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quarta-feira, 29 de março de 2017

O melro - 34


Há uns anos atrás, iniciei um projecto a que chamei “primavera”, que achei interessante e ao qual dei continuidade. Foi num daqueles anos difíceis, em que parece que tudo vai por água abaixo e por mais que pensemos, parece que nada faz sentido. E, pensando nisso, apercebi-me de que o mesmo se passava com algumas das minhas vizinhas, porque um dia, ao sair do carro, cruzando-me com uma delas, depois dos cumprimentos habituais, aproveitou para se lamentar dos seus problemas pessoais, fazendo-me pensar – não sou a única. E outro dia mais tarde, aconteceu a mesma cena com outra delas, que também começou a desabafar acerca das suas apoquentações. E, mais uma vez, pensei – não sou mesmo a única. E apareceu outra que veio com mais problemas, quase chorando por isto e por aquilo. 

Em casa, sozinha, reflectindo sobre os problemas delas para me esquecer um pouco dos meus, veio-me uma luz. As pessoas precisavam de falar. Precisavam de ser ouvidas e verbalizar os seus males para se sentirem mais aliviadas. Precisavam de partilhar o mau e talvez o bom. Também me lembrei de que eram pessoas que viviam sozinhas. Claro que tinham família, mas viviam de modo independente. E, muitas vezes, não é com a família que se partilha um certo número de coisas ou a família já está cansada de ouvir. Então, porque não, criar um grupo de convívio para desabafar, partilhar, mas sobretudo para nos sentirmos mais unidas e mais apoiadas? 

Nesse sentido, falei com elas, uma de cada vez, explicando a minha ideia e propondo a minha casa como ponto de encontro, num dia certo da semana. A ideia foi muito bem recebida e o grupo foi formado. Eram seis, comigo sete. E divertíamo-nos imenso. Conversávamos, contávamos piadas, histórias de vida engraçadas e curtidas. Outras vezes fazíamos jogos. Jogávamos às cartas e outros jogos foram aparecendo. Aproveitávamos os aniversários para nos reunirmos e fazermos uma festinha, tudo em minha casa, embora a ementa fosse distribuída por cada uma de nós. E uma vez por outra fizemos passeios muito bons, muito agradáveis. 

O facto é que o grupo gerou uma dinâmica muito positiva na vida de cada uma de nós e trouxe uma maior confiança individual, capaz de ajudar a transmutar as energias negativas que até então predominavam, fazendo-nos acreditar que as coisas ruins não paravam de acontecer. Começou a haver uma abertura muito grande e foram ultrapassadas barreiras muito importantes para o desenvolvimento pessoal. Era um incentivo enorme que dávamos na vida umas das outras e muito mais coisas. E, ainda por cima, com uma enorme vantagem. É que ninguém precisava de se arranjar, nem de sair à rua. Pelo contrário, toda a gente enfiava as confortáveis pantufinhas, pijamas e robes de trazer por casa. À hora certa, as portas abriam-se e lá vinham elas para uma sessão de desopilar. Divertíamo-nos imenso e fizemos muito bem umas às outras. 

Quando a hora já ia adiantada e o cansaço começava a dar sinais, encerrava-se a noite de convívio e cada uma voltada a sua casa. Porém, quase todas tinham ainda que dar um giro com os seus animais domésticos, trocando rapidamente os robes por casacos e as pantufas por calçado de rua. E quem não tinha cão, tinha gato, etc. Só eu não tinha animais. Não é que não gostasse, mas achava e acho que não tenho jeito e, além do mais, não me apetecia ter trabalhos dessa natureza. Mas havia uma que tinha um pássaro numa gaiola. Pássaros eu gostaria, mas presos na gaiola já não tinha muita graça. Mas era giro. Foi então que me veio uma ideia. Era inverno, mas a primavera viria como sempre. E se eu pusesse comida aos pássaros? Eles viriam a um quinto andar? 

Essa ideia deixou-me imensamente animada. Eu pagava para ver. Se eu pusesse comida e água eles viriam. Viriam só para comer e beber água. Eu não teria outro trabalho e melhor que tudo, seriam livres, livres para continuar a ser como eram. Não eram de ninguém, eram da natureza. Eram livres e ninguém tinha o direito de os aprisionar. E só viriam se quisessem. 

E aí começou o meu projecto “primavera”. Quando o inverno estava quase a terminar e o tempo já estava a melhorar, um dia, espalhei bocadinhos de pão numa ponta do parapeito de pedra, do lado de fora da janela do quarto, bem como um pequeno recipiente com água. Tinha que ser no quarto, para ser acordada com o chilrear da passarada e imaginar que estava no campo. Eles acordar-me-iam suave, suavemente, trazendo os primeiros raios de sol, ajudando-me a despertar alegre e bem disposta, com a sensação da companhia deles. 

E os dias foram passando e eu vigiando, para que não faltasse nunca o pão para a passarada. Primeiro, experimentaria com o pão para ver se resultava, depois logo se via. E agora restava esperar. 

De facto, num belo dia, fui acordada com o chilrear de um pardalito. Numa primeira reacção, estava desligada do que ouvia, mas logo me lembrei do meu plano, do pão e da água à espera e então tomei consciência de que a resposta tinha chegado. Um pardalito tinha descoberto a comida e estava feliz e contente, porque aos pulinhos no parapeito da minha janela do quarto. Levantei levemente a cabeça e lá estava ele, calmo e tranquilo, longe de pensar que, por trás dos vidros fechados, estava a ser observado. 

Fiquei muito feliz. Muito feliz mesmo. Um passarinho tinha vindo. Agora éramos amigos porquanto tempo ele o quisesse, porque agora eu continuaria a pôr comida e água fresca ainda com mais cuidado. E sentada na cama, em silêncio, deliciava-me com ele cantarolando e pulando tão solto e livre, fazendo-me sentir deliciada com aquele maravilhoso encontro matinal. E no outro dia ele voltou e mais outros se juntaram. Além disso, comecei a observar, quando estava em casa, que várias vezes durante o dia também apareciam. Volta e meia ouvia o piar dos pardalitos a saltar no parapeito da janela e espreitava. Lá estavam eles bicando aqui e ali. Eu vigiava e voltava a pôr o que julgava necessário para que os que viessem se sentissem felizes e contentes. A alegria deles era a minha alegria. E o prazer que aquilo me proporcionava era indescritível. 

Os dias seguiam-se e todas as manhãs eu acordava com a chilreada. Era lindo! Eles anunciavam um novo dia e eu voltava a dormir com um sorriso de satisfação nos lábios. Dormia e sonhava que eles eram meus, mas com toda a liberdade que lhes era devida por direito. Sem que nada os prendesse, faziam parte do meu mundo, porque todas as manhãs marcavam presença, bem como várias outras vezes durante o correr do dia.  

Os anos foram passando e o projecto “primavera” repetindo-se. Sempre me foi difícil acostumar com o inverno. Cada dia de inverno que passava fazia-me chegar mais próximo da primavera, só que agora a primavera trazia a surpresa dos passarinhos, que eu tanto gostava e o dia que marcava a chegada deles, dos meus amiguinhos, era uma festa e tanto. A primavera tinha passado a ser anunciada pela chegada deles à janela do meu quarto, através deste ritual que me ajudava a ultrapassar melhor o inverno. 

E mais um ano que não fugiu à regra. Quase no final do inverno, chegou o dia em que achei que estava na hora e, como de costume, lá pus a água e o pão todo esmiuçadinho. Um belo dia, acordei cedo com o despertar de um pássaro que cantava divinamente. Cantava que era um regalo. Abri um olho, depois o outro e pensei: a minha primavera chegou. Foi uma alegria e tanto. Só que percebi que não era um pássaro habitual. Pelo canto, percebi que não era um pardal. Os pardais não cantavam daquela maneira avassaladora. Mas eu estava com muito sono e continuei a tentar dormir. O pássaro continuou cantando e eu deliciada, tentando dormir. E a páginas tantas adormeci outra vez.  

Sensivelmente uma hora depois, talvez, o pássaro voltou, porque o canto iniciou. Levantei-me sorrateiramente e espiando por todos os ângulos, percebi que era um melro pequenino, porque era escuro e tinha o bico alaranjado. Que bonito - pensei - e como canta! E no dia seguinte lá estava ele novamente com a sua cantoria. Mas era muito cedo. O sol ainda nem tinha aparecido, mas ele cantava que era uma loucura. Acabava e recomeçava, tantas vezes que eu já sabia o que vinha a seguir. Já sabia a música de cor. E nos dias seguintes lá vinha ele. E depois de muito cantar, ia-se embora, para voltar uma meia hora depois, em que iniciava todo aquele festival de música e eu queria dormir e ele não me deixava dormir. Dali não saía nem por nada. Mas se saía, logo voltava e cantava que nunca mais acabava. Comecei a ficar possessa. Cada dia vinha mais cedo e o meu sono lá se ia. Comecei a ficar muito irritada. Tapava a cabeça com uma almofada, mas de nada servia porque era muito forte e muito longa a sua cantoria. 

