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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A vida e a morte - 20


Com a morte da minha mãe aprendi a viver. Com a morte do meu pai aprendi a morrer.

 

Com a morte da minha mãe aprendi a viver porque assim fui obrigada. Ou morria também ou aprendia a querer viver. A escolha era minha. E foi preciso “correr” muito e muito “trabalhar” para de novo renascer. A morte foi lenta, dura, dolorosa, penosa e angustiante, tanto para ela, como para quem ao seu redor estava. A revolta completa. A imoralidade sem dó nem piedade. Um estrago completo nas nossas vidas.

 

As células cancerígenas são imortais. Elas resistem, persistem e ficam vencendo e matando, ficando, ficando, até não terem mais com que se debater, até não terem mais o que matar. Vitoriosas na destruição, propagam-se na escuridão, queimando o corpo, definhando o cérebro, inviabilizando o direito à vida e à passagem da luz, que se vai apagando lenta, lentamente, sem alternativa possível. Nada sobrevive nessa chacina, a não ser o medo. O medo de ter, o medo de ser. Por isso, nessa morte trágica, tive que aprender a viver.

 

Com o meu pai, a morte veio suavemente, sem dor, durante o sono que o transportou para as margens tranquilas da eternidade. Nos últimos anos da sua existência, era eu que cuidava de tudo o que dizia respeito à sua saúde. Era eu que lhe marcava as consultas e supervisionava a rotina médica. Era impossível contar com a minha madrasta para esse efeito e as minhas irmãs também não podiam encarregar-se dessa tarefa.

 

A minha maior preocupação era fazê-lo perceber que não estava sozinho. Portanto, sempre que se fazia necessário, eu corria para onde ele estivesse, largando tudo: trabalho, casa, restante família e tudo o que fosse preciso, para ir ao seu encontro. Eu não queria que ele sofresse, para além do sofrimento físico que ninguém podia evitar.

 

Quando a minha mãe morreu, eu era uma criança. Com dez anos de idade, que sabia eu da vida? Nem da vida nem da morte. Portanto, o que poderia eu fazer por ela? Com o meu pai a história era outra. Ele tinha vivido uma vida longa, apesar de ser cardíaco. E tinha a capacidade de aceitar a morte, não sem um certo receio e muita saudade. Mas era nesse ponto que eu estava junto com ele. Eram esses receios, essas angústias, que eu tentava desvanecer, para lhe poupar um sofrimento maior, porque era a única coisa que podia fazer. E conversávamos longas horas, sobre os mistérios da vida e da morte e porque ele tinha necessidade de repassar os momentos bons que lhe tinham preenchido a vida no seu melhor. Eu limitava-me a ficar sentada a ouvi-lo, muitas vezes vendo-o com os olhos humedecidos, lacrimejados pela emoção do que se permitia reviver. Mas eu percebia que ele era feliz enquanto fazia aquele trabalho de recordação. A sua alma tinha essa necessidade. Ele precisava lembrar de viva voz, vivenciar, partilhar com a sua filha mais velha, os momentos felizes que a vida lhe tinha proporcionado. E essa era a minha missão: ouvi-lo, dar-lhe toda a atenção, dispor do tempo que me era possível, para me focar apenas nele. Depois, tentar responder às suas dúvidas, aos porquês que nem sempre conseguia decifrar sozinho, não lhe tirando nunca a liberdade de discernir por si mesmo. Ele precisava da minha humilde ajuda para esse efeito, caso contrário, o seu fim teria sido um vazio completamente sem sentido.

 

Eu sabia o quanto ele precisava da minha presença, das minhas palavras, da minha compreensão, da minha paciência, etc, etc, etc… e tudo isso para mim não foi nada difícil, pelo contrário, foi um enorme aprendizado, uma das mais belas lições da minha vida. A tranquilidade que lhe passava através das palavras que ia buscar não sei bem onde, mas que vinham, milagrosamente, como uma chuva abençoada, amenizavam a sua e minha dor. Tudo se tornava mais fácil, mais leve, quase aceitável. A morte como uma passagem natural para outra dimensão, ainda que desconhecida e que é a única certeza que temos, mas que todos nos recusamos a aceitar. E assim foi. Na sua infinita misericórdia, Deus ouvira as minhas preces e concedera-lhe a enorme bênção de partir em silêncio, na maior paz.

 

Agora, eu podia também estar em paz, porque não havia mais sofrimento. Por isso, durante as cerimónias religiosas que se seguiram, não chorei ou se chorei, foram lágrimas de felicidade, de agradecimento, porque estava verdadeiramente agradecida e isso era uma coisa que ninguém podia compreender. Mas a minha alma sentia-se livre e leve, porque ele tinha partido sem sofrimento. Foi um dos maiores presentes que a vida alguma vez me deu. 

 

As minhas irmãs, coitadas, desfaziam-se em lágrimas. Eu, sem culpa, não tinha motivos para chorar. Tinha, sim, motivos para agradecer infinitamente aos céus, aquela morte santa, que tinha poupado um maior sofrimento a uma criatura que eu tanto amava. E por isso, só por isso, eu estava feliz. Eu tinha razões para isso. Sabia que não podia pedir a ninguém que compreendesse essa minha atitude, que podia parecer completamente inadequada e despropositada, mas eu estava feliz, sim. Eu tinha tido um presente absolutamente inestimável. Eu tinha estado ao seu lado durante muitos meses e tinha sido testemunha, a única e real testemunha dos segredos da sua alma. Eu tinha estado a seu lado em todas as ocasiões necessárias. Eu tinha percorrido a seu lado, o caminho da angústia, da aproximação do fantasma da morte. De mãos dadas, tínhamos ultrapassado os piores momentos, com um sorriso nos nossos corações e uma serenidade sem igual. Eu tinha sido a companheira de todas as suas aflições. E a morte viera docemente, como uma carícia, como um afago, como um derradeiro suspiro de alívio. Que mais poderia eu querer? 

 

E vieram os militares, a guarda de honra, os morteiros e todos choravam e se condoíam com a partida daquele que tinha sido um amigo e tanto, um irmão, um camarada, mas acima de tudo um grande ser humano, porque simples e justo, igual podia haver; melhor, jamais. Meu pai querido, pode não ter sido o melhor pai do mundo. Mas foi um ser humano verdadeiramente excepcional.

 

E eu sabia que todos estavam à espera que eu me desfizesse em lágrimas, em histeria, num desconsolo inevitável, mas não foi isso que aconteceu. Eu os confundi a todos. Eu sei. Mas não tinha porque mentir. Eu tinha feito todo um trabalho que me estava destinado e tinha-o feito o melhor possível, assim também, como ninguém o tinha que saber. Sabiam apenas uma décima parte e modéstia à parte, muitas vezes, quando me deitava para dormir, cansada, exausta, ficava admiravelmente surpreendida comigo mesma, como se eu me tivesse tornado num anjo que Deus enviara para conduzir aquela alma. 


Eu sabia que aquela missão era minha e de mais ninguém. Eu tinha sido a substituta da minha falecida mãe. Eu tinha sido a filha amada, a amiga, a companheira, tudo o que humanamente era possível ser. Tirei-lhe pesos de cima, que carregava havia muito, muito tempo, como o facto de achar que, por causa da vida de militar e outras razões, como o ter-se casado novamente, anos depois de enviuvar, não tinha estado presente nas nossas vidas como desejaria ter estado. Desdramatizei todo o seu sentimento de culpa e não eram poucas, fazendo-o perceber que estávamos todos trilhando o caminho que nos era devido, só isso e por tudo isso, tínhamos chegado onde chegámos. Estava tudo no sítio certo. Ele ouvia-me espantado com tanta benevolência da minha parte, com tanta compreensão e sem julgamentos e eu sentia o alívio que lhe proporcionava. Eu estava simplesmente a ser sincera, franca, honesta comigo e sobretudo com ele, tal como ele o merecia, mais do que qualquer outra pessoa.

