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sexta-feira, 3 de abril de 2015

O Nuno - 16


Aquela sala era uma maravilha. Não havia stress que entrasse porque se passava o dia a rir por dentro e por fora, às claras ou às escondidas, de alguma maneira havia sempre um motivo atrás do outro que não nos dava descanso. Era uma terapia e tanto e porquê? Porque havia uns elementos absolutamente deliciosos, mas um, um em especial era uma verdadeira anedota, uma anedota viva, que ninguém podia ignorar nem desmerecer.

 

Nuno era filho de mãe e pai funcionários que conseguiram enfiá-lo na RTP. Nuno era muito novo, tinha vinte e um anos. Por acaso lembro-me de ter entrado com a mesma idade, vinte e um anos, mas não era filha nem família de ninguém e só entrei porque fiquei classificada em primeiro lugar no concurso público que fiz no meio de trezentos e tal candidatos. Mas o Nuno já tinha um filho com três aninhos, que era uma graça. E quando nos metíamos com ele, brincando, por causa de ter sido pai tão cedo, respondia com a sua habitual displicência “a malta era jovem e éramos hippies, íamos para o castelo e…” e… já se viu.

 

O facto é que o David estava cá. A mãe, a Mara, era uma garota da idade dele, mas com outra cabeça, tanto assim, que Nuno passava a vida a pedi-la em casamento e ela negava-se, coisa que ele não entendia, mas que não o fazia desistir e sempre que havia pedido de casamento, que dava direito a ficar de joelhos perante a pretendida, fazendo uma declaração com flores e tudo, no outro dia tínhamos que aturar os desabafos do “não” da Mara.

 

Viviam juntos desde o nascimento do filho, sendo que os pais dele pagavam quase todas as despesas. Aquele neto era quase um filho. Mas estava tudo em família, tanto em casa como no trabalho e isso é que era o importante. Entretanto, todos os dias levávamos com “Nunices”, como costumávamos dizer. O Nuno era um indivíduo que não primava pela inteligência e além disso, ou por conta disso, desenvolvera uma personalidade excêntrica, baseada num possível ego, que o fazia achar que era especialmente capacitado para qualquer coisa e ainda dotado para as artes -, só porque o pai era “pintor” -, quando na verdade não era, nem muito nem pouco, em coisa nenhuma. Esta é que era a verdade. Gostávamos muito dele, mas as coisas são como são.

 

Tinha outras coisas, tais como, era um indivíduo bem disposto e sempre alegre, tinha muito amigos, mas todo ele era muito “naif” e às vezes fazia-nos perder a cabeça com tanta burrice. Só fazia asneiras no trabalho. Os outros faziam e ele desfazia. Era uma completa nulidade. Não sabia, nem aprendia e o que fazia era precário. Só sei que à conta dele, passávamos a vida a rir, ainda que não quiséssemos.

 

Vocês têm a mania do “inho”, dizia ele, e nós ríamos, sendo que, muitas vezes, ele nem percebia de que é que nos ríamos, o que nos dava ainda mais gozo. Sempre que atendia o telefone e eram recados que tinha que transmitir, era preciso tradutor/a, porque ele simplesmente alterava as coisas mais simples, complicando-as. Um dia atendeu três telefonemas seguidos, com pouco intervalo uns dos outros e dizia para a pessoa a quem tinha que dar o recado e que na altura não estava: “telefonou o sr. António da Central”; ficávamos a olhar para ele e desatávamos rir. “Telefonou o sr. Raposo da Manutenção”… e a cena repetia-se; “telefonou a D. Alda…” e a gente ria, porque não conseguíamos deixar de o fazer, enquanto ele ficava muito chateado, queixando-se “lá estão as parvas a rir” e a gente ria ainda mais. É que não tinha sido nada daquilo que ele tinha ouvido, ou seja, não havia nenhum sr. António na Central, mas sim um Antonino, assim como não havia nenhum Raposo na Manutenção, mas sim um Raposinho e a D. Alda não era Alda coisa nenhuma, era Aldina, mas como ele dizia que nós tínhamos a mania do “inho”, por sua livre recreação, mudava o nome às pessoas e quando o rectificávamos “oh, homem, não é António, é Antonino”, ele não percebia, limitando-se a dizer “hum, que esquisito”. Esquisito ou não, as pessoas tinham um nome que ele não podia alterar porque lhe apetecia.