E agora, o que fazer? Estava numa encruzilhada. Já não achava mais graça e já não podia ouvir o melro. Só de pensar nele, quando à noite me deitava, já ficava incomodada e para me acalmar pensava “pode ser que não venha amanhã”. Na madrugada do dia seguinte lá estava ele a tramar o meu sono. Aquilo começou a ser uma completa tortura, porque já não tinha graça. E agora não sabia o que fazer. A solução era não lhe pôr mais comida, mas aí eu ficava cheia de problemas de consciência. E passaram-se uns dias em que andei às voltas sem saber o que fazer com o melro. 

Então, as coisas aconteceram naturalmente. Fui-me esquecendo de pôr comida e água, por conta do problema do que fazer com ele. Como só pensava nisso, esqueci-me mesmo e a comida acabando naturalmente, ele então se afastou. Coitado do melro - pensei um dia -, nunca mais voltou! Mas logo me lembrei da tortura que era querer dormir e não poder, com a cantoria dele. 

Curei-me de vez. Já não sinto a falta da passarada. Já não tenho a necessidade que tinha da presença deles. Acabou-se o projecto “primavera”, mas aprendi a sentir-me feliz sem estar dependente deles.  

Tal como o melro, ganhei asas e voei. 


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O prego - 33


Eu estava furiosa. Furibunda! Quem era aquela criatura diabólica, mal humorada, que estava na minha frente, enfrentando-me da maneira mais agressiva e desagradável possível? Aquilo não podia existir.

 

Eu tinha ido a casa da minha tia que já estava bastante doente, movimentando-se com imensa dificuldade, o que fazia com que as minhas idas fossem cada vez mais frequentes, para a ver e dar o apoio possível.

 

Numa dessas idas, já de saída, dirigi-me ao carro, estacionado em frente de casa, do outro lado da rua, no que fui surpreendida por outro carro estacionado atrás do meu, em segunda fila. Naquela zona, bem no centro de Lisboa, acontece muito isso. Todavia, normalmente as pessoas estão atentas ou colocam indicação sobre o tablier, bem visível, informando o contacto, para não dificultar a vida de ninguém.

 

Acontece que, depois de ter inspecionado o veículo, não encontrei nada, absolutamente nada que me desse uma pista, o que achei muito estranho. Olhei em volta e não vi ninguém suspeito. Como não houvesse a mais pequena hipótese de sair dali sem que o carro mal estacionado saísse, dei uma buzinadela rápida, não querendo fazer muito alarde. Mas, ao contrário do que era esperado, ninguém deu sinal de vida.

 

Aquilo estava estranho. Muitos carros estacionavam ali em segunda fila e caso não colocassem nenhuma mensagem sobre o tablier, bastava dar um toque rápido para alguém sair correndo e pedir desculpa pelo incómodo. E assim, tudo ficava bem, sem problemas de maior. Agora, aquela cena, não me estava a cheirar nada bem. Contrafeita, decidi dar outra buzinadela. Esperei, mas uma vez mais, ninguém se acusou. Estava tudo tranquilo demais para o meu gosto. O que se estaria a passar? Não era normal. Quem, em sã consciência, deixaria um carro assim!?

 

Esperei, a pensar no que haveria de fazer, ao mesmo tempo que tinha esperança de que, entretanto, alguém aparecesse correndo e desculpando-se por isto ou por aquilo. O facto é que nada acontecia. Buzinei mais uma, duas vezes, aumentando a intensidade e o tempo e eu própria já estava mais do que incomodada por ter que ser obrigada a fazer o que não queria. Não faltaria muito, a rua toda estaria a chatear por causa do barulho, mas fazer o quê?

 

E vinha uma pessoa à janela espreitar por trás dos vidros, abrindo sorrateiramente o cortinado, o que me dava uma esperançazinha, para logo se retirar, o que me deixava muito desolada. E depois outro aqui, outro ali, mas a verdade é que ninguém se acusava e também ninguém reclamava do barulho que eu estava a fazer, o que me deixava ainda mais intrigada. A minha intuição dizia que havia ali alguma coisa estranha que me escapava e eu não conseguia entender.

 

Sempre na esperança de que alguém acabasse por vir, mais minuto menos minuto, comecei a investigar o carro. Um Honda, que no banco traseiro tinha uma cadeira de criança pequena. Portanto e, em princípio, seria um residente. Mas para ser um residente não podia abandonar o carro assim tão mal estacionado. Ter-se-ia esquecido de deixar indicação? Mas depois de tantas buzinadelas e tanto chinfrim que eu já tinha feito, não era possível que ainda houvesse alguém que não tivesse ouvido!?...

 

A minha impaciência já tinha começado a dar sinal há muito tempo, mas agora era mais do que isso. Eu sentia-me prisioneira e isso estava-me a dar cabo do juízo. Não sei lidar com isso. Como era possível que ninguém viesse tirar o carro dali? O proprietário tinha deixado o carro ali abandonado, sem ligar peva ao assunto ou então teria morrido subitamente!? Era esquisito por demais.

 

Foi então que, não tendo alternativa, liguei para a polícia informando o que se estava a passar. Pediram-me a informação do local, a identidade e fiquei-me, aguardando a chegada das autoridades, embora sentindo-me muito mal por ter que ser obrigada a isso.

 

O tempo ia passando e nisto tudo já lá ia uma hora. Achando que era um abuso e que ninguém tinha o direito de fazer uma coisa daquelas, esperar pela polícia sim, mas decidi que havia de fazer mais alguma coisa para mostrar o meu completo desagrado por aquela lastimável situação e comecei a buzinar sem tirar o dedo da buzina. Aquilo até doía. Doíam os meus ouvidos, a minha paciência, os meus nervos, os meus dedos… mas tinha que ser. Precisava desesperadamente de saber quem era o imbecil ou a imbecil que se atrevia a não reagir perante um ato daqueles.

 

Em vão, porque tudo continuava na mesma até que, no prédio em frente, do lado contrário da rua, aparece à janela, aberta para o efeito, num terceiro andar, um indivíduo dos seus trinta e cinco anos, dizendo “toque no rés-do-chão direito”, ao mesmo tempo que apontava para baixo. Eu nem queria acreditar. Tinha surtido efeito. Alguém tinha reagido, mas ainda não era ali. Era apenas o caminho.

 

Mal tive tempo de agradecer, o rapaz fechou a janela e desapareceu. E lá fui eu, atravessando a estrada, dirigindo-me ao tal do rés-do-chão direito. Uma luz no fundo do túnel. Mas era uma luz um pouco escura, para não dizer muito escura. Pensando bem, aquela história estava cada vez mais estranha. Eu estava a fazer aquela barulheira toda a escassos metros do presumível proprietário do carro e ainda assim o sujeito ou a sujeita não dava a cara? Só podia ter morrido! Que outra razão levaria uma pessoa normal a agir assim, sem se importar com o estrago que estava a fazer na vida dos outros?!

 

Dei um toque na campainha, ainda esperando que alguém viesse correndo com alguma desculpa que ainda não me tivesse ocorrido, mas nada. O sujeito de cima, que me tinha dado a indicação do proprietário, era credível, com toda a certeza. Não tinha como duvidar. As chances de se ter enganado eram praticamente nulas. Agora eu até já começava a pensar que talvez o proprietário estivesse habituado a fazer aquilo… e como ninguém respondesse, perdi a paciência de vez, pus o dedo na campainha e não tirei mais. Ah… agora sim, alguém vinha lá. Ingenuamente, pensava comigo mesma, qual seria a desculpa que teriam para me dar(?).

 

Qual desculpa, qual quê… eu estava era a sonhar acordada e completamente fora da realidade que me esperava. Abriu-se a porta de casa e sai de lá uma mulher que aparentava os seus sessenta e muitos anos, mal humorada, carregada de energia negativa, que parecia que me vinha bater. Nos segundos que ela levou para percorrer o espaço da porta de casa até à porta do prédio, que abriu furiosamente, percebi imediatamente que estava lixada, como se fosse eu que estivesse no caminho dela e não ela no meu.

 

Ao abrir a porta, a mulher simplesmente descarregou em cima de mim todo o seu mau humor, num tom de voz insuportável, dizendo “páre com isso, que ainda me acorda a criança!” Eu nem podia acreditar no que acabava de ouvir. Então, uma louca daquelas, esgrouviada, com uns cabelos que parecia uma bruxa, tinha uma criança a seu cuidado? Uau!...