 

E tudo isto, porque eu não queria que se repetisse o drama da morte da minha mãe. Eu queria ser poupada de mais um martírio, porque se assim não fosse, a morte dele teria sido uma enorme tortura. Havia que compensar esse desgaste psicológico e emocional de há cinquenta anos atrás, que o tempo não conseguira apagar de maneira nenhuma e que causara um dano irreversível nas nossas vidas. Portanto, eu devia isso a mim e a ele.

 

E assim, aprendi que a morte não tem que ser um drama. Não tem que ser um castigo, uma punição. Uma coisa feia. Não. Não tem que ser odiada. E mais uma vez, o amor está na base de tudo, unindo as pontas do princípio ao fim e do fim ao princípio, para que nada se perca.

 

E enquanto as cerimónias decorriam, as minhas irmãs mergulhavam num sofrimento incontrolável. Foi nessa altura que me dei conta da pena que senti delas, porque era impossível elas partilharem o bem estar que eu sentia. Estávamos em estados de espírito totalmente opostos e não havia nada a fazer. Elas não tinham estado lá, enfrentando a morte, desmistificando o medo, ultrapassando a escuridão. Por isso elas não podiam colher os frutos do crescimento espiritual desse aprendizado, enquanto eu sentia que o meu espírito estava com ele num plano muito maior, onde a dor e o medo já não têm forma nem definição, porque foram transmutados pelo fogo sagrado, que nos conduz ao amor eterno e incondicional. 


E é a isso que se resume a vida: o amor ou a falta dele.

 

 

E o amor, que pode vir por interesses os mais variados: dinheiro, ambição, desejo, vaidade, luxúria, necessidade, mentira, brincadeira, enfim... também pode vir livre de todas essas facetas ou seja, pode vir limpo, puro, apenas com a cara do amor e nada mais, porque ele é assim e basta-se. O amor pode ser genuíno, verdadeiro, autêntico e não tem que vir mascarado nem ser passageiro, também pode ser para sempre. 


A terra precisa dele, o homem precisa muito mais. 

 

 

sábado, 8 de agosto de 2015

A falsa O.S. - 19


A história passa-se na Direcção Técnica da Rádio. As duas empresas já estavam juntas, mas ainda em espaços diferentes. É claro que eu não estava lá, porque nunca trabalhei na rádio. Contudo, quando nos juntámos, ouvi contar a história tantas vezes, que me sinto com legitimidade para a descrever. 

AC era um colega muito porreiro e querido, que se prestava à brincadeira. De baixa estatura, barba rasteira, usava óculos com umas lentes que lhe aumentavam imenso os olhos e que nunca tirava. Conforme fazia questão de lembrar, a mulher não gostava de o ver sem óculos, porque ficava com os olhos muito pequeninos. 

Era um indivíduo curtido, até hoje, bem humorado e sempre com a piada certa, fizesse rir ou não. Passava a vida a contar piadas e anedotas que nos punham sempre a rir muito, na maioria das vezes porque realmente tinham piada, outras vezes, porque não tinham piada nenhuma mas, só por isso, já nos dava um enorme gozo e acabávamos rindo do mesmo jeito, como se tivesse tido imensa graça. 

Mas era uma pessoa com quem se podia contar. Amigo, camarada, o problema era o “profissionalismo”, tão profissional, que às vezes deixava de fazer o que tinha que fazer, por achar que não lhe ficava bem… e tudo em nome do profissionalismo. Enfim, cada um é como é. 

O seu sonho era subir, subir, não por ser pequenino(!), mas porque queria um cargo à “altura”. E como era casado pela segunda vez, sonhava que um dia haveria de fazer uma surpresa à mulher, com uma nomeação a sério, de modo a ficar muito bem visto e lhe fazer ver que tinha feito bem em ter investido nele e, em boa verdade, não se pode dizer que essa sua aspiração de subir na vida não fosse legítima, já que todos têm esse sonho, mas uns mais do que outros e outros ainda bem mais. 

A sua grande paixão era a engenheira TA, loura, de olhos azuis, bonita, interessante e culta. Muito sua amiga, mas que lhe dava muito trabalho, sobretudo quando resolvia tirá-lo do sério, a que ele resistia heroicamente, devo salientar. Era um espectáculo e tanto. A adrenalina subia que não era brincadeira. 

Sabendo todos da sua grande aspiração, subir na vida, ter um cargo como deve ser, um dia a engenheira TA, bem disposta e especialmente inspirada, resolveu pregar-lhe uma bela duma partidinha. Pegou numa ordem de serviço antiga, fez um texto adaptado à circunstância no qual era nomeado o engenheiro CP, então chefe de ambos, para Director, e AC para subdirector. Estava ali tudo direitinho com as assinaturas perfeitas do Conselho de Administração e tudo na maior perfeição. Ninguém diria que tudo aquilo era falso, porque estava feito com todo o primor, com excepção no que toca ao conteúdo, mas isso é outra história. 

E sai a ordem de serviço número não sei quantos, que foi devidamente distribuída pelos funcionários, os quais foram previamente avisados para a brincadeira que se estava a fazer. 

AC e seu chefe, engenheiro CP, tinham ido tomar um cafézinho da praxe e quando voltaram, tinham em cima das respectivas mesas a dita ordem de serviço. O engenheiro CP viu, leu e ficou quieto, pensativo. AC leu e mal tomou conhecimento de que tinha sido nomeado para subdirector, entrou de imediato em transe completo e absoluto. Queria falar e nem podia. Com o nervosismo, até os óculos lhe caíram e a primeira coisa que fez foi pegar no telefone e ligar para a sua “Maria”. 

Toda a direcção estava a postos, observando o espectáculo. AC tremia que nem varas verdes e logo que a mulher atendeu, começou a gaguejar, que nem a voz lhe saía. Mas, gaguejando e soluçando, lá começou desfazendo-se de sua justiça, contando o feito e salientando que sempre lhe dissera que tinha a certeza de que um dia seria reconhecido o seu talentoso profissionalismo com todo o seu merecidíssimo mérito, etc… etc… etc… Bestial! AC estava no sétimo céu, com tudo a que tinha direito. Os outros não, claro. Ele era assim e cada um é como é… 

O homem estava em choque, tremendo e transpirando por todos os poros, mas toda a Direcção Técnica da Rádio também e não menos. Aquilo era para ser uma brincadeirinha, só que ninguém podia supor que a coisa tomasse proporções tão alarmantes. Isso, ninguém poderia imaginar, pois se alguém tivesse imaginado, jamais a brincadeira teria saído, com toda a certeza. 

O engenheiro CP, que tinha ficado introspectivo com aquela história e como tem bastante mais do que dois dedos de cabeça, achou que aquilo não podia ser, que ali havia coisa, só não sabia qual era a coisa e como é um indivíduo de boa fé, sensato e tudo o mais, nunca pensou que aquilo pudesse ser uma brincadeira e muito menos, vindo de onde veio. Mas também ninguém podia adivinhar que a reacção fosse tão catastrófica!?

E ouvindo o estardalhaço do amigo, que se desfazia de tanta importância, pegou na ordem de serviço e informou que ia pessoalmente à Administração, saber que raio de coisa era aquela, que para ele não fazia sentido nenhum. Só que aí, os colegas fizeram barreira, detendo-o, para a confusão que estava feita não ser ainda maior e pouco a pouco começaram a fazê-los entender que tudo não passava de uma brincadeira. 

E enquanto o engenheiro CP respirava de alívio, os sonhos de AC caíam por terra, desmoronando-se e desfazendo-se que nem castelos de areia na praia.

 

 

Cada um é como é!...

