Translate

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Rosas brancas - 18


Rosas brancas, frágeis… uma aragem mais forte e desfolham-se com toda a facilidade. Frágeis na cor, frágeis na estrutura, depressa começam a perder as pétalas e uma por uma segue o seu próprio caminho.

 

De novo? Um, dois, três, quatro… cinco… no regresso, seria a sexta vez que passava por ali, completando três dias de idas ao clube de Vela e lá estava ele. Que drama!... Como era possível? Há pessoas que nos surpreendem pela positiva, outras pela negativa. Era o caso. Até tive dificuldade em reconhecê-lo. “Parece”… pensei eu. Não parece, é. Sem dúvida nenhuma. Que coisa diabólica!

 

Parei um pouco, por entre a roseira branca, observando a figura. Parecia um tonto, coitado. Era uma pessoa de estatura baixa, mas normal. Agora, parecia que estava por metade da altura. Umas calças larguíssimas, que não pareciam dele e um casaco com uns ombros muito largos que lhe chegava até aos joelhos, quando não devia ultrapassar a zona da coxa. Inacreditável!

 

O cabelo grisalho, quase todo branco e bastante grande, mas acima de tudo, com um ar descuidado. Uma mala a tiracolo, enorme e muito cheia, que carregava com imensa dificuldade e vários sacos de plástico em que, constantemente, mexia e remexia. Assim se arrastava. Dava dois passos, parava. Trocava de mão os sacos e voltava a andar mais dois passinhos para voltar a parar. Olhava para todos os lados e trocava novamente os sacos, olhando para dentro deles, como se tivesse esquecido alguma coisa. Dir-se-ia que tinha acabado de ter sido expulso de casa e amedrontado, não sabia o que fazer nem para onde ir. Que tristeza!

 

Não me apetecia ver mais. Talvez devesse falar-lhe, mas não tinha a coragem de o fazer. Devia ir ter com ele e trocar algumas palavras, tentar entender o que se estava a passar… em vez disso, mais uma vez, fingi que nada via, continuando o meu caminho. Era dramático.

 

A aragem dissipava o calor, amenizando a temperatura, ao mesmo tempo que dispersava as pétalas das rosas, tão suaves, tão macias, embora feínhas, excepto uma ou outra, cuja beleza também pouco duraria. Cheirei-as e fiquei deliciada. Que perfume, que aroma levemente adocicado, que elixir delicioso! Inspirei, expirei e voltei a inspirar profundamente, mas com toda a lentidão, para tirar o máximo partido daquele prazer delicioso e esquecer aquele drama.

 

Um pequeno triângulo no meio da rua, que podia ser uma rotunda, mas tinha a forma de triângulo. Um botequim lá plantado e mesas com bancos de madeira. Em volta, uma cercadura de arbustos verdes, quebrada aqui, quebrada ali, com algumas flores pelo meio. Uma música suave, não muito alta… bastante agradável. Alguns velhotes sentados, conversando uns com os outros ou somente vendo quem passava. Carros estacionados por ali e em volta os prédios antigos e velhos do Poço do Bispo.

 

E eu ali parada, agora no segundo pé de roseira branca, um pouco mais adiante, presa naquele drama que tanto me entristecia. O estranho… bem, o estranho era tudo… mas o mais estranho é que, de todas as vezes que ali tinha passado, lá estava ele, naquele sítio!? Era uma coincidência muito desagradável, porque não me parecia normal. Ou ia para algum lado ou vinha de algum sítio, mas encontrá-lo ali, sempre que eu por lá passava… era caótico, a menos que estivesse lá sempre e não fosse a lado nenhum. Seria possível? Parecia um pedinte! E tinha um ar de desgraçadinho… Como é que pode? … E segui para o clube, com todas estas coisas na cabeça.

 

Tinha sido meu colega durante trinta e muitos anos, quase quarenta. Trabalhava na Contabilidade e era um bom profissional. Tinha-se reformado bastante mais cedo do que eu, pois era um pouco mais velho. Uma pessoa normal, com uma vida normal, comum. Mas aquele não era o mesmo, era uma sombra dele. Uma boa pessoa, incapaz de fazer mal a uma mosca. Humilde, bem formado, com um ar servil, sim… mas agora? Quem era aquela estranha criatura? E sempre naquele sítio!? Não era uma simples coincidência. Ele estava ali sempre. Ainda não tinha falhado uma só vez e isso é que me deixava intrigada, porque encontrá-lo uma vez… duas vezes… tudo bem, acontece. Mas sempre e do mesmo jeito, com a mesma sacola e os sacos de plástico, igualzinho?!… Era assaz incomodativo.

 

 

A aula terminara e ficámos conversando, numa troca de impressões uns com os outros. O clube era um edifício muito antigo, espaçoso, com uma sumptuosa escadaria que, em tempos idos, devia ter sido um luxo. Agora, estava tudo muito velho. E enquanto descia as escadas com o corrimão de madeira e rebordo dourado, atapetadas com uma larga passadeira de alcatifa vermelha, pensava comigo mesma, que agora ia ter a coragem de ir ao seu encontro e tentar perceber alguma coisa. Era o mínimo que podia fazer. O exercício físico tinha-me feito bem e o espírito estava mais leve e disposto a encarar aquela realidade, fosse o que fosse.

 

Saí a porta das instalações do clube e atravessei a rua para o jardim, em direcção ao carro. Parei no jardim junto ao primeiro pé de rosas, olhando em volta. Havia a música, os velhotes sentados, o autocarro na paragem, os táxis estacionados à espera de clientes, os carros para lá e para cá, as oficinas abertas e os mecânicos a trabalhar. A vida acontecia. Olhei para o relógio e era meio-dia, mas ele não estava em parte nenhuma e era a primeira vez que tal acontecia.

 

Cheirei as rosas: uma, duas, três vezes. Cheirei uma e outra e outra, enquanto prendia uma pétala entre os dedos. Como era bom aquele perfume, meu Deus!? Fiquei a olhar as roseiras, meio abandonadas, meio esquecidas. Aquelas rosas brancas, frágeis e deliciosamente cheirosas, que perfumavam o ar, exalavam um aroma inebriante que chegava a embriagar. Talvez por isso, por serem tão cheirosas, os velhotes se acomodassem por ali… não, seguramente, não era. Era por causa do botequim. Ninguém via as rosas, ninguém cuidava delas, nem sequer olhavam para elas. Era como se nem existissem.

 

E ele não estava. Pela primeira vez não estava ali. A minha missão não fora cumprida, mas a minha tarefa estava simplificada. Ali, onde a vida acontecia da forma como tinha que acontecer, segui o meu caminho em direcção ao carro. Uns estavam, outros iam. Uns vivendo tranquilamente, na paz do seu canto; outros, num mundo submerso, de escuridão e sombras, passando ao lado de tudo, num vazio permanente. O drama da vida. 


Soltei a pétala que estava presa nos meus dedos e deixei-a ir, também ela com seu lema. Ficaria horas sem fim, mergulhada no perfume que o vento suavemente dispersava e ao mesmo tempo dissipava pelo ar, seguindo o seu percurso intemporal e eterno, sem pedir licença para passar…


 


quinta-feira, 30 de julho de 2015

O peru de Natal - 17


Era Natal. Além da família, naquele ano havia visitas e a casa estava repleta. Para simplificar a ceia de Natal e termos tempo para acompanhar os amigos recém-chegados, que tinham vindo do Brasil para passar a época Natalícia connosco e mais uma vez terem o gosto e o prazer de passear por Lisboa, incluindo centros comerciais, encomendou-se um peru recheado no El Corte Inglês. 

