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sexta-feira, 6 de março de 2015

Nordeste - 14


O aeroporto internacional de S. Paulo estava uma completa bagunça, por conta da greve dos controladores de tráfego aéreo. Havia voos em atraso e outros que nem se chegavam a realizar. No entanto, Inajá e eu conseguimos um voo para Natal.

 

Era um avião muito pequeno, como os que fazem os voos interilhas, nos Açores. E aí estávamos as duas sentadas, à espera de embarcar para um merecido descanso em Ponta Negra. Mas eu nunca tinha visto um vôo assim. Assim, quero dizer, naquelas condições. Bem sei que íamos para o nordeste, mas nunca pensei que aquilo existisse. Havia um indivíduo que não tirava os olhos de mim, o que já me estava a incomodar. Claro que não seria pelos meus lindos olhos, mas talvez me tenha ouvido falar e tenha percebido que era Portuguesa.

 

E, finalmente, lá veio a chamada para o nosso voo. Foi tudo a correr, com certeza com medo de perderem o avião, mas como Inajá não estava com pressa nenhuma, fomos ficando para o fim e quando entrámos, já estava praticamente cheio e não conseguimos lugar juntas. Ela passou à minha frente e fez-me sinal para me sentar na segunda fila do lado esquerdo, porque logo a seguir, ou seja, na terceira fila, também havia um outro lugar e assim poderíamos ficar o mais perto possível uma da outra.

 

Havia muita gente no corredor e não davam passagem. O avião tinha somente duas filas de três lugares de cada lado e o corredor ao meio. Atrás de mim vinha o sujeito que não tirava os olhos de mim e quando me preparei para me sentar - o que não era fácil, porque era um lugar entre duas pessoas e portanto, tinha que passar por cima da primeira, a da ponta, que era uma senhora gorda e que não fazia a menor intenção de se levantar para eu passar, fui obrigada a alçar a perna e praticamente pular por cima dela, que ainda por cima era bastante avantajada -, o indivíduo, o tal que me seguia com o olhar, aproveitou a deixa para comentar “tá vendo como é bom ser magra”?! Fiquei sabendo que gostava de mulheres magras. 


Finalmente consegui chegar ao lugar e sentar-me. Entretanto, Inajá já estava sentada e lá nos acomodámos. Eu levava um livro para me entreter na viagem, mas ainda era cedo para começar a minha leitura. O rebuliço era tremendo. Havia uma agitação fora do vulgar. Um avião tão pequeno conseguia dar mais trabalho do que um grande. Pois é, mas tinha-me esquecido que era um voo doméstico! As hospedeiras não tinham mãos a medir. Uma senhora que ia sentada na fila à minha frente, a primeira, estava muito preocupada, por conta de uma pequena mala que não conseguia acomodar na bagageira e a hospedeira não queria que ela a levasse no colo. Disse-lhe que a acomodaria na parte de trás do avião e que à chegada lha devolveria, mas a senhora não estava nem um pouco descansada. É que eram os medicamentos dela e queria-os debaixo de olho. Foi uma luta. Cada um tinha o seu problema e a sensação que eu tinha é que ouvia galos e galinhas cacarejando… có-có-ró-có-có… por todo o lado, mas acho que isso não podia ser, não sei. É porque as pessoas tinham todas um ar muito rural, gente do “sítio”, muito caipiras e as bagagens que traziam eram igualmente caipiras. Cestos de verga e outras coisas do género. Eu olhava e parecia que transportavam garrafões de vinho ou azeite ou ainda cachaça, sei lá. Também não devia ser nada disso, mas era a impressão que me causava. Só sei que era uma bagunça infernal e que aquela gente não se acomodava nem por nada. 

 

Com tudo isto, tive uma crise de claustrofobia como nunca tinha tido na minha vida, até porque, felizmente, não sofro de claustrofobia. Mas também pode ter sido pânico. Estava um calor infernal e o ar condicionado geral ainda não tinha começado a funcionar. Com aquela gente toda em cima de mim e o avião tão pequeno, parecia que queria respirar e não podia. Comecei a suar, a suar e pensei que me ía dar uma coisa. Estava quase a gritar, descontrolada, quando me lembrei de abrir o ar por cima de mim e fi-lo no momento certo. Mais um segundo e tinha sido uma bronca.

 

Bom, o avião arrancou e finalmente preparava-me para dar início à minha leitura, quando percebi que não ia ser possível. O indivíduo à minha direita, junto à janela, como o voo era de baixa altitude e se via a paisagem lá por baixo, estava deliciado e fez a viagem toda com o pescoço virado a 90 graus à direita e o rosto colado ao vidro da janela, o que me tirava toda a luz. Azar… ainda fiz uma cara feia, mas ele sorria de uma ponta a outra, com os lábios cerrados e percebi que não havia nada a fazer.

 

Entretanto, veio uma “aeromoça” perguntar o que queríamos tomar. Pedi uma coca-cola sem gelo e a senhora do meu lado esquerdo pediu um chá com gelo. Isto, depois de muitas tentativas por parte da hospedeira, porque ela não sabia o que pedir. Encolhia os ombros e sorria, só isso.

 

A confusão tinha abrandado um pouco, mas continuava muita agitação e eu não perdia a esperança de ver um galo ou uma galinha pulando no meio do corredor ou um caipira puxar do garrafão e meter à boca uma cachacinha.

 

Entretanto, dá-se um episódio completamente insólito. Um passageiro deficiente precisou de ir ao WC. Até aqui tudo bem. Vieram duas hospedeiras que transportaram o senhor até à porta do WC e depois o transferiram para a sanita. Como o avião era muito pequeno, aquilo era tudo ali à nossa frente. O povo todo se levantou para “espreitar”… eu nem queria acreditar no que os meus olhos viam. Veio uma outra hospedeira que mandou sentar toda a gente e correu um cortinado de um lado ao outro, o que era a coisa certa. Ainda assim, houve quem abrisse o cortinado para ver o senhor deficiente a fazer xixi!? É inacreditável uma coisa desta natureza! Eu estava passada.

 

Tudo voltou ao normal e lá veio uma hospedeira trazendo as bebidas. Quando chegou a vez da minha fila ela perguntou para quem era a coca-cola e antes que eu tivesse tempo de responder, a senhora do meu lado esquerdo respondeu que era dela. Pensei que talvez ela tivesse mudado à última hora e eu não me tivesse apercebido e antes que a bebida fugisse tomou logo um gole. Mas não, claro que não. Quando a hospedeira me vinha dar o chá eu disse “desculpe, coca-cola”. Então a hospedeira percebeu imediatamente que tinha havido uma troca e apressou-se a substituir o chá pela coca-cola que eu tinha pedido. Aí aconteceu outra cena inesquecível. A senhora caipira, na sua doce e ingénua inocência, com toda a calma deste mundo, disse “ai, disculpi, eu minganei”, mas isto foi o de menos. Isto era natural. O que não era natural é o que se segue. Depois de já ter tomado um ou dois goles, não sei, muito solícita e delicadamente, vem devolver-me a coca porque era minha(!?)...

 

 

E viva o Nordeste! Viva o Brasil, que eu amo de paixão.



sábado, 28 de fevereiro de 2015

A caixa de óculos - 13


Era uma vez uma caixa de óculos que jazia há cerca de vinte anos, abandonada numa garagem de uma tia minha já falecida. Um dia fui lá com o meu pai para ver uns sofás que estavam guardados e que precisavam de ser retirados e esbarro numa série de caixas e caixotes e sei lá o que mais. Lá fui empurrando para o lado, mas uma caixa desperta a minha atenção. Espreito e vejo óculos. A caixa, como todas as outras, estava coberta de uma espessa camada de pó. Com as pontas dos dedos de ambas as mãos, abri um pouco e percebi que eram mesmo óculos.