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Rosas brancas - 18


Rosas brancas, frágeis… uma aragem mais forte e desfolham-se com toda a facilidade. Frágeis na cor, frágeis na estrutura, depressa começam a perder as pétalas e uma por uma segue o seu próprio caminho.

 

De novo? Um, dois, três, quatro… cinco… no regresso, seria a sexta vez que passava por ali, completando três dias de idas ao clube de Vela e lá estava ele. Que drama!... Como era possível? Há pessoas que nos surpreendem pela positiva, outras pela negativa. Era o caso. Até tive dificuldade em reconhecê-lo. “Parece”… pensei eu. Não parece, é. Sem dúvida nenhuma. Que coisa diabólica!

 

Parei um pouco, por entre a roseira branca, observando a figura. Parecia um tonto, coitado. Era uma pessoa de estatura baixa, mas normal. Agora, parecia que estava por metade da altura. Umas calças larguíssimas, que não pareciam dele e um casaco com uns ombros muito largos que lhe chegava até aos joelhos, quando não devia ultrapassar a zona da coxa. Inacreditável!

 

O cabelo grisalho, quase todo branco e bastante grande, mas acima de tudo, com um ar descuidado. Uma mala a tiracolo, enorme e muito cheia, que carregava com imensa dificuldade e vários sacos de plástico em que, constantemente, mexia e remexia. Assim se arrastava. Dava dois passos, parava. Trocava de mão os sacos e voltava a andar mais dois passinhos para voltar a parar. Olhava para todos os lados e trocava novamente os sacos, olhando para dentro deles, como se tivesse esquecido alguma coisa. Dir-se-ia que tinha acabado de ter sido expulso de casa e amedrontado, não sabia o que fazer nem para onde ir. Que tristeza!

 

Não me apetecia ver mais. Talvez devesse falar-lhe, mas não tinha a coragem de o fazer. Devia ir ter com ele e trocar algumas palavras, tentar entender o que se estava a passar… em vez disso, mais uma vez, fingi que nada via, continuando o meu caminho. Era dramático.

 

A aragem dissipava o calor, amenizando a temperatura, ao mesmo tempo que dispersava as pétalas das rosas, tão suaves, tão macias, embora feínhas, excepto uma ou outra, cuja beleza também pouco duraria. Cheirei-as e fiquei deliciada. Que perfume, que aroma levemente adocicado, que elixir delicioso! Inspirei, expirei e voltei a inspirar profundamente, mas com toda a lentidão, para tirar o máximo partido daquele prazer delicioso e esquecer aquele drama.

 

Um pequeno triângulo no meio da rua, que podia ser uma rotunda, mas tinha a forma de triângulo. Um botequim lá plantado e mesas com bancos de madeira. Em volta, uma cercadura de arbustos verdes, quebrada aqui, quebrada ali, com algumas flores pelo meio. Uma música suave, não muito alta… bastante agradável. Alguns velhotes sentados, conversando uns com os outros ou somente vendo quem passava. Carros estacionados por ali e em volta os prédios antigos e velhos do Poço do Bispo.

 

E eu ali parada, agora no segundo pé de roseira branca, um pouco mais adiante, presa naquele drama que tanto me entristecia. O estranho… bem, o estranho era tudo… mas o mais estranho é que, de todas as vezes que ali tinha passado, lá estava ele, naquele sítio!? Era uma coincidência muito desagradável, porque não me parecia normal. Ou ia para algum lado ou vinha de algum sítio, mas encontrá-lo ali, sempre que eu por lá passava… era caótico, a menos que estivesse lá sempre e não fosse a lado nenhum. Seria possível? Parecia um pedinte! E tinha um ar de desgraçadinho… Como é que pode? … E segui para o clube, com todas estas coisas na cabeça.

 

Tinha sido meu colega durante trinta e muitos anos, quase quarenta. Trabalhava na Contabilidade e era um bom profissional. Tinha-se reformado bastante mais cedo do que eu, pois era um pouco mais velho. Uma pessoa normal, com uma vida normal, comum. Mas aquele não era o mesmo, era uma sombra dele. Uma boa pessoa, incapaz de fazer mal a uma mosca. Humilde, bem formado, com um ar servil, sim… mas agora? Quem era aquela estranha criatura? E sempre naquele sítio!? Não era uma simples coincidência. Ele estava ali sempre. Ainda não tinha falhado uma só vez e isso é que me deixava intrigada, porque encontrá-lo uma vez… duas vezes… tudo bem, acontece. Mas sempre e do mesmo jeito, com a mesma sacola e os sacos de plástico, igualzinho?!… Era assaz incomodativo.

 

 

A aula terminara e ficámos conversando, numa troca de impressões uns com os outros. O clube era um edifício muito antigo, espaçoso, com uma sumptuosa escadaria que, em tempos idos, devia ter sido um luxo. Agora, estava tudo muito velho. E enquanto descia as escadas com o corrimão de madeira e rebordo dourado, atapetadas com uma larga passadeira de alcatifa vermelha, pensava comigo mesma, que agora ia ter a coragem de ir ao seu encontro e tentar perceber alguma coisa. Era o mínimo que podia fazer. O exercício físico tinha-me feito bem e o espírito estava mais leve e disposto a encarar aquela realidade, fosse o que fosse.

 

Saí a porta das instalações do clube e atravessei a rua para o jardim, em direcção ao carro. Parei no jardim junto ao primeiro pé de rosas, olhando em volta. Havia a música, os velhotes sentados, o autocarro na paragem, os táxis estacionados à espera de clientes, os carros para lá e para cá, as oficinas abertas e os mecânicos a trabalhar. A vida acontecia. Olhei para o relógio e era meio-dia, mas ele não estava em parte nenhuma e era a primeira vez que tal acontecia.

 

Cheirei as rosas: uma, duas, três vezes. Cheirei uma e outra e outra, enquanto prendia uma pétala entre os dedos. Como era bom aquele perfume, meu Deus!? Fiquei a olhar as roseiras, meio abandonadas, meio esquecidas. Aquelas rosas brancas, frágeis e deliciosamente cheirosas, que perfumavam o ar, exalavam um aroma inebriante que chegava a embriagar. Talvez por isso, por serem tão cheirosas, os velhotes se acomodassem por ali… não, seguramente, não era. Era por causa do botequim. Ninguém via as rosas, ninguém cuidava delas, nem sequer olhavam para elas. Era como se nem existissem.

 

E ele não estava. Pela primeira vez não estava ali. A minha missão não fora cumprida, mas a minha tarefa estava simplificada. Ali, onde a vida acontecia da forma como tinha que acontecer, segui o meu caminho em direcção ao carro. Uns estavam, outros iam. Uns vivendo tranquilamente, na paz do seu canto; outros, num mundo submerso, de escuridão e sombras, passando ao lado de tudo, num vazio permanente. O drama da vida. 


Soltei a pétala que estava presa nos meus dedos e deixei-a ir, também ela com seu lema. Ficaria horas sem fim, mergulhada no perfume que o vento suavemente dispersava e ao mesmo tempo dissipava pelo ar, seguindo o seu percurso intemporal e eterno, sem pedir licença para passar…


 


quinta-feira, 30 de julho de 2015

O peru de Natal - 17


Era Natal. Além da família, naquele ano havia visitas e a casa estava repleta. Para simplificar a ceia de Natal e termos tempo para acompanhar os amigos recém-chegados, que tinham vindo do Brasil para passar a época Natalícia connosco e mais uma vez terem o gosto e o prazer de passear por Lisboa, incluindo centros comerciais, encomendou-se um peru recheado no El Corte Inglês. 

Tudo correu muito bem, até que chegou a véspera de Natal, com um cem número de coisas a fazer. Andava tudo eufórico e a mãe queria mostrar o seu melhor, tanto no que dizia respeito à pessoa dela, nos seus tremendos oitenta anos cheios de presença, vaidade, disposição, como no que dizia respeito à casa, usando as suas melhores toalhas, louças, enfim, essas coisas da praxe. 

