro”. De cigarro numa das mãos, com a outra apoiada no joelho da perna traçada e fazendo um notório esforço para ter de falar, limita-se a responder “qual livro?” 

Eu estava de parte. Não chegava a ter entrado e perante aquele quadro, em relação ao qual antevia uma boa risada para mais tarde continuar, quando contasse ao meu marido, fiquei onde estava. O bom do tio padre Domingos, insurgindo-se, retorquiu: “Oh home, nã vez ali em cima da secretária?” Mas como o outro não lhe dava jeito ver o livro, continuou “Adonde?” ... 

“Acolá”, dizia o outro, já mais energicamente, para não dizer encolerizado. Mas o Padre Agostinho não fazia mesmo a mais pequena intenção de ver ou dar atenção. Ele queria era não ser incomodado de jeito nenhum. Era outro barril, mas um barril mais uniforme. A gordura distribuía-se mais por todo o corpo. Comer, beber, fumar e dormir, eram coisas que não dispensava. E ainda fazer a sua propagandazinha política, insinuando os fiéis, durante a homilia, a votarem na "mãzinha" fechada, conforme ele próprio mostrava.

Os dois eram bem diferentes, no tocante à personalidade. Padre Domingos era padre da cabeça aos pés. Mesmo quando não estava "fardado", a sua indumentária, bem como a sua postura, eram de um padre. Em qualquer circunstância, enquadrado em que cenário fosse, olhava-se para ele e via-se um padre, escarrado e pintado. Tinha sempre um ar sério, compenetrado e invariavelmente andava sempre com a sua bíblia atrás, dando-lhe um ar de seriedade, compenetração e de uma certa tranquilidade. Já Padre Agostinho era totalmente diferente. Só quem o conhecia é que o via como padre. Ao contrário do irmão, andava sempre à paisana, com roupa perfeitamente normal. Além disso, não tinha o hábito de andar com a bíblia nas mãos. O que eu lhe via sempre era um cigarro. E só usava o hábito em plena missão litúrgica.  

“Na querem lá ver, agora tenho que me levantá pa te dá o livro?!” – “Custa-te munto?” - perguntava o outro. “Pôs claro que me custa!”... Valha-me Deus, que nesta altura eu já ria a bom rir, só por dentro, porque já tinha história.  Padre Domingos: “Oh Agostinho, dá-me o livro, fazes favôoor!”. Agora já era uma ordem, já não era um pedido. Padre Agostinho, sem se livrar da sua calma, apaga o cigarro já no fim, levanta-se pachorrentamente e aproximando-se da secretária, pergunta: “é este livro?” 

“Sim, chega-me cá, se fazes favor” diz o padre Domingos já impaciente. Padre Agostinho dá mais dois passinhos na direcção do irmão e com uma mão enfiada no bolso e a outra segurando o livro responde: “toma”. Só que o livro estava um pouco, para não dizer muito, abaixo da altura do outro. E não era nada difícil chegar-lhe, por ele ser de baixa estatura, mas conhecendo-o como o conhecia, sabia que era intencional. 

Naquele momento, para mim, ambos tinham deixado de ser quem eram, dois padres, dois adultos, para serem não mais que duas crianças brincando. Só que não era brincadeira, era sério. E eu, cada vez mais deliciada, imaginando a cara e o riso do meu marido quando lhe contasse a cena. Ele sempre ria com gosto das cenas que lhe contava. E aquela não fugiria à regra. 

Padre Domingos, percebendo que o livro estava muito abaixo, não foi de modas: “oh home, chega cá o livro, se fazes favô”, dando-lhe aquela acentuação bem carregada, ao que o outro respondeu: “se queres o livro, tá aqui” – sem o levantar um só milímetro. Não havia dúvidas, a festa estava a começar. E eu sozinha, para presenciar, porque a minha sogra, entretanto, tinha passado para a sala de estar e estava entretida com os seus tricots, entregue aos seus pensamentos e tudo lhe passava ao lado, até porque já era um pouco surda. 

E então começa um despique que nunca mais acabava. Um dizia “chega aqui acima”, o outro dizia “chega cá abaixo, na te podes baixar um bocadinho?” Depois o outro dizia “és tu que tens que chegar aqui a cima” e o outro respondia “és tu que tens que te baixar pa apanhar o livro”. Eu realmente estava passada. Só queria ver os “fiéis” a assistirem àquela brincadeira de garotos embirrentos. Ninguém ia acreditar. Era surreal. Por isso mesmo, dei um pulinho à sala onde estava a minha sogra e contei-lhe o que se estava a passar, o que não a perturbou muito, pois já estava habituada. Deu um sorriso e continuou imperturbável, apreciando o seu sossego. Voltei ao posto de observação e a cena continuava, com os dois desafiando-se. Ambos querendo ter razão, ambos se achando com mais direitos que o outro. És tu que… não, és tu que… 

“Na querem lá ver”, dizia um. “Na podes fazer um esforçozinho(?)”, perguntava o outro. Aquilo era demais. E quando já tinha o papo cheio da brincadeira, entrei, tirei o livro da mão do que estava em baixo e dei ao que estava em cima. De um lado ouvi a palavra “obrigado”, do outro “ele que viesse buscá-lo”. Pronto - disse eu -, está resolvido o problema. Mas não estava, porque continuaram a discutir quem é que devia a quem. O sexo dos anjos, pensei.

 Males de família.

 

quarta-feira, 29 de março de 2017

O melro - 34


Há uns anos atrás, iniciei um projecto a que chamei “primavera”, que achei interessante e ao qual dei continuidade. Foi num daqueles anos difíceis, em que parece que tudo vai por água abaixo e por mais que pensemos, parece que nada faz sentido. E, pensando nisso, apercebi-me de que o mesmo se passava com algumas das minhas vizinhas, porque um dia, ao sair do carro, cruzando-me com uma delas, depois dos cumprimentos habituais, aproveitou para se lamentar dos seus problemas pessoais, fazendo-me pensar – não sou a única. E outro dia mais tarde, aconteceu a mesma cena com outra delas, que também começou a desabafar acerca das suas apoquentações. E, mais uma vez, pensei – não sou mesmo a única. E apareceu outra que veio com mais problemas, quase chorando por isto e por aquilo. 

