Translate

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Aula de Informática - 41


Rosinha tem dificuldades acrescidas a outras tantas. Esteve muito tempo ausente e já nem se lembra de como ligar o computador da sala de informática. Mas com um pouco de ajuda para reavivar a memória, a coisa vai. Olinda já liga o computador com facilidade, mas, mais uma vez, reclama, porque a palavra passe não é aceite. Digo-lhe para introduzir novamente, mas o computador não aceita. Digo-lhe que está errada, mas ela diz que não, que não está errada e que tem a certeza de que é aquela. Mas o computador não aceita e ela fica bloqueada. Rosinha, entretanto, já tem o computador ligado e puxa-me pelo braço para lhe dizer como é que entra no email. Depois de entrar na página, esbarra no mesmo problema de sempre. Não se lembra do seu próprio endereço electrónico e não trouxe os apontamentos. Vai ligar para a filha para lhe resolver o problema.

Entretanto, António, o professor de Informática, foi até Olinda, que continuava em apuros, ainda por causa da dificuldade da palavra passe que não entrava. Claro, estava errada, mas o professor conseguiu a proeza de, mais uma vez, a recuperar. E o senhor João? Ah, o sr. João, com a sua voz baixinha, que mal se ouve, diz-me que hoje quer fazer um mapa de despesas no Excel. Pergunto-lhe se sabe trabalhar no Excel, responde que já soube. Bom, se já soube, já é alguma coisa. Vamos a isso. E começo a dar-lhe umas explicações, de como funciona uma folha de cálculo. Fica radiante com as facilidades que o programa oferece. Quase em segredo, diz: “é isso mesmo que eu quero”. Excelente, estamos no caminho certo.

E Martim? Ah, Martim é uma graça. Um fofo! Um menino de setenta anos. Martim chama por mim desde que se sentou, mas eu ainda não tinha conseguido lá chegar. Finalmente, aproximo-me dele, que está sempre em aflições, mas não deixa de sorrir. Martim quer enviar um mail para a filha, com um anexo, mas não sabe como. Não sabe nada. Desde a semana anterior, já não se lembra como é que faz para chegar à página dos emails. Todas as semanas ele começa sempre do início, porque diz que já se esqueceu. Ele traz sempre o seu PC, para ser mais fácil treinar em casa. Martim é alto, é grande, de olhos azuis e cabelos claros, é um menino em ponto grande. Emagreceu uns bons quilos, como se pode ver pela forma do seu corpo. Continua bem cheio, mas tem tudo pendurado. São as bochechas, é a barriga, está tudo pendurado. Mas é um bem disposto, excepto quando a aula não corre como ele quer.

Foi à internet e escolheu algumas imagens que quer guardar para pintar na aula de Pintura. Então pede para lhe explicar como é que envia uma daquelas imagens para a filha, que depois tira fotocópia para ele reproduzir. Digo-lhe para compor um mail, mas ele diz que não sabe como é que isso se faz, como se não o tivesse feito já dezenas de vezes. Mas tudo bem. Digo-lhe que leia o que tem na sua frente e veja onde se diz “compor” mas, Martim, desanimado, diz “não sei” e olha para mim com um ar de desolado, como se estivesse completamente desprezado. Agarra-me no braço e exige que me sente ao pé dele. Pronto, faço-lhe a vontade, porque também não há alternativa. O professor não chega para as encomendas, portanto fico a ajudar Martim. E com as minhas dicas, consegue chegar onde quer, embora reclamando sempre, que aquilo é muito difícil. Deixo-o entregue ao texto enquanto vou espreitar o Cid.

Cid é um senhor de mais de setenta anos, de baixa estatura e magro. A sua forma de falar é sempre na base da filosofia, filosofia muito própria dele. De modo que, quando lhe perguntei se estava com algum problema, até tive que me sentar para o ouvir, porque o tempo que ele demora a digerir e a engendrar a filosofia adequada à minha pergunta, leva tempo, tanto tempo, que me obriga a sentar, senão, ai das minhas costas, por estar tempo demais dobrada. E depois de responder, a resposta abrange tudo o que se possa imaginar menos responder à minha questão. Assim, pela segunda vez lhe faço a mesma pergunta e antes que venha outra resposta evasiva vou-lhe dando indicações para ir trabalhando. E no final das contas, também não sabe a palavra passe. Deixo-o a pensar, enquanto volto para Martim, que já está novamente com o ar mais abandonado deste mundo. Entretanto, o professor está na outra ponta com o Joaquim, a Pilar, a Carolina, que quer saber coisas do Face Book, etc…

Vamos para o Martim, para o tentar acalmar. Martim quer enviar o anexo, mas não sabe como. Digo-lhe sempre a mesma coisa: o que é que se faz quando se quer anexar um documento? Pega-se num “clip”, não é? Ah, é verdade, diz ele, já sei e aponta com o cursor. Clica e abre a caixa de texto do arquivo. E agora(?), pergunta ele. Então, agora tem que ir procurar o seu anexo, digo-lhe eu, mas Martim já não sabe onde está. Nem nunca soube, porque guardou sabe-se lá onde!? Com toda a paciência do mundo, lá vou eu intervir, para tentar encontrar o que ele pretende. Mas o anexo que Martim quer não aparece e fica muito triste, muito infeliz, tal qual uma criança que não encontra o brinquedo que procura.

Martim é um indivíduo inteligente e bem sucedido na vida. Contudo, não teve experiência no campo da informática. Por isso, está agora a dar os primeiros passos. E cada passo que dá é para ele um passo gigante, fazendo-o ficar muito feliz com o que consegue. É por isso que é muito importante ajudá-lo e não só a ele, mas a todos os que nos procuram para esta iniciativa.

A minha paciência redobra. Digo a Martim para voltar atrás à procura do anexo e o guardar no ambiente de trabalho, que é o sítio mais fácil para depois o encontrar. Martim vai então novamente ao google buscar, uma vez mais, o anexo e agora então guarda-o definitivamente onde lhe disse para o guardar e volta a fazer um mail para agora sim, anexar o que pretende, até que, enfim, a pintura lá seguiu o seu destino.

Mas Martim quer ter a certeza de que aquilo seguiu. Digo-lhe para olhar um pouco para cima e ler o que lá está: “a sua mensagem foi enviada. Para visualizar, clique aqui”. E Martim clica. Mas, ai… o que foi que aconteceu? Martim não está nada satisfeito, nem um pouco, só faltando chorar. É que o anexo não foi direito, diz ele, ficou com a ponta dobrada. Como? Não foi direito(?), perguntei. Sim, diz Martim apontando para o écran, exactamente para o canto inferior direito do anexo: “Não vê que ficou com a ponta dobrada?”… (!?)


segunda-feira, 19 de março de 2018

O caos - 40



Um pardalito acabava de pousar no telhado da escola mesmo ao lado da minha casa, imediatamente seguido de outro que se veio juntar a ele, desviando assim a minha atenção do caos em que estava mergulhada.

 

O caos. Um verdadeiro caos, por nada. Apenas porque o meu medicamento da tensão tinha sido alterado e eu estava com medo de algum efeito indesejável. Apenas isso. Acontece que detesto medicamentos, mesmo compreendendo que às vezes é necessário. E por isso corri para o meu posto de meditação/contemplação, na minha varanda de inverno, onde estou protegida das intempéries, podendo observar toda a serra que fica em frente, porque tenho vidros de cima a baixo, possibilitando-me um anglo de visão bastante alargado.