 

Muitas vezes, muitas vezes mesmo, vinha de boleia para casa comigo, porque ganhava tempo. Um dia disse que eu tinha que esperar um bocadinho porque primeiro precisava de ir à florista, que era do outro lado da rua, comprar uma flor para a Mara. Começámos todos a rir porque logo percebemos que seria mais uma investida para pedir a Mara em casamento. Disse-lhe que não podia esperar. Começou a “choramingar” para ver se me comovia e esperava por ele. Disse-lhe que não. Como ele já estava a torrar a minha paciência, lembrei-me de uma coisa. No sítio onde eu o largava para apanhar o autocarro para casa, que era um pouco mais à frente, havia flores. Disse-lhe que viesse, que podia comprar a flor junto à paragem do autocarro. Mas ele dizia que não havia nenhuma florista ali. Tem uma florista, sim, dizia-lhe eu, sem entrar em pormenores. Bom, depois de muita batalhação, lá se convenceu e veio comigo até ao tal sítio onde costumava ficar. Quando parei disse-lhe que tinha ali à direita a florista. Ele olhou e viu a funerária com o florame todo à porta. Ignorou e voltou a perguntar-me onde era a florista. Repeti-lhe que ali mesmo na frente dele. Mas isto são flores para os mortos, dizia ele, muito espantado. Oh, tonto, e as flores não são todas iguais? Respondi-lhe. Não vou levar destas flores para a Mara(?), nem pensar(!), dizia ele, muito chateado… parecia um puto. Isso é contigo, tu é que sabes, respondi-lhe. E gora aonde é que vou comprar a flor para a Mara? Aí, tens tantas flores, não há uma que sirva? Dizia eu. Ah, mas estas não… enfim… disse adeus e deixei-o. 


No outro dia estava de trombas comigo, não me falava. Contei a história, toda a gente se ria. Fui mazinha: não; a verdade é que as flores não têm culpa de ser discriminadas. Umas servem, outras não. São todas iguais. Não vêm todas do mesmo sítio? Cada um dá-lhes o destino que quer. Claro que conhecendo o ser “naif” do Nuno, era sabido que ia dar sarilho. Fazer o quê? Nunca mais me chateou com as flores. Quando precisava ia mais cedo buscá-las.

 

Um dia tive que passar no mecânico para lhe pagar e mais uma vez o Nuno ia comigo. Parei o carro e saí. Veio o mecânico, acertámos as contas, ele olhou para dentro do carro, viu o Nuno e em voz baixa perguntou-me se era o meu marido. Respondi-lhe que era um colega e regressei ao carro. Comecei a andar e o Nuno pergunta “o que é que ele te disse quando falou baixinho”? Respondi-lhe que queria saber se ele, Nuno, era o meu marido. O Nuno todo enxofrado, arregalou os olhos e disse “eu, o teu marido, era só o que faltava!” Achando que era por causa do factor “idade”, eu, a parva, disse-lhe que também não era preciso reagir assim, lá por ser mais velha, não era preciso mostrar-se tão incomodado assim! Mas logo ele se apressou a corrigir, dizendo que não era nada disso. Fiquei mais intrigada. Então o que seria? Resposta dele, com o dedo indicador bem apontado para o ar: “Se eu fosse teu marido não eras tu que conduzias o carro, era eu!”… Eu já não queria ouvir mais disparate nenhum. Chegava de tanta estupidez.