Já tinha dado todas as suas ordens para o que cada um precisava de fazer e chegava a hora de ir ao Corte Inglês buscar o peru. Pediu ao marido, que se desculpou, com qualquer coisa que tinha para fazer e muito sorrateiramente, dispensou-se a ele mesmo dessa tarefa. Pediu a um dos filhos que vive com os pais, mas também não obteve colaboração. O trabalho… enfim, desculpas de toda a ordem. A Clara, nem contactável estava, nem fazia muito sentido. Os outros ainda menos e claro está, sobrou para mim. 

Tudo bem, porque não? É preciso, vamos a isso. E a mãe lá se foi arranjar com toda a pompa e circunstância. Do chapéu ao perfume, das luvas ao nariz empinado, lá fomos nós ao Corte Inglês. Pelo caminho, embora muito curto, dizia que seria bom estacionar o carro lá fora, porque aquilo era coisa rápida. E não se calou um segundo, conforme era costume. Na verdade, quando passei na frente da porta principal em direcção ao parque, havia um lugar vago, que ela logo sugeriu que eu o aproveitasse. Aquilo era rápido, insistia ela. Então, antes mesmo de estacionar, pediu-me para a deixar sair. Eu nem sabia se podia estacionar ali e o facto de estarem lá os outros não me tranquilizava nem um pouco. Mas como era Natal, podia ser que a coisa fosse pacífica. Então, decidiu que podia ir sozinha e que seria melhor eu esperar ali. Se precisasse de alguma coisa chamaria por telemóvel. Tudo bem. 

Esperei, esperei e fartei-me de esperar. Achei que não devia ser tão rápido como ela dizia, claro, mas o facto é que já estava a demorar demasiado. Chamei duas vezes pelo telemóvel, mas não respondia às chamadas, que acabavam caindo na caixa postal. Que fazer? Bom, teria que esperar para não nos desencontrarmos, mas já começava a ficar inquieta. Não estaria pronto o peru? Mas nesse caso podia dizer alguma coisa!? 

Depois de muito tempo e muito farta de estar ali sem saber o que fazer, voltei a ligar. Desta vez a mãe atendeu, mas eu não ouvia a voz dela. Em vez disso, ouvia tudo o que se passava à sua volta. Ouvia um barulho de fundo de muitas vozes ao mesmo tempo e ruídos que não conseguia identificar. Finalmente, ouvi a voz dela, mas não era a falar comigo, era a falar sozinha ou para alguém com quem devia estar chateada. Dizia ela “não consigo entrar… então, quando é que eu entro?”… 

Bom, continuava sem falar com ela, mas dava para perceber que ali havia grande confusão, o que era natural, por ser véspera de Natal. Entretanto, a chamada caiu e aí fiquei novamente à espera. Por aquela porta era um tal sair e entrar, mas ela não aparecia. Passado um pouco, toca o meu telemóvel: era ela. Ansiosa, atendi imediatamente na esperança de ter notícias concretas. Dizia que aquilo estava muito difícil e que estava imensa gente para apanhar os elevadores. Que o peru era uma caixa enorme que ela não conseguia segurar, mas que depois um senhor lhe deu um carro e ela lá o foi empurrando até aos elevadores mas, com tanta gente, não conseguia entrar no elevador com o carro. E nesse preciso momento, ouvi a voz de um senhor dizendo “pode passar, faça o favor de passar” e só a ouvi dizer, “parece que agora vou conseguir” e a chamada mais uma vez caiu. 

O raio do peru já estava a dar mais trabalho do que eu imaginava e nesta altura decidi deixar o carro e ir ao encontro dela, por achar que era o mais sensato. E depois de uma trégua rápida dos carros sempre a passar, atravesso a estrada em direcção à porta do Corte Inglês. Entro, e olhando para aquela multidão, lá descubro a mãe empurrando o carrinho, de facto, com uma caixa que parecia ter meia dúzia de perus. Continuava a praguejar, claro: “Dois homens em casa e são as mulheres que têm que fazer tudo(?)”, dizia ela. Não era o caso, que lá em casa era rigorosamente o contrário. Era o marido e o filho que faziam tudo. Sempre me lembro de ver a minha tia/mãe pedir, dar ordens, etc… mas só por esta vez ela estava certa. E continuava a relatar tudo o que tinha acontecido, que estava cheio e tudo o mais. 

Tirei a caixa do carro e disse-lhe para vir comigo. Agora a caixa estava nas minhas mãos e realmente era um trambolho que não dava jeito nenhum e a prova disso é que tropecei num degrau ou num desnível qualquer e fiquei sem saber se largava o peru ou… enfim, lá consegui não fazer asneira, mas foi por pouco. Lá ia o molho e tudo à vida. Levantei-me, sempre segurando a caixa. Ela preocupada se eu me tinha magoado, olhámos uma para a outra e desatámos a rir. Era comum acontecerem essas cenas, de desatarmos a rir nas alturas menos apropriadas. Parecia que todo o mundo estava a olhar para nós pensando que éramos doidas. Eu, caladinha como convinha, mas a mãe, sempre falando bem alto para toda a gente ouvir e fazendo os seus comentários, por vezes nada desejáveis. Mas era assim e todos nós já estávamos mais do que habituados. 

Antes de atravessarmos a estrada e como estava em linha de vista com o carro, pedi-lhe para ir para lá e me abrir a porta do assento traseiro, enquanto eu abria com o comando, para depois poder pegar convenientemente na caixa do peru. Mas de cada vez que apontava o comando, algo se interpunha e eu não conseguia fazer contacto. E perante cada tentativa minha, falhada, ela não fazia senão rir, rir, rir, só que eu já não estava a achar muita graça e só me apetecia largar o peru em qualquer lado. Finalmente o carro abriu e lá foi ela andando para me abrir a porta lateral esquerda. Acontece que a porta estava ligeiramente empenada e o que abria era muito pouco, para a caixa poder entrar. Eu bem empurrava, virando daqui, dali, mas não ia. Já cansada, fechei a porta com toda a força, pedi-lhe que abrisse a bagageira e enfiei o peru no porta bagagem. Entrámos no carro e desatámos a rir outra vez. 

Pelo caminho a mãe ia revendo todas as peripécias, acrescentando mais uns pormenores e à custa disso continuávamos a rir. Quase a chegar a casa ligou para os homens dela exigindo que viessem cá abaixo para levarem o peru para casa. 

E chegou a hora da ceia de Natal. Foi tudo para a mesa. Tudo o que havia e o peru também. Lá estava ele, todo bonitinho, tão brilhante que até parecia de plástico. E toda a gente começou a comer e de tudo um pouco se foi provando e comentando o gosto, o paladar, enfim. Mas o peru, continuava lá, bonitinho, inteirinho. No final da noite, todos olhámos para o peru e todos comentámos que não tinha sido encetado. Ninguém tinha sido tentado a experimentar o famigerado peru. Ok, levantou-se a mesa e foi tudo para dentro, para a cozinha. 

Dia de Natal, a mesa posta para o almoço. Muita coisa na mesa e lá vem outra vez o peru, inteirinho. O almoço deu início, foi-se comendo tudo o que estava na mesa, mas o peru continuava lá, sem ser tocado, até que a mãe se lembrou de que melhor seria cortá-lo. E lá veio uma boa alma com uma enorme faca que desmanchou o peru todo. Agora o peru já estava todo esquartejado, o que era mais fácil para se servirem. E todos continuaram desfrutando do almoço de Natal, mas o peru continuava lá, embora cortado, sem ninguém lhe tocar. Acabou o almoço, levantou-se a mesa e lá foi tudo para dentro novamente. E o peru passeando. Eu já nem podia olhar para ele. 