 

Quando consegui começar a falar, tive que ser muito firme e ter muito sangue frio, para apenas lhe perguntar se o carro mal estacionado era dela, ao que ela olhando para mim de alto a baixo e cada vez mais agressiva, respondeu “é sim, porquê?” Porquê, perguntei, não percebe que está mal estacionado e que preciso de sair(?), continuei. Quero lá saber, respondeu ela, com o maior desdém e o maior desprezo. O quê? Retorqui, pois fique sabendo de que já chamei a polícia. Quero lá saber, continuou ela, olhando para mim como se eu fosse o seu inimigo número um e continuando, dizia, pode chamar a polícia, pode chamar quem quiser, sabe porquê, eu não moro aqui, dizia ela com um ar triunfante, teatral e doentio.

 

Eu queria lá saber onde é que morava aquela horrenda criatura. Eu queria era sair daquele filme que não era meu. Eu queria era o meu sossego e a minha paz. E a polícia que não vinha!?... Sua louca, gritava ela para mim. Incrível! Eu estava completamente passada, ainda sem perceber muito bem o que se estava a passar. Sua louca, continuava a mulher, desafiando-me a todos os níveis. Louca é você, disse-lhe eu. Ninguém deixa um carro estacionado daquela maneira. Mas ela praguejava e esbracejava tipo “padeira de Aljubarrota”.

 

Aquilo era absolutamente surreal. Das duas uma: a mulher era ama ou avó. E quem, em sã consciência, deixaria uma criança aos cuidados de uma doida varrida!? Era isto que agora mais me incomodava. Mas para falar a verdade, eu queria mesmo era sair dali. E lá foi ela, dirigindo-se ao carro, o que muito me aliviou. Tirou o carro, eu tirei o meu e desapareci, nervosa e chateada até mais não.

 

Saí dali, enfiei pelo eixo norte-sul em direção à Póvoa e foi um tiro, que nem via nada à minha frente. Passando na estrada nacional, passo na polícia e resolvo parar. Estava tão transtornada que entrei e comecei a desbobinar o acontecido e mais, sobre a criança, que não me saía da cabeça. Relatei o acontecido, insistindo que uma criança não podia estar aos cuidados de uma pessoa assim tão desequilibrada. O sujeito ouviu tudo o que falei e argumentou “a senhora não vê que não temos bases para fazer seja o que for?” Respirei fundo e disse “sei… sim, claro, mas falei”.

 

Na verdade, tinha que despejar aquilo o mais depressa possível, que me estava a incomodar de que maneira. E sabia que tinha sido estupidez ir à polícia, mas apeteceu-me e pronto. Estava feito. Eu tinha que descarregar em alguém para ficar mais aliviada. Até já conseguia respirar melhor. Voltei ao carro e segui para casa.

 

Durante uns dias não conseguia esquecer aquela cena macabra. Sentia uma raiva e uma vontade de me vingar. Vingança, sim, era isso mesmo, eu tinha que me vingar daquela mulher. Mas como? Fui à minha caixa das ferramentas e saquei de um prego pequeno, que olhei atentamente. Aquele prego seria a minha vingança. E imaginei-me a chegar lá, passar ao pé do carro e espetar o prego no pneu. Pronto, estava feito. Ela ia saber exatamente quem teria feito aquilo. Era como se o meu nome lá ficasse escrito.

 

Várias vezes voltei a casa da minha tia, mas o carro não estava lá, ou não tinha tempo ou disposição para me dedicar àquele assunto e pensava, ainda não é hoje. Mas a tua vez está guardada.

 

E chegou o dia em que, descontraidamente, uma vez mais, lá fui ver a tia. E passando calmamente, lá estava o carro à minha espera. Olhando em volta, tudo me parecia tranquilo, pelo que seria fácil pôr o plano em prática. Além disso, aquele assunto precisava de ser encerrado de uma vez por todas. Era a hora. Assim, atravessando a estrada, passei para o outro lado da rua. Como quem não quer nada, tirei da mala o prego e cerrei a mão. Aproximei-me do carro, olhei para o sítio onde poderia espetar o prego e… e, de repente, tudo deixou de fazer sentido. De repente percebi que afinal não queria e não precisava de fazer nada daquilo.

 

Guardei o prego e respirei aliviada. Estava liberta.

 

Mas, o mais importante, é que tive consciência de que aquela mulher não tinha qualquer poder sobre mim e, portanto, eu continuava a ser eu, apenas eu, igual a mim mesma, sempre eu e só eu.



quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

No Deserto - 32


Eram os últimos dias de uma espectacular viagem pelos Emirados Árabes e que não podia terminar sem uma ida ao deserto, que eu ansiava desde o primeiro dia, embora soubesse que estava reservado para o final. 

Deserto era tudo aquilo. Mas quem se lembraria de pensar nisso, quando à nossa volta víamos a grandiosidade dos edifícios e a terra a perder de vista transformada em verdadeiras florestas!? 

E não é que eu não achasse uma maravilha, pois era um megaempreendimento, sem dúvida alguma. Tudo aquilo era um colosso. 

Mas agora sim, estávamos em pleno deserto, onde as dunas pareciam dançar, enfeitiçando a terra com suas formas sensuais de movimento ondular irregular, palco de mistérios insondáveis, de lendas que se estendem pelo tempo, fantasiando a mente humana sob as noites de mil estrelas e das histórias das mil e uma noites, ao som dos ventos que se desdobram na imensidão do vazio interminável, onde tudo se conjuga numa onda de solidão varrida de loucura, em busca duma qualquer, mas total liberdade harmoniosa, sui generis… tudo, menos vulgar. 

O deserto é lindo, na sua forma primária de cores da terra em tonalidades marcadas pelas sombras que só o sol é capaz de desenhar. O deserto é a forma mais bruta da natureza e por isso também a mais ousada. 

Tínhamos acabado de almoçar no restaurante mais alto do mundo e de regresso ao hotel, lá estavam os jipes, cada um com seu motorista, a fim de nos proporcionarem uma viagem de sonho pelo deserto. Eu estava ansiosa, como não podia deixar de ser. Já tinha estado no deserto, mas é sempre diferente, sempre irresistível e apaixonante. 

Kabir era indiano. Tinha emigrado para o Dubai porque ganhava bastante bem para sustentar a sua família na Índia e ainda fazer uma boa reserva. Era jovem, alto e fisicamente bem constituído. Usava uns óculos de sol bem escuros e largos, que lhe tapavam completamente os olhos e lhe davam um ar cheio de “estilo”, todo moderno. Era decidido e desenvolto. Por isso, depois de observar todos os motoristas, decidi que iria com ele. Dirigi-me ao seu jipe informando-o da minha decisão e logo ele me mandou sentar no banco da frente, bem ao seu lado. 

Ao todo eram cinco jipes e além de mim, seguiam ainda quatro mulheres e um homem, que faziam todos parte de um mesmo grupo. Mostravam-se bem-dispostos e riam por tudo e por nada, pelo que a viagem foi muito divertida. Enquanto eles se distraiam com as suas charadas, Kabir e eu já conversávamos animadamente, com toda a familiaridade, o que facilitou muito a viagem, mais adiante veremos porquê. Além disso, falávamos Inglês e Hindi, tudo à mistura, pelo que, volta e meia, havia alguém que sussurrava, “mas em que língua estão eles a falar(?)”..., o que eu achava imensa piada. 

Entrámos no deserto e os jipes aguardaram a chegada de todos, para fazermos o mesmo percurso em fila indiana e não nos perdermos uns dos outros. Kabir era muito bom condutor e percebia-se que tinha prática do deserto, o que nos aliviou muito, embora as mulheres estivessem sempre a gritar e a agarrar-se a tudo, com um certo receio do jipe tombar, queixando-se das inevitáveis subidas e descidas. 

E logo um pouco depois da partida surgiu um problema que nos obrigou a parar. Um jipe, que não fazia parte do nosso grupo, ficou com uma roda traseira enterrada na areia e não havia maneira de o tirar de lá. E quanto mais o motorista forçava, mais ele se afundava. Ele não ia na nossa rota, mas Kabir avistou-o e apercebendo-se de que estava metido em apuros, logo se dirigiu para lá, fugindo assim ao nosso grupo. Todos solidários com o jipe empanado, Kabir pediu que ninguém saísse do jipe. Felizmente que, este ninguém, não me incluía. Kabir era perspicaz e percebeu de imediato o meu espírito aventureiro, pelo que me deixou à vontade, para fazer o que quisesse, o que muito apreciei. 