 

O Nuno andava a tirar a carta de condução. Chegou o dia do exame e ficou mal. Vinha muito triste, claro. Uma vez pediu à mãe o carro emprestado e a mãe disse que não. Depois pediu ao pai e o pai disse que não. Claro, os pais sabiam o filho que tinham. Um dia ia comigo de boleia e pediu-me para conduzir o meu carro. “O quê, estás doido?” Disse-lhe eu. Pois ele levou o caminho todo a chatear a minha paciência para o deixar meter as mudanças. Parecia uma criança pequena. Até que, a páginas tantas, parei junto à berma do passeio, abri a porta e disse-lhe sem dó nem piedade: “sai, sai, estou farta de te aturar; nem ao meu filho eu aturo tanta parvoíce”. Ficou amuado, como era de esperar. 


Mais tarde, finalmente conseguiu tirar a carta. Um dia, a descer a Calçada de Carriche, ia um sujeito a conduzir um velho carro, muito, muito devagar: dez ou quinze à hora, mas muito cheio da sua pessoa. Eram buzinadelas de todo o lado e eu pensei para comigo mesma “mas o que é isto, o que é que se passa”? Quando passo por ele, qual não é o meu espanto, era o Nuno… quem mais poderia ser?!…

 

Uma vez tocou o telefone da colega ao lado dele, cuja secretária estava colada à dele. O telefone dela tocou e como ela não estava, ele atendeu. Os telefones estavam lado a lado. Logo a seguir ela chegou e sentou-se. Tocou o telefone dele e como ele continuava ao telefone, atendeu ela o dele, ficando os dois telefones com os fios cruzados. Ele acaba o telefonema e desliga o telefone, sem nunca mais se lembrar que era o dela, pousando o auscultador no primeiro telefone que tinha à frente, o dele, onde ela estava a falar. Resultado: desligou a chamada dela. Eu, que ficava em frente, estava a trabalhar, mas presenciei a cena toda e dei o alerta, dizendo que ele tinha desligado a chamada dela, porque ela ficou com o telefone na mão “tá… tá… tá”… e ninguém respondia, claro, pelo que ela acabou também pousando o auscultador. Nesta altura a Vitória, que ficava ao meu lado, a Vitória e eu já ríamos da confusão que o Nuno, uma vez mais, tinha estabelecido, enquanto ele se lamentava dizendo que nós o acusávamos de tudo, era tudo ele, continuando a leste do que tinha feito. E, calmamente, começámos a explicar, mais para a colega do que para ele, o que tinha acontecido. Mas, entretanto, a pessoa com quem a Lurdes estava a falar e a quem tinha sido cortada a chamada, liga de novo. Claro que o telefone que tocou foi o do Nuno, pelo que ele levantou o auscultador para atender, mas como os auscultadores estavam cruzados não ouvia nada, porque estava no auscultador errado e dizia “não está cá ninguém!”… Nós sabíamos que estava, mas no outro auscultador. Mas por esta altura já ríamos tanto, que já nem se percebia o que dizíamos e ele continuava a leste. E o telefone tocava, ele atendia “tá?”… E desligava. E a cena repetia-se até que eu me contive e disse à Lurdes para descruzar os auscultadores que estavam trocados. A Lurdes que era esperta e perspicaz, percebeu logo o que se tinha passado. Descruzou os auscultadores olhando para ele e dizendo “idiota, é mesmo idiota, imbecil, olha o que fizeste, não serve para nada”… e o Nuno só dizia “são umas malucas”… “estou farto disto”… e outras coisas mais, ao mesmo tempo que saía porta fora, com a gente a rir que nem umas perdidas.