Em casa, sozinha, reflectindo sobre os problemas delas para me esquecer um pouco dos meus, veio-me uma luz. As pessoas precisavam de falar. Precisavam de ser ouvidas e verbalizar os seus males para se sentirem mais aliviadas. Precisavam de partilhar o mau e talvez o bom. Também me lembrei de que eram pessoas que viviam sozinhas. Claro que tinham família, mas viviam de modo independente. E, muitas vezes, não é com a família que se partilha um certo número de coisas ou a família já está cansada de ouvir. Então, porque não, criar um grupo de convívio para desabafar, partilhar, mas sobretudo para nos sentirmos mais unidas e mais apoiadas? 

Nesse sentido, falei com elas, uma de cada vez, explicando a minha ideia e propondo a minha casa como ponto de encontro, num dia certo da semana. A ideia foi muito bem recebida e o grupo foi formado. Eram seis, comigo sete. E divertíamo-nos imenso. Conversávamos, contávamos piadas, histórias de vida engraçadas e curtidas. Outras vezes fazíamos jogos. Jogávamos às cartas e outros jogos foram aparecendo. Aproveitávamos os aniversários para nos reunirmos e fazermos uma festinha, tudo em minha casa, embora a ementa fosse distribuída por cada uma de nós. E uma vez por outra fizemos passeios muito bons, muito agradáveis. 

O facto é que o grupo gerou uma dinâmica muito positiva na vida de cada uma de nós e trouxe uma maior confiança individual, capaz de ajudar a transmutar as energias negativas que até então predominavam, fazendo-nos acreditar que as coisas ruins não paravam de acontecer. Começou a haver uma abertura muito grande e foram ultrapassadas barreiras muito importantes para o desenvolvimento pessoal. Era um incentivo enorme que dávamos na vida umas das outras e muito mais coisas. E, ainda por cima, com uma enorme vantagem. É que ninguém precisava de se arranjar, nem de sair à rua. Pelo contrário, toda a gente enfiava as confortáveis pantufinhas, pijamas e robes de trazer por casa. À hora certa, as portas abriam-se e lá vinham elas para uma sessão de desopilar. Divertíamo-nos imenso e fizemos muito bem umas às outras. 

Quando a hora já ia adiantada e o cansaço começava a dar sinais, encerrava-se a noite de convívio e cada uma voltada a sua casa. Porém, quase todas tinham ainda que dar um giro com os seus animais domésticos, trocando rapidamente os robes por casacos e as pantufas por calçado de rua. E quem não tinha cão, tinha gato, etc. Só eu não tinha animais. Não é que não gostasse, mas achava e acho que não tenho jeito e, além do mais, não me apetecia ter trabalhos dessa natureza. Mas havia uma que tinha um pássaro numa gaiola. Pássaros eu gostaria, mas presos na gaiola já não tinha muita graça. Mas era giro. Foi então que me veio uma ideia. Era inverno, mas a primavera viria como sempre. E se eu pusesse comida aos pássaros? Eles viriam a um quinto andar? 

Essa ideia deixou-me imensamente animada. Eu pagava para ver. Se eu pusesse comida e água eles viriam. Viriam só para comer e beber água. Eu não teria outro trabalho e melhor que tudo, seriam livres, livres para continuar a ser como eram. Não eram de ninguém, eram da natureza. Eram livres e ninguém tinha o direito de os aprisionar. E só viriam se quisessem. 

E aí começou o meu projecto “primavera”. Quando o inverno estava quase a terminar e o tempo já estava a melhorar, um dia, espalhei bocadinhos de pão numa ponta do parapeito de pedra, do lado de fora da janela do quarto, bem como um pequeno recipiente com água. Tinha que ser no quarto, para ser acordada com o chilrear da passarada e imaginar que estava no campo. Eles acordar-me-iam suave, suavemente, trazendo os primeiros raios de sol, ajudando-me a despertar alegre e bem disposta, com a sensação da companhia deles. 

E os dias foram passando e eu vigiando, para que não faltasse nunca o pão para a passarada. Primeiro, experimentaria com o pão para ver se resultava, depois logo se via. E agora restava esperar. 

De facto, num belo dia, fui acordada com o chilrear de um pardalito. Numa primeira reacção, estava desligada do que ouvia, mas logo me lembrei do meu plano, do pão e da água à espera e então tomei consciência de que a resposta tinha chegado. Um pardalito tinha descoberto a comida e estava feliz e contente, porque aos pulinhos no parapeito da minha janela do quarto. Levantei levemente a cabeça e lá estava ele, calmo e tranquilo, longe de pensar que, por trás dos vidros fechados, estava a ser observado. 

Fiquei muito feliz. Muito feliz mesmo. Um passarinho tinha vindo. Agora éramos amigos porquanto tempo ele o quisesse, porque agora eu continuaria a pôr comida e água fresca ainda com mais cuidado. E sentada na cama, em silêncio, deliciava-me com ele cantarolando e pulando tão solto e livre, fazendo-me sentir deliciada com aquele maravilhoso encontro matinal. E no outro dia ele voltou e mais outros se juntaram. Além disso, comecei a observar, quando estava em casa, que várias vezes durante o dia também apareciam. Volta e meia ouvia o piar dos pardalitos a saltar no parapeito da janela e espreitava. Lá estavam eles bicando aqui e ali. Eu vigiava e voltava a pôr o que julgava necessário para que os que viessem se sentissem felizes e contentes. A alegria deles era a minha alegria. E o prazer que aquilo me proporcionava era indescritível. 

Os dias seguiam-se e todas as manhãs eu acordava com a chilreada. Era lindo! Eles anunciavam um novo dia e eu voltava a dormir com um sorriso de satisfação nos lábios. Dormia e sonhava que eles eram meus, mas com toda a liberdade que lhes era devida por direito. Sem que nada os prendesse, faziam parte do meu mundo, porque todas as manhãs marcavam presença, bem como várias outras vezes durante o correr do dia.  

Os anos foram passando e o projecto “primavera” repetindo-se. Sempre me foi difícil acostumar com o inverno. Cada dia de inverno que passava fazia-me chegar mais próximo da primavera, só que agora a primavera trazia a surpresa dos passarinhos, que eu tanto gostava e o dia que marcava a chegada deles, dos meus amiguinhos, era uma festa e tanto. A primavera tinha passado a ser anunciada pela chegada deles à janela do meu quarto, através deste ritual que me ajudava a ultrapassar melhor o inverno. 