Assim, saímos os dois ao encontro do motorista empanado e ao cabo de uma boa meia hora, lá foi possível desencalhar o jipe. Os dois cavaram até onde foi necessário e colocaram uma tábua de madeira junto à roda. Prenderam um carro ao outro com cordas fortes e com muito empenho, força e destreza, lá foram fazendo manobras em cima de manobras, até que o jipe saiu do buraco passando para a tábua e finalmente se movimentou sobre as areias já normalizadas. Esta foi a primeira aventura no deserto do Dubai. Mas não foi a única. 

Quando finalmente chegámos ao acampamento, já todos estavam no churrasco, nos comes e bebes, mas ninguém se lembrava de perguntar porque nos tínhamos atrasado tanto. Se calhar pensaram que tínhamos andado a passear pelo deserto!... Por isso já tinham iniciado a “festa”. 

Sentada no chão, com que prazer eu apreciava os sabores exóticos de aromas tão suaves como excitantes, numa conversa variada de diferentes idiomas. Cada um com as suas preferências e o buffet circulava livremente, continuando a oferecer de tudo um pouco. Tudo para mim estava perfeito e toda a gente se divertia, cada um procurando o que mais prazer lhe dava, tirando todo o partido possível de uma experiência no deserto, antes que a noite começasse a cair, enchendo o céu de mil estrelas, as mais brilhantes, as mais cintilantes. Estava montada a magia do deserto. 

E o encantamento aumentou, quando uma jovem dançarina começou a sua exibição de dança oriental – dança do ventre - com todo o tilintar das moedas a cair na anca e os lenços de seda pura esvoaçantes, de cores exóticas, sob a luz das estrelas, onde ela se movimentava com toda a beleza e graciosidade. 

Quando tudo acabou era noite cerrada e escura. No acampamento, as luzes eram mínimas. Só a lua e as estrelas iluminavam o deserto e todos começavam a procurar os respectivos carros para o regresso ao hotel. No meio de tudo isto, não consegui encontrar os restantes do meu grupo, nem o jipe, nem Kabir, meu motorista preferido. Por algum tempo me senti perdida, sem saber que direcção tomar. A verdade é que só via os jipes a debandarem e o acampamento a ficar cada vez mais vazio. Mas não era possível que se tivessem ido embora sem mim!?... 

Olhando em redor, apercebo-me de um pequeno grupo de pessoas todas muito juntinhas. Quem seriam? O que fariam? Não me restando alternativas, vou na direcção delas que, curiosamente, ficaram muito animadas à minha chegada. Só então me apercebi de que era todo o meu grupo, como eu ou mais que eu, assustadas, sem saberem o que fazer. Ah… então o problema não era meu! 

Perguntaram-me pelo motorista e respondi que não fazia a menor ideia, pois nunca mais o tinha visto. E todas encolhidinhas e agarradas umas às outras, perguntavam “e agora, o que fazemos?” Pensei, “temos que ir à procura dele, porque tem de nos levar de volta”. Já todos tinham partido, só nós ali desterradas na imensidão do deserto. Mas elas não estavam com a menor vontade de sair dali para o procurar. Pedi-lhes que se mantivessem no mesmo sítio, para não nos perdermos, enquanto eu iria procurá-lo. 

E lá fui eu. Missões impossíveis sempre estarão guardadas para mim. Andei e andei, avistando umas luzes que não percebi muito bem o que eram. Mais perto, percebo que eram luzes de um carro parado, com a porta do lado do motorista aberta. Percebi também que havia duas luzinhas vermelhas, movendo-se lentamente, que só podiam ser cigarros. Logo, pelo menos, de duas pessoas se tratava. 

Pouco à vontade, chego junto e pergunto se sabem de Kabir. Um dos dois indivíduos levantou-se, falou qualquer coisa ao outro, que não entendi e logo se afastou, enquanto o que ficou, abriu a porta para eu entrar. Na verdade, não o reconheci. Não reconheci o rosto dele. E enquanto fomos buscar os outros do nosso grupo, que ficaram numa enorme alegria quando me viram chegar com ele, Kabir comentou com uma certa curiosidade o facto de eu não o ter reconhecido. Respondi que estava tudo na escuridão e que ele estava sem óculos. Mas ele não aceitou e não sem um certo espanto da minha parte, disse “qualquer outra mulher no mundo inteiro podia não me reconhecer, mas tu não”. 

Hum?… eu nem queria acreditar no que ele dizia, mas pensando um pouco, entendi que ele se referia ao facto de eu ser indiana e daí a nossa afinidade. E mais, face a toda a minha experiência de vida, por questões muito peculiares, no seu entender, ele achou que eu devia tê-lo reconhecido, sem qualquer hesitação. Pedi-lhe desculpa, apenas porque aquilo que aparentemente parecia ser uma nota negativa a meu respeito, não era senão um elogio. Interessante!... Ainda mais porque eu tinha idade suficiente para ser mãe dele. 

E lá fomos nós, o último jipe, sempre o último, por isto ou por aquilo. Mas a esta altura eu já me sentia bastante segura. Kabir era confiável e corajoso. Até já tinha esquecido que, na verdade, e foi mesmo por um triz, quase fiquei no deserto. E aí ficava mesmo. Mas, só não fiquei, como aprendi uma preciosíssima lição. 

A páginas tantas, quando já tinha experimentado toda a comida e a dança ainda não tinha começado, ainda era dia e resolvi, para não variar, por minha conta e risco, dar a minha voltinha, sozinha. 

Quase todos tinham ido para os camelos e como já não era novidade para mim, preferi investigar o deserto, do meu jeito. Assim, comecei a caminhar, afastando-me um pouco do acampamento, o que foi um erro. Havia dunas e poços de areia, alguns dos quais, com alguma vegetação própria do deserto. E a páginas tantas deixei-me levar e cometi outro erro: desci pela duna abaixo, até ao fundo, ao poço de areia. 

Enquanto me deixei escorregar, achei que era uma sensação e tanto. Eu por ali abaixo e a areia atrás de mim. Senti-me uma criança, apreciando a brincadeira ingénua, com o perigo à espreita, ao qual eu estava completamente alheia. Levantei-me do chão, dancei, fiz umas maluquices e achei que estava na hora de voltar à base. Foi então que tomei consciência da burrice que tinha feito. Uma burrice sem tamanho. Foi tão bom descer, mas… e agora para subir? Um pé à frente e outro atrás, mas estava sempre no mesmo sítio. É claro, não havia a mais pequena firmeza nas areias. Mais um pé e outro e eu só descia. Contra tudo e todos, descia, descia. 

Olhei para o alto e percebi que dali não sairia. Comecei a entrar em pânico. Estava longe do acampamento, não adiantava gritar por socorro. A coisa estava feia. Fiquei quieta, parada, no silêncio, entregue a mim mesma. Que fazer? 

Olhei para o cimo da duna e pensei que tinha que sair dali. A areia não havia de ser mais teimosa do que eu. E mais uma vez, quanto mais esforço fazia, maior era o desastre, mais depressa escorregava e voltava ao fundo. O meu coração começou a bater fortemente e a minha inquietação era desesperante. Senti-me completamente impotente. Aquilo não era uma brincadeira e eu estava seriamente em apuros. Depois de várias tentativas infrutíferas, começo a ficar muito cansada fisicamente e as minhas forças a irem-se. O que fazer? O que tinha ido fazer ali? Para quê?  

Havia uns arbustos com umas hastes bem compridas, se eu conseguisse alcançá-las talvez me ajudassem na corrente contra as areias e caso não se partissem, iria passando de umas para as outras. Esperei um pouco para recuperar as forças e me tranquilizar. E mais uma vez lá fui lutando contra as areias que, por sua vez, tanta luta me davam, parecendo divertir-se às minhas custas, fazendo-me sentir completamente derrotada e com aquele horrível sentimento de impotência a devastar a minha alma e a derrubar consistentemente toda a minha paciência. 

E eu já não sabia mesmo o que fazer nem pensar. Estava morta, fragilizada e tão zangada comigo mesma.  Mas embora exausta, não podia desistir, porque isso era desistir de mim e desistir é próprio dos fracos. Foi então que tive outra ideia que decidi pôr em prática. Deixar de competir com as areias, deixar de forçar, ter muita paciência e dentro de um espírito completamente diferente, pus um pé e parei, deixando as areias virem ao meu encontro numa corrida feliz e contente. Deixei-as vir, sem luta e sem medo. Quando estabilizaram, dei apenas mais um passinho pequeno, pequenino e as areias limitaram-se a uma descida proporcional. Parecia que também se tinham cansado. Novamente fiquei a apreciar e dei mais outro passo ainda mais pequeno. E as areias desceram, sim, mas levemente, suavemente, e de cada vez que me movimentava, a passada era mesmo a mais curta possível e assim as areias foram sossegando e de repente estava quase a chegar ao arbusto dos ramos compridos. 