Tudo correu muito bem, até que chegou a véspera de Natal, com um cem número de coisas a fazer. Andava tudo eufórico e a mãe queria mostrar o seu melhor, tanto no que dizia respeito à pessoa dela, nos seus tremendos oitenta anos cheios de presença, vaidade, disposição, como no que dizia respeito à casa, usando as suas melhores toalhas, louças, enfim, essas coisas da praxe. 

Já tinha dado todas as suas ordens para o que cada um precisava de fazer e chegava a hora de ir ao Corte Inglês buscar o peru. Pediu ao marido, que se desculpou, com qualquer coisa que tinha para fazer e muito sorrateiramente, dispensou-se a ele mesmo dessa tarefa. Pediu a um dos filhos que vive com os pais, mas também não obteve colaboração. O trabalho… enfim, desculpas de toda a ordem. A Clara, nem contactável estava, nem fazia muito sentido. Os outros ainda menos e claro está, sobrou para mim. 

Tudo bem, porque não? É preciso, vamos a isso. E a mãe lá se foi arranjar com toda a pompa e circunstância. Do chapéu ao perfume, das luvas ao nariz empinado, lá fomos nós ao Corte Inglês. Pelo caminho, embora muito curto, dizia que seria bom estacionar o carro lá fora, porque aquilo era coisa rápida. E não se calou um segundo, conforme era costume. Na verdade, quando passei na frente da porta principal em direcção ao parque, havia um lugar vago, que ela logo sugeriu que eu o aproveitasse. Aquilo era rápido, insistia ela. Então, antes mesmo de estacionar, pediu-me para a deixar sair. Eu nem sabia se podia estacionar ali e o facto de estarem lá os outros não me tranquilizava nem um pouco. Mas como era Natal, podia ser que a coisa fosse pacífica. Então, decidiu que podia ir sozinha e que seria melhor eu esperar ali. Se precisasse de alguma coisa chamaria por telemóvel. Tudo bem. 

Esperei, esperei e fartei-me de esperar. Achei que não devia ser tão rápido como ela dizia, claro, mas o facto é que já estava a demorar demasiado. Chamei duas vezes pelo telemóvel, mas não respondia às chamadas, que acabavam caindo na caixa postal. Que fazer? Bom, teria que esperar para não nos desencontrarmos, mas já começava a ficar inquieta. Não estaria pronto o peru? Mas nesse caso podia dizer alguma coisa!? 

Depois de muito tempo e muito farta de estar ali sem saber o que fazer, voltei a ligar. Desta vez a mãe atendeu, mas eu não ouvia a voz dela. Em vez disso, ouvia tudo o que se passava à sua volta. Ouvia um barulho de fundo de muitas vozes ao mesmo tempo e ruídos que não conseguia identificar. Finalmente, ouvi a voz dela, mas não era a falar comigo, era a falar sozinha ou para alguém com quem devia estar chateada. Dizia ela “não consigo entrar… então, quando é que eu entro?”… 

Bom, continuava sem falar com ela, mas dava para perceber que ali havia grande confusão, o que era natural, por ser véspera de Natal. Entretanto, a chamada caiu e aí fiquei novamente à espera. Por aquela porta era um tal sair e entrar, mas ela não aparecia. Passado um pouco, toca o meu telemóvel: era ela. Ansiosa, atendi imediatamente na esperança de ter notícias concretas. Dizia que aquilo estava muito difícil e que estava imensa gente para apanhar os elevadores. Que o peru era uma caixa enorme que ela não conseguia segurar, mas que depois um senhor lhe deu um carro e ela lá o foi empurrando até aos elevadores mas, com tanta gente, não conseguia entrar no elevador com o carro. E nesse preciso momento, ouvi a voz de um senhor dizendo “pode passar, faça o favor de passar” e só a ouvi dizer, “parece que agora vou conseguir” e a chamada mais uma vez caiu. 

O raio do peru já estava a dar mais trabalho do que eu imaginava e nesta altura decidi deixar o carro e ir ao encontro dela, por achar que era o mais sensato. E depois de uma trégua rápida dos carros sempre a passar, atravesso a estrada em direcção à porta do Corte Inglês. Entro, e olhando para aquela multidão, lá descubro a mãe empurrando o carrinho, de facto, com uma caixa que parecia ter meia dúzia de perus. Continuava a praguejar, claro: “Dois homens em casa e são as mulheres que têm que fazer tudo(?)”, dizia ela. Não era o caso, que lá em casa era rigorosamente o contrário. Era o marido e o filho que faziam tudo. Sempre me lembro de ver a minha tia/mãe pedir, dar ordens, etc… mas só por esta vez ela estava certa. E continuava a relatar tudo o que tinha acontecido, que estava cheio e tudo o mais. 

Tirei a caixa do carro e disse-lhe para vir comigo. Agora a caixa estava nas minhas mãos e realmente era um trambolho que não dava jeito nenhum e a prova disso é que tropecei num degrau ou num desnível qualquer e fiquei sem saber se largava o peru ou… enfim, lá consegui não fazer asneira, mas foi por pouco. Lá ia o molho e tudo à vida. Levantei-me, sempre segurando a caixa. Ela preocupada se eu me tinha magoado, olhámos uma para a outra e desatámos a rir. Era comum acontecerem essas cenas, de desatarmos a rir nas alturas menos apropriadas. Parecia que todo o mundo estava a olhar para nós pensando que éramos doidas. Eu, caladinha como convinha, mas a mãe, sempre falando bem alto para toda a gente ouvir e fazendo os seus comentários, por vezes nada desejáveis. Mas era assim e todos nós já estávamos mais do que habituados. 

Antes de atravessarmos a estrada e como estava em linha de vista com o carro, pedi-lhe para ir para lá e me abrir a porta do assento traseiro, enquanto eu abria com o comando, para depois poder pegar convenientemente na caixa do peru. Mas de cada vez que apontava o comando, algo se interpunha e eu não conseguia fazer contacto. E perante cada tentativa minha, falhada, ela não fazia senão rir, rir, rir, só que eu já não estava a achar muita graça e só me apetecia largar o peru em qualquer lado. Finalmente o carro abriu e lá foi ela andando para me abrir a porta lateral esquerda. Acontece que a porta estava ligeiramente empenada e o que abria era muito pouco, para a caixa poder entrar. Eu bem empurrava, virando daqui, dali, mas não ia. Já cansada, fechei a porta com toda a força, pedi-lhe que abrisse a bagageira e enfiei o peru no porta bagagem. Entrámos no carro e desatámos a rir outra vez. 

Pelo caminho a mãe ia revendo todas as peripécias, acrescentando mais uns pormenores e à custa disso continuávamos a rir. Quase a chegar a casa ligou para os homens dela exigindo que viessem cá abaixo para levarem o peru para casa. 

E chegou a hora da ceia de Natal. Foi tudo para a mesa. Tudo o que havia e o peru também. Lá estava ele, todo bonitinho, tão brilhante que até parecia de plástico. E toda a gente começou a comer e de tudo um pouco se foi provando e comentando o gosto, o paladar, enfim. Mas o peru, continuava lá, bonitinho, inteirinho. No final da noite, todos olhámos para o peru e todos comentámos que não tinha sido encetado. Ninguém tinha sido tentado a experimentar o famigerado peru. Ok, levantou-se a mesa e foi tudo para dentro, para a cozinha. 