 

Chamei o meu pai para ele ver e depois de o fazer e de ter feito uma cara estranha, disse que era para deitar no lixo. Deitar no lixo(?)… fiquei a pensar com os meus botões e perguntei porquê para o lixo, ao que me respondeu que eram muito antigos e deviam estar ali por esquecimento, talvez desde que a loja fora fechada. Ela tinha tido uma óptica durante muitos anos e àquela data já estava fechada também há muitos anos. Como é que ficava esquecida uma caixa de óculos na garagem? Bom, não valia a pena pensar muito naquilo, até porque naquela garagem tudo estava esquecido. Era o carro, era mobiliário, era tudo o que se possa imaginar. Então, se os óculos iam parar ao lixo, perguntei se podiam ficar comigo e logo ele se prontificou a pôr-me a caixa na bagageira do carro.

 

Curiosa, lá fui com uma caixa enorme cheia de óculos e cheia de pó. Era quase impossível ver os óculos. Ao chegar a casa espetei com tudo na banheira. Peguei em detergente e enfiei tudo lá para dentro. Finalmente, peguei no duche e comecei a limpar um por um. Lavei a caixa também, que era de cartão, mas como era verão, secou rapidamente. E finalmente os óculos começaram a aparecer. Eram dezenas de pares de óculos. Eu já tinha andado a ver nas lojas dos centros comerciais as novas colecções e pude constatar que eram uma e a mesma coisa. Havia de tudo, para todos os gostos. Os modelos repetiam-se, mas não mais do que meia dúzia de cada. E todos eles estavam marcados ainda com os preços em escudos. À medida que ia tirando da água e limpando, voltavam de novo para a caixa, mas agora todos arrumados e limpíssimos. Bem, para o lixo não iriam, com toda a certeza. Até porque os que estavam nas lojas eram réplicas daqueles que eram genuínos, já que tinham, inclusive, a assinatura dos estilistas. Fantástico! Enfim, tinha uma caixa enorme, cheia de dezenas de óculos e não tinha a menor ideia do que ia fazer com eles.

 

No outro dia quando fui para a televisão falei com a Lúcia - minha parceira de viagens e farras - a esse respeito e logo ela disse: “amiga, vende”! Vender?… Ela sabia que eu não sei vender. Não tenho jeito, não gosto de vender. Mas ela insistia “vende a um euro cada”. Nem assim. Vender não combina comigo.

 

Bati à porta da minha vizinha e amiga e perguntei-lhe se não precisava de óculos. Ela riu, contei-lhe a história e começou o desfile dos óculos. O primeiro desfile. Experimentou vários, dos quais escolheu sete pares. Dos sete, não sabia por qual se decidir, por isso disse-lhe que ficasse com todos. E rimos as duas que nem umas tontas. Em seguida, chamei umas miúdas brasileiras também minhas vizinhas e foi outra festa. Experimentaram, ensaiaram, tiraram fotos, uma bagunça e tanto e lá se foram mais uns quantos óculos com dono. A caixa começava a ficar mais leve. No fim-de-semana tínhamos um almoço de aniversário em família e decidi meter a caixa na bagageira do carro. Findo o almoço, fui buscar a caixa e pus em cima da mesa, que era ao ar livre. Foi uma festa. Toda a gente queria saber onde eu tinha ido buscar tudo aquilo. Não havia ninguém que não experimentasse óculos e perguntasse para todos “ficam-me bem”? Uma loucura. As pessoas nas outras mesas olhavam incrédulas, sem entenderem nada do que se estava a passar. E os óculos lá iam andando com dono. Só me perguntavam “posso ficar com estes”? E eu “sim”, sim, sim.

 

No final do almoço, quando pedimos a conta, perguntámos às moças que nos serviram se queriam gorjeta ou óculos, a que elas logo responderam que queriam óculos. Lá escolheram e foram todas felizes da vida. Passou uma senhora, com a filha de dezoito anos, que não resistiu e veio perguntar se estávamos a vender. Respondi que não. Disse que a filha gostaria muito de ter uns óculos. Respondi que escolhesse o que quisesse, à vontade dela, pois eram oferta. A miúda escolheu e lá foi já com os óculos postos, toda contentinha.

 

Na segunda-feira seguinte, levei a caixa para a televisão e fui chamando as minhas colegas. Aquilo foi um festival. Havia óculos para toda a gente. E se elas riam! E por mais que eu distribuísse, os óculos nunca mais acabavam. Parecia que nasciam da caixa. Então lembrei-me de chamar a Cristina Emanuel, uma colega Guineense muito engraçada, da Rádio, que costumava almoçar com as colegas dos programas da Televisão e com ela sempre havia histórias de rir perdidamente. Nunca me esqueço do dia em que ela contou que, indo na segunda circular, já de regresso a casa, chovia água que Deus a dava e o trânsito parado. A Cristina aflita para fazer um xixi, não foi de modas, saiu do carro, abriu as duas portas, baixou as calças e desopilou a bexiga.

 

Contando esta cena, ninguém podia ficar indiferente, já que as descrições dela eram de uma sinceridade total. Víamos-lhe no rosto o ar de satisfação ao contar o alívio que sentiu ao esvaziar a bexiga e quando contava que os carros passavam do outro lado e se metiam com ela… claro! Mas ela estava-se nas tintas. Estava aliviada e isso é que contava. De modo que, quando chamei a Cristina, calculei que teríamos uma bela representação, em função dos óculos e não me enganei. Ela perguntava, mas são para mim? E quanto custam? Zero? A Cristina punha e tirava e via-se no espelho da casa de banho e ensaiava e dizia “pareço ou não uma modelo(?)”… eh pá, sou muita gira!” E nós ríamos com a performance dela, encantada por ganhar óculos de sol de borla.

 

 

Quando finalmente o último par de óculos saiu e a caixa ficou vazia, foi um alívio. Aquela caixa estava guardada e destinada a fazer feliz muita gente. E fez.

 

Missão cumprida.



quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Liberdade - 12


Uma balança tem dois pratos lado a lado. Sua função: pesar. Assim, se pusermos um peso num dos pratos, imediatamente ele vai abaixo, na proporção do peso colocado. Em contrapartida, o outro sobe, agindo à acção directa do primeiro. Se, em seguida, colocarmos no outro prato um peso maior que o primeiro, a posição inverte-se, ou seja, o prato desce para fazer subir o primeiro. O certo é que o desequilíbrio se instalou. Mas isto é uma balança e é para isso que ela serve. Se quisermos restabelecer o equilíbrio temos que manter os pratos iguais, isto é, ter pesos iguais em ambos os pratos.

 

Há uns trinta anos atrás, um belo dia em que, por qualquer razão tive que andar no metro, estava uma rapariga africana que deveria ter uns vinte e cinco anos. Reparei nela porque naquela altura ainda não se usavam “leggins” e ela estava com umas calças pretas muito justas, apertadíssimas, onde ela se tinha enfiado a toda a força porque, ainda por cima não era magra, nem um pouco, e a gordura tentava sair por todo o lado. O traseiro era enorme, tudo nela era enorme e tentava dar nas vistas o mais possível, isto é, não queria passar despercebida de maneira nenhuma. Virava-se para todos os lados com o nariz no ar, fixando as pessoas como que a dizer-lhes “aqui estou eu, toda boazona”... enfim. 