E mais um ano que não fugiu à regra. Quase no final do inverno, chegou o dia em que achei que estava na hora e, como de costume, lá pus a água e o pão todo esmiuçadinho. Um belo dia, acordei cedo com o despertar de um pássaro que cantava divinamente. Cantava que era um regalo. Abri um olho, depois o outro e pensei: a minha primavera chegou. Foi uma alegria e tanto. Só que percebi que não era um pássaro habitual. Pelo canto, percebi que não era um pardal. Os pardais não cantavam daquela maneira avassaladora. Mas eu estava com muito sono e continuei a tentar dormir. O pássaro continuou cantando e eu deliciada, tentando dormir. E a páginas tantas adormeci outra vez.  

Sensivelmente uma hora depois, talvez, o pássaro voltou, porque o canto iniciou. Levantei-me sorrateiramente e espiando por todos os ângulos, percebi que era um melro pequenino, porque era escuro e tinha o bico alaranjado. Que bonito - pensei - e como canta! E no dia seguinte lá estava ele novamente com a sua cantoria. Mas era muito cedo. O sol ainda nem tinha aparecido, mas ele cantava que era uma loucura. Acabava e recomeçava, tantas vezes que eu já sabia o que vinha a seguir. Já sabia a música de cor. E nos dias seguintes lá vinha ele. E depois de muito cantar, ia-se embora, para voltar uma meia hora depois, em que iniciava todo aquele festival de música e eu queria dormir e ele não me deixava dormir. Dali não saía nem por nada. Mas se saía, logo voltava e cantava que nunca mais acabava. Comecei a ficar possessa. Cada dia vinha mais cedo e o meu sono lá se ia. Comecei a ficar muito irritada. Tapava a cabeça com uma almofada, mas de nada servia porque era muito forte e muito longa a sua cantoria. 

E agora, o que fazer? Estava numa encruzilhada. Já não achava mais graça e já não podia ouvir o melro. Só de pensar nele, quando à noite me deitava, já ficava incomodada e para me acalmar pensava “pode ser que não venha amanhã”. Na madrugada do dia seguinte lá estava ele a tramar o meu sono. Aquilo começou a ser uma completa tortura, porque já não tinha graça. E agora não sabia o que fazer. A solução era não lhe pôr mais comida, mas aí eu ficava cheia de problemas de consciência. E passaram-se uns dias em que andei às voltas sem saber o que fazer com o melro. 

Então, as coisas aconteceram naturalmente. Fui-me esquecendo de pôr comida e água, por conta do problema do que fazer com ele. Como só pensava nisso, esqueci-me mesmo e a comida acabando naturalmente, ele então se afastou. Coitado do melro - pensei um dia -, nunca mais voltou! Mas logo me lembrei da tortura que era querer dormir e não poder, com a cantoria dele. 

Curei-me de vez. Já não sinto a falta da passarada. Já não tenho a necessidade que tinha da presença deles. Acabou-se o projecto “primavera”, mas aprendi a sentir-me feliz sem estar dependente deles.  

Tal como o melro, ganhei asas e voei. 


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O prego - 33


Eu estava furiosa. Furibunda! Quem era aquela criatura diabólica, mal humorada, que estava na minha frente, enfrentando-me da maneira mais agressiva e desagradável possível? Aquilo não podia existir.

 

Eu tinha ido a casa da minha tia que já estava bastante doente, movimentando-se com imensa dificuldade, o que fazia com que as minhas idas fossem cada vez mais frequentes, para a ver e dar o apoio possível.

 

Numa dessas idas, já de saída, dirigi-me ao carro, estacionado em frente de casa, do outro lado da rua, no que fui surpreendida por outro carro estacionado atrás do meu, em segunda fila. Naquela zona, bem no centro de Lisboa, acontece muito isso. Todavia, normalmente as pessoas estão atentas ou colocam indicação sobre o tablier, bem visível, informando o contacto, para não dificultar a vida de ninguém.

 

Acontece que, depois de ter inspecionado o veículo, não encontrei nada, absolutamente nada que me desse uma pista, o que achei muito estranho. Olhei em volta e não vi ninguém suspeito. Como não houvesse a mais pequena hipótese de sair dali sem que o carro mal estacionado saísse, dei uma buzinadela rápida, não querendo fazer muito alarde. Mas, ao contrário do que era esperado, ninguém deu sinal de vida.

 

Aquilo estava estranho. Muitos carros estacionavam ali em segunda fila e caso não colocassem nenhuma mensagem sobre o tablier, bastava dar um toque rápido para alguém sair correndo e pedir desculpa pelo incómodo. E assim, tudo ficava bem, sem problemas de maior. Agora, aquela cena, não me estava a cheirar nada bem. Contrafeita, decidi dar outra buzinadela. Esperei, mas uma vez mais, ninguém se acusou. Estava tudo tranquilo demais para o meu gosto. O que se estaria a passar? Não era normal. Quem, em sã consciência, deixaria um carro assim!?

 

Esperei, a pensar no que haveria de fazer, ao mesmo tempo que tinha esperança de que, entretanto, alguém aparecesse correndo e desculpando-se por isto ou por aquilo. O facto é que nada acontecia. Buzinei mais uma, duas vezes, aumentando a intensidade e o tempo e eu própria já estava mais do que incomodada por ter que ser obrigada a fazer o que não queria. Não faltaria muito, a rua toda estaria a chatear por causa do barulho, mas fazer o quê?

 

E vinha uma pessoa à janela espreitar por trás dos vidros, abrindo sorrateiramente o cortinado, o que me dava uma esperançazinha, para logo se retirar, o que me deixava muito desolada. E depois outro aqui, outro ali, mas a verdade é que ninguém se acusava e também ninguém reclamava do barulho que eu estava a fazer, o que me deixava ainda mais intrigada. A minha intuição dizia que havia ali alguma coisa estranha que me escapava e eu não conseguia entender.