 

Absorta em pensamentos negativos que tentava afastar, porque não me faziam falta, observei os pardalitos que se tinham encontrado no topo do telhado do Conservatório de Música. Eram tão engraçados, tão felizes e livres, que não resisti ao seu encanto. Era mesmo delicioso observá-los, correndo atrás um do outro, beijando-se com bicadinhas amorosas, passando por cima um do outro, lá iam felizes e contentes, sem pensar no dia triste e cinzento, carregado de nuvens, sem se preocuparem com nada nem ninguém. 

 

E, de repente, senti os músculos do rosto contorcendo-se, forçando um sorriso teimoso, a que não consegui resistir. Isso mesmo, aquelas duas minúsculas criaturas, seguindo o seu curso normal, tinham tido o condão de arrancar das minhas entranhas, um sorriso que foi mais forte do que eu. Era uma ternura olhá-los e observar o envolvimento dos dois. Uma graça, que contrastava devastadoramente com o que ia dentro de mim. 

 

E quando acho que já passei em determinados testes da vida, que já superei determinadas barreiras, livrando-me desses flagelos para sempre, atingindo patamares mais dignos do ser humano, aí estão elas de novo para, uma vez mais, me testarem e, uma vez mais, me porem à prova. Um caos.

 

Pensando em caos e sem querer, fui transportada na minha viagem até à Índia, um dos maiores caos que tive de enfrentar até hoje, em que todo o tempo dava comigo a perguntar como era possível ter nascido naquela terra e ter sobrevivido? Era quase um milagre. E durante quinze dias que por lá andei, quando a coisa piorava e só pensava na “minha” casa, no “meu” quarto, na “minha” cama, enfim… tudo meu; meu isto, meu aquilo, porque tudo o que isso representava era conforto, paz, sossego. Mas aquela viagem de regresso às origens, por minha própria escolha e vontade e com plena consciência disso, não tinha sido exactamente o caminho para a tranquilidade, nem um pouco, e isso era sabido e admitido de todas as formas. Eu sabia de antemão que ia mexer com a minha zona de conforto a toda a prova e muito, muito mais. O caos em toda a ordem, com letras maísculas e numa dimensão elevada ao cúmulo de exagero.

 

Era a Índia! Não era surpresa nenhuma. Ainda assim, era difícil de aceitar. "Aceitar" era a palavra certa. Aceitar era o segredo daquela gente e era essa a chave para a sobrevivência a todos os níveis. Para mim estava assegurada mais do que a sobrevivência a nível da alimentação, do alojamento e para falar verdade, de todas as coisas, o que não impedia a impossibilidade do equilíbrio psíquico. Por outro lado, eles não se queixavam de nada. Limitavam-se à existência do jeito que se apresentava e agradeciam tudo, o bom e o mau. E quem poderia dizer que isso era certo ou errado?

 

De regresso aos pardalitos, que não precisavam de se preocupar com nada, de repente achei que havia ali uma certa analogia com a vida na Índia, onde a grande maioria das pessoas não têm os problemas da “sua” casa, do “seu” quarto, da “sua” cama. Então estava tudo certo. E sempre olhando os pardalitos que iam brincando, enquanto prosseguiam o seu rumo, pensei que, vendo as coisas por essa perspectiva, então a Índia não era necessariamente um caos. Estava tudo certo. O caos só existia na minha cabeça, na minha forma de ver as coisas. Melhor dizendo, na minha forma de viver. Eles não tinham, portanto também não tinham com o que se preocupar. Logo, não havia caos. Pelo menos para eles. Era eu que estava como peixe fora de água porque, apesar do meu espírito livre e aventureiro, a verdade é que há uma linha que, uma vez ultrapassada, nos tira da nossa zona de conforto, para nos fazer sentir mal, deslocados, no caos. Como é que um simples medicamento me estava a roubar o sossego daquela maneira, era a única pergunta que não queria calar.

 

E ali estava eu, achando-me a criatura mais infeliz do mundo, fazendo do nada um problemão maior do que eu, como se fosse o fim do mundo. E os pequenos pardalitos aos pulinhos, comunicando-se na sua linguagem própria, completamente sintonizados um com o outro, limitando-se a viver plenamente, mostravam-me da forma mais natural e mais simples possível, como eu estava a ser estupidamente ridícula. Era isso que eu via ali. Parecia que, deliciados com a vida, eles tinham chegado ali para me mostrarem isso. Aquilo era uma lição de vida, a lição que eu precisava de aprender e não sabia. Tão simples, tão natural.

 

E o sorriso teimoso voltava aos meus lábios, através daquela doçura de cortar o coração, pensando… é a natureza. É a natureza no seu melhor, no seu pleno território, na sua zona de conforto e desconforto. Eles não reclamam nunca do tempo, do sol, do frio, da chuva, do calor. Eles não se preocupam com o que comer e vão sempre encontrando alimento pelo chão, pelos telhados, pulando nas árvores de galho em galho, bebendo água numa pocinha aqui, noutra ali, libertos e despreocupados. E quanto mais os seguia e os apreciava, verdadeiramente encantada e extasiada, mais o meu sorriso aflorava e a minha alma respirava aliviada.

 

Cumprida a sua missão, com a mesma graça com que chegaram, partiram, deixando comigo uma bela e ternurenta mensagem de "aceitação", que custou uma lágrima bendita a correr pelo meu rosto.



quinta-feira, 1 de março de 2018

Um café - 39



O Riaz estava sentado numa esplanada de um café nas imediações da minha casa, à espera que um café lhe caísse do céu, porque estava sem dinheiro. Eu sabia que para ele o café era primordial. Podia não comer nem beber, mas o café para ele era absolutamente imprescindível. E enquanto falava comigo ao telefone insistia para eu regressar o mais depressa possível, porque queria um café.

 

Um café. Uma enorme choradeira por causa de um café. Só que eu estava a trabalhar e nunca tinha hora para sair, por causa da minha isenção de horário. E ele sabia disso, mas naquele dia estava muito impaciente. Tinha sido apanhado desprevenido e esquecera-se de que não tinha dinheiro. Era eu que lhe guardava o dinheiro e que geria a conta bancária dele. Ele tinha medo de fazer alguma coisa errada e não confiava em mais ninguém. Mas tinha um cartão multibanco, o qual só usava quando estava comigo, porque se atrapalhava todo. Não falava português nem se esforçava nada por isso. Era eu que resolvia todos os seus problemas. Estava em Portugal há dois anos e, desde que nos tínhamos conhecido, apoiava-se demais em mim, achando que todos os problemas dele estavam resolvidos.

 

Era frequente telefonar-me amiúde, mas naquela tarde em que tinha sido dispensado do trabalho, estava mais inquieto. É certo que queria um café, mas não podia estar a ligar-me de cinco em cinco minutos. Portanto, a única coisa a fazer era esperar. Mas estava bem difícil. Não se conformava nem me dava descanso.

 

O Riaz foi meu companheiro de vida durante sete anos. Tinha alturas em que coabitava comigo, outras alturas ficava na casa dele. De vez em quando, viajava, para arranjar trabalho melhor, mas voltava sempre, assim que alguma coisa não lhe agradava, mas especialmente porque não conseguia estar muito tempo longe de mim. 