 

Quando chegou a minha paragem, saí e ela saiu também. Azar o meu, porque parecia que ela se tinha colado a mim. Saiu na minha saída e tomou o meu caminho. Tentei desviar-me apenas porque, na verdade, ela atraía as atenções num sentido que não me agradava, por isso não me apetecia estar por perto. Todavia, descontraída e provocadora, trocava as minhas voltas e continuava a colar-se a mim sem que eu percebesse o porquê. Não a podia mandar embora, de modo que fui ignorando, embora ela caminhasse praticamente a meu lado.

 

Atravessámos uma rua e estavam uns homens vestidos de fato de macaco azul, que certamente eram da oficina do lado e como era a hora do almoço, deviam estar fazendo uma pausa de descanso, encostados à parede, fumando um cigarrinho descontraído ao mesmo tempo que se aqueciam ao sol, antes de pegarem novamente no batente. E então pensei "agora é que vai ser lindo”, porque era quase certo que iam chover comentários e não seriam agradáveis, de certeza. Apressei o passo e propositadamente desviei-me, para não ouvir nem ver o que não me interessava. Só queria seguir o meu caminho o mais tranquila possível.

 

A rapariga africana passou o mais perto possível dos mecânicos e ainda que eu não quisesse ver nem ouvir, claro que ouvi os assobios e os ditos dos mecânicos, o que não me espantou. O que me espantou foi que ela parou e injuriada, começou a falar com eles. Continuei o mais depressa possível achando que estava livre, mas nem por isso, porque ela correu na minha direcção e mais uma vez prantou-se a meu lado, sem que eu percebesse a razão disso. Fiquei calada e ignorei, mas ela começou a falar comigo em jeito de desabafo. Fui fingindo que não a ouvia, mas ela insistia fazendo o mesmo, como se eu lhe estivesse a dar atenção. Aquilo era uma praga!

 

E a conversa dela era esta: “eu sou como sou, visto o qui quero, sô livri, tô num país livri, ninguém tem nada com isso”. Como eu não respondia, porque achava que não tinha nada que responder, nem a conhecia de lado nenhum, ela continuou: “sou livri, eu sô livri, visto o qui quero, faço o qui quero, ninguém tem nada com isso, não achas”? 

 

Bom, agora já era demais, porque ela se estava a dirigir a mim, à minha pessoa, directa e insistentemente. Aquela tinha-me saído na rifa e não havia nada a fazer, só que já estava farta daquela cena e precisava de pôr um fim naquilo. Então, virei-me para ela e falei-lhe na mesma linguagem, dizendo-lhe: “A liberdade não é só para ti, é também para os outros. Se queres ser livre tens que aceitar a liberdade dos outros. Tu podes fazer e dizer o que quiseres, mas eles também. Tu és livre, sim, mas eles também”. Ela parou e soltou um grito de admiração, de indignação, de interrogação, de espanto, sei lá, e ficou lá atrás parada, digerindo o que tinha acabado de ouvir, enquanto eu continuei o meu caminho.

 

 

Os órgãos de comunicação social não param de falar no cenário “França”, com destaque especial para o palco “Paris”. Atentado terrorista contra os direitos democráticos, liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade, liberdade, liberdade… e, de repente, parece que o mundo inteiro se esqueceu de uma coisa que é fundamental: a nossa liberdade termina quando começa a dos outros. É uma frase feita, não tem nada de criativo, mas é crucial nesta questão porque, quem desrespeitar este princípio está lixado; porque quem desrespeitar esta regra de ouro é terrorista. A guerra não é feita só com armas de fogo. A guerra é feita também de provocações, de brincadeiras de mau gosto, de desrespeito por si mesmo e pelo próximo. A guerra é feita de palavras, obscenidades e muita coisa feia que não dignifica nem respeita nada nem ninguém, e então a balança desequilibra-se e, nesse desequilíbrio, onde se pensa que uns ganham enquanto outros perdem, mas onde na verdade ninguém ganha nada e todos perdem, há os bons e os maus. É claro que os bons são o ocidente e tudo o que o representa. O ocidente representa o mundo “civilizado”, o mundo livre, democrático, onde tudo é permitido menos matar. Ainda assim, às vezes é permitido. São excepções, mas há. Por exemplo: Obama versus Ossama.

 

Não. Matar não é permitido nunca. Não há nada que justifique a matança do homem e isto é válido para ocidente como para oriente, para todo o planeta e todo o universo. Tirar a vida não é permitido a ninguém, nem mesmo aos governantes. Estamos todos inseridos nesta regra, nesta lei universal.

 

Mas voltando ao ocidente, o mundo considerado civilizado. Onde está o civismo que provocou o incidente de Paris? Onde ficou a ética, o profissionalismo, a comunicação, o socialismo… onde ficou a arte nos cartoons horrorosos que não dignificam nada nem ninguém, que ferem de morte a susceptibilidade de muitos, não importa quem. Só porque uns se acham donos e senhores da verdade, vamos arrasar com os “bárbaros”, desafiando todas as crenças e todas as doutrinas, todos os credos e toda a humanidade? Que mundo medonho é este?

 

Pergunto-me, no meio deste lixo todo, onde fica a paz? Para quando a paz? Se não há paz não há amor. Onde não há amor há ódio e onde há ódio há guerra e disto não saímos, porque vivemos num mundo civilizado!? Num mundo que quer liberdade a qualquer preço, mas onde ninguém sabe o que é liberdade. E ainda vêm os colegas da RTP com um falso ar pesaroso, manifestar-se em pleno telejornal, que estão completamente solidários com os colegas do jornal que sofreu o atentado!? E eu me pergunto: mas a que propósito? Alguma vez a RTP se mostrou ou transpareceu para o seu público, pelo menos, algo de tão indecoroso? Porventura não foi até suspenso um programa humorístico, por ter sido considerado inadequado? Alguns programas de informação não tiveram cortes por causa da liberdade de expressão dos telespectadores em linha directa? Porque carga de água vêm agora mostrar-se tão solidários com os outros?

 

 

E muito mais haveria para dizer acerca disto, mas não me apetece, porque sou livre…



A Liberdade não é uma conquista, nem um desafio, nem um passatempo.

 

A Liberdade é um Dom.



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O sofá - 11


Era uma vez um sofá, comprado no Ikea…

 

Um dia a minha tia pediu-me para ir com ela ao Ikea comprar um sofá individual para o meu tio se sentar confortavelmente a ver televisão, posto que o seu estado de saúde não era dos melhores. Acontece que o Ikea é a minha loja para todas as ocasiões, para tudo o que se possa imaginar, para mim, para a família e amigos, sempre, Ikea. Todos à minha volta sabem disso.

 

Então, numa tarde de sábado, lá fomos ao Ikea, no carro dos meus tios, por ser bem maior do que o meu. Até aqui, tudo certo. Chegados lá, começámos a ronda pela exposição dos móveis, para o meu tio experimentar por si mesmo e escolher, uma vez que o sofá se destinava exclusivamente a ele e depois de muita escolha, experimenta e não experimenta, lá se chegou a um consenso e o sofá foi eleito. Dirigimo-nos ao andar de baixo, à loja propriamente dita, a fim de carregarmos a embalagem no carrinho de transporte até à caixa.