 

Sempre na esperança de que alguém acabasse por vir, mais minuto menos minuto, comecei a investigar o carro. Um Honda, que no banco traseiro tinha uma cadeira de criança pequena. Portanto e, em princípio, seria um residente. Mas para ser um residente não podia abandonar o carro assim tão mal estacionado. Ter-se-ia esquecido de deixar indicação? Mas depois de tantas buzinadelas e tanto chinfrim que eu já tinha feito, não era possível que ainda houvesse alguém que não tivesse ouvido!?...

 

A minha impaciência já tinha começado a dar sinal há muito tempo, mas agora era mais do que isso. Eu sentia-me prisioneira e isso estava-me a dar cabo do juízo. Não sei lidar com isso. Como era possível que ninguém viesse tirar o carro dali? O proprietário tinha deixado o carro ali abandonado, sem ligar peva ao assunto ou então teria morrido subitamente!? Era esquisito por demais.

 

Foi então que, não tendo alternativa, liguei para a polícia informando o que se estava a passar. Pediram-me a informação do local, a identidade e fiquei-me, aguardando a chegada das autoridades, embora sentindo-me muito mal por ter que ser obrigada a isso.

 

O tempo ia passando e nisto tudo já lá ia uma hora. Achando que era um abuso e que ninguém tinha o direito de fazer uma coisa daquelas, esperar pela polícia sim, mas decidi que havia de fazer mais alguma coisa para mostrar o meu completo desagrado por aquela lastimável situação e comecei a buzinar sem tirar o dedo da buzina. Aquilo até doía. Doíam os meus ouvidos, a minha paciência, os meus nervos, os meus dedos… mas tinha que ser. Precisava desesperadamente de saber quem era o imbecil ou a imbecil que se atrevia a não reagir perante um ato daqueles.

 

Em vão, porque tudo continuava na mesma até que, no prédio em frente, do lado contrário da rua, aparece à janela, aberta para o efeito, num terceiro andar, um indivíduo dos seus trinta e cinco anos, dizendo “toque no rés-do-chão direito”, ao mesmo tempo que apontava para baixo. Eu nem queria acreditar. Tinha surtido efeito. Alguém tinha reagido, mas ainda não era ali. Era apenas o caminho.

 

Mal tive tempo de agradecer, o rapaz fechou a janela e desapareceu. E lá fui eu, atravessando a estrada, dirigindo-me ao tal do rés-do-chão direito. Uma luz no fundo do túnel. Mas era uma luz um pouco escura, para não dizer muito escura. Pensando bem, aquela história estava cada vez mais estranha. Eu estava a fazer aquela barulheira toda a escassos metros do presumível proprietário do carro e ainda assim o sujeito ou a sujeita não dava a cara? Só podia ter morrido! Que outra razão levaria uma pessoa normal a agir assim, sem se importar com o estrago que estava a fazer na vida dos outros?!

 

Dei um toque na campainha, ainda esperando que alguém viesse correndo com alguma desculpa que ainda não me tivesse ocorrido, mas nada. O sujeito de cima, que me tinha dado a indicação do proprietário, era credível, com toda a certeza. Não tinha como duvidar. As chances de se ter enganado eram praticamente nulas. Agora eu até já começava a pensar que talvez o proprietário estivesse habituado a fazer aquilo… e como ninguém respondesse, perdi a paciência de vez, pus o dedo na campainha e não tirei mais. Ah… agora sim, alguém vinha lá. Ingenuamente, pensava comigo mesma, qual seria a desculpa que teriam para me dar(?).

 

Qual desculpa, qual quê… eu estava era a sonhar acordada e completamente fora da realidade que me esperava. Abriu-se a porta de casa e sai de lá uma mulher que aparentava os seus sessenta e muitos anos, mal humorada, carregada de energia negativa, que parecia que me vinha bater. Nos segundos que ela levou para percorrer o espaço da porta de casa até à porta do prédio, que abriu furiosamente, percebi imediatamente que estava lixada, como se fosse eu que estivesse no caminho dela e não ela no meu.

 

Ao abrir a porta, a mulher simplesmente descarregou em cima de mim todo o seu mau humor, num tom de voz insuportável, dizendo “páre com isso, que ainda me acorda a criança!” Eu nem podia acreditar no que acabava de ouvir. Então, uma louca daquelas, esgrouviada, com uns cabelos que parecia uma bruxa, tinha uma criança a seu cuidado? Uau!...

 

Quando consegui começar a falar, tive que ser muito firme e ter muito sangue frio, para apenas lhe perguntar se o carro mal estacionado era dela, ao que ela olhando para mim de alto a baixo e cada vez mais agressiva, respondeu “é sim, porquê?” Porquê, perguntei, não percebe que está mal estacionado e que preciso de sair(?), continuei. Quero lá saber, respondeu ela, com o maior desdém e o maior desprezo. O quê? Retorqui, pois fique sabendo de que já chamei a polícia. Quero lá saber, continuou ela, olhando para mim como se eu fosse o seu inimigo número um e continuando, dizia, pode chamar a polícia, pode chamar quem quiser, sabe porquê, eu não moro aqui, dizia ela com um ar triunfante, teatral e doentio.

 

Eu queria lá saber onde é que morava aquela horrenda criatura. Eu queria era sair daquele filme que não era meu. Eu queria era o meu sossego e a minha paz. E a polícia que não vinha!?... Sua louca, gritava ela para mim. Incrível! Eu estava completamente passada, ainda sem perceber muito bem o que se estava a passar. Sua louca, continuava a mulher, desafiando-me a todos os níveis. Louca é você, disse-lhe eu. Ninguém deixa um carro estacionado daquela maneira. Mas ela praguejava e esbracejava tipo “padeira de Aljubarrota”.

 

Aquilo era absolutamente surreal. Das duas uma: a mulher era ama ou avó. E quem, em sã consciência, deixaria uma criança aos cuidados de uma doida varrida!? Era isto que agora mais me incomodava. Mas para falar a verdade, eu queria mesmo era sair dali. E lá foi ela, dirigindo-se ao carro, o que muito me aliviou. Tirou o carro, eu tirei o meu e desapareci, nervosa e chateada até mais não.