 

Estranhamente, toda a minha família gostava muito dele, porque sempre foram todos tão exigentes comigo em tudo, que era realmente estranho terem gostado tanto dele. Mais do que isso, todos se rendiam ao seu charme e ao seu encanto. Ele era alto, bonito, magro, com um porte fino e eu dizia-lhe muitas vezes que ele podia ser modelo de alta costura. Tinha muito boa figura. E a minha família, que tanto me massacrou aquando do meu divórcio, pelas razões mais idiotas e fora de contexto, extraordinariamente, aceitavam o Riaz como se fosse a coisa mais natural desta vida, sem questões, sem reservas. Acabaram-se todos os preconceitos, a religião, os hábitos, a cultura, enfim, ninguém ousava questionar fosse o que fosse. E o Riaz sentia-se em casa, completamente. Adorava aquele chamego todo e ficava envaidecido de ter todos rendidos ao seu encanto. E como!

 

E a questão continuava. O Riaz não me dava descanso pelo facto de estar sem dinheiro para o café. E tudo porque tinha medo de ir ao multibanco levantar dinheiro. Perguntei-lhe se tinha uma caixa por perto e ele logo respondeu que sim, mesmo em frente dele. Pedi-lhe que se dirigisse à máquina, mas ele não queria. “Oh… não sabe”, dizia ele. Já sei que não sabes, mas eu vou-te dizendo, respondi. Pedi-lhe para pôr o cartão na ranhura e esperar pelo painel, para me dizer o que lá estava. Mas ele começava a ler e sinceramente, eu não compreendia nada do que ele dizia, porque se explicava mal, e depois dizia uma data de asneiras na língua dele, algumas que eu já conhecia, outras não e acabava por terminar a sessão porque o cartão, sem ordem para cumprir, saía automaticamente. Duas vezes isto aconteceu e eu disse-lhe que não o fizesse mais, para que o cartão não ficasse retido, que era pior a emenda que o soneto. Assim não dava.

 

Era preciso encontrar outra solução. E tinha mesmo que resolver o problema de alguma maneira, porque sair mais cedo por causa daquilo estava absolutamente fora de questão. Foi então que me lembrei de uma coisa. Ele só precisava da ajuda de alguém para levantar o dinheiro e me deixar sossegada. Mas quem? Tinha que confiar na sorte. Comecei a pensar, a pensar e estava decidido.

 

Pedi ao Riaz que olhasse em volta e observasse as pessoas perto dele. Ele não percebia o que ia na minha cabeça, claro está e dizia que estavam algumas pessoas, mas poucas e que isso não interessava. Insisti com ele para me começar a descrever como eram as pessoas, se estavam sozinhas ou acompanhadas, mas ele não queria, não estava a levar a sério o que lhe dizia, achando que era uma brincadeira minha. Mas não era brincadeira e continuei insistindo para ele me ir descrevendo as pessoas, uma por uma. Até que ele me disse que estava um casal. 

 

Perguntei-lhe que idade teriam e respondeu que talvez trinta. Perguntei-lhe se achava que estavam bem um com o outro, bem dispostos, se não estavam a discutir ou com cara de chateados. Ele olhava, ficava um pouco a observar e depois, não sem esforço, lá começava a dizer o que via ou que lhe parecia. Disse que achava que estavam bem dispostos um com o outro, falando baixinho, juntinhos, etc. É isso, é isso mesmo que eu quero, respondi eu. 

 

E continuando com o meu plano, pedi-lhe que se levantasse e fosse ter com eles, com toda a calma para não os assustar. Mas o Riaz recusava-se. Dizia que não e não. Perguntei-lhe se queria ou não o dinheiro. Se queria ou não um café. Respondeu que sim. Então faz o que te mando, confia em mim, disse-lhe eu. E como ele não tinha alternativa e também porque confiava mesmo em mim, por mais louco que fosse o que lhe dizia, continuou e lá foi junto do casal. 

 

Depois disse-lhe que pedisse desculpe e lhe passasse o telemóvel a ele e só a ele, caso contrário, se fosse a ela, havia já ali uma grande confusão e isso era tudo o que não podia acontecer. A coisa tinha que ser feita com toda a diplomacia possível. Ele continuava renitente e a não querer, porque tinha medo, tinha vergonha e eu dizia-lhe que não estávamos a fazer nada que envergonhasse ninguém. Não era um comportamento usual mas, fora isso, nada de errado. Ele compreendia o que eu dizia, mas encolhia-se, o que também dava para entender. Ele era muito discreto. A questão é que a situação urgia um procedimento um pouco bizarro, mas era pegar ou largar. 

 

E lá foi ele, que acabou por ganhar a coragem necessária, pedindo desculpa, meio sério meio sorrindo, que dava para ouvir bem. Pediu desculpa e disse para o sujeito “fala aqui, por favor, fala aqui”, ao mesmo tempo eu falava alto no telemóvel, para o sujeito ouvir a minha voz. E quando o indivíduo, um pouco confuso e desconfiado, finalmente pegou no telemóvel, fui logo pedindo desculpa, muita desculpa, que o meu namorado não falava português, mas que não se assustasse, só precisava de um grande favor e não podia pedir a qualquer um. Foi preciso dizer isto para que o sujeito percebesse que o assunto era delicado e que exigia uma certa responsabilidade da parte dele e que poderia aceitar ou não o favor que lhe estava a ser pedido. 

 

Nesta altura ele já estava a falar comigo com tranquilidade e expliquei-lhe, uma vez mais, que o meu namorado não era português, que eu estava a trabalhar e ele precisava de levantar dinheiro para tomar café, sendo forçoso ir ao multibanco, mas com a ajuda de alguém, porque sozinho não conseguia e se ele fizesse o favor de ir com ele. Pedia-lhe e ao mesmo tempo ia agradecendo e pedindo mil desculpas. 

 

O sujeito compreendeu, acreditou em mim e prontificou-se a acompanhá-lo. Pedi ao Riaz para não desligar a chamada, para eu ir acompanhando o que se estava a passar. Ouvi-os chegar à máquina, ouvi o ruído do cartão a entrar, a máquina a arrancar, o sujeito perguntando se ele sabia inserir o código, no que ele sorriu dizendo que sim. E depois perguntou-lhe quanto dinheiro queria. Respondeu, o outro marcou no painel, saiu o dinheiro, saiu o cartão e o fulano disse ao Riaz “pronto, está tudo certo”. O Riaz agradeceu, eu agradeci e voltei a pedir mil desculpas pelo incómodo. O rapaz voltou para junto da companheira, o Riaz voltou ao lugar onde estava com o seu característico sorriso e estava tudo resolvido.

 

Ainda em linha comigo, o Riaz perguntou novamente “quando vem”? Respondi “não sei. E continuou com o seu sorriso malandro: “crazy, you”!...




segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O Henrique nasceu - 38


No dia sete de setembro de 1980 eu estava em apuros. Mas os apuros já tinham começado cerca de nove meses antes, quando um dia disse ao meu marido: “acho que estou grávida”. Faltava uma semana para o período menstrual aparecer, mas eu sabia que estava grávida. A resposta dele, contudo, não se fez esperar e bem ao seu estilo, disse simplesmente: “hum? É impressão tua…” pois claro, era sempre tudo impressão minha. O facto é que passaram os dias e o período menstrual não aparecia e como tal, decidi ir ao médico e fazer as análises necessárias.