Dia de Natal, a mesa posta para o almoço. Muita coisa na mesa e lá vem outra vez o peru, inteirinho. O almoço deu início, foi-se comendo tudo o que estava na mesa, mas o peru continuava lá, sem ser tocado, até que a mãe se lembrou de que melhor seria cortá-lo. E lá veio uma boa alma com uma enorme faca que desmanchou o peru todo. Agora o peru já estava todo esquartejado, o que era mais fácil para se servirem. E todos continuaram desfrutando do almoço de Natal, mas o peru continuava lá, embora cortado, sem ninguém lhe tocar. Acabou o almoço, levantou-se a mesa e lá foi tudo para dentro novamente. E o peru passeando. Eu já nem podia olhar para ele. 

E veio o dia 25 à Noite e todas as iguarias vieram e o peru também, claro. E já ninguém queria ver o peru. E acabou o Natal, as visitas foram-se embora e tudo voltou ao normal, mas o peru continuava intacto. A mãe, com as mãos juntas e os dedos cruzados, olhava para nós e olhava para peru e não sabia se havia de rir, se havia de chorar. 

O facto, é que o peru, não fez falta nenhuma. Acredito que tenha feito falta em muitos lares e a muitas famílias. Ali, comeram peru sim, mas de castigo, até ao Ano-Novo. 


sexta-feira, 3 de abril de 2015

O Nuno - 16


Aquela sala era uma maravilha. Não havia stress que entrasse porque se passava o dia a rir por dentro e por fora, às claras ou às escondidas, de alguma maneira havia sempre um motivo atrás do outro que não nos dava descanso. Era uma terapia e tanto e porquê? Porque havia uns elementos absolutamente deliciosos, mas um, um em especial era uma verdadeira anedota, uma anedota viva, que ninguém podia ignorar nem desmerecer.

 

Nuno era filho de mãe e pai funcionários que conseguiram enfiá-lo na RTP. Nuno era muito novo, tinha vinte e um anos. Por acaso lembro-me de ter entrado com a mesma idade, vinte e um anos, mas não era filha nem família de ninguém e só entrei porque fiquei classificada em primeiro lugar no concurso público que fiz no meio de trezentos e tal candidatos. Mas o Nuno já tinha um filho com três aninhos, que era uma graça. E quando nos metíamos com ele, brincando, por causa de ter sido pai tão cedo, respondia com a sua habitual displicência “a malta era jovem e éramos hippies, íamos para o castelo e…” e… já se viu.

 

O facto é que o David estava cá. A mãe, a Mara, era uma garota da idade dele, mas com outra cabeça, tanto assim, que Nuno passava a vida a pedi-la em casamento e ela negava-se, coisa que ele não entendia, mas que não o fazia desistir e sempre que havia pedido de casamento, que dava direito a ficar de joelhos perante a pretendida, fazendo uma declaração com flores e tudo, no outro dia tínhamos que aturar os desabafos do “não” da Mara.

 

Viviam juntos desde o nascimento do filho, sendo que os pais dele pagavam quase todas as despesas. Aquele neto era quase um filho. Mas estava tudo em família, tanto em casa como no trabalho e isso é que era o importante. Entretanto, todos os dias levávamos com “Nunices”, como costumávamos dizer. O Nuno era um indivíduo que não primava pela inteligência e além disso, ou por conta disso, desenvolvera uma personalidade excêntrica, baseada num possível ego, que o fazia achar que era especialmente capacitado para qualquer coisa e ainda dotado para as artes -, só porque o pai era “pintor” -, quando na verdade não era, nem muito nem pouco, em coisa nenhuma. Esta é que era a verdade. Gostávamos muito dele, mas as coisas são como são.

 

Tinha outras coisas, tais como, era um indivíduo bem disposto e sempre alegre, tinha muito amigos, mas todo ele era muito “naif” e às vezes fazia-nos perder a cabeça com tanta burrice. Só fazia asneiras no trabalho. Os outros faziam e ele desfazia. Era uma completa nulidade. Não sabia, nem aprendia e o que fazia era precário. Só sei que à conta dele, passávamos a vida a rir, ainda que não quiséssemos.

 

Vocês têm a mania do “inho”, dizia ele, e nós ríamos, sendo que, muitas vezes, ele nem percebia de que é que nos ríamos, o que nos dava ainda mais gozo. Sempre que atendia o telefone e eram recados que tinha que transmitir, era preciso tradutor/a, porque ele simplesmente alterava as coisas mais simples, complicando-as. Um dia atendeu três telefonemas seguidos, com pouco intervalo uns dos outros e dizia para a pessoa a quem tinha que dar o recado e que na altura não estava: “telefonou o sr. António da Central”; ficávamos a olhar para ele e desatávamos rir. “Telefonou o sr. Raposo da Manutenção”… e a cena repetia-se; “telefonou a D. Alda…” e a gente ria, porque não conseguíamos deixar de o fazer, enquanto ele ficava muito chateado, queixando-se “lá estão as parvas a rir” e a gente ria ainda mais. É que não tinha sido nada daquilo que ele tinha ouvido, ou seja, não havia nenhum sr. António na Central, mas sim um Antonino, assim como não havia nenhum Raposo na Manutenção, mas sim um Raposinho e a D. Alda não era Alda coisa nenhuma, era Aldina, mas como ele dizia que nós tínhamos a mania do “inho”, por sua livre recreação, mudava o nome às pessoas e quando o rectificávamos “oh, homem, não é António, é Antonino”, ele não percebia, limitando-se a dizer “hum, que esquisito”. Esquisito ou não, as pessoas tinham um nome que ele não podia alterar porque lhe apetecia.

 

Muitas vezes, muitas vezes mesmo, vinha de boleia para casa comigo, porque ganhava tempo. Um dia disse que eu tinha que esperar um bocadinho porque primeiro precisava de ir à florista, que era do outro lado da rua, comprar uma flor para a Mara. Começámos todos a rir porque logo percebemos que seria mais uma investida para pedir a Mara em casamento. Disse-lhe que não podia esperar. Começou a “choramingar” para ver se me comovia e esperava por ele. Disse-lhe que não. Como ele já estava a torrar a minha paciência, lembrei-me de uma coisa. No sítio onde eu o largava para apanhar o autocarro para casa, que era um pouco mais à frente, havia flores. Disse-lhe que viesse, que podia comprar a flor junto à paragem do autocarro. Mas ele dizia que não havia nenhuma florista ali. Tem uma florista, sim, dizia-lhe eu, sem entrar em pormenores. Bom, depois de muita batalhação, lá se convenceu e veio comigo até ao tal sítio onde costumava ficar. Quando parei disse-lhe que tinha ali à direita a florista. Ele olhou e viu a funerária com o florame todo à porta. Ignorou e voltou a perguntar-me onde era a florista. Repeti-lhe que ali mesmo na frente dele. Mas isto são flores para os mortos, dizia ele, muito espantado. Oh, tonto, e as flores não são todas iguais? Respondi-lhe. Não vou levar destas flores para a Mara(?), nem pensar(!), dizia ele, muito chateado… parecia um puto. Isso é contigo, tu é que sabes, respondi-lhe. E gora aonde é que vou comprar a flor para a Mara? Aí, tens tantas flores, não há uma que sirva? Dizia eu. Ah, mas estas não… enfim… disse adeus e deixei-o. 


No outro dia estava de trombas comigo, não me falava. Contei a história, toda a gente se ria. Fui mazinha: não; a verdade é que as flores não têm culpa de ser discriminadas. Umas servem, outras não. São todas iguais. Não vêm todas do mesmo sítio? Cada um dá-lhes o destino que quer. Claro que conhecendo o ser “naif” do Nuno, era sabido que ia dar sarilho. Fazer o quê? Nunca mais me chateou com as flores. Quando precisava ia mais cedo buscá-las.