E veio o dia 25 à Noite e todas as iguarias vieram e o peru também, claro. E já ninguém queria ver o peru. E acabou o Natal, as visitas foram-se embora e tudo voltou ao normal, mas o peru continuava intacto. A mãe, com as mãos juntas e os dedos cruzados, olhava para nós e olhava para peru e não sabia se havia de rir, se havia de chorar. 

O facto, é que o peru, não fez falta nenhuma. Acredito que tenha feito falta em muitos lares e a muitas famílias. Ali, comeram peru sim, mas de castigo, até ao Ano-Novo. 


sexta-feira, 3 de abril de 2015

O Nuno - 16


Aquela sala era uma maravilha. Não havia stress que entrasse porque se passava o dia a rir por dentro e por fora, às claras ou às escondidas, de alguma maneira havia sempre um motivo atrás do outro que não nos dava descanso. Era uma terapia e tanto e porquê? Porque havia uns elementos absolutamente deliciosos, mas um, um em especial era uma verdadeira anedota, uma anedota viva, que ninguém podia ignorar nem desmerecer.

 

Nuno era filho de mãe e pai funcionários que conseguiram enfiá-lo na RTP. Nuno era muito novo, tinha vinte e um anos. Por acaso lembro-me de ter entrado com a mesma idade, vinte e um anos, mas não era filha nem família de ninguém e só entrei porque fiquei classificada em primeiro lugar no concurso público que fiz no meio de trezentos e tal candidatos. Mas o Nuno já tinha um filho com três aninhos, que era uma graça. E quando nos metíamos com ele, brincando, por causa de ter sido pai tão cedo, respondia com a sua habitual displicência “a malta era jovem e éramos hippies, íamos para o castelo e…” e… já se viu.

 

O facto é que o David estava cá. A mãe, a Mara, era uma garota da idade dele, mas com outra cabeça, tanto assim, que Nuno passava a vida a pedi-la em casamento e ela negava-se, coisa que ele não entendia, mas que não o fazia desistir e sempre que havia pedido de casamento, que dava direito a ficar de joelhos perante a pretendida, fazendo uma declaração com flores e tudo, no outro dia tínhamos que aturar os desabafos do “não” da Mara.

 

Viviam juntos desde o nascimento do filho, sendo que os pais dele pagavam quase todas as despesas. Aquele neto era quase um filho. Mas estava tudo em família, tanto em casa como no trabalho e isso é que era o importante. Entretanto, todos os dias levávamos com “Nunices”, como costumávamos dizer. O Nuno era um indivíduo que não primava pela inteligência e além disso, ou por conta disso, desenvolvera uma personalidade excêntrica, baseada num possível ego, que o fazia achar que era especialmente capacitado para qualquer coisa e ainda dotado para as artes -, só porque o pai era “pintor” -, quando na verdade não era, nem muito nem pouco, em coisa nenhuma. Esta é que era a verdade. Gostávamos muito dele, mas as coisas são como são.

 

Tinha outras coisas, tais como, era um indivíduo bem disposto e sempre alegre, tinha muito amigos, mas todo ele era muito “naif” e às vezes fazia-nos perder a cabeça com tanta burrice. Só fazia asneiras no trabalho. Os outros faziam e ele desfazia. Era uma completa nulidade. Não sabia, nem aprendia e o que fazia era precário. Só sei que à conta dele, passávamos a vida a rir, ainda que não quiséssemos.

 

Vocês têm a mania do “inho”, dizia ele, e nós ríamos, sendo que, muitas vezes, ele nem percebia de que é que nos ríamos, o que nos dava ainda mais gozo. Sempre que atendia o telefone e eram recados que tinha que transmitir, era preciso tradutor/a, porque ele simplesmente alterava as coisas mais simples, complicando-as. Um dia atendeu três telefonemas seguidos, com pouco intervalo uns dos outros e dizia para a pessoa a quem tinha que dar o recado e que na altura não estava: “telefonou o sr. António da Central”; ficávamos a olhar para ele e desatávamos rir. “Telefonou o sr. Raposo da Manutenção”… e a cena repetia-se; “telefonou a D. Alda…” e a gente ria, porque não conseguíamos deixar de o fazer, enquanto ele ficava muito chateado, queixando-se “lá estão as parvas a rir” e a gente ria ainda mais. É que não tinha sido nada daquilo que ele tinha ouvido, ou seja, não havia nenhum sr. António na Central, mas sim um Antonino, assim como não havia nenhum Raposo na Manutenção, mas sim um Raposinho e a D. Alda não era Alda coisa nenhuma, era Aldina, mas como ele dizia que nós tínhamos a mania do “inho”, por sua livre recreação, mudava o nome às pessoas e quando o rectificávamos “oh, homem, não é António, é Antonino”, ele não percebia, limitando-se a dizer “hum, que esquisito”. Esquisito ou não, as pessoas tinham um nome que ele não podia alterar porque lhe apetecia.

 

Muitas vezes, muitas vezes mesmo, vinha de boleia para casa comigo, porque ganhava tempo. Um dia disse que eu tinha que esperar um bocadinho porque primeiro precisava de ir à florista, que era do outro lado da rua, comprar uma flor para a Mara. Começámos todos a rir porque logo percebemos que seria mais uma investida para pedir a Mara em casamento. Disse-lhe que não podia esperar. Começou a “choramingar” para ver se me comovia e esperava por ele. Disse-lhe que não. Como ele já estava a torrar a minha paciência, lembrei-me de uma coisa. No sítio onde eu o largava para apanhar o autocarro para casa, que era um pouco mais à frente, havia flores. Disse-lhe que viesse, que podia comprar a flor junto à paragem do autocarro. Mas ele dizia que não havia nenhuma florista ali. Tem uma florista, sim, dizia-lhe eu, sem entrar em pormenores. Bom, depois de muita batalhação, lá se convenceu e veio comigo até ao tal sítio onde costumava ficar. Quando parei disse-lhe que tinha ali à direita a florista. Ele olhou e viu a funerária com o florame todo à porta. Ignorou e voltou a perguntar-me onde era a florista. Repeti-lhe que ali mesmo na frente dele. Mas isto são flores para os mortos, dizia ele, muito espantado. Oh, tonto, e as flores não são todas iguais? Respondi-lhe. Não vou levar destas flores para a Mara(?), nem pensar(!), dizia ele, muito chateado… parecia um puto. Isso é contigo, tu é que sabes, respondi-lhe. E gora aonde é que vou comprar a flor para a Mara? Aí, tens tantas flores, não há uma que sirva? Dizia eu. Ah, mas estas não… enfim… disse adeus e deixei-o. 


No outro dia estava de trombas comigo, não me falava. Contei a história, toda a gente se ria. Fui mazinha: não; a verdade é que as flores não têm culpa de ser discriminadas. Umas servem, outras não. São todas iguais. Não vêm todas do mesmo sítio? Cada um dá-lhes o destino que quer. Claro que conhecendo o ser “naif” do Nuno, era sabido que ia dar sarilho. Fazer o quê? Nunca mais me chateou com as flores. Quando precisava ia mais cedo buscá-las.

 

Um dia tive que passar no mecânico para lhe pagar e mais uma vez o Nuno ia comigo. Parei o carro e saí. Veio o mecânico, acertámos as contas, ele olhou para dentro do carro, viu o Nuno e em voz baixa perguntou-me se era o meu marido. Respondi-lhe que era um colega e regressei ao carro. Comecei a andar e o Nuno pergunta “o que é que ele te disse quando falou baixinho”? Respondi-lhe que queria saber se ele, Nuno, era o meu marido. O Nuno todo enxofrado, arregalou os olhos e disse “eu, o teu marido, era só o que faltava!” Achando que era por causa do factor “idade”, eu, a parva, disse-lhe que também não era preciso reagir assim, lá por ser mais velha, não era preciso mostrar-se tão incomodado assim! Mas logo ele se apressou a corrigir, dizendo que não era nada disso. Fiquei mais intrigada. Então o que seria? Resposta dele, com o dedo indicador bem apontado para o ar: “Se eu fosse teu marido não eras tu que conduzias o carro, era eu!”… Eu já não queria ouvir mais disparate nenhum. Chegava de tanta estupidez.