Foi então que percebi que todo o esforço que tinha feito anteriormente tinha sido em vão, porque queria subir tudo aquilo de uma só vez. Eu tinha esquecido completamente que estava no deserto. As areias estavam a trabalhar a minha inteligência, mas acima de tudo a testar a minha paciência. Era belo, o deserto, mas a minha relação com ele sempre tinha sido superficial, sempre tinha passado pelos benefícios, as fantasias, as ilusões e naquele momento eu estava a vivenciá-lo na sua plenitude. Com estes pensamentos, calma e tranquilamente cheguei ao arbusto onde me segurei firmemente, com unhas e dentes. E de ramo em ramo, finalmente, consegui atingir o topo, onde de novo me encontrei a salvo. 

De regresso ao acampamento, se eu admirava o deserto, a minha admiração só aumentou e agradeci a lição de paciência e persistência a que ele me tinha acabado de submeter. Tinha aprendido uma das mais duras lições da minha vida e tinha plena consciência disso.  Ali mesmo, no deserto.

 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A lei do retorno - 31


A Clara tem agora cinquenta e sete anos e é a minha muito querida prima/irmã, quase uma filha, porque cuidei muito dela em pequena, na qualidade de irmã mais velha. Amo a Clara como ela é, com todas as suas maluquices e doidices, que não são poucas.

 

Dos cinco, dos quais eu faço parte, ela sempre foi a que mais trabalho deu. Só fazia aquilo que queria e não tinha medo de nada nem de ninguém. Sempre que a levávamos a passear no parque, o que normalmente acontecia comigo ou com o avô, onde houvesse água, fonte, lago, apesar de todas as nossas recomendações, a Clarinha enfiava-se lá, obrigando-nos a esperar, esperar, quase como uma tortura porque, apesar de todas as ameaças que lhe fazíamos, nomeadamente, advertindo-a de que nos iríamos embora deixando-a sozinha, nada adiantava. Ela sabia que eram só ameaças e que, na verdade, jamais o faríamos. E assim, invariavelmente, chegava a casa encharcada da cabeça aos pés, feliz e contente, ignorando tudo e todos, até os piores sermões da avó, que sempre nos culpava por aqueles incidentes, achando que não tínhamos nunca o cuidado suficiente com a “menina”.

 

A Clara cresceu e tornou-se uma mulher de sucesso, que se empenha a fundo na sua vida profissional. Um pouco materialista para o meu gosto, mas cada um é o que é. É inteligente e mata-se a trabalhar. Mas, quando é preciso, a Clara está presente e em situações muito difíceis da minha vida, foi a Clara que me tirou do sufoco. Foi a Clara que me “salvou”, por três vezes, na minha acidentada caminhada. E de todas as vezes o fez sem me questionar ou me atribuir culpas, limitando-se a disponibilizar-se, de acordo com a natureza da minha necessidade e apenas isso. Por isso e por muito mais, estou-lhe infinitamente agradecida e para mim ela é e sempre será muito especial. E porque a amo muito, também me dói muito, quando faz coisas que me parecem indignas dela.

 

Quando éramos crianças, a nossa tia avó materna, Maria Vergikosky, de descendência russa, nessa altura já com a idade muito avançada, tinha muitas joias. E todo esse ouro que há muito já não usava, até porque já nem saía de casa, guardava religiosamente numa gaveta da sua cómoda grande e muito antiga, envolto num pano de feltro preto, por baixo da roupa. Segundo se contava, parte desse ouro já tinha servido para tirar do sufoco a família, nalgumas situações difíceis. Por exemplo, quando a minha tia, mãe da Clara, precisou de vir para Lisboa estudar e os meus avós não podiam fazer face às despesas. Ainda assim, ficara muita coisa. E de vez em quando, nós três, crianças, meninas, gostávamos de dar uma olhadela e admirar aquelas obras de arte que brilhavam pelo ouro e pelas pedras bonitas que tinham. E como ninguém tinha autorização para abrir aquela gaveta, de longe em longe, pedíamos à tia/avó que nos mostrasse, o que ela fazia com toda a sua boa vontade e a maior paciência do mundo, porque era uma dessas criaturas raras, que passam por esta vida apenas para cuidarem e se preocuparem com os outros, dando tudo sem nada receber e muito menos exigir. A sua capacidade de abnegação e resiliência era total. Ajudou a criar os irmãos, os sobrinhos, os sobrinhos netos e mais não fez porque chegou a sua hora de partir. Uma longa vida de dedicação e entrega, uma vida da qual nada teve a não ser o que deu e que não foi pouco. 

 

E apesar do ouro ser sempre o mesmo, lembro-me de que nem por isso deixava de nos fascinar, como se o víssemos sempre pela primeira vez, admirando aquilo que, como ela dizia, um dia seria nosso. Com certeza esse dia chegaria, mas eu achava que nenhuma de nós três pensava nisso. Nós amávamos aquela tia que era o nosso consolo, porque nos aturava a toda a hora com todas as nossas impertinências de crianças.

 

Tudo isto era tranquilo e não tinha nada de extraordinário. Mas a Clara, a mais nova das três, era a que sempre se mostrava mais apegada às joias. Muitas vezes percebi que ela as via com um olhar diferente, com uma certa impaciência e como que se achando com mais direitos… sem dúvida alguma.

 

As crianças cresceram, tornaram-se adultas, a tia cada vez mais velhinha, cansada e chegou um dia em que a Clara decidiu não esperar e sem mais nem menos, pediu as joias à tia, o que conseguiu, de forma leviana e abusiva, ignorando tudo e todos. A minha irmã, presenciando a cena, veio ter comigo, reclamando. Mas nós já sabíamos que ela era assim!? Ela sempre foi assim. Não tinha regras. Simplesmente fazia e dizia o que queria. Por mais que a chamássemos à atenção, ela não queria saber disso para nada. Ela era como era e ponto final. A minha irmã não conseguiu ficar indiferente com aquela situação. O facto é que a tia era dona daquilo e podia fazer o que muito bem entendesse. 

 

É claro que percebíamos perfeitamente que a Clara se tinha aproveitado da já tão adiantada fragilidade dela, que já não tinha uma percepção tão clara das coisas, nem forças para reagir. E pedir-lhe contas por isso seria uma enorme injustiça. E talvez até tenha pensado que ela repartisse connosco, por exemplo. Por isso, disse à minha irmã que simplesmente esquecesse e fizesse de conta que aquilo nunca tinha existido.

 

Por seu lado, a Clara estava triunfante. Ela tinha-se adiantado, o que nunca o deveria ter feito, mas enfim… ela tinha reclamado e quem éramos nós para julgar as suas atitudes?! A única coisa que para mim era importante era continuarmos sempre unidas, porque era assim que era a nossa vida, apenas isso. Do resto, a vida, ela própria, se encarregaria de cuidar. Efectivamente.

 

A Clara casou, já tinha um filhote com menos dez anos que o meu... a vida não estava propriamente fácil e eu comprava no supermercado uns cereais para o pequeno almoço que, mediante uns cupões fornecidos nas embalagens, davam direito a uns cremes de rosto de uma certa marca bastante razoável e assim eu poupava algum dinheiro. Como gastava muito daqueles cereais, juntava alguns cupões e para tirar o máximo partido daquela facilidade, quando atingia o limite, precisava de uma morada diferente da minha, para ter direito a mais cremes.

 

Nessa altura, a minha irmã já vivia no Brasil, por se ter casado com um brasileiro e, portanto, não podia contar com ela. Restava a Clara. Falei com ela e expliquei-lhe o assunto, pedindo-lhe para receber os “meus” cremes na morada dela, o que ela logo aceitou sem objeção alguma, como era natural. O que não era natural era recebê-los e ficar com eles para ela, porque não foi esse o acordo. Mas ela ficava com eles e por conta das minhas reclamações, simplesmente respondia que, se iam para a morada dela, eram dela, deixando-me completamente sem palavras. Ela não tinha necessidade daquilo e não foi esse o trato que fizemos. Ela apenas faria o favor de os receber, no que ela concordou, mas não respeitou, porque decidiu apoderar-se deles. 

 

Fiquei incomodada com aquela situação, nem tanto por ficar sem os cremes, mas por não entender a atitude dela, até que um belo dia ela teve o desplante de se queixar que a empregada recebia o correio e ficava com os cremes para ela, o que a deixava muito indignada! A empregada “roubava-lhe” os cremes!? ...

 

Voltando ao ouro da tia, que a Clara guardava em casa a sete chaves, no último andar do prédio onde morava, um dia em que não estava ninguém em casa, os ladrões entraram pelo telhado e lá se foi todo o ouro. A Clara informou-nos da tão imprevisível tragédia que, claro, era só dela. A nós em nada nos incomodou. E nem um pouco chateadas ficámos, nem pena nenhuma sentimos, para grande espanto dela, que queria que estivéssemos solidárias e condoídas com a perda dela!