 

Um dia tive que passar no mecânico para lhe pagar e mais uma vez o Nuno ia comigo. Parei o carro e saí. Veio o mecânico, acertámos as contas, ele olhou para dentro do carro, viu o Nuno e em voz baixa perguntou-me se era o meu marido. Respondi-lhe que era um colega e regressei ao carro. Comecei a andar e o Nuno pergunta “o que é que ele te disse quando falou baixinho”? Respondi-lhe que queria saber se ele, Nuno, era o meu marido. O Nuno todo enxofrado, arregalou os olhos e disse “eu, o teu marido, era só o que faltava!” Achando que era por causa do factor “idade”, eu, a parva, disse-lhe que também não era preciso reagir assim, lá por ser mais velha, não era preciso mostrar-se tão incomodado assim! Mas logo ele se apressou a corrigir, dizendo que não era nada disso. Fiquei mais intrigada. Então o que seria? Resposta dele, com o dedo indicador bem apontado para o ar: “Se eu fosse teu marido não eras tu que conduzias o carro, era eu!”… Eu já não queria ouvir mais disparate nenhum. Chegava de tanta estupidez.

 

O Nuno andava a tirar a carta de condução. Chegou o dia do exame e ficou mal. Vinha muito triste, claro. Uma vez pediu à mãe o carro emprestado e a mãe disse que não. Depois pediu ao pai e o pai disse que não. Claro, os pais sabiam o filho que tinham. Um dia ia comigo de boleia e pediu-me para conduzir o meu carro. “O quê, estás doido?” Disse-lhe eu. Pois ele levou o caminho todo a chatear a minha paciência para o deixar meter as mudanças. Parecia uma criança pequena. Até que, a páginas tantas, parei junto à berma do passeio, abri a porta e disse-lhe sem dó nem piedade: “sai, sai, estou farta de te aturar; nem ao meu filho eu aturo tanta parvoíce”. Ficou amuado, como era de esperar. 


Mais tarde, finalmente conseguiu tirar a carta. Um dia, a descer a Calçada de Carriche, ia um sujeito a conduzir um velho carro, muito, muito devagar: dez ou quinze à hora, mas muito cheio da sua pessoa. Eram buzinadelas de todo o lado e eu pensei para comigo mesma “mas o que é isto, o que é que se passa”? Quando passo por ele, qual não é o meu espanto, era o Nuno… quem mais poderia ser?!…

 

Uma vez tocou o telefone da colega ao lado dele, cuja secretária estava colada à dele. O telefone dela tocou e como ela não estava, ele atendeu. Os telefones estavam lado a lado. Logo a seguir ela chegou e sentou-se. Tocou o telefone dele e como ele continuava ao telefone, atendeu ela o dele, ficando os dois telefones com os fios cruzados. Ele acaba o telefonema e desliga o telefone, sem nunca mais se lembrar que era o dela, pousando o auscultador no primeiro telefone que tinha à frente, o dele, onde ela estava a falar. Resultado: desligou a chamada dela. Eu, que ficava em frente, estava a trabalhar, mas presenciei a cena toda e dei o alerta, dizendo que ele tinha desligado a chamada dela, porque ela ficou com o telefone na mão “tá… tá… tá”… e ninguém respondia, claro, pelo que ela acabou também pousando o auscultador. Nesta altura a Vitória, que ficava ao meu lado, a Vitória e eu já ríamos da confusão que o Nuno, uma vez mais, tinha estabelecido, enquanto ele se lamentava dizendo que nós o acusávamos de tudo, era tudo ele, continuando a leste do que tinha feito. E, calmamente, começámos a explicar, mais para a colega do que para ele, o que tinha acontecido. Mas, entretanto, a pessoa com quem a Lurdes estava a falar e a quem tinha sido cortada a chamada, liga de novo. Claro que o telefone que tocou foi o do Nuno, pelo que ele levantou o auscultador para atender, mas como os auscultadores estavam cruzados não ouvia nada, porque estava no auscultador errado e dizia “não está cá ninguém!”… Nós sabíamos que estava, mas no outro auscultador. Mas por esta altura já ríamos tanto, que já nem se percebia o que dizíamos e ele continuava a leste. E o telefone tocava, ele atendia “tá?”… E desligava. E a cena repetia-se até que eu me contive e disse à Lurdes para descruzar os auscultadores que estavam trocados. A Lurdes que era esperta e perspicaz, percebeu logo o que se tinha passado. Descruzou os auscultadores olhando para ele e dizendo “idiota, é mesmo idiota, imbecil, olha o que fizeste, não serve para nada”… e o Nuno só dizia “são umas malucas”… “estou farto disto”… e outras coisas mais, ao mesmo tempo que saía porta fora, com a gente a rir que nem umas perdidas.

 

Uma vez chegou pela manhã entrando na sala com um canudo gigantesco, daqueles que os desenhadores de arquitectura usam para guardar os trabalhos. Assim era o Nuno, entrando porta adentro, com aquele seu ar triunfante de sempre, de um grande personagem. Quando o vimos exibindo o canudo, todos franzimos a testa, pensando no que ele iria aprontar desta vez. Entrou e encaminhou-se para a minha pessoa, criando um certo suspense. Todos ficámos atentos, a ver o que saía dali. No seu melhor, abre o canudo enorme, tirando de lá uma miserabilíssima folha de papel A4. A esta altura já estavam várias colegas de volta, assistindo a mais uma performance. Todos estavam curiosos para ver o que traria o Nuno. O hilário começou assim que saiu uma folha A4 de um canudo tão grande. Essa foi a primeira gargalhada geral. Depois e sempre em grande estilo, coloca a folha em cima da minha secretária. Dando uma olhada, vejo umas pinceladas, parecendo que os pincéis tinham sido limpos naquela folha. Depois ele vem ao meu ouvido dizer para ignorar o resto do pessoal porque, ali, além de mim, ninguém tinha “sensibilidade” para apreciar as artes. Os outros não percebiam nada daquilo, sendo que eu é que estava à altura do trabalho artístico dele. Fiquei a olhar para ele com cara de parva. Saiu da geral, aquela exclamação “puf”, de que não serve para nada. Tendo percebido o desprezo de todos, continuou a explicar-se, dirigindo-se sempre e só à minha pessoa “isto é o que está a dar(!)”. O que eu via era uma coisa sem nexo nenhum. Uma coisa de idiota. E era isso que me apetecia dizer-lhe, mas não o conseguia, faltava-me a coragem suficiente. Entretanto, ele continuava a querer vender a banha da cobra: isto é o que está a dar… nos consultórios dos médicos e nos gabinetes dos advogados é isto que se usa agora e vale uma fortuna! (?)…


Mas há mais... quando ele se chateava muito e já não sabia o que fazer, punha o lápis ou a caneta por cima da orelha, à antigo merceeiro e lá vinha aquela frase, que por mais que fosse corrigida, não entrava de maneira nenhuma:


-  "É preciso uma paciência... uma paciência de Jacob"!

De Jô, dizíamos todos ao mesmo tempo, a rir à gargalhada.


- De Jô???... 

Sim - respondíamos nós - Jacob é a outra lá de baixo.

Era uma colega de se chamava Helena Jacob! (?)



segunda-feira, 30 de março de 2015

Seria cómico se não fosse trágico - 15


É verdade. Seria cómico se não fosse trágico e entre estes dois pólos é difícil posicionarmo-nos. Contudo, e porque a vida continua, aqui fica a história.


Meu pai faleceu às vésperas de completar noventa anos. Uma vida longa, complicada, difícil, mas com muitas coisas boas e muitas alegrias, também, sem dúvida. Quis o destino que partisse enquanto dormia, o que considero uma verdadeira bênção, pois penso que não sentiu nada.