 

Saí dali, enfiei pelo eixo norte-sul em direção à Póvoa e foi um tiro, que nem via nada à minha frente. Passando na estrada nacional, passo na polícia e resolvo parar. Estava tão transtornada que entrei e comecei a desbobinar o acontecido e mais, sobre a criança, que não me saía da cabeça. Relatei o acontecido, insistindo que uma criança não podia estar aos cuidados de uma pessoa assim tão desequilibrada. O sujeito ouviu tudo o que falei e argumentou “a senhora não vê que não temos bases para fazer seja o que for?” Respirei fundo e disse “sei… sim, claro, mas falei”.

 

Na verdade, tinha que despejar aquilo o mais depressa possível, que me estava a incomodar de que maneira. E sabia que tinha sido estupidez ir à polícia, mas apeteceu-me e pronto. Estava feito. Eu tinha que descarregar em alguém para ficar mais aliviada. Até já conseguia respirar melhor. Voltei ao carro e segui para casa.

 

Durante uns dias não conseguia esquecer aquela cena macabra. Sentia uma raiva e uma vontade de me vingar. Vingança, sim, era isso mesmo, eu tinha que me vingar daquela mulher. Mas como? Fui à minha caixa das ferramentas e saquei de um prego pequeno, que olhei atentamente. Aquele prego seria a minha vingança. E imaginei-me a chegar lá, passar ao pé do carro e espetar o prego no pneu. Pronto, estava feito. Ela ia saber exatamente quem teria feito aquilo. Era como se o meu nome lá ficasse escrito.

 

Várias vezes voltei a casa da minha tia, mas o carro não estava lá, ou não tinha tempo ou disposição para me dedicar àquele assunto e pensava, ainda não é hoje. Mas a tua vez está guardada.

 

E chegou o dia em que, descontraidamente, uma vez mais, lá fui ver a tia. E passando calmamente, lá estava o carro à minha espera. Olhando em volta, tudo me parecia tranquilo, pelo que seria fácil pôr o plano em prática. Além disso, aquele assunto precisava de ser encerrado de uma vez por todas. Era a hora. Assim, atravessando a estrada, passei para o outro lado da rua. Como quem não quer nada, tirei da mala o prego e cerrei a mão. Aproximei-me do carro, olhei para o sítio onde poderia espetar o prego e… e, de repente, tudo deixou de fazer sentido. De repente percebi que afinal não queria e não precisava de fazer nada daquilo.

 

Guardei o prego e respirei aliviada. Estava liberta.

 

Mas, o mais importante, é que tive consciência de que aquela mulher não tinha qualquer poder sobre mim e, portanto, eu continuava a ser eu, apenas eu, igual a mim mesma, sempre eu e só eu.



quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

No Deserto - 32


Eram os últimos dias de uma espectacular viagem pelos Emirados Árabes e que não podia terminar sem uma ida ao deserto, que eu ansiava desde o primeiro dia, embora soubesse que estava reservado para o final. 

Deserto era tudo aquilo. Mas quem se lembraria de pensar nisso, quando à nossa volta víamos a grandiosidade dos edifícios e a terra a perder de vista transformada em verdadeiras florestas!? 

E não é que eu não achasse uma maravilha, pois era um megaempreendimento, sem dúvida alguma. Tudo aquilo era um colosso. 

Mas agora sim, estávamos em pleno deserto, onde as dunas pareciam dançar, enfeitiçando a terra com suas formas sensuais de movimento ondular irregular, palco de mistérios insondáveis, de lendas que se estendem pelo tempo, fantasiando a mente humana sob as noites de mil estrelas e das histórias das mil e uma noites, ao som dos ventos que se desdobram na imensidão do vazio interminável, onde tudo se conjuga numa onda de solidão varrida de loucura, em busca duma qualquer, mas total liberdade harmoniosa, sui generis… tudo, menos vulgar. 

O deserto é lindo, na sua forma primária de cores da terra em tonalidades marcadas pelas sombras que só o sol é capaz de desenhar. O deserto é a forma mais bruta da natureza e por isso também a mais ousada. 

Tínhamos acabado de almoçar no restaurante mais alto do mundo e de regresso ao hotel, lá estavam os jipes, cada um com seu motorista, a fim de nos proporcionarem uma viagem de sonho pelo deserto. Eu estava ansiosa, como não podia deixar de ser. Já tinha estado no deserto, mas é sempre diferente, sempre irresistível e apaixonante. 

Kabir era indiano. Tinha emigrado para o Dubai porque ganhava bastante bem para sustentar a sua família na Índia e ainda fazer uma boa reserva. Era jovem, alto e fisicamente bem constituído. Usava uns óculos de sol bem escuros e largos, que lhe tapavam completamente os olhos e lhe davam um ar cheio de “estilo”, todo moderno. Era decidido e desenvolto. Por isso, depois de observar todos os motoristas, decidi que iria com ele. Dirigi-me ao seu jipe informando-o da minha decisão e logo ele me mandou sentar no banco da frente, bem ao seu lado. 

Ao todo eram cinco jipes e além de mim, seguiam ainda quatro mulheres e um homem, que faziam todos parte de um mesmo grupo. Mostravam-se bem-dispostos e riam por tudo e por nada, pelo que a viagem foi muito divertida. Enquanto eles se distraiam com as suas charadas, Kabir e eu já conversávamos animadamente, com toda a familiaridade, o que facilitou muito a viagem, mais adiante veremos porquê. Além disso, falávamos Inglês e Hindi, tudo à mistura, pelo que, volta e meia, havia alguém que sussurrava, “mas em que língua estão eles a falar(?)”..., o que eu achava imensa piada. 

Entrámos no deserto e os jipes aguardaram a chegada de todos, para fazermos o mesmo percurso em fila indiana e não nos perdermos uns dos outros. Kabir era muito bom condutor e percebia-se que tinha prática do deserto, o que nos aliviou muito, embora as mulheres estivessem sempre a gritar e a agarrar-se a tudo, com um certo receio do jipe tombar, queixando-se das inevitáveis subidas e descidas. 

E logo um pouco depois da partida surgiu um problema que nos obrigou a parar. Um jipe, que não fazia parte do nosso grupo, ficou com uma roda traseira enterrada na areia e não havia maneira de o tirar de lá. E quanto mais o motorista forçava, mais ele se afundava. Ele não ia na nossa rota, mas Kabir avistou-o e apercebendo-se de que estava metido em apuros, logo se dirigiu para lá, fugindo assim ao nosso grupo. Todos solidários com o jipe empanado, Kabir pediu que ninguém saísse do jipe. Felizmente que, este ninguém, não me incluía. Kabir era perspicaz e percebeu de imediato o meu espírito aventureiro, pelo que me deixou à vontade, para fazer o que quisesse, o que muito apreciei. 