 

Já aí começou a agitação, porque a minha tia achava que eu sozinha não ia conseguir tirar a embalagem da prateleira para o carro e ela e o meu tio não iam poder ajudar, claro. Com toda a paciência, disse-lhes que não se preocupassem com isso, que era problema meu e lá pus o sofá embalado no carrinho, com grande espanto e admiração deles, que não deixavam de estar preocupados com o modo como o faríamos chegar ao seu destino, porque a cada passo, aumentava a preocupação deles. Por mais que lhes dissesse que estivessem calmos e me deixassem fazer as coisas do meu jeito, estavam sempre a dar palpites e a meter o bedelho e pior, a fingir que ajudavam em alguma coisa, quando na verdade só atrapalhavam as minhas manobras. Mas é assim mesmo.

 

Fomos para a caixa, o sofá foi pago e lá fui eu empurrando o carrinho até ao elevador, com eles atrás de mim, com aquelas caras de aflição, como se de uma missão impossível se tratasse. A cada passo, lá vinha uma questão que, para eles, parecia intransponível. Cansavam-me com tantas perguntas de como é que vamos fazer, como é que vamos acontecer… bla, bla, bla… e eu já não os podia ouvir.

 

Chegámos ao carro e a aflição deles só aumentava a cada minuto, a cada segundo. Eu bem os afastava e lhes pedia por favor para me deixarem fazer as coisas sozinha, mas eles queriam meter o nariz em cima de todos os movimentos que eu fazia. Era uma verdadeira canseira. Abrimos o porta-bagagens do Mazda e percebi que tinha que me livrar da embalagem, levando só o sofá, a fim de caber na mala do carro. E lá foi, com dificuldade, é claro, mas lá enfiei o sofá de modo a conseguir fechar a mala.

 

Todo o caminho tive que ouvi-los “e tu conseguiste, eh pá, como é que tu conseguiste fazer aquilo sozinha(?)”. Enfim, aquela conversa não interessava para nada, mas era um mistério para eles. Chamaram-me precisamente para aquele fim e, depois, tanto espanto porque eu conseguia o que eles queriam. Sinceramente, não os entendia.

 

Finalmente chegámos a casa. Saímos do carro e lá ficaram eles novamente a torrar a minha paciência para tirar o sofá do carro. Tive que lhes dizer outra vez para se afastarem, para eu me poder mover, mas a cena foi idêntica à anterior. Eu a precisar de me movimentar e eles em cima de mim, a meterem o nariz e a dar sugestões, que não faziam sentido nenhum. Mas o sofá saiu e carreguei com ele até à entrada do prédio e depois tive que subir os degraus desde a entrada do prédio até à porta do elevador, que não são poucos. Mas lá foi e tudo isto sob a vigilância atenta dos olhos da minha tia, especialmente, que não perdia nada, completamente espantada com a minha força, com a minha destreza, etc. Agora restava pôr o sofá no elevador e a minha missão estaria cumprida, sem grandes complicações, só que aqui, precisamente, começou a complicação e não foi pouca.

 

Primeiro, o sofá, por um triz, não cabia no elevador ou eu não conseguia fazer com que coubesse porque as portas, por pouco, mas muito pouco mesmo, não fechavam. Por essa eu não esperava e depois de várias tentativas, achei que a solução era carregar com ele até ao terceiro andar. Então, respirei fundo, mentalizando-me de que essa era a solução, enquanto ganhava tempo para me preparar fisicamente, a fim de subir as escadas com ele. Claro que nesta altura os meus tios já estavam alucinados e os meus nervos completamente em franja. Dizia-lhes que fossem para casa que eu resolvia o problema da maneira que tivesse que resolver, mas eles não arredavam o pé dali por nada deste mundo. Bom, fiz a tentativa de carregar o sofá, mas assim que subi os primeiros degraus, logo percebi que não ia ser possível. Era muito complicado e eu não era de ferro. Os meus cinquenta quilos não chegavam para aquilo, portanto, essa não ia ser a solução. 


Deste modo, a possibilidade era tentar voltar a pôr o sofá dentro do elevador, dando o jeito de conseguir fechar a porta e assim o fiz. Lá foi o sofá novamente para o elevador, embora a porta continuasse a não fechar. Empurra daqui, empurra dali, passa para lá, passa para cá e os “mirones” sempre atentos, falando o que lhes vinha à cabeça, que eu nem prestava atenção. A minha concentração era tal, que eu não ouvia nem via nada à minha volta. 


Felizmente, que tudo isto se passou num sábado e o prédio estava silencioso. Ao fim de uma longa hora, consegui finalmente fechar as portas do elevador. Tinha sujado um pouquinho o sofá, mas não era nada de mais, sairia facilmente. Enfim, estava cansada, não o podia negar, mas já podia respirar de alívio, porque estava na ponta final daquela ingrata missão, pensava eu. Entrei no elevador e carreguei para o terceiro andar. O elevador subiu e com grande alívio estávamos chegados ao destino. Eu nem queria acreditar.

 

Saio cá para fora, começo a puxar pelo sofá para o tirar e lá vem a minha tia a “tentar” ajudar e eu a empurrá-la para ela se meter em casa e me deixar manobrar à vontade. Mas então, tu não podes sozinha, dizia ela, como se já não tivesse podido antes. Bem, começa outra vez a minha luta, porque o sofá agora não queria sair de jeito nenhum. Eu puxava, empurrava, saltava por cima, para dentro, para fora, mas o sofá, teimoso, não cedia de maneira nenhuma. Eu estava doida e só me apetecia pegar num martelo e parti-lo todo, de farta que estava daquilo. Mas isso não podia ser, pelo menos até eu fazer todas as tentativas possíveis e impossíveis.

 

Não adianta explicar aqui as cenas que se passaram. O sofá não saía. Voltei a descer para tentar tirá-lo no rés-do-chão, onde ele tinha entrado, podia ser que a medida não fosse bem a mesma, mas o resultado era igual, não saía e pronto. Passou uma hora e eu estava de rastos. Eu e o sofá numa luta desgraçada. Passou mais uma hora e tudo continuava na mesma, só eu mais e mais cansada. Mais que isso, derrotada, transpirando por todos os poros. O cabelo estava uma verdadeira sopa. Parecia que tinha saído do esgoto. Transpirava dos pés à cabeça, com a roupa colada ao corpo. O meu rosto estava com um aspecto deplorável, com umas olheiras fundas e escuras como eu nunca tinha visto e o pior de tudo é que não via uma saída. 


Parei para pensar e porque já não aguentava mais. Tínhamos ido para o Ikea logo a seguir ao almoço e já era. A noite estava instalada e o diabo do sofá a atazanar a minha paciência. Que fazer? Sentia-me completamente encurralada. Eles tinham-me pedido ajuda porque não tinham alternativa. Só eu estava disponível para os ajudar e olha o que tinha acontecido!? Deus do céu!

 

Estávamos os três parados, em silêncio, com umas caras de defuntos, como se estivéssemos num velório, onde não há nada a fazer a não ser estar. Sozinha comigo mesma, pensei que tinha que resolver aquele assunto, por todas as razões e mais algumas e porque eu sempre resolvo tudo e onde meto os pés meto a cabeça. Só que ali, naquele caso, tinha que o resolver recorrendo à ajuda de alguém, porque verdadeiramente e finalmente tinha que admitir que sozinha não conseguia. Tinha que recorrer a alguém e precisava de agir rapidamente, porque o dia estava a acabar e aquilo era para ser resolvido ainda naquele mesmo dia. Não ficaria para o dia seguinte, de maneira nenhuma, posto que era ponto assente e continuávamos todos em silêncio, dando pequenos passos à toa. Não tinha a quem recorrer, que eu conhecesse e pudesse ir ali, portanto, restava-me a solução mais louca, mas a mais prática e porque sou uma pessoa prática, assim pensei, assim fiz. Anunciei alto e bom som, que ia à rua arranjar um ou dois homens fortes para tirarem o sofá dali. 