Nessa manhã, a minha madrasta que sofria de Alzheimar acordou, levantou-se e fez o que normalmente costumava fazer, sem dar por nada. E porque daria? Era natural que desse. Só o facto de ele ainda estar deitado quando ela se levantou já era um sinal, uma vez que era sempre o primeiro a levantar-se e sempre se levantava cedo. Mas dado o estado de saúde dela, nada lhe ocorreu. Também, logo de manhã, apareceu a irmã que, quase todos os dias ia lá passar o tempo, atazanando a cabeça deles, especialmente a da irmã porque, além do Alzheimer, tinha outros problemas: Parkinson e outras coisas mais, pelo que conseguia estar pior do que a minha madrasta, que passava o tempo a queixar-se de que ela a cansava e que, por sua vez, dava conta da cabeça do meu pobre pai, que se via a braços com tudo isto. A sorte dele é que conseguia evadir-se e desligar-se com facilidade.


E naquela manhã, estava eu a entrar no carro para mais um dia de trabalho, quando o telemóvel tocou. Tinha falado com ele no dia anterior, várias vezes e a última vez já era noite. Estava bastante bem disposto, muito animado, porque ia dar um jogo de futebol e ainda me disse quantas pessoas estavam a ver o jogo, pelo que tinha com que se distrair ao serão. Tudo bem, eu estava tranquila, porque parecia que estava tudo bem. O facto é que o telemóvel tocou. Não fiquei em sobressalto, mas o que seria? Era a D. Conceição, a senhora que se encarregava de tomar conta deles - o que representava uma ajuda preciosíssima, sempre muito atenta e cuidadosa com tudo -, pedindo-me para ir o mais depressa possível, porque o meu pai tinha falecido. Chegou lá, viu as duas e perguntou onde tinha ido o meu pai, tão cedo. A minha madrasta respondeu que estava a dormir. Ela estranhou o facto, mas foi para a cozinha fazer coisas. Como o meu pai não dava sinal, ela voltou a perguntar à minha madrasta se ele estava mesmo a dormir. A outra respondeu que achava que sim, porque ainda não tinha aparecido. A D. Conceição insistiu para ela ir lá ver se se estaria a passar alguma coisa. A outra foi e vendo o meu pai deitado, voltou, dizendo que ele continuava a dormir. O tempo foi passando e a D. Conceição pediu para o ir ver e, claro, viu que ele estava morto. Bom, já não fui trabalhar. Dei um telefonema rápido para o meu chefe e segui directamente para lá. Em simultâneo, fiz uma chamada para a minha irmã do Algarve, para que se orientasse com a vida dela e tratasse de avisar a restante família. 


Quando lá cheguei, estava a minha madrasta, a irmã, a D. Conceição e a minha meia-irmã, filha do casamento do meu pai com a minha madrasta. Entretanto, já lá estava uma senhora da agência funerária porque, a minha meia-irmã, a mais nova, já tinha tomado umas providências, uma vez que morava lá ao lado. Quis ir ver o meu pai e pedi à senhora da funerária que me deixasse sozinha com ele por uns minutos. Estranhamente, aquela morte, que eu tanto temia, não estava a ser tão dramática como supunha. Em primeiro lugar, ele tinha partido durante o sono e isso eu tinha que agradecer a Deus. Em segundo lugar, na verdade, olhando para aquele corpo morto, era realmente um corpo morto e vazio, ou seja, ele não estava ali. Aquele que eu tão bem conhecia e que tanto amava, não era aquilo. A vida dele já não pertencia àquele corpo. Eu até conseguia sentir a energia dele mas, definitivamente, já não estava ligada àquele corpo, talvez por causa do "vazio" que me fez sentir. Percebi que ele tinha partido e que a sua existência, melhor dizendo, a sua essência, passara a outra dimensão. Compreendi a morte como uma “passagem” para a outra vida, o que me fez ficar relativamente bem comigo mesma e respirei fundo. Claro que há a saudade, mas isso é outra coisa. A verdade é que felizmente para ele e para todos nós, não foi um drama maior, como foi a morte da minha mãe, que partiu com trinta e dois anos de idade, deixando-nos ainda crianças. Isso sim, foi assaz doloroso. Uma dor sem fim.


E agora começa a cena; uma cena de loucos, diga-se de passagem. Quando lá cheguei eram umas dez horas da manhã e até à hora em que o corpo saiu para a capela, ao fim do dia, durante todas aquelas horas, levámos com as duas irmãs, com as maiores loucuras que se possam imaginar, mas sem descanso, porque logo se esqueciam do que tinham acabado de dizer para recomeçar uma vez mais toda a mesma lenga-lenga. É triste, é duro, é horrível!


Então, a minha madrasta só dizia “ora o que havia de acontecer… o Custódio morreu… como é que foi acontecer uma coisa destas?!…” Isto não era um desabafo de viúva; de uma mulher que acaba de perder o marido. Isto, era um disco que estava gravado e que saía a cada dois minutos. E de cada vez que ela dizia isto, a irmã respondia “mas tens a certeza? Já foste ver? Pode ser que não… vai lá ver melhor…” 


A minha madrasta passava-se. Gritava com ela, chamava-lhe estúpida e olhava para ela com vontade de lhe bater. A outra calava-se, intimidada. Dois minutos depois, a minha madrasta voltava à carga. Dava uns passos miúdos e com as mãos apertadas e os dedos entrelaçados, começava o seu dilema “Mas quem é que havia de dizer uma coisas destas… o Custódio morreu, já viram… e agora(?!)”, ao que a outra respondia “mas tens a certeza(?)” e a outra respondia que sim, aos gritos e com os olhos bem arregalados para a irmã que continuava o disco dela “mas está mesmo morto? Pode ser que ainda não esteja bem morto e se possa chamar um médico, um médico bom, que possa fazer alguma coisa!?…” A outra exasperava com as coisas que a irmã dizia. 


A minha irmã e eu olhávamos uma para a outra, sem trocar uma palavra, atónitas, com todo aquele espectáculo. E mais um bocado e lá vinha mais uma pergunta “E o Custódio, saiu?” Respondia a outra “já te disse que o Custódio morreu e não me chateies mais a cabeça”… - a outra -  “morreu,  mas como é que isso foi acontecer? Então não chamaram um médico? Não pode ser… não deve ter morrido"… - a outra olhava para ela e começava a gritar, completamente histérica… enfim, foi o dia todo nisto. Mais daqui, mais dali, a coisa foi sempre a mesma, cada uma com seu disco. Só então tive a noção do problema que o meu pai tinha que enfrentar diariamente e do drama que estas doenças são.


Ao fim do dia fui para minha casa descansar e preparar-me para o dia seguinte: velório e funeral. E no dia seguinte estava a família toda, bem como os amigos mais chegados e alguns vizinhos. Enfim, estava quem tinha que estar. Era o velório. Tudo em silêncio. Tudo na maior paz. A minha irmã mais nova ao meu lado e mesmo à nossa frente a minha madrasta e a irmã. 


Nas profundezas do silêncio e, ainda que em voz baixa, bem baixinho, ouço a voz da tia da minha irmã - a irmã da minha madrasta -, que estava à frente dela, perguntar à mãe, que estava à minha frente: “Ó Maria Angelina, mas afinal o que é que estamos aqui a fazer e esta gente toda aqui também?” A minha madrasta não deve ter entendido muito bem ou não estava à espera que a irmã se lembrasse de falar naquele momento… não sei… sei que fez a outra repetir a pergunta “o que é que estamos aqui a fazer e o que é aquela caixa ali?”