 

O Nuno andava a tirar a carta de condução. Chegou o dia do exame e ficou mal. Vinha muito triste, claro. Uma vez pediu à mãe o carro emprestado e a mãe disse que não. Depois pediu ao pai e o pai disse que não. Claro, os pais sabiam o filho que tinham. Um dia ia comigo de boleia e pediu-me para conduzir o meu carro. “O quê, estás doido?” Disse-lhe eu. Pois ele levou o caminho todo a chatear a minha paciência para o deixar meter as mudanças. Parecia uma criança pequena. Até que, a páginas tantas, parei junto à berma do passeio, abri a porta e disse-lhe sem dó nem piedade: “sai, sai, estou farta de te aturar; nem ao meu filho eu aturo tanta parvoíce”. Ficou amuado, como era de esperar. 


Mais tarde, finalmente conseguiu tirar a carta. Um dia, a descer a Calçada de Carriche, ia um sujeito a conduzir um velho carro, muito, muito devagar: dez ou quinze à hora, mas muito cheio da sua pessoa. Eram buzinadelas de todo o lado e eu pensei para comigo mesma “mas o que é isto, o que é que se passa”? Quando passo por ele, qual não é o meu espanto, era o Nuno… quem mais poderia ser?!…

 

Uma vez tocou o telefone da colega ao lado dele, cuja secretária estava colada à dele. O telefone dela tocou e como ela não estava, ele atendeu. Os telefones estavam lado a lado. Logo a seguir ela chegou e sentou-se. Tocou o telefone dele e como ele continuava ao telefone, atendeu ela o dele, ficando os dois telefones com os fios cruzados. Ele acaba o telefonema e desliga o telefone, sem nunca mais se lembrar que era o dela, pousando o auscultador no primeiro telefone que tinha à frente, o dele, onde ela estava a falar. Resultado: desligou a chamada dela. Eu, que ficava em frente, estava a trabalhar, mas presenciei a cena toda e dei o alerta, dizendo que ele tinha desligado a chamada dela, porque ela ficou com o telefone na mão “tá… tá… tá”… e ninguém respondia, claro, pelo que ela acabou também pousando o auscultador. Nesta altura a Vitória, que ficava ao meu lado, a Vitória e eu já ríamos da confusão que o Nuno, uma vez mais, tinha estabelecido, enquanto ele se lamentava dizendo que nós o acusávamos de tudo, era tudo ele, continuando a leste do que tinha feito. E, calmamente, começámos a explicar, mais para a colega do que para ele, o que tinha acontecido. Mas, entretanto, a pessoa com quem a Lurdes estava a falar e a quem tinha sido cortada a chamada, liga de novo. Claro que o telefone que tocou foi o do Nuno, pelo que ele levantou o auscultador para atender, mas como os auscultadores estavam cruzados não ouvia nada, porque estava no auscultador errado e dizia “não está cá ninguém!”… Nós sabíamos que estava, mas no outro auscultador. Mas por esta altura já ríamos tanto, que já nem se percebia o que dizíamos e ele continuava a leste. E o telefone tocava, ele atendia “tá?”… E desligava. E a cena repetia-se até que eu me contive e disse à Lurdes para descruzar os auscultadores que estavam trocados. A Lurdes que era esperta e perspicaz, percebeu logo o que se tinha passado. Descruzou os auscultadores olhando para ele e dizendo “idiota, é mesmo idiota, imbecil, olha o que fizeste, não serve para nada”… e o Nuno só dizia “são umas malucas”… “estou farto disto”… e outras coisas mais, ao mesmo tempo que saía porta fora, com a gente a rir que nem umas perdidas.

 

Uma vez chegou pela manhã entrando na sala com um canudo gigantesco, daqueles que os desenhadores de arquitectura usam para guardar os trabalhos. Assim era o Nuno, entrando porta adentro, com aquele seu ar triunfante de sempre, de um grande personagem. Quando o vimos exibindo o canudo, todos franzimos a testa, pensando no que ele iria aprontar desta vez. Entrou e encaminhou-se para a minha pessoa, criando um certo suspense. Todos ficámos atentos, a ver o que saía dali. No seu melhor, abre o canudo enorme, tirando de lá uma miserabilíssima folha de papel A4. A esta altura já estavam várias colegas de volta, assistindo a mais uma performance. Todos estavam curiosos para ver o que traria o Nuno. O hilário começou assim que saiu uma folha A4 de um canudo tão grande. Essa foi a primeira gargalhada geral. Depois e sempre em grande estilo, coloca a folha em cima da minha secretária. Dando uma olhada, vejo umas pinceladas, parecendo que os pincéis tinham sido limpos naquela folha. Depois ele vem ao meu ouvido dizer para ignorar o resto do pessoal porque, ali, além de mim, ninguém tinha “sensibilidade” para apreciar as artes. Os outros não percebiam nada daquilo, sendo que eu é que estava à altura do trabalho artístico dele. Fiquei a olhar para ele com cara de parva. Saiu da geral, aquela exclamação “puf”, de que não serve para nada. Tendo percebido o desprezo de todos, continuou a explicar-se, dirigindo-se sempre e só à minha pessoa “isto é o que está a dar(!)”. O que eu via era uma coisa sem nexo nenhum. Uma coisa de idiota. E era isso que me apetecia dizer-lhe, mas não o conseguia, faltava-me a coragem suficiente. Entretanto, ele continuava a querer vender a banha da cobra: isto é o que está a dar… nos consultórios dos médicos e nos gabinetes dos advogados é isto que se usa agora e vale uma fortuna! (?)…


Mas há mais... quando ele se chateava muito e já não sabia o que fazer, punha o lápis ou a caneta por cima da orelha, à antigo merceeiro e lá vinha aquela frase, que por mais que fosse corrigida, não entrava de maneira nenhuma:


-  "É preciso uma paciência... uma paciência de Jacob"!

De Jô, dizíamos todos ao mesmo tempo, a rir à gargalhada.


- De Jô???... 

Sim - respondíamos nós - Jacob é a outra lá de baixo.

Era uma colega de se chamava Helena Jacob! (?)



segunda-feira, 30 de março de 2015

Seria cómico se não fosse trágico - 15


É verdade. Seria cómico se não fosse trágico e entre estes dois pólos é difícil posicionarmo-nos. Contudo, e porque a vida continua, aqui fica a história.


Meu pai faleceu às vésperas de completar noventa anos. Uma vida longa, complicada, difícil, mas com muitas coisas boas e muitas alegrias, também, sem dúvida. Quis o destino que partisse enquanto dormia, o que considero uma verdadeira bênção, pois penso que não sentiu nada.


Nessa manhã, a minha madrasta que sofria de Alzheimar acordou, levantou-se e fez o que normalmente costumava fazer, sem dar por nada. E porque daria? Era natural que desse. Só o facto de ele ainda estar deitado quando ela se levantou já era um sinal, uma vez que era sempre o primeiro a levantar-se e sempre se levantava cedo. Mas dado o estado de saúde dela, nada lhe ocorreu. Também, logo de manhã, apareceu a irmã que, quase todos os dias ia lá passar o tempo, atazanando a cabeça deles, especialmente a da irmã porque, além do Alzheimer, tinha outros problemas: Parkinson e outras coisas mais, pelo que conseguia estar pior do que a minha madrasta, que passava o tempo a queixar-se de que ela a cansava e que, por sua vez, dava conta da cabeça do meu pobre pai, que se via a braços com tudo isto. A sorte dele é que conseguia evadir-se e desligar-se com facilidade.