Assim, saímos os dois ao encontro do motorista empanado e ao cabo de uma boa meia hora, lá foi possível desencalhar o jipe. Os dois cavaram até onde foi necessário e colocaram uma tábua de madeira junto à roda. Prenderam um carro ao outro com cordas fortes e com muito empenho, força e destreza, lá foram fazendo manobras em cima de manobras, até que o jipe saiu do buraco passando para a tábua e finalmente se movimentou sobre as areias já normalizadas. Esta foi a primeira aventura no deserto do Dubai. Mas não foi a única. 

Quando finalmente chegámos ao acampamento, já todos estavam no churrasco, nos comes e bebes, mas ninguém se lembrava de perguntar porque nos tínhamos atrasado tanto. Se calhar pensaram que tínhamos andado a passear pelo deserto!... Por isso já tinham iniciado a “festa”. 

Sentada no chão, com que prazer eu apreciava os sabores exóticos de aromas tão suaves como excitantes, numa conversa variada de diferentes idiomas. Cada um com as suas preferências e o buffet circulava livremente, continuando a oferecer de tudo um pouco. Tudo para mim estava perfeito e toda a gente se divertia, cada um procurando o que mais prazer lhe dava, tirando todo o partido possível de uma experiência no deserto, antes que a noite começasse a cair, enchendo o céu de mil estrelas, as mais brilhantes, as mais cintilantes. Estava montada a magia do deserto. 

E o encantamento aumentou, quando uma jovem dançarina começou a sua exibição de dança oriental – dança do ventre - com todo o tilintar das moedas a cair na anca e os lenços de seda pura esvoaçantes, de cores exóticas, sob a luz das estrelas, onde ela se movimentava com toda a beleza e graciosidade. 

Quando tudo acabou era noite cerrada e escura. No acampamento, as luzes eram mínimas. Só a lua e as estrelas iluminavam o deserto e todos começavam a procurar os respectivos carros para o regresso ao hotel. No meio de tudo isto, não consegui encontrar os restantes do meu grupo, nem o jipe, nem Kabir, meu motorista preferido. Por algum tempo me senti perdida, sem saber que direcção tomar. A verdade é que só via os jipes a debandarem e o acampamento a ficar cada vez mais vazio. Mas não era possível que se tivessem ido embora sem mim!?... 

Olhando em redor, apercebo-me de um pequeno grupo de pessoas todas muito juntinhas. Quem seriam? O que fariam? Não me restando alternativas, vou na direcção delas que, curiosamente, ficaram muito animadas à minha chegada. Só então me apercebi de que era todo o meu grupo, como eu ou mais que eu, assustadas, sem saberem o que fazer. Ah… então o problema não era meu! 

Perguntaram-me pelo motorista e respondi que não fazia a menor ideia, pois nunca mais o tinha visto. E todas encolhidinhas e agarradas umas às outras, perguntavam “e agora, o que fazemos?” Pensei, “temos que ir à procura dele, porque tem de nos levar de volta”. Já todos tinham partido, só nós ali desterradas na imensidão do deserto. Mas elas não estavam com a menor vontade de sair dali para o procurar. Pedi-lhes que se mantivessem no mesmo sítio, para não nos perdermos, enquanto eu iria procurá-lo. 

E lá fui eu. Missões impossíveis sempre estarão guardadas para mim. Andei e andei, avistando umas luzes que não percebi muito bem o que eram. Mais perto, percebo que eram luzes de um carro parado, com a porta do lado do motorista aberta. Percebi também que havia duas luzinhas vermelhas, movendo-se lentamente, que só podiam ser cigarros. Logo, pelo menos, de duas pessoas se tratava. 

Pouco à vontade, chego junto e pergunto se sabem de Kabir. Um dos dois indivíduos levantou-se, falou qualquer coisa ao outro, que não entendi e logo se afastou, enquanto o que ficou, abriu a porta para eu entrar. Na verdade, não o reconheci. Não reconheci o rosto dele. E enquanto fomos buscar os outros do nosso grupo, que ficaram numa enorme alegria quando me viram chegar com ele, Kabir comentou com uma certa curiosidade o facto de eu não o ter reconhecido. Respondi que estava tudo na escuridão e que ele estava sem óculos. Mas ele não aceitou e não sem um certo espanto da minha parte, disse “qualquer outra mulher no mundo inteiro podia não me reconhecer, mas tu não”. 

Hum?… eu nem queria acreditar no que ele dizia, mas pensando um pouco, entendi que ele se referia ao facto de eu ser indiana e daí a nossa afinidade. E mais, face a toda a minha experiência de vida, por questões muito peculiares, no seu entender, ele achou que eu devia tê-lo reconhecido, sem qualquer hesitação. Pedi-lhe desculpa, apenas porque aquilo que aparentemente parecia ser uma nota negativa a meu respeito, não era senão um elogio. Interessante!... Ainda mais porque eu tinha idade suficiente para ser mãe dele. 

E lá fomos nós, o último jipe, sempre o último, por isto ou por aquilo. Mas a esta altura eu já me sentia bastante segura. Kabir era confiável e corajoso. Até já tinha esquecido que, na verdade, e foi mesmo por um triz, quase fiquei no deserto. E aí ficava mesmo. Mas, só não fiquei, como aprendi uma preciosíssima lição. 

A páginas tantas, quando já tinha experimentado toda a comida e a dança ainda não tinha começado, ainda era dia e resolvi, para não variar, por minha conta e risco, dar a minha voltinha, sozinha. 

Quase todos tinham ido para os camelos e como já não era novidade para mim, preferi investigar o deserto, do meu jeito. Assim, comecei a caminhar, afastando-me um pouco do acampamento, o que foi um erro. Havia dunas e poços de areia, alguns dos quais, com alguma vegetação própria do deserto. E a páginas tantas deixei-me levar e cometi outro erro: desci pela duna abaixo, até ao fundo, ao poço de areia. 