Numa manhã bem cedo, antes de ir trabalhar, recolhi a urina numa garrafa de plástico para ir ao laboratório, mas como devia ser apenas impressão minha, o meu marido que era muito boa pessoa, mas nunca facilitava a minha vida, decidiu que preferia ficar a dormir. E quanto a isso não havia nada a fazer. Barafustei, mas de nada serviu. Lá fui, toda nervosa, com a garrafa da urina que coloquei no banco da frente ao lado do condutor, amparada com o meu saco de mão, com todo o cuidado possível, a fim de não se entornar, porque eu queria fazer as análises o mais rápido possível, apenas para ter a certeza do que eu já tinha. Mas precisava de ter o branco no preto e o preto no branco para começar a tomar providências.

As ruas de Ponta Delgada, S. Miguel (Açores), valha-me Deus(!), era só empedrado e o centro histórico todo muito estreito, com os carros estacionados à balda. Passar pelas ruelas com curvas, pouco a pouco vira à direita, vira à esquerda, era um inferno. Nessa altura, ainda não tinham direcção assistida, o que não facilitava e eu, nervosa para chegar lá, fazer o teste e esperar pelo resultado… numa curva logo ao entrar na rua, com carros estacionados pela berma, fui apanhada de surpresa e para não bater, dei uma guinada rápida, esquecendo-me completamente da urina. Pronto, o frasco foi parar ao chão. Aflita, para não perder tudo, descorei a direcção e fui justo bater no que estava estacionado na entrada da rua. Apanhei o frasco e o carro parou enfaixado no outro que estava parado... pum(!)… estava feita. O dia estava a começar bem. O outro na cama, no sono dos justos e eu feita num oito àquela hora da manhã. Tombei a cabeça sobre o volante com os braços em volta e aí fiquei, sem querer pensar em nada. Só queria não ser eu e não estar ali, e… e… e…

Embrulhada nesta confusão, ouço uma voz de homem com uma pronúncia bem cerrada, tipicamente açoriana, numa gritaria histérica, como se tivesse morrido alguém e abrindo a porta de casa, sai na minha direcção aos gritos, pondo-me mais nervosa do que já estava. E o outro em casa a dormir, descansado da vida, sem se ralar com nada. Levantei a cabeça, que estava sobre o volante, quando ouvi as insistentes batidas no vidro da janela do carro. O Ferreira – que naquela altura eu ainda não conhecia -, com as mãos à cabeça, começa a desboninar: “tá doida? Nã viu o que fez”? Deu cabo do carro do mê pai!”

Disse-lhe que não se preocupasse porque o seguro tratava disso. Mas ele não queria saber, só estava ralado com o carro do pai. E começou a fazer perguntas estúpidas, por exemplo, porque tinha feito aquilo. Respondi-lhe entre o choro que, como era óbvio, não tinha sido de propósito. Tinha sido acidental. Que estava nervosa, caso ele ainda não tivesse percebido. Que ía a caminho do laboratório e que o meu marido não se tinha prontificado para me acompanhar. Aí, o Ferreira – que eu ainda não sabia quem era -, já começou a acalmar e a pedir-me também para me acalmar. Ele era muito engraçado. Depois, tornou-se num dos melhores amigos, que faria parte de muitas das nossas grandes aventuras pela vida fora, mas naquela altura era um estranho.

Mas quando lhe disse que ia para o laboratório fazer análises, logo baixou a guarda, perguntando com um ar muito constrangido, se estava doente. Respondi que, em princípio, estaria grávida, mas que estava nervosa. Então ele cedeu, parou definitivamente de resmungar comigo e começou a ter pena duma mulher sozinha, indefesa, desprotegida do marido. Até lamentou o facto dele não ter querido acompanhar-me. E ainda sem saber quem eu era, retorquiu “ai o sacana, ficou dormindo, na querem lá ver?!” E então, a curiosidade foi maior e resolveu perguntar: “mas quem é o sê marido?” Disse-lhe quem era e ele olhou para mim com uma expressão que nunca mais esqueço, com os olhos muito abertos, repetindo o nome dele, nem queria acreditar no que ouvia. “Ah… deixa estar, ê digo-lhe como é… então ficou na cama em vez de se levantar e ir contigo?”… aí já me tratava por tu, com grande intimidade. E como se nos conhecêssemos há muito tempo, disse: “vamos lá a casa, quê vô fazê esse malandro se lavantá e é agora”…

Bem, lá fomos, porque o carro, apesar da batida, andava. E foi ele conduzindo por conta do meu estado de nervos. E chegando a casa, lá foi tirar o outro da cama, que acabou por ir comigo às análises, já quase a fechar a porta do laboratório. E os dois ora riam ora se insultavam, ora praguejavam ora gracejavam. Enfim, tinha que me habituar a tudo aquilo, àquela gente, àquelas situações e percalços inusitados. E uns dias depois lá veio o resultado da análise, que dava a gravidez como confirmadíssima. Fora de questão ser apenas “impressão minha”…

E, como eu ia dizendo, no dia sete de setembro de 1980, estava eu na clínica onde o meu filho nasceu. Já o chegar à clínica foi outra cegada. Uma confusão dos diabos.

Era uma sexta-feira à noite e estávamos com um grupo de amigos muito chegados, quase família. Nesse fim de semana, o meu marido estaria de emissão, o que significava que trabalhava sábado e domingo pela noite dentro. Eu estava cansada e ia aproveitar para descansar. Diziam-me para tirar férias de parto e ficar em casa, mas eu preferia deixar todo o tempo possível para depois do nascimento, a fim de ficar com o meu filho o máximo de tempo, antes de regressar ao trabalho. Os nossos amigos iam passar o fim de semana algures no Alentejo e insistiam para eu ir com eles. Precavida como sempre fui, achei que a partir daquele momento tinha que ficar atenta, pois acabava de entrar nos dez dias antes da data prevista pelo médico. E diziam ah, hão-de passar os dez dias e mais outros tantos e tu à espera… é o primeiro filho… é sempre assim (ou quase sempre).

O facto é que eu disse “não, obrigada, mas não vou. Daqui não arredo pé. Se ele decidir nascer quero ser assistida pelo meu médico”. E riam. Deixá-los rir, pensava eu. Ninguém me dizia o que eu havia de fazer(!). E assim, contra tudo e todos, fiquei no meu canto. Isto foi numa sexta-feira. No sábado seguinte quando acordei, eram umas sete horas da manhã, senti uma forte vontade de fazer xixi. Queria dormir mais, mais a bexiga não deixava, não dava tréguas. Contrariada, levantei-me para ir à casa de banho. E voltei para a cama, supostamente para continuar o meu precioso sono. Mal fechei os olhos, a bexiga começou novamente a dar sinal e pensei “o que raio é isto que não me dá sossego, quero dormir e não consigo?!”