 

Uma vez chegou pela manhã entrando na sala com um canudo gigantesco, daqueles que os desenhadores de arquitectura usam para guardar os trabalhos. Assim era o Nuno, entrando porta adentro, com aquele seu ar triunfante de sempre, de um grande personagem. Quando o vimos exibindo o canudo, todos franzimos a testa, pensando no que ele iria aprontar desta vez. Entrou e encaminhou-se para a minha pessoa, criando um certo suspense. Todos ficámos atentos, a ver o que saía dali. No seu melhor, abre o canudo enorme, tirando de lá uma miserabilíssima folha de papel A4. A esta altura já estavam várias colegas de volta, assistindo a mais uma performance. Todos estavam curiosos para ver o que traria o Nuno. O hilário começou assim que saiu uma folha A4 de um canudo tão grande. Essa foi a primeira gargalhada geral. Depois e sempre em grande estilo, coloca a folha em cima da minha secretária. Dando uma olhada, vejo umas pinceladas, parecendo que os pincéis tinham sido limpos naquela folha. Depois ele vem ao meu ouvido dizer para ignorar o resto do pessoal porque, ali, além de mim, ninguém tinha “sensibilidade” para apreciar as artes. Os outros não percebiam nada daquilo, sendo que eu é que estava à altura do trabalho artístico dele. Fiquei a olhar para ele com cara de parva. Saiu da geral, aquela exclamação “puf”, de que não serve para nada. Tendo percebido o desprezo de todos, continuou a explicar-se, dirigindo-se sempre e só à minha pessoa “isto é o que está a dar(!)”. O que eu via era uma coisa sem nexo nenhum. Uma coisa de idiota. E era isso que me apetecia dizer-lhe, mas não o conseguia, faltava-me a coragem suficiente. Entretanto, ele continuava a querer vender a banha da cobra: isto é o que está a dar… nos consultórios dos médicos e nos gabinetes dos advogados é isto que se usa agora e vale uma fortuna! (?)…


Mas há mais... quando ele se chateava muito e já não sabia o que fazer, punha o lápis ou a caneta por cima da orelha, à antigo merceeiro e lá vinha aquela frase, que por mais que fosse corrigida, não entrava de maneira nenhuma:


-  "É preciso uma paciência... uma paciência de Jacob"!

De Jô, dizíamos todos ao mesmo tempo, a rir à gargalhada.


- De Jô???... 

Sim - respondíamos nós - Jacob é a outra lá de baixo.

Era uma colega de se chamava Helena Jacob! (?)



segunda-feira, 30 de março de 2015

Seria cómico se não fosse trágico - 15


É verdade. Seria cómico se não fosse trágico e entre estes dois pólos é difícil posicionarmo-nos. Contudo, e porque a vida continua, aqui fica a história.


Meu pai faleceu às vésperas de completar noventa anos. Uma vida longa, complicada, difícil, mas com muitas coisas boas e muitas alegrias, também, sem dúvida. Quis o destino que partisse enquanto dormia, o que considero uma verdadeira bênção, pois penso que não sentiu nada.


Nessa manhã, a minha madrasta que sofria de Alzheimar acordou, levantou-se e fez o que normalmente costumava fazer, sem dar por nada. E porque daria? Era natural que desse. Só o facto de ele ainda estar deitado quando ela se levantou já era um sinal, uma vez que era sempre o primeiro a levantar-se e sempre se levantava cedo. Mas dado o estado de saúde dela, nada lhe ocorreu. Também, logo de manhã, apareceu a irmã que, quase todos os dias ia lá passar o tempo, atazanando a cabeça deles, especialmente a da irmã porque, além do Alzheimer, tinha outros problemas: Parkinson e outras coisas mais, pelo que conseguia estar pior do que a minha madrasta, que passava o tempo a queixar-se de que ela a cansava e que, por sua vez, dava conta da cabeça do meu pobre pai, que se via a braços com tudo isto. A sorte dele é que conseguia evadir-se e desligar-se com facilidade.