 

A Clara é inteligente, culta, com muita bagagem, muita estrada, muita vivência, muito tudo. A Clara é antropóloga, tem dois filhos e uma vida muito rica, porque muito aproveitada e eu amo a Clara com todo o meu coração. O ouro e os cremes, etc… não têm a menor importância. O que importa é que, apesar de tudo, a Clara até hoje não aprendeu o básico da vida, desconhecendo as leis universais.

 

O facto é que, apesar de saber tanta coisa, até hoje, a coisa mais simples, o mais elementar da vida, a Clara ainda não aprendeu, desconhece ou ignora – a lei do retorno.



sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Um casamento singular - 30


No dia 7 de julho de 1979, a capela mais pequena e mais isolada da ilha de S. Miguel nos Açores, abria as suas portas para celebrar um casamento que, de comum, nada tinha.

 

Para o efeito, o pároco da igreja matriz de Ponta Delgada, tinha providenciado o seu arejamento e bem assim, a limpeza, já que raramente abria as suas portas. Quem se lembraria de encomendar um casamento naquelas bandas? Mas a senhora Ana cumprira rigorosamente as instruções do senhor padre e até tinha ornamentado a capela com algumas flores frescas. Enfim, por aquelas bandas havia um evento e era preciso tirar partido da situação. Assim, à hora certa, dois carros chegaram e estacionaram no átrio da pequena capela, de lá saindo os seus ocupantes, ao todo oito: o padre, tio do noivo; a irmã do padre, mãe do noivo; o filho mais velho da irmã do padre, irmão do noivo e respetiva mulher; o noivo, a noiva e um casal amigo de ambos e padrinhos de casamento.

 

Os escassos “mirones” não se fizeram esperar, pois não era possível que algo ali pudesse passar despercebido e muito menos um casamento. E logo se ouviram vozes, que comentavam “oh, a noiva é aquela, vestida de branco(!)”… que bem que isto soava, naquela bela pronúncia açoriana que, conforme for, não se entende nada. É que, quem ia vestida de branco era a mulher do irmão do noivo e não a noiva. Essa, trajava um vestido preto, que tinha o peitilho todo bordado com todas as cores do arco-íris, embutido de pequeníssimos espelhos, que tornavam um simples vestido preto, num vestido totalmente invulgar.

 

Era um vestido indiano que tinha sido comprado em Londres, numa viajem de “lua de mel”, cerca de mais ou menos um ano antes do casamento e como ainda não tinha sido usado, foi o escolhido para a cerimónia. Com isto, estava longe de ser identificada como “a noiva”, o que a deixava bem mais confortável. E para isso, lá estava a cunhada, vestidinha de branco, simulando a noiva. Mas os nossos olhares não puderam deixar de se cruzar, dando aso a risinhos escondidos por causa do caricato da situação. E segredava a suposta noiva, com a mão a tapar a boca “olha, a noiva sou eu(?!)” … com um ar incrédulo, de quem não percebe o porquê, que mais claro não poderia ser. Mas deixemos isso. 

 

A capela tinha apenas três bancos corridos e lá nos acomodámos conforme as indicações do tio Padre, que não parava de blasfemar entre dentes, dado que para ele, tudo aquilo não passava de um grande sacrilégio do qual ele fazia parte, esperando com todas as suas forças que Deus nosso senhor o perdoasse.

 

Aquilo era uma família muito religiosa. Só padres e freiras. Apenas a senhora minha sogra se salvara daquela sina, rompendo as regras, para se casar. E desse casamento vieram dois filhos, sendo que o mais novo se tornou oficialmente meu marido, com todos os papéis assinados e finalmente a indispensável bênção do Senhor. Tudo conforme o figurino.

 

Em casa do senhor Padre Domingos, com quem a minha sogra vivia desde que o marido se fora, deixando-a com dois filhos pequenos, um de quatro anos e outro de dois, eu era muito bem recebida, muito acarinhada. Contudo, aos domingos, quando a família se reunia para celebrar a sagrada refeição do dia do Senhor, não havia lei que permitisse a minha presença. Podia até ir jantar, mas almoçar, nem pensar. E isso, porque não éramos casados. Para eles, vivíamos em pecado e o almoço de domingo não podia ser manchado. Podia ir lá todos os dias, a todas as horas. Aos almoços de domingo, não. Mas parece que o “pecado” era só para mim, para o filho não. Enfim…

 

Em virtude disso e para não me aborrecer, combinámos que ele alternaria, sendo que, num domingo almoçaria comigo para eu não ficar sozinha e no outro, com a família, para a mãezinha não ficar triste. O facto é que com o tempo percebemos que isso não funcionava, porque se ele ia, ficava chateado porque eu ficava sozinha e se ficava comigo, ficava chateado porque não ia à mãe. 

 

Então, um dia, decidi pôr fim àquela treta e decidi que nos casaríamos pelo registo, para se acabar com aquela cena. Tratámos dos papéis, chamámos um casal nosso amigo para serem as testemunhas e resolveu-se o problema. Ou pensávamos que tínhamos resolvido o problema. Porém, tudo continuava na mesma. É que o casamento no registo não tinha valor, porque não tinha a bênção de Deus… Oh céus! Tanto trabalho para ficar tudo na mesma. E o problema continuava com o dilema a minar a nossa vida. Que inferno!

 

E aí chegou um dia em que me chateei com aquela situação toda e decidi que íamos casar pela igreja, fazer essa fantochada toda e acabar de uma vez com esse problema. Bom, na verdade, não estava mesmo nos nossos planos, nem nos dele nem nos meus, andar às ordens dos outros. Mas fazer o quê?

 

Decidi que não queria ter duas datas de casamento, por isso marcámos para a mesma data, exatamente um ano depois. Quem nos iria casar? Fazia sentido que fosse o tio, já que tanto queria que nos casássemos e lá fui eu dar a notícia e dizer à mãezinha e ao tio que se preparassem para aquela data. E agora começa outra fantochada, a fantochada completa. Para se resolver um problema cria-se outro e a bola de neve não pára. 

 

Depois de ter falado com o tio, baixinho e gordinho, tal qual um barril, com ar sério, informou que teríamos que frequentar o curso. Qual curso, perguntei, incrédula. O curso, respondeu ele, o curso para todos os que se casam. Oh, essa não… eu ia ter que me sujeitar a um curso para fazer um casamento em que já estava casada!? E ele?… Eu sabia que ia começar a rir e nem resposta me daria. Ia pensar que estava a brincar. O pior é que não… e quando cheguei a casa e lhe contei como tinha sido a conversa com o tio, claro, deu umas boas risadas, dizendo que podia esquecer o assunto. Era sabido. Então o que fazemos, perguntei. Ele que faça o casamento sem o curso ou então não há casamento, respondeu. Eu sabia.

 

E lá fui, uns dias depois, para nova negociação. Não quer frequentar o curso? Era o que faltava! Todos têm que fazer. Não posso abrir nenhuma excepção, muito menos para vocês, dizia ele todo incomodado. Até parecia que não conhecia o sobrinho.

 

Silêncio… e ficámos calados, sem saber o que dizer. Todo agitado, afastou-se, indo-se enfiar no escritório. A minha sogra andava na cozinha de um lado para o outro, ouvindo a conversa, mas sem se intrometer. Aproximei-me dela e disse-lhe que fizesse o favor de falar com ele para ponderar o assunto, caso contrário, não haveria casamento e depois… depois, paciência.

 

Fui à minha vida. Quando o outro chegou, contei-lhe a história. Encolheu os ombros e desligou-se do assunto. E assim ficámos. No dia seguinte, a minha sogra mandou-me chamar e lá fui eu, depois de sair do trabalho. A negociação estava feita. Ela tinha conseguido convencer o irmão a desistir do curso. Que alívio! Estava feito… pensava eu. Mas aí, veio uma outra surpresa. Então, vão-se confessar uns dias antes, para se prepararem, dizia ele. Confessar… para se prepararem…?! Eu até posso ir, respondi. Ele… duvido. Rapidamente, deu meia volta e com um ar da maior estupefacção e os olhos arregalados, retorquiu: O quê? Ele nã se vai confessar? Eu acho que não, respondi, mas vou dar o recado. Pois vai, respondeu ele - com o dedo indicador sempre empinado -, porque se ele nã se for confessar, nã posso fazer o casamento. Nã posso fazer uma coisa dessas!... E espumava por todos os lados.