A minha madrasta que até então não tinha dado sinais alarmantes de desordem mental, desatinou completamente. Olhou para a irmã e em estilo de pergunta, repetiu a pergunta que a outra lhe tinha feito: “o que é que estamos aqui a fazer?!” Eu e a minha irmã ficámos imóveis, aterradas e incrédulas. Nós não sabíamos lidar com uma situação daquelas. Ela não sabia e eu… eu nem sabia bem se acreditava no que presenciava. A outra, um pouco acabrunhada e continuando a falar baixinho, perguntou mais uma vez: "o que é que estamos aqui a fazer com esta gente toda?" A minha madrasta olhou para ela e respondeu: "então, não sabes, o Custódio morreu!". Resposta da outra: "O Custódio morreu...?" E a outra: "então não sabes?" A outra: "não"... a minha madrasta: "não sabes(?)", a outra: "não, ninguém me disse nada!"


Então a minha madrasta volta-se para trás e num tom de completa perplexidade, pergunta directamente à filha: “oh Aldinha, então tu não disseste nada à tia, que o pai morreu? Ela tinha sido a primeira pessoa a tomar conhecimento da morte do cunhado. A minha irmã, com o nervoso, começou a pestanejar vigorosamente, que era um tique dela, mas manteve-se calada e quieta que nem uma porta. E sem se fazer esperar, virando-se para mim, muito, muito zangada e muito indignada: “Lilly, então não disse nada à minha irmã, que o seu pai morreu?”... (!) 


Até estremeci de susto.


Então e para aguentar com o tranco, pensei: “bom, se o meu pai estivesse aqui, daria uma grande gargalhada cheia de compaixão, para sua descontracção”. 


Seria cómico, se não fosse tão trágico.

 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Nordeste - 14


O aeroporto internacional de S. Paulo estava uma completa bagunça, por conta da greve dos controladores de tráfego aéreo. Havia voos em atraso e outros que nem se chegavam a realizar. No entanto, Inajá e eu conseguimos um voo para Natal.

 

Era um avião muito pequeno, como os que fazem os voos interilhas, nos Açores. E aí estávamos as duas sentadas, à espera de embarcar para um merecido descanso em Ponta Negra. Mas eu nunca tinha visto um vôo assim. Assim, quero dizer, naquelas condições. Bem sei que íamos para o nordeste, mas nunca pensei que aquilo existisse. Havia um indivíduo que não tirava os olhos de mim, o que já me estava a incomodar. Claro que não seria pelos meus lindos olhos, mas talvez me tenha ouvido falar e tenha percebido que era Portuguesa.

 

E, finalmente, lá veio a chamada para o nosso voo. Foi tudo a correr, com certeza com medo de perderem o avião, mas como Inajá não estava com pressa nenhuma, fomos ficando para o fim e quando entrámos, já estava praticamente cheio e não conseguimos lugar juntas. Ela passou à minha frente e fez-me sinal para me sentar na segunda fila do lado esquerdo, porque logo a seguir, ou seja, na terceira fila, também havia um outro lugar e assim poderíamos ficar o mais perto possível uma da outra.

 

Havia muita gente no corredor e não davam passagem. O avião tinha somente duas filas de três lugares de cada lado e o corredor ao meio. Atrás de mim vinha o sujeito que não tirava os olhos de mim e quando me preparei para me sentar - o que não era fácil, porque era um lugar entre duas pessoas e portanto, tinha que passar por cima da primeira, a da ponta, que era uma senhora gorda e que não fazia a menor intenção de se levantar para eu passar, fui obrigada a alçar a perna e praticamente pular por cima dela, que ainda por cima era bastante avantajada -, o indivíduo, o tal que me seguia com o olhar, aproveitou a deixa para comentar “tá vendo como é bom ser magra”?! Fiquei sabendo que gostava de mulheres magras. 


Finalmente consegui chegar ao lugar e sentar-me. Entretanto, Inajá já estava sentada e lá nos acomodámos. Eu levava um livro para me entreter na viagem, mas ainda era cedo para começar a minha leitura. O rebuliço era tremendo. Havia uma agitação fora do vulgar. Um avião tão pequeno conseguia dar mais trabalho do que um grande. Pois é, mas tinha-me esquecido que era um voo doméstico! As hospedeiras não tinham mãos a medir. Uma senhora que ia sentada na fila à minha frente, a primeira, estava muito preocupada, por conta de uma pequena mala que não conseguia acomodar na bagageira e a hospedeira não queria que ela a levasse no colo. Disse-lhe que a acomodaria na parte de trás do avião e que à chegada lha devolveria, mas a senhora não estava nem um pouco descansada. É que eram os medicamentos dela e queria-os debaixo de olho. Foi uma luta. Cada um tinha o seu problema e a sensação que eu tinha é que ouvia galos e galinhas cacarejando… có-có-ró-có-có… por todo o lado, mas acho que isso não podia ser, não sei. É porque as pessoas tinham todas um ar muito rural, gente do “sítio”, muito caipiras e as bagagens que traziam eram igualmente caipiras. Cestos de verga e outras coisas do género. Eu olhava e parecia que transportavam garrafões de vinho ou azeite ou ainda cachaça, sei lá. Também não devia ser nada disso, mas era a impressão que me causava. Só sei que era uma bagunça infernal e que aquela gente não se acomodava nem por nada. 

 

Com tudo isto, tive uma crise de claustrofobia como nunca tinha tido na minha vida, até porque, felizmente, não sofro de claustrofobia. Mas também pode ter sido pânico. Estava um calor infernal e o ar condicionado geral ainda não tinha começado a funcionar. Com aquela gente toda em cima de mim e o avião tão pequeno, parecia que queria respirar e não podia. Comecei a suar, a suar e pensei que me ía dar uma coisa. Estava quase a gritar, descontrolada, quando me lembrei de abrir o ar por cima de mim e fi-lo no momento certo. Mais um segundo e tinha sido uma bronca.

 

Bom, o avião arrancou e finalmente preparava-me para dar início à minha leitura, quando percebi que não ia ser possível. O indivíduo à minha direita, junto à janela, como o voo era de baixa altitude e se via a paisagem lá por baixo, estava deliciado e fez a viagem toda com o pescoço virado a 90 graus à direita e o rosto colado ao vidro da janela, o que me tirava toda a luz. Azar… ainda fiz uma cara feia, mas ele sorria de uma ponta a outra, com os lábios cerrados e percebi que não havia nada a fazer.

 

Entretanto, veio uma “aeromoça” perguntar o que queríamos tomar. Pedi uma coca-cola sem gelo e a senhora do meu lado esquerdo pediu um chá com gelo. Isto, depois de muitas tentativas por parte da hospedeira, porque ela não sabia o que pedir. Encolhia os ombros e sorria, só isso.

 

A confusão tinha abrandado um pouco, mas continuava muita agitação e eu não perdia a esperança de ver um galo ou uma galinha pulando no meio do corredor ou um caipira puxar do garrafão e meter à boca uma cachacinha.

 

Entretanto, dá-se um episódio completamente insólito. Um passageiro deficiente precisou de ir ao WC. Até aqui tudo bem. Vieram duas hospedeiras que transportaram o senhor até à porta do WC e depois o transferiram para a sanita. Como o avião era muito pequeno, aquilo era tudo ali à nossa frente. O povo todo se levantou para “espreitar”… eu nem queria acreditar no que os meus olhos viam. Veio uma outra hospedeira que mandou sentar toda a gente e correu um cortinado de um lado ao outro, o que era a coisa certa. Ainda assim, houve quem abrisse o cortinado para ver o senhor deficiente a fazer xixi!? É inacreditável uma coisa desta natureza! Eu estava passada.