E mais uma vez me levantei para ir à casa de banho, mas não saía xixi. De repente começo a ver uma água a correr pelas pernas abaixo e em seguida, a água ensanguentada. Pensei mais uma vez “que raio é isto?” Mas logo se fez luz e pela dor que senti na bexiga, percebi que as águas estavam a rebentar. Bingo! Se eu tivesse ido passar o fim de semana para o Alentejo, estava mesmo lixada, pensei. As dores começaram com toda a força e percebi que tinha entrado em trabalho de parto. Voltei ao quarto, já quase sem poder respirar com a força das dores e tentei acordar o meu marido várias vezes, dizendo-lhe que tinha que se levantar para me levar à clínica. “O que é?”, dizia ele. “Deixa-me dormir”. Desculpa, dizia-lhe eu, levanta-te o bebé vai nascer. “Não pode ser, ainda é cedo, faltam dez dias”. O bebé vai nascer, levanta-te para me levares à clínica que não tenho tempo a perder. Respondeu: “Deita-te e dorme, é impressão tua”(?). Percebi que mais uma vez não podia contar com ele. O que fazer?

As dores eram tantas e tão em cima umas das outras que eu tinha a certeza de que estava a entrar em trabalho de parto e uma vez que já tinha percebido que só podia contar comigo, tinha que ser prática. Ainda abri o roupeiro para tirar um vestido, mas as dores já não me deixaram chegar lá. Saquei do que tinha usado no dia anterior e que estava em cima da cadeira e com muito custo lá vesti. Peguei numa toalha turca grande e enrolei à minha volta por baixo do vestido. Peguei no saco de mão e saio porta fora decidida a mandar parar o primeiro carro que parasse, fosse quem fosse. E assim foi. Naquela figura, fiquei no meio da estrada e mandei parar um carro conduzido por um indivíduo qualquer, o primeiro que apareceu. O homem não queria parar, mas perante a minha insistência e a minha figura, lá parou. Abriu a janela do carro e antes que começasse a falar pedi-lhe por favor, que me levasse à Clínica de S. Gabriel, na Almirante Reis.

A cara dele era um espanto. Não percebia nada. Já não sei o que ele disse, mas expliquei que estava em trabalho de parto, o que dava para perceber, por causa do toalhão enrolado, e que precisava urgentemente de dar entrada na clínica onde o meu médico me assistiria. Ele só perguntava: “então, mas está sozinha, não tem ninguém que a leve?” E eu nem sabia o que responder e nem tinha tempo nem paciência para entrar em detalhes. Disse-lhe que não, mas ele estava baralhado, confuso e sem saber o que fazer nem o que pensar. Não lhe dando alternativa, respondeu: “bom, está bem… venha lá…”, ao mesmo tempo que abria a porta para eu entrar, constrangidíssima com a situação, mas sem alternativa. Há alturas na vida em que não é possível parar para pensar, porque não há mesmo o que pensar. Era o caso. A única coisa que eu tinha que fazer era agir e agir rapidamente para não ter dissabores. Mais tarde, com certeza pararia para pensar em tudo aquilo. Naquele momento, era tudo menos oportuno.

E quando já estava a entrar no carro, começo a ouvir uma voz, ao longe: “eh, espera aí, onde é que vais”? Onde é que vais(?)… era mesmo essa a pergunta certa para o momento. Reconhecendo a voz do meu marido, sinceramente não sei se fiquei mais aliviada ou mais nervosa do que já estava. “Eh, o que é isso, espera, espera!”. O sujeito, que já estava resignado a ter que me levar, olha e pergunta: “quem é você?” E antes que ele respondesse, apressei-me a dizer que era o meu marido. O homem ficou possesso da vida. “Seu marido, e deixa a senhora neste estado, nesta situação, mas que raio de pessoa é você, não tem vergonha?!” O outro, com as calças, uma perna enfiada e outra por enfiar; um sapato na mão e outro calçado, e com as chaves do carro no bolso das calças, começa a responder: “cale-se e vá-se embora”. Mas o homem não se calava: “não tem vergonha duma cena destas, onde é que já se viu, deixar a mulher numa situação destas(!?)”; “cale-se e pode ir andando”, respondia o meu marido.

E por momentos os dois pegaram-se e eu a ver que ainda ia haver porrada e tudo o que eu queria era ir para a clínica para o meu filho poder nascer, já que tinha chegado a sua hora. E desesperado, chamando nomes por todo o lado, o sujeito dizia “nunca vi uma coisa assim(!)”… e com isto lá se foi furioso da vida.

Entrei no nosso carro e lá fui a caminho da clínica. A meio do caminho tive que pedir para ele acelerar, porque realmente não tinha posição para estar. Chegados à porta da clínica lá saí com imensa dificuldade já em andar, enquanto ele ia “só” estacionar e tomar café. Entrei, fui à recepção e assim que olharam para mim imediatamente chamaram uma maca que me levou direitinha à sala de partos. Chamaram o meu médico, esperei por ele uma hora e às dez menos dez da manhã, o meu filho nascia. Agora estava tudo bem ou quase tudo, uma vez que as coisas são como podem ser.

Entretanto, o meu marido que tinha ido apetrechado de câmara de filmar e fotografar, porque estava muito na moda essas coisas, depois de ter estacionado, tomado o café e sei lá que mais o quê, calma e tranquilamente, entrou na clínica, dirigiu-se à sala de estar, abriu o jornal e refasteladamente aí ficou. A recepcionista, vendo-o ali, sem dizer nem perguntar nada, teve a percepção de que tinha a ver comigo e perguntou-lhe o que estava ali a fazer: “a minha mulher acabou de dar entrada”. A sua mulher já teve bebé, está tudo bem e pode subir para os ver, respondeu a recepcionista. “Não pode ser, ela acabou de entrar”. A sua mulher já teve bebé, pode subir, continuou a empregada. Mas ele não se convencia, enquanto a outra lhe afirmava que o filho já tinha nascido. Ele só achava que não podia ser, que era muito cedo. Só lhe faltou dizer que era “impressão dela”(!).

E no dia sete de setembro de mil novecentos e oitenta, mesmo sem filme e sem fotos, contra tudo e todos, o Henrique, nosso único filho, nascia, por sua livre e própria vontade.


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Palavras árabes - 37


O tio padre não largava aquela bíblia de maneira nenhuma. Em todos os lugares que parávamos, logo ele arranjava um sítio para pousar e abrir a sua tão sagrada bíblia, onde enfiava o rosto por inteiro: olhos, nariz e boca; tudo duma vez, por trás da sua santa e atenta leitura. 

É verdade que ele andava sempre com ela atrás, para todo o lado, inclusive em casa. Mas aquele passeio às Furnas, em dia de domingo, tinha sido ideia dele. Fazia sentido que se alheasse um pouco das leituras para se integrar num passeio familiar, sobretudo com os sobrinhos netos em volta. Mas por mais que tentássemos pô-lo a falar e a comunicar connosco, não havia maneira de o trazermos a nós, respondendo apenas com breves monossílabos “ham, hem, hom, hum…” fingindo estar a dar atenção, mas o facto é que dali não saía. Nem com toda a gritaria das crianças. Nada conseguia interrompê-lo. Aquilo já me estava a chatear. Foi então que me lembrei de uma brincadeira que não pude evitar. 