 

Tudo aquilo era uma imensa perda de tempo, um desgaste de energias perfeitamente inútil e exigia de mim uma paciência sem limites. E o pior é que ele se recusava a ir falar com o próprio tio. Eu que fosse, que ele não queria saber disso.

 

Pronto, mais uma vez, lá fui levar a decisão. Ele continuava a espumar, a pedir perdão a Deus nosso Senhor pelo que estava a fazer e depois de alguns minutos lá acabava por me participar a última decisão: então temos só a missa. Finalmente. Agora eu achava que tínhamos chegado a um acordo final. A história era sempre a mesma: ou aceitavam ou não havia casamento. Querem o casamento ou não? O sobrinho do senhor prior não é casado por igreja… ficam mal vistos? Então há que ceder.

 

Dei a novidade ao sobrinho do senhor padre, dizendo-lhe que o tio tinha finalmente concordado em fazer só a missa. Mas ele logo me interpelou, replicando com o maior espanto “missa”? Para que é preciso missa? E uma cara feia que eu sei lá!…

 

Hum? Agora até eu não entendia. Missa… é preciso missa. Uma cerimónia de casamento é feita durante o ato litúrgico. Diferente disto nunca tinha visto. Mas também era certo que não assistia a casamentos. E continuava: não é preciso missa. Ele que faça “só” o casamento e chega. Não é preciso mais nada. É assim tão complicado de perceber?

 

De certa forma este despique tinha-se tornado interessante. Tinha uma certa piada perceber os interesses e como são geridos. O que é mais importante e o que afinal pode mesmo ser descartado. Duas forças em jogo e eu no meio. Tudo isto apenas para ter direito aos almoços de domingo. Eu só queria que nos dessem descanso.

 

E lá fui eu informar da drástica decisão. Eu sabia que ia doer, que ia custar horrores. Eles nem sabiam no que se tinham metido por causas das exigências.

 

O tio ficou tão furioso, mas tão furioso! Ele concretizaria aquele casamento, sim, mas a verdade é que tinha que abdicar da sua posição e pouco a pouco se viu obrigado a perder terreno, todo o terreno. Ele gritou, xingou, praguejou; chamou a irmã, como que a pedir socorro para que o tirasse daquela alhada; ele esbracejava, falava com Deus, ora culpando-se, ora pedindo perdão, mas ele sabia que não tinha saída. Ainda assim, não pensei que acabasse cedendo. Fui-me embora sem decisão nenhuma, porque ele não tinha condições de decidir nada. Parecia que o inferno tinha desabado sobre ele, de tão atormentado que estava.

 

Fui-me embora. Tinha feito o que me era possível. Não havia mais nada que pudesse fazer. Durante uns dias esquecemos aquele assunto, até que um dia, lá fui novamente ao escritório do tio padre. Foi rápido, preciso e conciso. “Diz ao António que faço só a cerimónia do casamento”. Eu nem queria acreditar. Aquilo deve ter doído. Mas ele estava calmo, muito calmo para o meu gosto, dada a situação. Na verdade, eles tiveram que aceitar a troca de um casamento em cheio na igreja matriz, para uma simples bênção na capela mais pequena e perdida dos confins da ilha, onde não vivia quase ninguém. É triste. Mas a história não acaba aqui.

 

Estávamos apenas à espera que o tio padre vestisse todas as suas indumentárias e enquanto o fazia, sempre blasfemando e praguejando, Tony e Leonor, nossos padrinhos, não faziam outra coisa senão rir baixinho, pela calada, aproveitando todas as coisas para gozarem com a situação. O tio padre erguia as mãos aos céus, rezando e pedindo por si mesmo, pela coisa horrenda que achava que estava fazendo. Praguejava a todo o instante, perante a nossa máxima indiferença. Rezava e praguejava, na sua bela pronúncia açoriana, bem cerrada. Dava dó, mas fazer o quê?

 

Quando tudo parecia ter entrado na normalidade e a cerimónia dava início, comecei a sentir uma sensação de alívio por aquilo tudo estar a terminar e se acabar de vez com o problema dos almoços dos domingos. Mas aquela sensação de alívio durou muito pouco, porque chegou a altura das alianças e nós não tínhamos alianças. Nem pensámos nisso. E quando o tio padre pediu as alianças, o meu excelentíssimo marido ficou impávido e sereno, enquanto eu pensava “agora é que está tudo lixado”. Discretamente, dei-lhe uma cotovelada, que respondeu com um ainda mais discreto movimento de cabeça, que significava “não quero saber”. E enquanto pensava numa saída, lembrei-me que tinha no meu dedo anelar direito, uma aliança que usava sempre. Era a aliança da minha falecida mãe e a minha irmã usava a do meu pai que, entretanto, voltara a casar-se. Rapidamente, tirei a aliança, passando-a para as mãos dele. O irmão tirou a aliança dele e deu-me. E enquanto fazíamos esta operação, o tio padre, com os óculos redondinhos na ponta do nariz e a cabeça elevada, como se estivesse a farejar, interrompia a cerimónia para perguntar “Vocês nã têm as alianças?” E como não houvesse resposta, ele continuava indagando, na esperança de estar enganado e ver surgir umas alianças que não podiam aparecer, simplesmente porque não existiam. E à medida que se apercebia da realidade, reparando na troca que fazíamos, tirando alianças e passando de mãos, ficava inerte, sem reacção, olhando para um, depois para outro, pensando sabe-se lá em quê, completamente perdido.

 

Naquele momento, achei que ele ia interromper o casamento e acabar com tudo. Mais uma vez se virou para trás, depois de lado, praguejando, gritando, balbuciando, dizendo coisas que não tínhamos tempo de entender, enquanto manifestava todo o seu repúdio e um imenso arrependimento por aquilo que estava a fazer. Com a Bíblia ou o Missal nas mãos, quase chorava de raiva, de desprezo, de sei lá o quê… enquanto Tony, Leonor, o irmão e a cunhada do noivo, tentavam esconder os rostos, disfarçando o quanto podiam, para não piorar a situação mais do que já estava.

 

E lá ficámos com as alianças nas mãos para a cerimónia continuar e poder chegar ao fim, depois do tio padre se recompor e se acalmar o quanto lhe era possível.

 

Esta é a história de um casamento que não foi muito feliz. Por isso, passados alguns anos, divorciaram-se e assim foram felizes para sempre.

 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A Cidade Sagrada - 29


Varanasi, tão espiritualizada, tão desejada, tão amada!... Como era possível? As ruelas por onde passávamos eram tão estreitas que, para passar uma bicicleta, tínhamos que nos desviar, parar e encostar às paredes esburacadas e imundas. Não era tudo assim. Havia ruas largas, espaçosas, mas por todo o lado a mesma aparência do auge da miséria. Misericórdia!

 

Caminhávamos praticamente em fila indiana e a certa altura, peguei na pachmina, enrolando-a à volta do rosto, deixando só os olhos de fora. Havia tanto mosquito e tanta mosca, que temia que me entrassem pelo nariz e pela boca, mesmo fechada. O cheiro no ar era indescritível. Tudo aquilo era nojento. Varanasi, a cidade sagrada, não era diferente do resto da Índia. A diferença é que, para além do habitual, havia ainda as chamadas cerimónias religiosas na margem do Ganges, para onde nos dirigíamos agora, com horas e horas de sono em atraso. 

 

O hotel era razoável. Não!… era bom, muito bom, mesmo. No entanto, já tinha havido um probleminha que me chateou. Pouco depois de termos dado entrada e nos acomodarmos, voltei ao piso zero, mais precisamente à recepção, para adquirir rupias. Tive que esperar um pouco porque estava a ser atendida uma das raparigas do grupo que, por acaso era indiana, não de naturalidade, mas de sangue. Logo que ela se retirou, o balcão ficou livre e aproximei-me do recepcionista, um senhor que aparentava uns cinquenta anos, com um ar muito solene e que estava de olhos postos nuns papéis quaisquer, sem me dar a menor atenção. Esperei um pouco mais e como ele continuasse a ignorar-me, interrompi-o, fazendo-o perceber que estava à espera de ser atendida. Levantou um pouco a cabeça e com um ar superior e enjoado, perguntou-me o que queria. Disse-lhe que precisava de trocar dinheiro. Deu-me um papel que preenchi, devolvendo-lhe. Levou para trás do balcão, continuou a fazer ou a fingir que fazia não sei o quê, deixando-me a secar, sem uma palavra, nem uma explicação.