Enquanto me deixei escorregar, achei que era uma sensação e tanto. Eu por ali abaixo e a areia atrás de mim. Senti-me uma criança, apreciando a brincadeira ingénua, com o perigo à espreita, ao qual eu estava completamente alheia. Levantei-me do chão, dancei, fiz umas maluquices e achei que estava na hora de voltar à base. Foi então que tomei consciência da burrice que tinha feito. Uma burrice sem tamanho. Foi tão bom descer, mas… e agora para subir? Um pé à frente e outro atrás, mas estava sempre no mesmo sítio. É claro, não havia a mais pequena firmeza nas areias. Mais um pé e outro e eu só descia. Contra tudo e todos, descia, descia. 

Olhei para o alto e percebi que dali não sairia. Comecei a entrar em pânico. Estava longe do acampamento, não adiantava gritar por socorro. A coisa estava feia. Fiquei quieta, parada, no silêncio, entregue a mim mesma. Que fazer? 

Olhei para o cimo da duna e pensei que tinha que sair dali. A areia não havia de ser mais teimosa do que eu. E mais uma vez, quanto mais esforço fazia, maior era o desastre, mais depressa escorregava e voltava ao fundo. O meu coração começou a bater fortemente e a minha inquietação era desesperante. Senti-me completamente impotente. Aquilo não era uma brincadeira e eu estava seriamente em apuros. Depois de várias tentativas infrutíferas, começo a ficar muito cansada fisicamente e as minhas forças a irem-se. O que fazer? O que tinha ido fazer ali? Para quê?  

Havia uns arbustos com umas hastes bem compridas, se eu conseguisse alcançá-las talvez me ajudassem na corrente contra as areias e caso não se partissem, iria passando de umas para as outras. Esperei um pouco para recuperar as forças e me tranquilizar. E mais uma vez lá fui lutando contra as areias que, por sua vez, tanta luta me davam, parecendo divertir-se às minhas custas, fazendo-me sentir completamente derrotada e com aquele horrível sentimento de impotência a devastar a minha alma e a derrubar consistentemente toda a minha paciência. 

E eu já não sabia mesmo o que fazer nem pensar. Estava morta, fragilizada e tão zangada comigo mesma.  Mas embora exausta, não podia desistir, porque isso era desistir de mim e desistir é próprio dos fracos. Foi então que tive outra ideia que decidi pôr em prática. Deixar de competir com as areias, deixar de forçar, ter muita paciência e dentro de um espírito completamente diferente, pus um pé e parei, deixando as areias virem ao meu encontro numa corrida feliz e contente. Deixei-as vir, sem luta e sem medo. Quando estabilizaram, dei apenas mais um passinho pequeno, pequenino e as areias limitaram-se a uma descida proporcional. Parecia que também se tinham cansado. Novamente fiquei a apreciar e dei mais outro passo ainda mais pequeno. E as areias desceram, sim, mas levemente, suavemente, e de cada vez que me movimentava, a passada era mesmo a mais curta possível e assim as areias foram sossegando e de repente estava quase a chegar ao arbusto dos ramos compridos. 

Foi então que percebi que todo o esforço que tinha feito anteriormente tinha sido em vão, porque queria subir tudo aquilo de uma só vez. Eu tinha esquecido completamente que estava no deserto. As areias estavam a trabalhar a minha inteligência, mas acima de tudo a testar a minha paciência. Era belo, o deserto, mas a minha relação com ele sempre tinha sido superficial, sempre tinha passado pelos benefícios, as fantasias, as ilusões e naquele momento eu estava a vivenciá-lo na sua plenitude. Com estes pensamentos, calma e tranquilamente cheguei ao arbusto onde me segurei firmemente, com unhas e dentes. E de ramo em ramo, finalmente, consegui atingir o topo, onde de novo me encontrei a salvo. 

De regresso ao acampamento, se eu admirava o deserto, a minha admiração só aumentou e agradeci a lição de paciência e persistência a que ele me tinha acabado de submeter. Tinha aprendido uma das mais duras lições da minha vida e tinha plena consciência disso.  Ali mesmo, no deserto.

 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A lei do retorno - 31


A Clara tem agora cinquenta e sete anos e é a minha muito querida prima/irmã, quase uma filha, porque cuidei muito dela em pequena, na qualidade de irmã mais velha. Amo a Clara como ela é, com todas as suas maluquices e doidices, que não são poucas.

 

Dos cinco, dos quais eu faço parte, ela sempre foi a que mais trabalho deu. Só fazia aquilo que queria e não tinha medo de nada nem de ninguém. Sempre que a levávamos a passear no parque, o que normalmente acontecia comigo ou com o avô, onde houvesse água, fonte, lago, apesar de todas as nossas recomendações, a Clarinha enfiava-se lá, obrigando-nos a esperar, esperar, quase como uma tortura porque, apesar de todas as ameaças que lhe fazíamos, nomeadamente, advertindo-a de que nos iríamos embora deixando-a sozinha, nada adiantava. Ela sabia que eram só ameaças e que, na verdade, jamais o faríamos. E assim, invariavelmente, chegava a casa encharcada da cabeça aos pés, feliz e contente, ignorando tudo e todos, até os piores sermões da avó, que sempre nos culpava por aqueles incidentes, achando que não tínhamos nunca o cuidado suficiente com a “menina”.

 

A Clara cresceu e tornou-se uma mulher de sucesso, que se empenha a fundo na sua vida profissional. Um pouco materialista para o meu gosto, mas cada um é o que é. É inteligente e mata-se a trabalhar. Mas, quando é preciso, a Clara está presente e em situações muito difíceis da minha vida, foi a Clara que me tirou do sufoco. Foi a Clara que me “salvou”, por três vezes, na minha acidentada caminhada. E de todas as vezes o fez sem me questionar ou me atribuir culpas, limitando-se a disponibilizar-se, de acordo com a natureza da minha necessidade e apenas isso. Por isso e por muito mais, estou-lhe infinitamente agradecida e para mim ela é e sempre será muito especial. E porque a amo muito, também me dói muito, quando faz coisas que me parecem indignas dela.