Oh, foi o fim da picada. Vieram os comentários da ordem - que eu era doida -, já o sabia. Onde e quem é que eu ia buscar? Aí estava uma coisa a que eu não podia responder porque, sem antes ir, não podia saber. Disse-lhes, então, que ficassem ali a tomar conta do sofá. Insistiam em querer saber onde eu iria. Gritei que não sabia, não tinha ideia, mas iria aonde fosse preciso e necessário para trazer comigo alguém, a fim de resolver o problema. Não sabia quanto tempo levaria e mais nada. Que desassossego, Deus meu! E lá saí eu porta fora, com um ar e um aspecto miserável. Enfim!…

 

Começo a descer a rua e as primeiras pessoas que vi, eram dois casais, gente nova, bem vestidinhos… esses não interessavam. Não eram apropriados para o efeito. Mais uma ou outra pessoa que nem valia a pena indagar. Virei a esquina e passava gente, pouca, mas passava. Tinha mesmo que dar uma de doida e abordar alguém. Não iria presa por isso, foi o que achei. Eu só precisava de ajuda e isso não era crime. Quando os outros precisavam de mim eu estava pronta para o que fosse, portanto, estava na minha vez de pedir ajuda e para isso tinha que pôr de lado e esquecer completamente a ética, o preconceito, o orgulho, a vergonha e mais alguma coisa de que agora não me lembro. Era uma varridela completa ao mais íntimo do meu ser, do meu âmago. Paciência. 


Sempre andando, dou uma olhadela geral e vejo um indivíduo encostado à parede, com um joelho dobrado e o pé para trás, apoiado na parede, com um cigarro, deitando fumaça para o ar. À frente dele estava uma rapariga com quem ele parecia falar. Ainda por cima aquela era uma zona bem afamada, quem me garantia que não era prostituição!? Mas o indivíduo, que de noite e ao longe, aparentava uns trinta e cinco anos, mais ou menos, tinha um porte atlético, exactamente como eu naquele momento precisava. Com toda a certeza ele fazia muito exercício físico, pois ninguém podia ter um cabedal daqueles sem ser assim. Pessoalmente, não gosto de homens demasiado musculados, mas naquele momento, era tudo o que eu precisava. Estava resolvido, ia caçá-lo, fosse como fosse. Pedi a Deus que me desse forças e comecei a encaminhar-me para lá. 


Entretanto, chegou outro indivíduo mais velho, que não tinha nada a ver, também a fumar, mas daria para ajudar, caso eu conseguisse comovê-los com a minha história. Esse é que era o problema e naquele momento eu tinha que ser tudo menos eu, ou não estaria ali a fazer aquela triste figura. Mas lá fui na direcção deles, até que cheguei ao pé dos três, que ficaram a olhar para mim com um ar surpreso e inquisidor, como era de esperar. 


O rapaz mais novo pôs o cigarro na boca e em vez de atirar o fumo para o ar, como o estava a fazer, atirou para a frente, num jeito meio provocador, que tive que me afastar ligeiramente, mas nem por isso desisti. Pedi desculpa pela intromissão e fui direita ao assunto. Disse que tinha ido ao Ikea comprar um sofá para o meu tio, que estava doente, e na volta, o sofá, que tinha entrado no elevador – só não disse o trabalho que deu -, não queria sair e não sabia o que fazer, por isso precisava de alguém que me desse uma ajuda, para não deixar os meus tios a braços com aquela empreitada, dada a idade avançada deles. Saiu, agora restava acreditarem em mim e permitirem-se fazer uma boa acção. 


Silêncio... enquanto o fumo se dispersava no ar, perdendo-se, para logo em seguida vir outra fumaça. Olharam todos uns para os outros, numa atitude de aparente indiferença, até que a rapariga intercedeu por mim e num tom de humildade, pediu ao rapaz para dar uma ajuda. O rapaz olhou para o outro indivíduo e por sua vez pediu-lhe ajuda, enquanto a rapariga continuava a fazer o papel de boa samaritana, instigando-os a irem ajudar-me. Apagaram os cigarros no chão, com o pé, e lá fomos todos, os quatro, enquanto eu começava a respirar aliviada por toda aquela forçada encenação que, com toda a verdade, não estava no programa. E enquanto nos dirigíamos para casa, na direcção contrária, aparecem os meus tios, que me vêm com aquela desconhecida turma. Em vez de estarem calados e quietos, que só facilitavam, nada disso. Começam a fazer as observações mais despropositadas e caóticas possíveis e eu a ver quando é que iam deitar tudo a perder. Santo Deus! Quem são, perguntavam eles, mas quem é essa gente e eu, chiu, chiu, falem baixo. Mas donde é que os conheces? Não os conheço. Então como é que eles vêm contigo? Calem-se, por favor, dizia-lhes eu, que só me apetecia estrangulá-los. Então e agora, o que é que vão fazer? Vão tentar ajudar, se vocês derem licença, a menos que queiram resolver o problema à vossa maneira… enfim… não estava sendo nada fácil.

 

Chegados à entrada do prédio, toda a gente entrou e os homens depararam-se com o problema que eles não faziam ideia do que ia ser. Quando olharam, de certeza acharam que eu era uma inútil, coitada. No olhar deles estava estampado que aquilo era canja. A minha expectativa era grande, pois na verdade, não fazia ideia do que ali se iria passar. Tudo era possível. Tudo.

 

Enquanto a rapariga falava com os meus tios, mais propriamente com a minha tia, os dois homens tinham dado início à tarefa e eu não desviava a minha atenção deles, por nada deste mundo. Queria ver o que aquilo ia dar e rezava para que eles conseguissem resolver o problema. E aí passaram cinco minutos, e dez, e vinte e já estávamos com meia hora bem contada e o sofá não saía e o homem mais velho volta e meia perguntava, foi a senhora que meteu o sofá no elevador? Já não o podia ouvir. E passou mais meia hora e os dois homens estavam alagados. Transpiravam por tudo quanto é lado e a minha tia com as mãos apertadas e os dedos cruzados, não parava com a mesma lamentação “ora esta”, ora esta… os meus ouvidos já estavam saturados e os homens suavam, suavam. Eu estava quase a pôr termo àquilo tudo, indo buscar o martelo para quebrar o sofá e esvaziar o elevador quando, finalmente, como que por milagre, o sofá saiu inteiro, sem precisar de ser abatido.

 

Fantástico!


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A loucura anda à solta - 10



Eu estava de férias, em viagem aos Emirados Árabes, uma viagem que repetiria de bom grado, não fora tantos outros lugares onde ainda gostaria de ir. Mas os Emirados Árabes são feitos à minha medida, porque é uma óptima combinação entre dois mundos, onde tudo está muito bem equilibrado. Isto, do meu ponto de vista, claro está. 

 

Éramos um grupo de quinze pessoas: dois casais, três homens e o restante, mulheres, incluindo eu. Nessa viagem, que durou uma semana, pouco me dei com os demais do grupo, posto que o meu interesse era com os locais, árabes ou não, mas no último dia, mesmo no último, comecei a falar com um dos homens, um senhor um pouco mais velho do que eu, com bom aspecto... enfim, uma pessoa aparentemente normal.