E naquela manhã, estava eu a entrar no carro para mais um dia de trabalho, quando o telemóvel tocou. Tinha falado com ele no dia anterior, várias vezes e a última vez já era noite. Estava bastante bem disposto, muito animado, porque ia dar um jogo de futebol e ainda me disse quantas pessoas estavam a ver o jogo, pelo que tinha com que se distrair ao serão. Tudo bem, eu estava tranquila, porque parecia que estava tudo bem. O facto é que o telemóvel tocou. Não fiquei em sobressalto, mas o que seria? Era a D. Conceição, a senhora que se encarregava de tomar conta deles - o que representava uma ajuda preciosíssima, sempre muito atenta e cuidadosa com tudo -, pedindo-me para ir o mais depressa possível, porque o meu pai tinha falecido. Chegou lá, viu as duas e perguntou onde tinha ido o meu pai, tão cedo. A minha madrasta respondeu que estava a dormir. Ela estranhou o facto, mas foi para a cozinha fazer coisas. Como o meu pai não dava sinal, ela voltou a perguntar à minha madrasta se ele estava mesmo a dormir. A outra respondeu que achava que sim, porque ainda não tinha aparecido. A D. Conceição insistiu para ela ir lá ver se se estaria a passar alguma coisa. A outra foi e vendo o meu pai deitado, voltou, dizendo que ele continuava a dormir. O tempo foi passando e a D. Conceição pediu para o ir ver e, claro, viu que ele estava morto. Bom, já não fui trabalhar. Dei um telefonema rápido para o meu chefe e segui directamente para lá. Em simultâneo, fiz uma chamada para a minha irmã do Algarve, para que se orientasse com a vida dela e tratasse de avisar a restante família. 


Quando lá cheguei, estava a minha madrasta, a irmã, a D. Conceição e a minha meia-irmã, filha do casamento do meu pai com a minha madrasta. Entretanto, já lá estava uma senhora da agência funerária porque, a minha meia-irmã, a mais nova, já tinha tomado umas providências, uma vez que morava lá ao lado. Quis ir ver o meu pai e pedi à senhora da funerária que me deixasse sozinha com ele por uns minutos. Estranhamente, aquela morte, que eu tanto temia, não estava a ser tão dramática como supunha. Em primeiro lugar, ele tinha partido durante o sono e isso eu tinha que agradecer a Deus. Em segundo lugar, na verdade, olhando para aquele corpo morto, era realmente um corpo morto e vazio, ou seja, ele não estava ali. Aquele que eu tão bem conhecia e que tanto amava, não era aquilo. A vida dele já não pertencia àquele corpo. Eu até conseguia sentir a energia dele mas, definitivamente, já não estava ligada àquele corpo, talvez por causa do "vazio" que me fez sentir. Percebi que ele tinha partido e que a sua existência, melhor dizendo, a sua essência, passara a outra dimensão. Compreendi a morte como uma “passagem” para a outra vida, o que me fez ficar relativamente bem comigo mesma e respirei fundo. Claro que há a saudade, mas isso é outra coisa. A verdade é que felizmente para ele e para todos nós, não foi um drama maior, como foi a morte da minha mãe, que partiu com trinta e dois anos de idade, deixando-nos ainda crianças. Isso sim, foi assaz doloroso. Uma dor sem fim.


E agora começa a cena; uma cena de loucos, diga-se de passagem. Quando lá cheguei eram umas dez horas da manhã e até à hora em que o corpo saiu para a capela, ao fim do dia, durante todas aquelas horas, levámos com as duas irmãs, com as maiores loucuras que se possam imaginar, mas sem descanso, porque logo se esqueciam do que tinham acabado de dizer para recomeçar uma vez mais toda a mesma lenga-lenga. É triste, é duro, é horrível!


Então, a minha madrasta só dizia “ora o que havia de acontecer… o Custódio morreu… como é que foi acontecer uma coisa destas?!…” Isto não era um desabafo de viúva; de uma mulher que acaba de perder o marido. Isto, era um disco que estava gravado e que saía a cada dois minutos. E de cada vez que ela dizia isto, a irmã respondia “mas tens a certeza? Já foste ver? Pode ser que não… vai lá ver melhor…” 


A minha madrasta passava-se. Gritava com ela, chamava-lhe estúpida e olhava para ela com vontade de lhe bater. A outra calava-se, intimidada. Dois minutos depois, a minha madrasta voltava à carga. Dava uns passos miúdos e com as mãos apertadas e os dedos entrelaçados, começava o seu dilema “Mas quem é que havia de dizer uma coisas destas… o Custódio morreu, já viram… e agora(?!)”, ao que a outra respondia “mas tens a certeza(?)” e a outra respondia que sim, aos gritos e com os olhos bem arregalados para a irmã que continuava o disco dela “mas está mesmo morto? Pode ser que ainda não esteja bem morto e se possa chamar um médico, um médico bom, que possa fazer alguma coisa!?…” A outra exasperava com as coisas que a irmã dizia. 


A minha irmã e eu olhávamos uma para a outra, sem trocar uma palavra, atónitas, com todo aquele espectáculo. E mais um bocado e lá vinha mais uma pergunta “E o Custódio, saiu?” Respondia a outra “já te disse que o Custódio morreu e não me chateies mais a cabeça”… - a outra -  “morreu,  mas como é que isso foi acontecer? Então não chamaram um médico? Não pode ser… não deve ter morrido"… - a outra olhava para ela e começava a gritar, completamente histérica… enfim, foi o dia todo nisto. Mais daqui, mais dali, a coisa foi sempre a mesma, cada uma com seu disco. Só então tive a noção do problema que o meu pai tinha que enfrentar diariamente e do drama que estas doenças são.


Ao fim do dia fui para minha casa descansar e preparar-me para o dia seguinte: velório e funeral. E no dia seguinte estava a família toda, bem como os amigos mais chegados e alguns vizinhos. Enfim, estava quem tinha que estar. Era o velório. Tudo em silêncio. Tudo na maior paz. A minha irmã mais nova ao meu lado e mesmo à nossa frente a minha madrasta e a irmã. 


Nas profundezas do silêncio e, ainda que em voz baixa, bem baixinho, ouço a voz da tia da minha irmã - a irmã da minha madrasta -, que estava à frente dela, perguntar à mãe, que estava à minha frente: “Ó Maria Angelina, mas afinal o que é que estamos aqui a fazer e esta gente toda aqui também?” A minha madrasta não deve ter entendido muito bem ou não estava à espera que a irmã se lembrasse de falar naquele momento… não sei… sei que fez a outra repetir a pergunta “o que é que estamos aqui a fazer e o que é aquela caixa ali?”


A minha madrasta que até então não tinha dado sinais alarmantes de desordem mental, desatinou completamente. Olhou para a irmã e em estilo de pergunta, repetiu a pergunta que a outra lhe tinha feito: “o que é que estamos aqui a fazer?!” Eu e a minha irmã ficámos imóveis, aterradas e incrédulas. Nós não sabíamos lidar com uma situação daquelas. Ela não sabia e eu… eu nem sabia bem se acreditava no que presenciava. A outra, um pouco acabrunhada e continuando a falar baixinho, perguntou mais uma vez: "o que é que estamos aqui a fazer com esta gente toda?" A minha madrasta olhou para ela e respondeu: "então, não sabes, o Custódio morreu!". Resposta da outra: "O Custódio morreu...?" E a outra: "então não sabes?" A outra: "não"... a minha madrasta: "não sabes(?)", a outra: "não, ninguém me disse nada!"