 

Com a outra tinha sido tão rápido, porque demorava tanto comigo? Algo não estava bem. Passado um pouco mais, resolvi perguntar porque estava a demorar. Olhou-me de lado e com toda aquela calma que tanto me irritava, respondeu-me que tinha que esperar, dando-me a entender que quem mandava era ele e tinha que me submeter à sua “vontade”. Não gostei. Era óbvio que estava a gozar com a minha cara. Então, vali-me do meu trunfo, se assim se pode dizer. Tirei do saco de mão o passaporte, abri e coloquei sobre o balcão, em frente aos olhos dele, que não entendeu o meu gesto, claro. E disse-lhe, com tom de poucos amigos e um pouco ameaçador: “O senhor atendeu a minha amiga com toda a rapidez e a mim está a dificultar as coisas porquê? É por causa da nacionalidade? Porque ela é indiana e eu não? Quem sabe não está enganado?!” 

 

Aí, ele levantou os olhos por cima dos óculos, mantendo a cabeça baixa, mas olhou para mim, ainda sem perceber onde eu queria chegar. “Sabe, as aparências enganam”, dizia-lhe eu, enquanto ele me olhava, não entendendo nada e talvez pensando “está a passar-se”. Então, a verdade que ele não esperava, veio ao de cima. E continuei: “Não é pelo facto de ela ter a sua cor que é indiana, porque ela - e marquei o “ela” - pode ter a aparência, mas, para sua informação, não é Indiana. Eu sim, apesar de não parecer, eu nasci na Índia, conforme pode ver.

 

Com ar de poucos amigos, mas já um tanto cauteloso, discretamente, dignou-se olhar para o passaporte e confirmando o que eu acabara de lhe dizer, virou-se, foi direito lá atrás do balcão, contou o dinheiro e voltou de imediato, pondo-o junto ao meu passaporte e com um ar completamente diferente, disse: “Minha senhora, o seu dinheiro”. Estava feito. Chateada que nem um peru, agradeci e subi aos meus aposentos, esbaforindo por todos os lados. Racistas dum raio, pensei comigo mesma.

 

Entretanto, no segundo dia, depois de virmos das cerimónias no Ganges, com aquele folclore todo ao pôr-do-sol, estávamos exaustos e fomos directos para o hotel. À chegada, tivemos uma super recepção. Havia polícia por todo o lado. Em cada esquina um policial com uma espingarda ou metralhadora, sei lá, apontada à porta principal. Impressionava.

 

O que é isto(?), pensei comigo mesma. Bom, não fiz mal a ninguém, sou apenas uma turista, não tenho com que me preocupar. Resolvi ignorar, mas fomos revistados, apalpados e só acabou quando transpusemos a porta do hotel. Do lado de dentro ainda havia um polícia, mas a coisa era pacífica. Acabou. Subimos e fomos tomar um duche. Primeiro foi a Mina, minha companheira de quarto, depois eu. Enquanto ela estava na casa de banho, percebi que havia uma movimentação anormal e muito especialmente no quarto ao nosso lado, onde havia muita gente, porque eu os ouvia falar muito alto e a porta estava sempre a bater, porque entravam e saíam e não havia sossego. Era esquisito.

 

Entretanto, a Mina saiu da casa de banho e fui eu. Quando estava a meio do duche ouvi baterem à porta. Estranhei, mas não liguei, limitando-me a ficar atenta. A Mina era bastante surda, o suficiente para não ouvir. Bateram novamente, com mais força. Não gostei. Não era uma bater amistoso, era um bater que adivinhava problema. Saltei do duche, enrolei-me no lençol de banho e espreitei pelo buraco da porta, que era enorme. Fiquei surpresa quando vi vários homens, sendo que um deles era um policial e ainda tinham um cão, um pastor alemão. O que é isto, pensei, o que quer esta gente? Rapidamente, pensei e agi.

 

Abri a porta, tal qual estava, enrolada na toalha, mas abri só um pouquinho, escondendo-me atrás dela, não totalmente, para eles verem que estava no banho e com a testa franzida, de interrogação, perguntei: “O que querem, não posso atender, estou no banho”, fechando imediatamente a porta na cara deles. Silêncio. Durante uns segundos, nada se passou, ninguém falou. Eles não estavam à espera de ter uma recepção daquelas. Deviam achar que intimidavam toda a gente. E depois de alguns segundos, bateram novamente, com mais força. Não atendi e fiquei à espera. Foi então que um deles falou em inglês, dizendo “abram, é a polícia”. Isso já eu sabia, mas também não me apetecia facilitar-lhes a vida e respondi-lhes que não estava vestida. Abra, repetiram eles. Bom, não podia abusar da situação e abri. Empurraram a porta, escancarando-a, dizendo-me para voltar para a casa de banho que ninguém nos faria mal. Assim fiz porque, verdade seja dita, não foram nada meigos.

 

Para a Mina, passou tudo ao lado. Quando os ouvi sair, saí da casa de banho e perguntei-lhe o que lhe tinham dito. Respondeu que não tinham trocado uma só palavra. Limitaram-se a passar um detector de metais sobre toda a bagagem e saíram. Só isso? Sim, respondeu ela. São muito estúpidos, pensei, pois se houvesse alguma coisa, podia estar na casa de banho onde nem entraram!?

 

Mais tarde percebi qual era o problema. Era o mês do Ramadão e estavam muitos muçulmanos na Índia, o que para mim foi uma surpresa. Até já tínhamos visto uma manifestação, onde também havia polícias. Mas se eram muçulmanos, porque não iam para o Paquistão ou Bangladesh e deixavam os hindus em paz com as suas inúmeras crenças? Era mesmo querer confusão e nunca estarem satisfeitos com nada. 

 

E ali estava eu, metida naquele filme, em andanças pela Índia. Nunca pensei… Varanasi, a cidade sagrada!... Era tudo menos sagrado. Era do mais profano que podia haver. Como é que podiam chamar-lhe a cidade sagrada!? Alguma vez o teria sido? Isso já não sei. Mas aquilo era um verdadeiro pesadelo, em todos os sentidos. Quando na tarde anterior fomos às lojas, eu estava no balcão, à espera que a menina me trouxesse o kajhal que lhe tinha pedido e não havia ar condicionado. Era um espaço enorme, um grande armazém e se o calor lá fora era infernal, lá dentro era insuportável. De tal ordem, que eu não conseguia ter os olhos abertos, por causa do suor que me caía em bica sobre as pálpebras e tinha que estar constantemente a limpar a água para poder abrir os olhos. Até me sentia envergonhada. Dizia uma palavra e parava para limpar os olhos e a cena continuava. E o pior é que não via isso nelas. Estavam sequinhas, bonitinhas… parecia que não eram feitas da mesma matéria que eu.

 

As cerimónias do nascer e pôr-do-sol na cidade sagrada eram iguais todo o santo dia. Repetiam-se todos os dias. Mas era tudo como se fosse a primeira vez. É claro que tudo naquela terra é sagrado, tão sagrado que não tem explicação. É uma imundície por todo o lado, mas Varanasi, realmente, consegue superar. No rio, as pessoas fazem tudo, tudo o que se possa imaginar: cozinhar, comer, tomar banho, beber água, mijar, cagar, lavar roupa, orar, dormir tranquilamente em qualquer lugar ou em qualquer situação e todos fazem tudo o que querem, sem ligar absolutamente nenhuma importância ao que se passa ao seu redor. Ninguém perturba ninguém. Enquanto uns deitam flores à água, outros fazem cremações dos seus mortos. Tudo ali acontece ao mesmo tempo. Quem tem parentes doentes, deficientes, exibe-os como se sentindo abençoados com aquele “presente” que consideram uma bênção. É de loucos. É difícil saber quem é mais louco que o outro. Contudo, os turistas ficam deliciados com aquilo. Acham tudo muito bonito, muito especial, muito santo. Deve ser por causa do povo que vive na rua porque, em vez de fazerem casas para as pessoas, invariavelmente fazem templos, um atrás do outro. Templos é o que realmente faz falta para preservar a tradição e o paganismo. E toda a gente acha aquilo lindo, carregado de um forte misticismo. Esquecem-se é da carga de energia negativa que é emanada para todo o planeta. Disso ninguém fala, ninguém tem a coragem de o dizer.

 

Mas Varanasi até é um nome bonito, sonante, leve, agradável… é a Índia e a Índia, com todos os seus defeitos, contradições, etc..., é um grande mistério porque, na verdade, apesar dos horrores a que assistimos e da diversidade da sua cultura; por trás da hipocrisia, da verdade que se esconde, da inocência, da injustiça, da iniquidade, da desigualdade, das mil e uma doutrinas, do bem e do mal, da fome… Varasnasi, como toda a Índia, é ao mesmo tempo doce, pacífica, calma e tranquilidade. Um sonho confuso, um encontro insólito, um prazer amargo, uma experiência única, num parque místico de diversões infinitas, onde o mistério impera a toda prova, sem a menor possibilidade de se esgotar, de se esfumar, porque é a Índia e porque não há nada igual.