 

O nosso conhecimento foi feito às pressas, pensando que podíamos ter beneficiado mais da companhia um do outro. Em todo o caso, até à chegada a Lisboa, conversámos bastante e acabámos trocando números de telefone para depois nos falarmos. E foi assim, através dos longos telefonemas que todos os dias ele me fazia que, aos poucos, nos fomos conhecendo ou tentando conhecer. 

 

Era reformado da banca, onde tinha trabalhado durante quarenta anos e por esta altura, já há uns anos que se reformara, bem como regressara à sua terra natal, uma pequena aldeia perdida para os lados de Seia, onde tinha várias casas e alguns terrenos que os pais lhe tinham deixado. Para além disso, tinha ainda uma vivenda perto de Cascais, onde ficava sempre que vinha a Lisboa. 


O senhor, que pelo sotaque se percebia que era da província, era uma pessoa que falava bem sobre qualquer assunto e que estava a par da actualidade, dos acontecimentos que iam pelo mundo, etc. Para mim, ele só tinha um senão. Estava sempre enfiado na igreja. Desde criança que era sacristão e não abdicava disso. A igreja era o mundo dele e aquilo não me agradava especialmente, mas cada um é como é. 


Havia ainda uma outra coisa que me intrigava. Nunca tinha casado e sonhava que, ainda assim, apesar dos seus sessenta e três anos, um dia, haveria de casar. Ora bem, se ele tanto o queria e reunindo condições para isso, porque então nunca tinha casado? Era um pouco estranho, mas fomo-nos conhecendo através dos telefonemas diários, que nunca demoravam menos de uma hora. Conversávamos sobre o dia-a-dia, a família, os afazeres e por aí fora. Uma conversa perfeitamente normal, que incluía alguns planeamentos de passeios que gostaríamos de fazer. Falávamos de gostos com a comida, do estilo de vida que fazíamos, no caso ele, porque, por esta altura, eu ainda trabalhava. 

 

E o tempo foi passando, até que algo inédito aconteceu e na história da minha vida o inesperado é sempre algo de relevante importância. Foi o caso. Um dia a conversa dele foi no mínimo estranha. A páginas tantas eu disse-lhe que tinha que ir ao cabeleireiro e que também precisava de arranjar as unhas, etc. Era isto um fim-de-semana. Na sequência da minha conversa, ele disse que também precisava de cortar as unhas, mas que tinha que esperar por segunda-feira. Pensei que seria por falta de tempo, mas não, segundo ele, não tinha nada a ver com isso, apenas porque só à segunda-feira podia cortar as unhas. Achei então que era por uma questão de disciplina. A limpeza na minha casa é feita todas as terças-feiras, portanto, considerei ser esse o motivo, mas imediatamente ele negou, dizendo que também não tinha nada que ver com isso. Comecei a ficar intrigada e continuei a fazer perguntas, até que ele me respondeu que, em tempos idos, quando era novo e tinha começado a trabalhar no banco, ouviu uma conversa de um colega que, conversando ao telefone com um amigo, o outro lhe dizia que, cortar as unhas às segundas-feiras fazia com que nunca se tivesse dor de dentes.

 

Desatei a rir, atribuindo aquela dedução a uma piada, que só podia ser, mas ele logo interrompeu, dizendo que não era piada nenhuma e que desde que tinha ouvido aquilo, sempre cortara as unhas às segundas-feiras e nunca tinha tido dores de dentes. Ainda dentro de um clima de brincadeira a que eu estava a levar as coisas, chamei a atenção dele para o facto de, na semana anterior, ter marcado uma urgência para o dentista, visto estar com dores de dentes, mas ele reagiu fortemente, dizendo que não era uma dor, somente uma moinha. Bom, a conversa estava a ficar difícil, por isso comecei a desconversar, dizendo-lhe que tinha que fazer e que continuaríamos o papo depois, no dia seguinte, ou quando desse e assim foi. 


No dia seguinte, à hora do costume, o telemóvel tocou e para variar era ele. Começou a falar das coisas do costume, da vida dele, do que tinha feito e do que não tinha, etc… até que, decidi voltar ao tema da noite anterior, os dentes ou as unhas do senhor Adelino, que continuou a insistir na sua tese de que, cortar as unhas às segundas-feiras, fazia com que nunca se tivesse dor de dentes. Acontece que eu já estava a ficar farta daquela parvoíce e, portanto, comecei a puxar por ele, no sentido de o fazer perceber que aquilo não tinha ponta por onde se pegasse, pois não fazia o menor sentido.  


Muito chateado comigo disse que, se era bom para os outros, também o era para ele. Insisti, dizendo-lhe que, certamente, tinha sido uma brincadeira do colega porque, ninguém, em sã consciência, podia acreditar num disparate tão grande e ele não me parecia ser uma pessoa estúpida a esse ponto. Mas o senhor Adelino não gostou do meu ponto de vista e foi então que, já muito chateado me disse que, se eu não quisesse acreditar, não acreditasse. Ele, porém, continuaria cumprindo religiosamente aquele ritual porque, até provas em contrário e até à data, só se tinha dado bem. Disse-lhe que a conversa ia acabar por ali, porque não tinha paciência para tanta burrice e assim o telefonema acabou. 


No dia seguinte, como de costume, ele voltou a ligar. Começámos a falar do trivial e, finalmente, a conversa voltou ao mesmo assunto, como não podia deixar de ser. Com toda a calma possível, tive que repassar tudo o que já tinha sido dito, que não me dava gozo nenhum, mas porque precisava de saber com que espécie de pessoa estava a lidar e era-me muito difícil acreditar que alguém fosse tão idiota a ponto de acreditar numa coisa daquelas!?

 

No fundo, acalentava uma certa esperança de que ele caísse em si e percebesse aquilo que, em quarenta anos, não tinha conseguido perceber. E a conversa lá continuou comigo a perder cada vez mais terreno, porque o senhor Adelino, na verdade, estava mesmo convencido daquela treta toda, o que muito me impressionava no pior dos sentidos e, contra todos os meus esforços, teimava obstinadamente, o que me deixava de rastos e sem palavras, sem argumentos, sem paciência, sem nada.

 

E na verdade, com tudo aquilo eu não precisava de saber mais nada dele. Não precisava nem queria. Achava que tinha chegado à meta, mas não. Surpresa das surpresas, o melhor estava para vir.  


E continuava: 

 

- "Quem pode garantir que um dia não aparece nos jornais que os cientistas descobriram que, cortar as unhas às segundas-feiras, faz com que nunca se tenha dores de dentes?!”… 

 

Ponto final. Não havia nem mais uma única palavrinha para dizer e muito menos para ouvir. Nem sequer um suspiro, nada, nada. Silêncio era tudo o que eu queria dali.

 

A loucura anda à solta e tem nome.



 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

LQ escondido - 9


Apressado, LQ tinha entrado no gabinete. Não ia jurar, mas era quase certo. Na minha estratégica posição, plantada no meio da sala, como convinha, para poder dar apoio a toda a estrutura da Direcção e, ainda que estivesse concentrada no que estava a fazer, quase podia garantir que o tinha visto passar.

 

Pouco tempo depois passa IC, também apressada, ao encontro dele, pensei. Mas, conforme entrou, saiu, percorrendo todos os gabinetes e todo o open space da Direcção, tal qual uma barata tonta. O que é que esta quer, pensei para comigo mesma. Anda há procura de quem? Se não é do LQ, de quem mais pode ser?

 

Adivinhando o meu pensamento, chega junto de mim e pergunta-me pelo Luís. Respondo-lho que penso que está no gabinete, mas logo ela se apressa a negar, dizendo que não. Um não vago, contudo. O facto, é que ela tinha ido lá, portanto, tinha visto com os seus próprios olhos e um pouco esmorecida, que não era nada o seu género, deu à sola.