 

Quando éramos crianças, a nossa tia avó materna, Maria Vergikosky, de descendência russa, nessa altura já com a idade muito avançada, tinha muitas joias. E todo esse ouro que há muito já não usava, até porque já nem saía de casa, guardava religiosamente numa gaveta da sua cómoda grande e muito antiga, envolto num pano de feltro preto, por baixo da roupa. Segundo se contava, parte desse ouro já tinha servido para tirar do sufoco a família, nalgumas situações difíceis. Por exemplo, quando a minha tia, mãe da Clara, precisou de vir para Lisboa estudar e os meus avós não podiam fazer face às despesas. Ainda assim, ficara muita coisa. E de vez em quando, nós três, crianças, meninas, gostávamos de dar uma olhadela e admirar aquelas obras de arte que brilhavam pelo ouro e pelas pedras bonitas que tinham. E como ninguém tinha autorização para abrir aquela gaveta, de longe em longe, pedíamos à tia/avó que nos mostrasse, o que ela fazia com toda a sua boa vontade e a maior paciência do mundo, porque era uma dessas criaturas raras, que passam por esta vida apenas para cuidarem e se preocuparem com os outros, dando tudo sem nada receber e muito menos exigir. A sua capacidade de abnegação e resiliência era total. Ajudou a criar os irmãos, os sobrinhos, os sobrinhos netos e mais não fez porque chegou a sua hora de partir. Uma longa vida de dedicação e entrega, uma vida da qual nada teve a não ser o que deu e que não foi pouco. 

 

E apesar do ouro ser sempre o mesmo, lembro-me de que nem por isso deixava de nos fascinar, como se o víssemos sempre pela primeira vez, admirando aquilo que, como ela dizia, um dia seria nosso. Com certeza esse dia chegaria, mas eu achava que nenhuma de nós três pensava nisso. Nós amávamos aquela tia que era o nosso consolo, porque nos aturava a toda a hora com todas as nossas impertinências de crianças.

 

Tudo isto era tranquilo e não tinha nada de extraordinário. Mas a Clara, a mais nova das três, era a que sempre se mostrava mais apegada às joias. Muitas vezes percebi que ela as via com um olhar diferente, com uma certa impaciência e como que se achando com mais direitos… sem dúvida alguma.

 

As crianças cresceram, tornaram-se adultas, a tia cada vez mais velhinha, cansada e chegou um dia em que a Clara decidiu não esperar e sem mais nem menos, pediu as joias à tia, o que conseguiu, de forma leviana e abusiva, ignorando tudo e todos. A minha irmã, presenciando a cena, veio ter comigo, reclamando. Mas nós já sabíamos que ela era assim!? Ela sempre foi assim. Não tinha regras. Simplesmente fazia e dizia o que queria. Por mais que a chamássemos à atenção, ela não queria saber disso para nada. Ela era como era e ponto final. A minha irmã não conseguiu ficar indiferente com aquela situação. O facto é que a tia era dona daquilo e podia fazer o que muito bem entendesse. 

 

É claro que percebíamos perfeitamente que a Clara se tinha aproveitado da já tão adiantada fragilidade dela, que já não tinha uma percepção tão clara das coisas, nem forças para reagir. E pedir-lhe contas por isso seria uma enorme injustiça. E talvez até tenha pensado que ela repartisse connosco, por exemplo. Por isso, disse à minha irmã que simplesmente esquecesse e fizesse de conta que aquilo nunca tinha existido.

 

Por seu lado, a Clara estava triunfante. Ela tinha-se adiantado, o que nunca o deveria ter feito, mas enfim… ela tinha reclamado e quem éramos nós para julgar as suas atitudes?! A única coisa que para mim era importante era continuarmos sempre unidas, porque era assim que era a nossa vida, apenas isso. Do resto, a vida, ela própria, se encarregaria de cuidar. Efectivamente.

 

A Clara casou, já tinha um filhote com menos dez anos que o meu... a vida não estava propriamente fácil e eu comprava no supermercado uns cereais para o pequeno almoço que, mediante uns cupões fornecidos nas embalagens, davam direito a uns cremes de rosto de uma certa marca bastante razoável e assim eu poupava algum dinheiro. Como gastava muito daqueles cereais, juntava alguns cupões e para tirar o máximo partido daquela facilidade, quando atingia o limite, precisava de uma morada diferente da minha, para ter direito a mais cremes.

 

Nessa altura, a minha irmã já vivia no Brasil, por se ter casado com um brasileiro e, portanto, não podia contar com ela. Restava a Clara. Falei com ela e expliquei-lhe o assunto, pedindo-lhe para receber os “meus” cremes na morada dela, o que ela logo aceitou sem objeção alguma, como era natural. O que não era natural era recebê-los e ficar com eles para ela, porque não foi esse o acordo. Mas ela ficava com eles e por conta das minhas reclamações, simplesmente respondia que, se iam para a morada dela, eram dela, deixando-me completamente sem palavras. Ela não tinha necessidade daquilo e não foi esse o trato que fizemos. Ela apenas faria o favor de os receber, no que ela concordou, mas não respeitou, porque decidiu apoderar-se deles. 

 

Fiquei incomodada com aquela situação, nem tanto por ficar sem os cremes, mas por não entender a atitude dela, até que um belo dia ela teve o desplante de se queixar que a empregada recebia o correio e ficava com os cremes para ela, o que a deixava muito indignada! A empregada “roubava-lhe” os cremes!? ...

 

Voltando ao ouro da tia, que a Clara guardava em casa a sete chaves, no último andar do prédio onde morava, um dia em que não estava ninguém em casa, os ladrões entraram pelo telhado e lá se foi todo o ouro. A Clara informou-nos da tão imprevisível tragédia que, claro, era só dela. A nós em nada nos incomodou. E nem um pouco chateadas ficámos, nem pena nenhuma sentimos, para grande espanto dela, que queria que estivéssemos solidárias e condoídas com a perda dela!

 

A Clara é inteligente, culta, com muita bagagem, muita estrada, muita vivência, muito tudo. A Clara é antropóloga, tem dois filhos e uma vida muito rica, porque muito aproveitada e eu amo a Clara com todo o meu coração. O ouro e os cremes, etc… não têm a menor importância. O que importa é que, apesar de tudo, a Clara até hoje não aprendeu o básico da vida, desconhecendo as leis universais.

 

O facto é que, apesar de saber tanta coisa, até hoje, a coisa mais simples, o mais elementar da vida, a Clara ainda não aprendeu, desconhece ou ignora – a lei do retorno.