 

Tudo voltou ao normal e lá veio uma hospedeira trazendo as bebidas. Quando chegou a vez da minha fila ela perguntou para quem era a coca-cola e antes que eu tivesse tempo de responder, a senhora do meu lado esquerdo respondeu que era dela. Pensei que talvez ela tivesse mudado à última hora e eu não me tivesse apercebido e antes que a bebida fugisse tomou logo um gole. Mas não, claro que não. Quando a hospedeira me vinha dar o chá eu disse “desculpe, coca-cola”. Então a hospedeira percebeu imediatamente que tinha havido uma troca e apressou-se a substituir o chá pela coca-cola que eu tinha pedido. Aí aconteceu outra cena inesquecível. A senhora caipira, na sua doce e ingénua inocência, com toda a calma deste mundo, disse “ai, disculpi, eu minganei”, mas isto foi o de menos. Isto era natural. O que não era natural é o que se segue. Depois de já ter tomado um ou dois goles, não sei, muito solícita e delicadamente, vem devolver-me a coca porque era minha(!?)...

 

 

E viva o Nordeste! Viva o Brasil, que eu amo de paixão.



sábado, 28 de fevereiro de 2015

A caixa de óculos - 13


Era uma vez uma caixa de óculos que jazia há cerca de vinte anos, abandonada numa garagem de uma tia minha já falecida. Um dia fui lá com o meu pai para ver uns sofás que estavam guardados e que precisavam de ser retirados e esbarro numa série de caixas e caixotes e sei lá o que mais. Lá fui empurrando para o lado, mas uma caixa desperta a minha atenção. Espreito e vejo óculos. A caixa, como todas as outras, estava coberta de uma espessa camada de pó. Com as pontas dos dedos de ambas as mãos, abri um pouco e percebi que eram mesmo óculos.

 

Chamei o meu pai para ele ver e depois de o fazer e de ter feito uma cara estranha, disse que era para deitar no lixo. Deitar no lixo(?)… fiquei a pensar com os meus botões e perguntei porquê para o lixo, ao que me respondeu que eram muito antigos e deviam estar ali por esquecimento, talvez desde que a loja fora fechada. Ela tinha tido uma óptica durante muitos anos e àquela data já estava fechada também há muitos anos. Como é que ficava esquecida uma caixa de óculos na garagem? Bom, não valia a pena pensar muito naquilo, até porque naquela garagem tudo estava esquecido. Era o carro, era mobiliário, era tudo o que se possa imaginar. Então, se os óculos iam parar ao lixo, perguntei se podiam ficar comigo e logo ele se prontificou a pôr-me a caixa na bagageira do carro.

 

Curiosa, lá fui com uma caixa enorme cheia de óculos e cheia de pó. Era quase impossível ver os óculos. Ao chegar a casa espetei com tudo na banheira. Peguei em detergente e enfiei tudo lá para dentro. Finalmente, peguei no duche e comecei a limpar um por um. Lavei a caixa também, que era de cartão, mas como era verão, secou rapidamente. E finalmente os óculos começaram a aparecer. Eram dezenas de pares de óculos. Eu já tinha andado a ver nas lojas dos centros comerciais as novas colecções e pude constatar que eram uma e a mesma coisa. Havia de tudo, para todos os gostos. Os modelos repetiam-se, mas não mais do que meia dúzia de cada. E todos eles estavam marcados ainda com os preços em escudos. À medida que ia tirando da água e limpando, voltavam de novo para a caixa, mas agora todos arrumados e limpíssimos. Bem, para o lixo não iriam, com toda a certeza. Até porque os que estavam nas lojas eram réplicas daqueles que eram genuínos, já que tinham, inclusive, a assinatura dos estilistas. Fantástico! Enfim, tinha uma caixa enorme, cheia de dezenas de óculos e não tinha a menor ideia do que ia fazer com eles.

 

No outro dia quando fui para a televisão falei com a Lúcia - minha parceira de viagens e farras - a esse respeito e logo ela disse: “amiga, vende”! Vender?… Ela sabia que eu não sei vender. Não tenho jeito, não gosto de vender. Mas ela insistia “vende a um euro cada”. Nem assim. Vender não combina comigo.

 

Bati à porta da minha vizinha e amiga e perguntei-lhe se não precisava de óculos. Ela riu, contei-lhe a história e começou o desfile dos óculos. O primeiro desfile. Experimentou vários, dos quais escolheu sete pares. Dos sete, não sabia por qual se decidir, por isso disse-lhe que ficasse com todos. E rimos as duas que nem umas tontas. Em seguida, chamei umas miúdas brasileiras também minhas vizinhas e foi outra festa. Experimentaram, ensaiaram, tiraram fotos, uma bagunça e tanto e lá se foram mais uns quantos óculos com dono. A caixa começava a ficar mais leve. No fim-de-semana tínhamos um almoço de aniversário em família e decidi meter a caixa na bagageira do carro. Findo o almoço, fui buscar a caixa e pus em cima da mesa, que era ao ar livre. Foi uma festa. Toda a gente queria saber onde eu tinha ido buscar tudo aquilo. Não havia ninguém que não experimentasse óculos e perguntasse para todos “ficam-me bem”? Uma loucura. As pessoas nas outras mesas olhavam incrédulas, sem entenderem nada do que se estava a passar. E os óculos lá iam andando com dono. Só me perguntavam “posso ficar com estes”? E eu “sim”, sim, sim.

 

No final do almoço, quando pedimos a conta, perguntámos às moças que nos serviram se queriam gorjeta ou óculos, a que elas logo responderam que queriam óculos. Lá escolheram e foram todas felizes da vida. Passou uma senhora, com a filha de dezoito anos, que não resistiu e veio perguntar se estávamos a vender. Respondi que não. Disse que a filha gostaria muito de ter uns óculos. Respondi que escolhesse o que quisesse, à vontade dela, pois eram oferta. A miúda escolheu e lá foi já com os óculos postos, toda contentinha.

 

Na segunda-feira seguinte, levei a caixa para a televisão e fui chamando as minhas colegas. Aquilo foi um festival. Havia óculos para toda a gente. E se elas riam! E por mais que eu distribuísse, os óculos nunca mais acabavam. Parecia que nasciam da caixa. Então lembrei-me de chamar a Cristina Emanuel, uma colega Guineense muito engraçada, da Rádio, que costumava almoçar com as colegas dos programas da Televisão e com ela sempre havia histórias de rir perdidamente. Nunca me esqueço do dia em que ela contou que, indo na segunda circular, já de regresso a casa, chovia água que Deus a dava e o trânsito parado. A Cristina aflita para fazer um xixi, não foi de modas, saiu do carro, abriu as duas portas, baixou as calças e desopilou a bexiga.

 

Contando esta cena, ninguém podia ficar indiferente, já que as descrições dela eram de uma sinceridade total. Víamos-lhe no rosto o ar de satisfação ao contar o alívio que sentiu ao esvaziar a bexiga e quando contava que os carros passavam do outro lado e se metiam com ela… claro! Mas ela estava-se nas tintas. Estava aliviada e isso é que contava. De modo que, quando chamei a Cristina, calculei que teríamos uma bela representação, em função dos óculos e não me enganei. Ela perguntava, mas são para mim? E quanto custam? Zero? A Cristina punha e tirava e via-se no espelho da casa de banho e ensaiava e dizia “pareço ou não uma modelo(?)”… eh pá, sou muita gira!” E nós ríamos com a performance dela, encantada por ganhar óculos de sol de borla.

 

 

Quando finalmente o último par de óculos saiu e a caixa ficou vazia, foi um alívio. Aquela caixa estava guardada e destinada a fazer feliz muita gente. E fez.