E naquela manhã, estava eu a entrar no carro para mais um dia de trabalho, quando o telemóvel tocou. Tinha falado com ele no dia anterior, várias vezes e a última vez já era noite. Estava bastante bem disposto, muito animado, porque ia dar um jogo de futebol e ainda me disse quantas pessoas estavam a ver o jogo, pelo que tinha com que se distrair ao serão. Tudo bem, eu estava tranquila, porque parecia que estava tudo bem. O facto é que o telemóvel tocou. Não fiquei em sobressalto, mas o que seria? Era a D. Conceição, a senhora que se encarregava de tomar conta deles - o que representava uma ajuda preciosíssima, sempre muito atenta e cuidadosa com tudo -, pedindo-me para ir o mais depressa possível, porque o meu pai tinha falecido. Chegou lá, viu as duas e perguntou onde tinha ido o meu pai, tão cedo. A minha madrasta respondeu que estava a dormir. Ela estranhou o facto, mas foi para a cozinha fazer coisas. Como o meu pai não dava sinal, ela voltou a perguntar à minha madrasta se ele estava mesmo a dormir. A outra respondeu que achava que sim, porque ainda não tinha aparecido. A D. Conceição insistiu para ela ir lá ver se se estaria a passar alguma coisa. A outra foi e vendo o meu pai deitado, voltou, dizendo que ele continuava a dormir. O tempo foi passando e a D. Conceição pediu para o ir ver e, claro, viu que ele estava morto. Bom, já não fui trabalhar. Dei um telefonema rápido para o meu chefe e segui directamente para lá. Em simultâneo, fiz uma chamada para a minha irmã do Algarve, para que se orientasse com a vida dela e tratasse de avisar a restante família. 


Quando lá cheguei, estava a minha madrasta, a irmã, a D. Conceição e a minha meia-irmã, filha do casamento do meu pai com a minha madrasta. Entretanto, já lá estava uma senhora da agência funerária porque, a minha meia-irmã, a mais nova, já tinha tomado umas providências, uma vez que morava lá ao lado. Quis ir ver o meu pai e pedi à senhora da funerária que me deixasse sozinha com ele por uns minutos. Estranhamente, aquela morte, que eu tanto temia, não estava a ser tão dramática como supunha. Em primeiro lugar, ele tinha partido durante o sono e isso eu tinha que agradecer a Deus. Em segundo lugar, na verdade, olhando para aquele corpo morto, era realmente um corpo morto e vazio, ou seja, ele não estava ali. Aquele que eu tão bem conhecia e que tanto amava, não era aquilo. A vida dele já não pertencia àquele corpo. Eu até conseguia sentir a energia dele mas, definitivamente, já não estava ligada àquele corpo, talvez por causa do "vazio" que me fez sentir. Percebi que ele tinha partido e que a sua existência, melhor dizendo, a sua essência, passara a outra dimensão. Compreendi a morte como uma “passagem” para a outra vida, o que me fez ficar relativamente bem comigo mesma e respirei fundo. Claro que há a saudade, mas isso é outra coisa. A verdade é que felizmente para ele e para todos nós, não foi um drama maior, como foi a morte da minha mãe, que partiu com trinta e dois anos de idade, deixando-nos ainda crianças. Isso sim, foi assaz doloroso. Uma dor sem fim.


E agora começa a cena; uma cena de loucos, diga-se de passagem. Quando lá cheguei eram umas dez horas da manhã e até à hora em que o corpo saiu para a capela, ao fim do dia, durante todas aquelas horas, levámos com as duas irmãs, com as maiores loucuras que se possam imaginar, mas sem descanso, porque logo se esqueciam do que tinham acabado de dizer para recomeçar uma vez mais toda a mesma lenga-lenga. É triste, é duro, é horrível!


Então, a minha madrasta só dizia “ora o que havia de acontecer… o Custódio morreu… como é que foi acontecer uma coisa destas?!…” Isto não era um desabafo de viúva; de uma mulher que acaba de perder o marido. Isto, era um disco que estava gravado e que saía a cada dois minutos. E de cada vez que ela dizia isto, a irmã respondia “mas tens a certeza? Já foste ver? Pode ser que não… vai lá ver melhor…” 


A minha madrasta passava-se. Gritava com ela, chamava-lhe estúpida e olhava para ela com vontade de lhe bater. A outra calava-se, intimidada. Dois minutos depois, a minha madrasta voltava à carga. Dava uns passos miúdos e com as mãos apertadas e os dedos entrelaçados, começava o seu dilema “Mas quem é que havia de dizer uma coisas destas… o Custódio morreu, já viram… e agora(?!)”, ao que a outra respondia “mas tens a certeza(?)” e a outra respondia que sim, aos gritos e com os olhos bem arregalados para a irmã que continuava o disco dela “mas está mesmo morto? Pode ser que ainda não esteja bem morto e se possa chamar um médico, um médico bom, que possa fazer alguma coisa!?…” A outra exasperava com as coisas que a irmã dizia. 