Então a minha madrasta volta-se para trás e num tom de completa perplexidade, pergunta directamente à filha: “oh Aldinha, então tu não disseste nada à tia, que o pai morreu? Ela tinha sido a primeira pessoa a tomar conhecimento da morte do cunhado. A minha irmã, com o nervoso, começou a pestanejar vigorosamente, que era um tique dela, mas manteve-se calada e quieta que nem uma porta. E sem se fazer esperar, virando-se para mim, muito, muito zangada e muito indignada: “Lilly, então não disse nada à minha irmã, que o seu pai morreu?”... (!) 


Até estremeci de susto.


Então e para aguentar com o tranco, pensei: “bom, se o meu pai estivesse aqui, daria uma grande gargalhada cheia de compaixão, para sua descontracção”. 


Seria cómico, se não fosse tão trágico.

 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Nordeste - 14


O aeroporto internacional de S. Paulo estava uma completa bagunça, por conta da greve dos controladores de tráfego aéreo. Havia voos em atraso e outros que nem se chegavam a realizar. No entanto, Inajá e eu conseguimos um voo para Natal.

 

Era um avião muito pequeno, como os que fazem os voos interilhas, nos Açores. E aí estávamos as duas sentadas, à espera de embarcar para um merecido descanso em Ponta Negra. Mas eu nunca tinha visto um vôo assim. Assim, quero dizer, naquelas condições. Bem sei que íamos para o nordeste, mas nunca pensei que aquilo existisse. Havia um indivíduo que não tirava os olhos de mim, o que já me estava a incomodar. Claro que não seria pelos meus lindos olhos, mas talvez me tenha ouvido falar e tenha percebido que era Portuguesa.

 

E, finalmente, lá veio a chamada para o nosso voo. Foi tudo a correr, com certeza com medo de perderem o avião, mas como Inajá não estava com pressa nenhuma, fomos ficando para o fim e quando entrámos, já estava praticamente cheio e não conseguimos lugar juntas. Ela passou à minha frente e fez-me sinal para me sentar na segunda fila do lado esquerdo, porque logo a seguir, ou seja, na terceira fila, também havia um outro lugar e assim poderíamos ficar o mais perto possível uma da outra.

 

Havia muita gente no corredor e não davam passagem. O avião tinha somente duas filas de três lugares de cada lado e o corredor ao meio. Atrás de mim vinha o sujeito que não tirava os olhos de mim e quando me preparei para me sentar - o que não era fácil, porque era um lugar entre duas pessoas e portanto, tinha que passar por cima da primeira, a da ponta, que era uma senhora gorda e que não fazia a menor intenção de se levantar para eu passar, fui obrigada a alçar a perna e praticamente pular por cima dela, que ainda por cima era bastante avantajada -, o indivíduo, o tal que me seguia com o olhar, aproveitou a deixa para comentar “tá vendo como é bom ser magra”?! Fiquei sabendo que gostava de mulheres magras. 


Finalmente consegui chegar ao lugar e sentar-me. Entretanto, Inajá já estava sentada e lá nos acomodámos. Eu levava um livro para me entreter na viagem, mas ainda era cedo para começar a minha leitura. O rebuliço era tremendo. Havia uma agitação fora do vulgar. Um avião tão pequeno conseguia dar mais trabalho do que um grande. Pois é, mas tinha-me esquecido que era um voo doméstico! As hospedeiras não tinham mãos a medir. Uma senhora que ia sentada na fila à minha frente, a primeira, estava muito preocupada, por conta de uma pequena mala que não conseguia acomodar na bagageira e a hospedeira não queria que ela a levasse no colo. Disse-lhe que a acomodaria na parte de trás do avião e que à chegada lha devolveria, mas a senhora não estava nem um pouco descansada. É que eram os medicamentos dela e queria-os debaixo de olho. Foi uma luta. Cada um tinha o seu problema e a sensação que eu tinha é que ouvia galos e galinhas cacarejando… có-có-ró-có-có… por todo o lado, mas acho que isso não podia ser, não sei. É porque as pessoas tinham todas um ar muito rural, gente do “sítio”, muito caipiras e as bagagens que traziam eram igualmente caipiras. Cestos de verga e outras coisas do género. Eu olhava e parecia que transportavam garrafões de vinho ou azeite ou ainda cachaça, sei lá. Também não devia ser nada disso, mas era a impressão que me causava. Só sei que era uma bagunça infernal e que aquela gente não se acomodava nem por nada. 

 

Com tudo isto, tive uma crise de claustrofobia como nunca tinha tido na minha vida, até porque, felizmente, não sofro de claustrofobia. Mas também pode ter sido pânico. Estava um calor infernal e o ar condicionado geral ainda não tinha começado a funcionar. Com aquela gente toda em cima de mim e o avião tão pequeno, parecia que queria respirar e não podia. Comecei a suar, a suar e pensei que me ía dar uma coisa. Estava quase a gritar, descontrolada, quando me lembrei de abrir o ar por cima de mim e fi-lo no momento certo. Mais um segundo e tinha sido uma bronca.

 

Bom, o avião arrancou e finalmente preparava-me para dar início à minha leitura, quando percebi que não ia ser possível. O indivíduo à minha direita, junto à janela, como o voo era de baixa altitude e se via a paisagem lá por baixo, estava deliciado e fez a viagem toda com o pescoço virado a 90 graus à direita e o rosto colado ao vidro da janela, o que me tirava toda a luz. Azar… ainda fiz uma cara feia, mas ele sorria de uma ponta a outra, com os lábios cerrados e percebi que não havia nada a fazer.

 

Entretanto, veio uma “aeromoça” perguntar o que queríamos tomar. Pedi uma coca-cola sem gelo e a senhora do meu lado esquerdo pediu um chá com gelo. Isto, depois de muitas tentativas por parte da hospedeira, porque ela não sabia o que pedir. Encolhia os ombros e sorria, só isso.

 

A confusão tinha abrandado um pouco, mas continuava muita agitação e eu não perdia a esperança de ver um galo ou uma galinha pulando no meio do corredor ou um caipira puxar do garrafão e meter à boca uma cachacinha.

 

Entretanto, dá-se um episódio completamente insólito. Um passageiro deficiente precisou de ir ao WC. Até aqui tudo bem. Vieram duas hospedeiras que transportaram o senhor até à porta do WC e depois o transferiram para a sanita. Como o avião era muito pequeno, aquilo era tudo ali à nossa frente. O povo todo se levantou para “espreitar”… eu nem queria acreditar no que os meus olhos viam. Veio uma outra hospedeira que mandou sentar toda a gente e correu um cortinado de um lado ao outro, o que era a coisa certa. Ainda assim, houve quem abrisse o cortinado para ver o senhor deficiente a fazer xixi!? É inacreditável uma coisa desta natureza! Eu estava passada.

 

Tudo voltou ao normal e lá veio uma hospedeira trazendo as bebidas. Quando chegou a vez da minha fila ela perguntou para quem era a coca-cola e antes que eu tivesse tempo de responder, a senhora do meu lado esquerdo respondeu que era dela. Pensei que talvez ela tivesse mudado à última hora e eu não me tivesse apercebido e antes que a bebida fugisse tomou logo um gole. Mas não, claro que não. Quando a hospedeira me vinha dar o chá eu disse “desculpe, coca-cola”. Então a hospedeira percebeu imediatamente que tinha havido uma troca e apressou-se a substituir o chá pela coca-cola que eu tinha pedido. Aí aconteceu outra cena inesquecível. A senhora caipira, na sua doce e ingénua inocência, com toda a calma deste mundo, disse “ai, disculpi, eu minganei”, mas isto foi o de menos. Isto era natural. O que não era natural é o que se segue. Depois de já ter tomado um ou dois goles, não sei, muito solícita e delicadamente, vem devolver-me a coca porque era minha(!?)...

 

 

E viva o Nordeste! Viva o Brasil, que eu amo de paixão.