Cheguei-me devagar, devagarinho, junto dele, para não o assustar e afastar-se ainda mais do que já estava e sempre de mansinho, como quem não quer nada, perguntei-lhe: 

- Sabe que os árabes têm muitas palavras começadas por “al”? 

E levantando ligeiramente a cabeça, ao mesmo tempo que olhava para mim, respondeu:

- “Hum…” – sem perceber aonde eu queria chegar, claro.

É verdade ou não? – Continuava eu – Os árabes têm um vasto leque de palavras começadas por “al”, inclusive, nós herdámo-las – e olhando em frente, com os olhos postos no horizonte, acenou que sim com a cabeça e antes que voltasse a mergulhar o nariz de novo na santa e sagrada bíblia, como quem não quer nada, perguntei:

- Sabe como é que se diz, por exemplo… “rapaz” em árabe? 

Continuando com o olhar fixo no horizonte, como que a ver se a palavra lhe caía do céu, abanou a cabeça em sentido negativo. Então respondi:

- Rapaz, em árabe, diz-se: “almoço”. 

E os olhos dele deixavam de estar fixos e meio perdidos no horizonte, para se fixarem em mim, com o sobrolho meio franzido e o rosto balançando levemente para cima e para baixo, de quem está apreciando, julgando, pensando em algo que nunca lhe tinha passado pela cabeça. A esta altura, o sobrinho mais novo e meu marido, que estava posicionado atrás, sem ser visto pelo tio, já ria com gargalhadas silenciosas, sem se conseguir conter, mas sem querer quebrar a brincadeira que, para o tio, parecia ser uma coisa séria. 

E antes que voltasse a pôr a cabeça novamente na sagrada bíblia, mais uma vez o interceptei, continuando:

- E sabe como é que se diz… “cara” em árabe? 

É claro que ele não sabia e nem nunca tinha pensado nisso. Por isso, novamente desviando o olhar da minha pessoa para se fixar na distância, ficou em silêncio durante alguns segundos, até que o interrompi, dizendo:

- “Cara” em árabe diz-se “alface”.

Olhando para mim, dizia ele:

- Que interessante!...

E enquanto voltava a mexer a cabeça, balanceando-a levemente para voltar a perder-se no horizonte, apreciando a tão extraordinária informação sobre o vocabulário árabe, que nunca tinha imaginado, nem pensado, dizia:

- Curioso!  

E até já sorria, um sorriso muito débil, lá muito no fundo. O certo é que eu estava a conseguir arrancá-lo à sua leitura preferida. Eu estava contente com aquela cena. Estava a resultar. E de novo perguntei:

- E… “auto-estrada”?

- Não faço ideia – respondeu. Não faço a menor ideia.

Dei-lhe uns instantes para ver o seu pensamento andar um pouco à nora e passado uns segundos, respondi:

- “Alpista”.

- “Alpista”? – Repetia ele – É interessante! – E repetia a palavra, exportando-a infinito afora, dando-lhe toda a liberdade para existir e para a admirar. E como a coisa se proporcionasse, decidi continuar:

- E sabe como é que se diz em árabe “supositório”? 

O tio padre olhou para mim muito depressa e mais atento que nas outras palavras, parecendo querer saber imediatamente a resposta, sem se fazer esperar muito.

- Como é?

Como é(?) - Perguntava, interessadíssimo pelo assunto, na sua belíssima pronúncia açoriana e com um ar deliciosamente ingénuo. Tive que responder. Tive que satisfazer a sua curiosidade, mas não era assim tão rapidamente como ele parecia querer. Fazia parte da brincadeira criar algum “suspense”. Por isso fiquei olhando para ele, ansioso pela minha resposta, enquanto o sobrolho permanecia franzido. E finalmente satisfiz a sua curiosidade:

- Supositório, em árabe, diz-se “Alcoentre”.

- Hum?... – Dizia ele com a boca entreaberta, o queixo ligeiramente descaído e um ar estupefacto. 

Foi então que desatámos a rir, achando que já chegava de atazanar a vida dele. Quando percebeu que tinha sido apanhado na brincadeira, também riu com satisfação. E na verdade pareceu-me até aliviado por aquilo não passar de uma brincadeira, se não, como é que ele não iria saber?!

O tio padre não era estúpido nem burro. O tio padre só tinha um defeito: ser padre. É que o facto de ser padre o fazia ter todo o tipo de limitação e, portanto, como homem de boa fé, acreditava ou não, mas caso não acreditasse, não tinha essa consciência, o que vem a dar no mesmo.

E o passeio às Furnas foi salvo pelas palavras árabes.



quarta-feira, 26 de julho de 2017

Uma capa para o I Pad - 36


Uma capa para o I Pad, era disso que eu precisava. Já tinha andado a ver e não encontrava nada do que queria. Agora estava no sítio certo e mais uma vez iria procurar, porque me fazia falta. Já tinha visto na Worten e não havia o que eu queria. A Rádio Popular estava ali bem na minha frente e não perdi mais tempo.

Entrei e comecei a averiguar. Passei pelos corredores com tudo e mais alguma coisa, menos capas para tablets. Mas de repente ei-las, ali na minha frente. Aproximei-me e comecei a inspecionar. Havia várias, de várias cores, mas ainda não era bem aquilo. Chamei um dos empregados e perguntei se havia mais. Olhou e respondeu que não. Era tudo o que havia. Pensei, mais uma vez não encontro o que quero. Até já tinha visto nos chineses e nos indianos. A questão é que o meu I Pad, coitado, já estava um pouco desactualizado, isto é, tratava-se de um modelo já antigo. Os mais recentes tinham medidas diferentes. Esse é que era o problema. Mas precisava de uma capa. Aquela estava muito velha, a desfazer-se e eu andava sempre com ele. Por isso precisava mesmo.

Bom, cingi-me ao que havia para o modelo e apesar de não ser exactamente o que precisava, era pegar ou largar, pois arriscava-me a não arranjar mais nada e isso não era conveniente. Aquelas capas protegiam apenas a parte fronteira do I pad e nada mais. Uma folha única, num material que parecia pele e que aderia no lado esquerdo por sistema de íman e assim ficava seguro no tablet.

Olhei bem para elas e mais uma vez pensei que não era nada daquilo que queria. Eu queria uma coisa consistente, que desse bastante protecção. Nada a fazer. Era pegar ou largar. Já tinha corrido tudo, por isso sabia que era a única chance. Abri uma, experimentei, vi e voltei a ver, enfim, se não havia alternativa, tinha que me habituar àquilo. Era um pouco estranho, mas o que fazer? Por outro lado, era mais fácil de encaixar na pasta, porque ocupava muito menos espaço. De tanto experimentar, até já me ia habituando à ideia. Estava resolvido. Vi as cores e decidi que queria a preta, sem sombra de dúvida. E finalmente vi o preço. Aí, apanhei um baque. Cinquenta euros, nada mais nada menos do que cinquenta euros. C’um caraças(!), não faziam a coisa por menos. Mas eu precisava daquela porcaria, caramba! Paciência, lá iam cinquenta euros à vida. Fazer o quê? E dirigi-me para a caixa de pagamento.