 

Missão cumprida.



quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Liberdade - 12


Uma balança tem dois pratos lado a lado. Sua função: pesar. Assim, se pusermos um peso num dos pratos, imediatamente ele vai abaixo, na proporção do peso colocado. Em contrapartida, o outro sobe, agindo à acção directa do primeiro. Se, em seguida, colocarmos no outro prato um peso maior que o primeiro, a posição inverte-se, ou seja, o prato desce para fazer subir o primeiro. O certo é que o desequilíbrio se instalou. Mas isto é uma balança e é para isso que ela serve. Se quisermos restabelecer o equilíbrio temos que manter os pratos iguais, isto é, ter pesos iguais em ambos os pratos.

 

Há uns trinta anos atrás, um belo dia em que, por qualquer razão tive que andar no metro, estava uma rapariga africana que deveria ter uns vinte e cinco anos. Reparei nela porque naquela altura ainda não se usavam “leggins” e ela estava com umas calças pretas muito justas, apertadíssimas, onde ela se tinha enfiado a toda a força porque, ainda por cima não era magra, nem um pouco, e a gordura tentava sair por todo o lado. O traseiro era enorme, tudo nela era enorme e tentava dar nas vistas o mais possível, isto é, não queria passar despercebida de maneira nenhuma. Virava-se para todos os lados com o nariz no ar, fixando as pessoas como que a dizer-lhes “aqui estou eu, toda boazona”... enfim. 

 

Quando chegou a minha paragem, saí e ela saiu também. Azar o meu, porque parecia que ela se tinha colado a mim. Saiu na minha saída e tomou o meu caminho. Tentei desviar-me apenas porque, na verdade, ela atraía as atenções num sentido que não me agradava, por isso não me apetecia estar por perto. Todavia, descontraída e provocadora, trocava as minhas voltas e continuava a colar-se a mim sem que eu percebesse o porquê. Não a podia mandar embora, de modo que fui ignorando, embora ela caminhasse praticamente a meu lado.

 

Atravessámos uma rua e estavam uns homens vestidos de fato de macaco azul, que certamente eram da oficina do lado e como era a hora do almoço, deviam estar fazendo uma pausa de descanso, encostados à parede, fumando um cigarrinho descontraído ao mesmo tempo que se aqueciam ao sol, antes de pegarem novamente no batente. E então pensei "agora é que vai ser lindo”, porque era quase certo que iam chover comentários e não seriam agradáveis, de certeza. Apressei o passo e propositadamente desviei-me, para não ouvir nem ver o que não me interessava. Só queria seguir o meu caminho o mais tranquila possível.

 

A rapariga africana passou o mais perto possível dos mecânicos e ainda que eu não quisesse ver nem ouvir, claro que ouvi os assobios e os ditos dos mecânicos, o que não me espantou. O que me espantou foi que ela parou e injuriada, começou a falar com eles. Continuei o mais depressa possível achando que estava livre, mas nem por isso, porque ela correu na minha direcção e mais uma vez prantou-se a meu lado, sem que eu percebesse a razão disso. Fiquei calada e ignorei, mas ela começou a falar comigo em jeito de desabafo. Fui fingindo que não a ouvia, mas ela insistia fazendo o mesmo, como se eu lhe estivesse a dar atenção. Aquilo era uma praga!

 

E a conversa dela era esta: “eu sou como sou, visto o qui quero, sô livri, tô num país livri, ninguém tem nada com isso”. Como eu não respondia, porque achava que não tinha nada que responder, nem a conhecia de lado nenhum, ela continuou: “sou livri, eu sô livri, visto o qui quero, faço o qui quero, ninguém tem nada com isso, não achas”? 

 

Bom, agora já era demais, porque ela se estava a dirigir a mim, à minha pessoa, directa e insistentemente. Aquela tinha-me saído na rifa e não havia nada a fazer, só que já estava farta daquela cena e precisava de pôr um fim naquilo. Então, virei-me para ela e falei-lhe na mesma linguagem, dizendo-lhe: “A liberdade não é só para ti, é também para os outros. Se queres ser livre tens que aceitar a liberdade dos outros. Tu podes fazer e dizer o que quiseres, mas eles também. Tu és livre, sim, mas eles também”. Ela parou e soltou um grito de admiração, de indignação, de interrogação, de espanto, sei lá, e ficou lá atrás parada, digerindo o que tinha acabado de ouvir, enquanto eu continuei o meu caminho.

 

 

Os órgãos de comunicação social não param de falar no cenário “França”, com destaque especial para o palco “Paris”. Atentado terrorista contra os direitos democráticos, liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade, liberdade, liberdade… e, de repente, parece que o mundo inteiro se esqueceu de uma coisa que é fundamental: a nossa liberdade termina quando começa a dos outros. É uma frase feita, não tem nada de criativo, mas é crucial nesta questão porque, quem desrespeitar este princípio está lixado; porque quem desrespeitar esta regra de ouro é terrorista. A guerra não é feita só com armas de fogo. A guerra é feita também de provocações, de brincadeiras de mau gosto, de desrespeito por si mesmo e pelo próximo. A guerra é feita de palavras, obscenidades e muita coisa feia que não dignifica nem respeita nada nem ninguém, e então a balança desequilibra-se e, nesse desequilíbrio, onde se pensa que uns ganham enquanto outros perdem, mas onde na verdade ninguém ganha nada e todos perdem, há os bons e os maus. É claro que os bons são o ocidente e tudo o que o representa. O ocidente representa o mundo “civilizado”, o mundo livre, democrático, onde tudo é permitido menos matar. Ainda assim, às vezes é permitido. São excepções, mas há. Por exemplo: Obama versus Ossama.

 

Não. Matar não é permitido nunca. Não há nada que justifique a matança do homem e isto é válido para ocidente como para oriente, para todo o planeta e todo o universo. Tirar a vida não é permitido a ninguém, nem mesmo aos governantes. Estamos todos inseridos nesta regra, nesta lei universal.

 

Mas voltando ao ocidente, o mundo considerado civilizado. Onde está o civismo que provocou o incidente de Paris? Onde ficou a ética, o profissionalismo, a comunicação, o socialismo… onde ficou a arte nos cartoons horrorosos que não dignificam nada nem ninguém, que ferem de morte a susceptibilidade de muitos, não importa quem. Só porque uns se acham donos e senhores da verdade, vamos arrasar com os “bárbaros”, desafiando todas as crenças e todas as doutrinas, todos os credos e toda a humanidade? Que mundo medonho é este?

 

Pergunto-me, no meio deste lixo todo, onde fica a paz? Para quando a paz? Se não há paz não há amor. Onde não há amor há ódio e onde há ódio há guerra e disto não saímos, porque vivemos num mundo civilizado!? Num mundo que quer liberdade a qualquer preço, mas onde ninguém sabe o que é liberdade. E ainda vêm os colegas da RTP com um falso ar pesaroso, manifestar-se em pleno telejornal, que estão completamente solidários com os colegas do jornal que sofreu o atentado!? E eu me pergunto: mas a que propósito? Alguma vez a RTP se mostrou ou transpareceu para o seu público, pelo menos, algo de tão indecoroso? Porventura não foi até suspenso um programa humorístico, por ter sido considerado inadequado? Alguns programas de informação não tiveram cortes por causa da liberdade de expressão dos telespectadores em linha directa? Porque carga de água vêm agora mostrar-se tão solidários com os outros?

 

 

E muito mais haveria para dizer acerca disto, mas não me apetece, porque sou livre…



A Liberdade não é uma conquista, nem um desafio, nem um passatempo.

 

A Liberdade é um Dom.