 

Continuei a fazer o que estava a fazer, mas mesmo sem querer, aquela cena não me saía da cabeça. Ia jurar que tinha dado pela entrada dele, mas não me lembrava de o ter visto sair, o que não queria dizer que não tivesse saído sem que eu reparasse. E também não tinha a certeza absoluta dele ter entrado. Eram tantas entradas e saídas que a minha cabeça não podia ter certezas absolutas. Alguma coisa não batia certo, mas não percebia o que era. Para não me levantar, levantei o auscultador, liguei a extensão da Catarina e olhando para trás, porque ela estava na outra ponta da sala, perguntei-lhe se sabia do LQ, ao que respondeu “sim Luisinha, o senhor engenheirinho está no gabinete”. A Catarina falava tudo em “inho”. Respondi que também achava que sim, mas que a IC tinha ido lá e ele não estava.

 

Como ela era directamente secretária dele, podia ser que ele tivesse saído sem eu ter reparado e que lhe tivesse dito alguma coisa. Agora ela vinha confirmar que ele estava lá. Mistério!… Perguntei-lhe se ela tinha a certeza e ela respondeu “sim, Luisinha”, sorrindo, com o seu sorriso de orelha a orelha, que fazia parte dela. Perguntei-lhe então se não tinha visto a IC. Respondeu que “sim, sim”, como um robot. Continuei, dizendo-lhe que ela não o tinha visto no gabinete. Encolheu os ombros docemente, riu e voou. Quando as coisas a ultrapassavam ela simplesmente se desligava, não as confrontando. Cada um é como é. Mas a Catarina era gira. 


Claro que o homem não estava. A IC não era tonta. Era..., mas de outra natureza. Por exemplo, gostava de dar nas vistas e dava, mas não vem ao caso. E não sei porquê, mas levantei-me para ver com os meus próprios olhos que ele realmente não estava, caso contrário não ia conseguir concentrar-me no que estava a fazer. A minha cabeça continuaria a pensar naquele enigma. Era muito mais fácil ser como a Cathy, mas eu não era assim. Por isso, levantei-me e fui ao gabinete dele.  


E lá estava ele. O estranho é que não fiquei tão espantada como deveria ter ficado e não tanto porque a Catarina dizia que ele estava lá. É que, apesar de tudo, eu confiava bem mais em mim e a minha intuição dizia-me que ele estava. Eu sentia a presença dele lá, muito embora a IC não o tivesse visto(!?). A Catarina tinha razão, mas isso era secundário, porque o mistério permanecia. Como é que a outra não o tinha visto?! O homem estava ali, sentado à secretária, a trabalhar ou a fingir que trabalhava; também não vem ao caso, mas que mágica tinha ele feito para não ter sido visto num espaço tão reduzido?!...  

 

Ingenuamente, perguntei-lhe se não estava ali quando a IC o tinha ido procurar. Respondeu que sim. A minha cabeça estava a dar um nó de todo o tamanho! Parecia que estava tudo doido. Mas ela esteve aqui e disse que o engenheiro não estava, disse eu, intrigadíssima. Respondeu, então, que ela "não o tinha visto". Eu estava absolutamente incrédula! Credo, engenheiro, disse-lhe eu, se estava aqui, como é que a doutora Isabel não o viu?  


Aquilo, realmente, era de doidos. Eu abri a porta do armário e escondi-me atrás, continuou ele. Jesus! Naquela casa aconteciam as coisas mais loucas que se podiam imaginar, mas um Assessor do CA escondido atrás de uma porta de armário, como um qualquer garoto, era demais!

 

Em frente à secretária dele havia um armário/estante encostado à parede e o espaço entre armário e a secretária era minúsculo, dando apenas para uma cadeira, quando iam falar com ele. Olho para baixo e vejo o chão cheio de papéis, papéis, papéis. Agora olhava para o espaço da porta, que ainda estava aberta, e a parede e imaginava o LQ ali entalado para se esconder da IC. Logo eles, que passavam a vida enfiados naquele pequeníssimo gabinete, rindo escandalosamente, completamente histéricos e a pobre da Cathy ainda tinha que ir ao bar comprar chocolates para eles, tal qual crianças mimadas?! 


Perguntei-lhe porque é que os papéis estavam todos no chão, ao que respondeu que era para fingir que os estava a apanhar, caso ela o visse. Eu estava incrédula de verdade. Cada resposta era pior do que a outra. Aquilo não podia estar a acontecer. Fez-se silêncio e não resisti a perguntar-lhe porque razão tinha feito aquilo, porque se tinha escondido dela. Respondeu “porque ela é uma chata e não me apetecia falar com ela”. 


Saí a falar sozinha e fui direitinha à Catarina. Contei-lhe a história e ela começou a rir, a rir, a rir. Ficámos as duas uns bons minutos a rir que nem umas parvas, olhando nos olhos uma da outra. E eu dizia “mas isto é uma casa de gente doida, Catarina” e ela ria ainda mais e continuei“, e quando pensamos que já vimos de tudo ainda não vimos nada” e ela fazia sinal de concordância com a cabeça para cima e para baixo, rindo com os olhos escuros muito brilhantes, mas sem grande espanto, de certo modo, aceitando, como se aceitam as brincadeiras das crianças. Ela não vivia as coisas da mesma maneira que eu. Não lhes dava intensidade. Continuava calma e tranquila, a uma certa margem de tudo. E assim que ele a chamava, ela apressava-se a apagar o fogo, dizendo “sim, senhor engenheirinho, sim senhor engenheirinho”. E se ele tivesse um dia cheio de reuniões, como muitas vezes acontecia, ela ia ter com ele, no espaço entre uma e outra reunião, dizendo “tem dez minutinhos para fazer um xixizinho e lavar as mãozinhas”. Diria isto esfregando as mãos uma na outra, no seu ar aprumadíssimo, de secretária fidelíssima e exemplar, enquanto ele olhava para ela sem saber se ela estava a gozar com ele ou não.  


Quanto a mim, ria, ria, mas ria de gosto, só que por dentro. E não era pouco o esforço que fazia para não o dar a perceber. Estava sempre à espera de que um dia, numa destas caricatas situações, a coisa explodisse.  


Dado o recado, LQ acabava sempre seguindo o seu caminho, como que não tendo ouvido nada e a Catarina voltava para o seu lugar, continuando com as mãos apertadas uma na outra, no seu andar teso, muito direita, com as saias demasiado curtas e as perninhas de rã, como na brincadeira lhe chamávamos.  



Mas esta briga não duraria muito. Esperta e sobretudo rápida no gatilho, rapidamente IC lhe daria a volta e ele não tinha como resistir aos seus encantos e ficaria tão contentinho que dias depois, traria para nós, trufas da floresta negra, na Alemanha, onde tinha estado umas semanas atrás e daria às suas duas secretárias uma a cada uma, vindas directamente do bolso das suas calças para as nossas mãos, sem papel, sem nada, todas meladas e com um aspecto de vomitado. E, claro, não esquecendo que ainda teríamos que dizer “obrigada” porque, segundo ele, não eram umas trufas quaisquer. 


Só que, da mesma maneira que vinham dos bolsos dele para as nossas mãos, assim que virou costas, do mesmo modo foram das nossas mãos direitinhas para o lixo. E lá foi ele em direcção ao seu cantinho, tirando trufas dos bolsos e comendo, uma atrás da outra.