Enquanto me dirigia para a caixa, ia olhando a capa e pensando com os meus botões, que cinquenta euros por aquilo era perfeitamente inconcebível. E por mais voltas que desse, não conseguia perceber como é que uma folha de dezoito por vinte e quatro centímetros, de um qualquer material, com um lado de metal aderente por íman, poderia custar aquele dinheiro todo!? Não se justificava de maneira nenhuma. Mesmo que fosse pele, ainda assim, não podia valer aquele dinheiro. Era um roubo. E eu era obrigada a pagar aquilo? Não estava nada satisfeita, nem um pouco. Se pagasse tanto, mas ao menos se justificasse? Não era o caso. Quanto é que aquilo para mim valeria? Para ser bem franca, bem honesta, nem cinquenta, nem trinta e nem vinte. Dez(?)… nem isso. Não, na verdade, aquilo por cinco euros já estava bastante bem. Não, nem cinco euros. Na verdade, não dava mais que três ou dois euros. Era isso. Dois euros pagavam aquilo, porque realmente não valia mais do que isso. Cinquenta!?... Era um delírio. Um atentado à bolsa de quem quer que fosse.

Pus em cima do balcão e quando o empregado pegou no leitor da barra de códigos, deu-me um “vaipe” e disse: “não, desculpe, mas não vou levar”. Como ele parecia não me ter ouvido, repeti: “desculpe, mas não vou levar, é muito caro, não vale o preço”.

O rapaz parecia não me dar a menor importância e continuava com o leitor a passar. Já o tinha passado várias vezes, sem que eu conseguisse perceber porque o fazia, mas não me respondia e estava muito empenhado no que estava a fazer. De repente, parou e pediu-me para esperar um pouco. Pensei, mas vou esperar porque cargas de água, se já lhe disse que não vou levar? Vi-o dirigir-se ao corredor onde estava o mesmo material e trazer outro. Voltou à caixa e passou o segundo no mesmo leitor. Olhava para um e para outro e voltou novamente a ir buscar um terceiro e um quarto. Não havia dúvidas, porque cada um era de cor diferente. O que eu tinha escolhido era o único preto. E mais uma vez insisti: “não quero, desculpe, é muito caro”. Mas ele continuava empenhado não sei em quê, com as capas para trás e para a frente, fazendo-me sinal para esperar, esperar… esperar o quê(?), pensava eu. Estive vai não vai para me ir mesmo embora, mas ele estava a ser insistente e alguma coisa me dizia para ter um pouco de paciência e esperar.

E fui esperando, enquanto ele resolveu chamar outro colega. E foram novamente os dois ao mesmo sítio, ver… não sei o quê. E eu à espera, sem fazer a menor ideia do que se passaria e nem estava muito interessada. Só queria mesmo era ir-me embora. E veio outro empregado e estavam já todos à volta daquele assunto, que tanto discutiam, sem que eu tivesse a mais pequena ideia do que poderia ser. E mais uma vez voltou à caixa, mas desta vez, delicadamente, chamou-me, pedindo-me para o acompanhar. E eu pensando: “mas que grande chato… o que é que ele quer(?)… já lhe disse que não quero!” E conforme pensei, disse em voz alta. Então, para meu grande espanto, o sujeito, passando novamente a capa preta pelo leitor, perguntou: “são dois euros, a senhora está interessada?” E ficou olhando para mim, à espera da minha decisão.

Dois Euros? Perguntei, meio confusa. Como, dois euros? Não eram cinquenta? Sim, respondeu ele. Todos os outros passam com cinquenta euros, mas este passa com um euro e noventa e nove cêntimos e é o único com este preço, se a senhora ainda estiver interessada, é o preço dele…

Mas é diferente dos outros(?), perguntei. Não, é exactamente igual. Já estive a ver com os meus colegas, não há diferença absolutamente nenhuma. A única diferença é no preço. Não sabemos explicar porquê. Mas está tudo certo. O leitor diz que é precisamente um euro e noventa e nove. Quer levar? …

Ah, claro. Por esse preço não tenho dúvidas, respondi perplexa, porque se eles não sabiam, não era eu que ia saber. Enfim, aquele estava ali à minha espera, sem dúvida nenhuma. E lá fui eu, contentinha da silva. Finalmente tinha uma capa nova. Não era bem aquilo. Mas por um euro e noventa e nove, estava óptimo e saí de mansinho, o mais rapidamente possível, para não se arrependerem e voltarem atrás. Estava feito.

 Bingo!


quinta-feira, 30 de março de 2017

Os tios padres - 35


Era o ano de 1980, ano em que o meu filho nasceu. Eu estava nos Açores, mais propriamente em Ponta Delgada, ilha de S. Miguel, onde vivia e trabalhava, mesmo no início das Delegações da RTP nos Açores, o que foi uma bela experiência. 

E foi também nesse ano que, no quinto mês de gravidez, deixei os Açores e retornei à base, Lisboa, acompanhada pelo meu marido, uma vez que ele já tinha percebido que lá, todo o seu potencial profissional e intelectual, sempre seria subaproveitado, sem a mais pequena possibilidade de o expandir e fazer crescer. 

Mas não foi exactamente essa a razão que nos fez regressar. Isso, sim, mas principalmente, a minha gravidez. Nos Açores não havia médico da especialidade, havendo dois médicos de clínica geral que se dedicavam a isso de modo muito particular. E eu queria um obstetra a sério, em quem pudesse confiar, o que fazia, necessariamente, com que o meu filho nascesse em Lisboa, o que, de facto, aconteceu. Com cinco meses de gravidez lá viemos nós, de armas e bagagens para o Continente, onde o futuro nos aguardava. 

Enquanto estava nos Açores, quase todos os dias ia a casa da senhora minha sogra, que vivia com um dos irmãos padres. Eram dois, mas o outro era prior na Lagoa onde vivia, não muito longe, porque ali nada é longe. As distâncias são todas pequenas. E a minha sogra vivia no seu enorme casarão com o irmão padre de quem cuidava, sendo que o da Lagoa ia lá muitas vezes. Era normal chegar e encontrá-lo lá. Sempre que tinha um tempinho, metia-se no carro e ia a Ponta Delgada ver a irmã, o irmão e os sobrinhos. E como eu morava praticamente ao virar da esquina, todos os dias passava por lá. Às vezes almoçávamos, outras vezes jantávamos e por ali andávamos, entre uma casa e outra. 

Os tios padres eram muito engraçados. De estatura baixa, cheinhos, gostavam de comer e comer bem, as coisas da terra e à moda da terra, que a minha sogra tão bem sabia fazer, pois era uma excelente cozinheira e nunca deixava uma refeição ao acaso, isto é, todas as refeições eram especialmente bem preparadas, regadas com uma boa pinga e tudo bem apimentado com a pimenta que nunca podia faltar. 

Os tios padres, toda a vida habituados a serem bem tratados, se alguma coisa estivesse menos bem, logo tratavam de reclamar. Em nada poupavam a irmã, que era uma santa senhora e nunca se cansava, por mais esfalfada que estivesse. Mas, em nome da igreja, do senhor santo Cristo e mais não sei o quê, tudo ali andava ao sabor da santa madre igreja. E eu sempre aproveitava para os picar quanto ao vinho, dizendo-lhes que os padres não podiam beber e outras coisas, ao que eles se mostravam muito indignados, reclamando: “ora essa, nã podem beber vinho? Quem disse uma cosa dessas?” 

Eu não lhes perdoava. Mal pusessem o pé em ramo verde, já estava em cima, lembrando-os de que eram padres. Também é verdade que se estavam nas tintas, murmurado entre dentes e desdenhando das minhas observações. Mas era tudo na reinação. Por mim, queria lá saber do que eles faziam ou diziam! Era lá com eles. Não era eu que era padre nem freira!?... 

Um dia, entrando em casa, subi as escadas de acesso ao primeiro andar e fui direita à cozinha, onde estava a minha sogra, para a cumprimentar e passando no escritório, estava o padre Domingos fazendo umas arrumações na sua vasta biblioteca pessoal. Mas não estava sozinho. O padre Agostinho, sentado numa cadeira e fumando – outra coisa com que eu sempre os chateava, o tabaco -, observava, indiferente, os afazeres do irmão. 

A páginas tantas, o padre Domingos puxa de uma cadeira para junto de uma das estantes e leva consigo um livro, enquanto faz um esforço para subir na cadeira e chegar à dita estante a guardar o livro. De pé na cadeira com a sua figura engraçada: cabelo bem grisalho, cujas pontas formavam caracóis pequeninos; óculos descaídos na pontinha do nariz, com armações pretas a condizer com a roupa sempre preta e o seu aspecto de barrilinho - porque toda a sua gordura crescia em direcção à barriga; tanto de baixo para cima, como de cima para baixo, tudo se acumulava de vez à volta do umbigo, dando-lhe a forma de um verdadeiro barril -, para não ter de descer novamente, pede ao irmão que lhe chegue um outro livro que estava sobre a sua secretária. 

Naquela bela pronúncia açoriana bem cerrada e comendo as sílabas, que um continental não acostumado nada entende, dirigindo-se ao irmão que continuava sentado com um ar bem tranquilo, para não dizer preguiçoso, de quem não está realmente à espera de nada nem de ninguém que interrompa a sua mui digna e apreciada lazeira, diz-lhe: “oh Agostinho, chega-me aí aquele livro”. De cigarro numa das mãos, com a outra apoiada no joelho da perna traçada e fazendo um notório esforço para ter de falar, limita-se a responder “qual livro?” 

Eu estava de parte. Não chegava a ter entrado e perante aquele quadro, em relação ao qual antevia uma boa risada para mais tarde continuar, quando contasse ao meu marido, fiquei onde estava. O bom do tio padre Domingos, insurgindo-se, retorquiu: “Oh home, nã vez ali em cima da secretária?” Mas como o outro não lhe dava jeito ver o livro, continuou “Adonde?” ... 

“Acolá”, dizia o outro, já mais energicamente, para não dizer encolerizado. Mas o Padre Agostinho não fazia mesmo a mais pequena intenção de ver ou dar atenção. Ele queria era não ser incomodado de jeito nenhum. Era outro barril, mas um barril mais uniforme. A gordura distribuía-se mais por todo o corpo. Comer, beber, fumar e dormir, eram coisas que não dispensava. E ainda fazer a sua propagandazinha política, insinuando os fiéis, durante a homilia, a votarem na "mãzinha" fechada, conforme ele próprio mostrava.

Os dois eram bem diferentes, no tocante à personalidade. Padre Domingos era padre da cabeça aos pés. Mesmo quando não estava "fardado", a sua indumentária, bem como a sua postura, eram de um padre. Em qualquer circunstância, enquadrado em que cenário fosse, olhava-se para ele e via-se um padre, escarrado e pintado. Tinha sempre um ar sério, compenetrado e invariavelmente andava sempre com a sua bíblia atrás, dando-lhe um ar de seriedade, compenetração e de uma certa tranquilidade. Já Padre Agostinho era totalmente diferente. Só quem o conhecia é que o via como padre. Ao contrário do irmão, andava sempre à paisana, com roupa perfeitamente normal. Além disso, não tinha o hábito de andar com a bíblia nas mãos. O que eu lhe via sempre era um cigarro. E só usava o hábito em plena missão litúrgica.  

“Na querem lá ver, agora tenho que me levantá pa te dá o livro?!” – “Custa-te munto?” - perguntava o outro. “Pôs claro que me custa!”... Valha-me Deus, que nesta altura eu já ria a bom rir, só por dentro, porque já tinha história.  Padre Domingos: “Oh Agostinho, dá-me o livro, fazes favôoor!”. Agora já era uma ordem, já não era um pedido. Padre Agostinho, sem se livrar da sua calma, apaga o cigarro já no fim, levanta-se pachorrentamente e aproximando-se da secretária, pergunta: “é este livro?” 

“Sim, chega-me cá, se fazes favor” diz o padre Domingos já impaciente. Padre Agostinho dá mais dois passinhos na direcção do irmão e com uma mão enfiada no bolso e a outra segurando o livro responde: “toma”. Só que o livro estava um pouco, para não dizer muito, abaixo da altura do outro. E não era nada difícil chegar-lhe, por ele ser de baixa estatura, mas conhecendo-o como o conhecia, sabia que era intencional. 

Naquele momento, para mim, ambos tinham deixado de ser quem eram, dois padres, dois adultos, para serem não mais que duas crianças brincando. Só que não era brincadeira, era sério. E eu, cada vez mais deliciada, imaginando a cara e o riso do meu marido quando lhe contasse a cena. Ele sempre ria com gosto das cenas que lhe contava. E aquela não fugiria à regra. 

Padre Domingos, percebendo que o livro estava muito abaixo, não foi de modas: “oh home, chega cá o livro, se fazes favô”, dando-lhe aquela acentuação bem carregada, ao que o outro respondeu: “se queres o livro, tá aqui” – sem o levantar um só milímetro. Não havia dúvidas, a festa estava a começar. E eu sozinha, para presenciar, porque a minha sogra, entretanto, tinha passado para a sala de estar e estava entretida com os seus tricots, entregue aos seus pensamentos e tudo lhe passava ao lado, até porque já era um pouco surda. 

E então começa um despique que nunca mais acabava. Um dizia “chega aqui acima”, o outro dizia “chega cá abaixo, na te podes baixar um bocadinho?” Depois o outro dizia “és tu que tens que chegar aqui a cima” e o outro respondia “és tu que tens que te baixar pa apanhar o livro”. Eu realmente estava passada. Só queria ver os “fiéis” a assistirem àquela brincadeira de garotos embirrentos. Ninguém ia acreditar. Era surreal. Por isso mesmo, dei um pulinho à sala onde estava a minha sogra e contei-lhe o que se estava a passar, o que não a perturbou muito, pois já estava habituada. Deu um sorriso e continuou imperturbável, apreciando o seu sossego. Voltei ao posto de observação e a cena continuava, com os dois desafiando-se. Ambos querendo ter razão, ambos se achando com mais direitos que o outro. És tu que… não, és tu que… 

“Na querem lá ver”, dizia um. “Na podes fazer um esforçozinho(?)”, perguntava o outro. Aquilo era demais. E quando já tinha o papo cheio da brincadeira, entrei, tirei o livro da mão do que estava em baixo e dei ao que estava em cima. De um lado ouvi a palavra “obrigado”, do outro “ele que viesse buscá-lo”. Pronto - disse eu -, está resolvido o problema. Mas não estava, porque continuaram a discutir quem é que devia a quem. O sexo dos anjos, pensei.

 Males de família.