 

Os Assessores ganhavam muito bem, não era qualquer ninharia. Eram pagos a peso de ouro. Mas faziam-nos rir e isso não há dinheiro que pague.  É muito justo (!)… 

  

 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O Candeeiro - 8


O candeeiro não saía de jeito nenhum. Até parecia que tinha nascido ali, de tal forma estava colado ao chão. Era um candeeiro de pé alto, que tinha uma base redonda bem grande, em pedra. Muito pesado, de facto, mas já o tinha movido várias vezes, pelo que, o problema não era do seu peso. 


Estava no gabinete do meu chefe, aproveitando uma breve ausência dele para pôr coisas em ordem e como o espaço não era muito, precisava de desviar um pouco o candeeiro, mas ele brigava comigo e eu já estava cansada. Olhei para o chão e percebi que havia uma grossa camada de cera que não tinha sido espalhada e, provavelmente, logo após a aplicação, puseram o candeeiro em cima e ele tinha colado. Só podia ser isso e já estava assim há algum tempo. Teria que ligar para a logística e pedir para virem removê-lo. 


Enquanto isto, vejo passar o Cruz, um colega da manutenção, que tinha problemas de vária ordem e uma vida muito complicada. Mas às vezes conseguia ser engraçado e apesar do seu quase permanente semblante fechado, quando finalmente ria, era um riso gostoso. Precisava de se rir mais e precisava de muitas outras coisas que a vida tinha sido obrigada a tirar-lhe, dada a sua condição de dependência de drogas para acabar com outras drogas. 


Para ser totalmente franca, nem nunca entendi muito bem como a DRH conseguia mantê-lo nos quadros da empresa, pois se fosse noutra empresa qualquer, há muito teria sido despedido. Não se podia dizer que não tinha sorte porque, na verdade, tinha um chefe que o protegia, pelo facto de ter um filho pequeno que precisava do emprego do pai para sobreviver. Mas era um quadro difícil, porque estava constantemente a recair e tudo se repetia, com a falsa promessa de que era sempre a última vez. 


Quando vi o Cruz, decidi brincar um bocadinho, sem maldade, apenas para nos descontrairmos um pouco. Chamei-o e ele reagiu como de costume. Primeiro ficava parado, ausente, naquele seu ar aparvalhado, com a barriga exageradamente para fora e as costas completamente curvadas. A boca sempre aberta, com o maxilar inferior descaído e a língua de fora, como um cão cansado. Era o preço da sua pouca força de vontade. E ficava parado sem resposta, na verdade, esperando que desistissem dele, tal como ele desistia de tudo e de todos, a começar por ele mesmo. 


Na segunda chamada ele veio. Chegou ao pé de mim e pedi-lhe para entrar no gabinete, a fim de me ajudar a tirar o candeeiro do lugar onde estava. Sem olhar para mim, perguntou porque não o tirava eu sozinha e essa era a resposta perfeita, a resposta que eu sabia de antemão que viria. Respondi-lhe que não conseguia.

 

Ficou um pouco parado e depois reclamou “não consegues?” E voltei a responder que não. Olhou para mim com um ar super desconfiado e voltei a dizer-lhe a verdade, que não conseguia. Só não lhe disse que ele também não ia conseguir.

 

Podia dizer que não sabia o que se passava na cabeça dele, mas o facto é que sabia exactamente o que ele estava a pensar, porque eu o conhecia muito bem e ainda porque ele era tudo, menos imprevisível.

 

E naquele momento passava pela cabeça dele que, não havia razão alguma para lhe pedir ajuda. Qualquer pessoa faria aquilo. Pedia ajuda porque era a ele, se fosse a outra pessoa não o faria. E nada disto era verdade. Nem uma nem outra coisa. Eu realmente não conseguia levantar o candeeiro do sítio e depois não estava a fazer dele moço de recados. 


É que, por causa das suas limitações, deixavam-no para trabalhos que, por vezes, nada tinham a ver com a sua categoria profissional e ele não gostava disso. Mas também não restava alternativa porque, em boa verdade, para alguma coisa ele tinha que servir, já que o conservavam lá e lhe pagavam um ordenado normal. 


Como ele não reagia e eu estava a perceber que a cabeça dele estava a matutar desnecessariamente, peguei no varão do candeeiro, fazendo mais uma tentativa de o levantar, em vão, para ele ver que realmente não conseguia e percebendo que afinal eu não estava a brincar com ele - e depois era mais um favor quase pessoal, do que outra coisa -, mudou de atitude e deve ter pensado que era uma boa oportunidade para mostrar a sua macheza e, mais, que, afinal as mulheres sem um homem nada são e em alguma altura da vida um homem sempre faz a diferença. 

 

Deixei-o divagar um pouco e ver o que decidia, e como o decidia porque, talvez ele ainda não soubesse, mas era livre de pensar, tão livre como o era em agir, embora na maioria das vezes essa liberdade de acção se traduzisse em negativo.  Mas isso ele teria que aprender.


Nesta altura dos acontecimentos, ele já sorria um pouco, com um certo ar de escárnio da minha pessoa, claro, mas não me importei. E o sorriso dele foi aumentando, aumentando, porque devia achar que não tinha como não tirar o candeeiro. Na cabeça dele, e eu percebia isso perfeitamente, aquilo era fácil, fácil, por isso ria com gosto ante a expectativa de me poder mostrar a facilidade com que julgava que o ia fazer. 


E como ele só ria, fazendo-me de ingénua, perguntei-lhe de que se ria. Ele abrandou um pouco, fez uma pausa e, naquela voz rouca e embatucada, respondeu “então não consegues tirar o candeeiro?” Fingi estar chateada e respondi-lhe mais uma vez que não. Ele não entendia, mas também não desconfiou de nada e era essa a minha vantagem, porque eu queria rir, quando ele pegasse no candeeiro e percebesse que também não o conseguia tirar. A menos que eu estivesse enganada o que, evidentemente, podia acontecer. 


Finalmente parou de rir, aproximou-se e pegando no candeeiro, primeiro com uma mão e logo a seguir com as duas, não o conseguiu levantar, claro está. Dobrou o seu empenho e pediu-me para sair do lugar onde estava, para ter mais espaço de manobra. Puxava de um lado, empurrava do outro, ficava rubro do esforço que fazia, mas todas as tentativas foram em vão, até que percebeu que era válido o meu pedido de ajuda, que não era uma brincadeira e que, afinal, tinha ficado mal na fotografia, o que para mim não tinha a menor importância.

 

Perguntei-lhe o que é que se passava e a resposta dele olhando, olhando, mas sem encontrar explicação, foi “não sei”. “Ah, mas riste-te de mim!” - disse-lhe eu e continuei – “Pois é, ri melhor quem ri por último”. 

 

Mas ele estava entristecido. Afinal de contas não tinha conseguido provar nada. Mas eu também não queria que ele ficasse chateado. Então propus-lhe que tentássemos os dois. Voltei para junto do candeeiro e os dois começámos a abanar para lá, para cá, tanto o sacudimos e empurrámos que, finalmente, cedeu, mas ainda assim, não tinha sido fácil. Por baixo, tinha uma enorme camada de cera, claro. 

 

Então ele riu e riu, já todo satisfeito porque, afinal, sempre tinha servido para alguma coisa e não tinha ficado mal visto de todo. E lá foi, no seu andar autómato, batendo os pés um pouco mais apressado do que o costume, impulsionado pela adrenalina, mas com a cara sempre no chão e a língua de fora, como sempre. 

 

Há coisas que nunca mudam.