A minha irmã e eu olhávamos uma para a outra, sem trocar uma palavra, atónitas, com todo aquele espectáculo. E mais um bocado e lá vinha mais uma pergunta “E o Custódio, saiu?” Respondia a outra “já te disse que o Custódio morreu e não me chateies mais a cabeça”… - a outra -  “morreu,  mas como é que isso foi acontecer? Então não chamaram um médico? Não pode ser… não deve ter morrido"… - a outra olhava para ela e começava a gritar, completamente histérica… enfim, foi o dia todo nisto. Mais daqui, mais dali, a coisa foi sempre a mesma, cada uma com seu disco. Só então tive a noção do problema que o meu pai tinha que enfrentar diariamente e do drama que estas doenças são.


Ao fim do dia fui para minha casa descansar e preparar-me para o dia seguinte: velório e funeral. E no dia seguinte estava a família toda, bem como os amigos mais chegados e alguns vizinhos. Enfim, estava quem tinha que estar. Era o velório. Tudo em silêncio. Tudo na maior paz. A minha irmã mais nova ao meu lado e mesmo à nossa frente a minha madrasta e a irmã. 


Nas profundezas do silêncio e, ainda que em voz baixa, bem baixinho, ouço a voz da tia da minha irmã - a irmã da minha madrasta -, que estava à frente dela, perguntar à mãe, que estava à minha frente: “Ó Maria Angelina, mas afinal o que é que estamos aqui a fazer e esta gente toda aqui também?” A minha madrasta não deve ter entendido muito bem ou não estava à espera que a irmã se lembrasse de falar naquele momento… não sei… sei que fez a outra repetir a pergunta “o que é que estamos aqui a fazer e o que é aquela caixa ali?”


A minha madrasta que até então não tinha dado sinais alarmantes de desordem mental, desatinou completamente. Olhou para a irmã e em estilo de pergunta, repetiu a pergunta que a outra lhe tinha feito: “o que é que estamos aqui a fazer?!” Eu e a minha irmã ficámos imóveis, aterradas e incrédulas. Nós não sabíamos lidar com uma situação daquelas. Ela não sabia e eu… eu nem sabia bem se acreditava no que presenciava. A outra, um pouco acabrunhada e continuando a falar baixinho, perguntou mais uma vez: "o que é que estamos aqui a fazer com esta gente toda?" A minha madrasta olhou para ela e respondeu: "então, não sabes, o Custódio morreu!". Resposta da outra: "O Custódio morreu...?" E a outra: "então não sabes?" A outra: "não"... a minha madrasta: "não sabes(?)", a outra: "não, ninguém me disse nada!"


Então a minha madrasta volta-se para trás e num tom de completa perplexidade, pergunta directamente à filha: “oh Aldinha, então tu não disseste nada à tia, que o pai morreu? Ela tinha sido a primeira pessoa a tomar conhecimento da morte do cunhado. A minha irmã, com o nervoso, começou a pestanejar vigorosamente, que era um tique dela, mas manteve-se calada e quieta que nem uma porta. E sem se fazer esperar, virando-se para mim, muito, muito zangada e muito indignada: “Lilly, então não disse nada à minha irmã, que o seu pai morreu?”... (!) 


Até estremeci de susto.


Então e para aguentar com o tranco, pensei: “bom, se o meu pai estivesse aqui, daria uma grande gargalhada cheia de compaixão, para sua descontracção”. 


Seria cómico, se não fosse tão trágico.

 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Nordeste - 14


O aeroporto internacional de S. Paulo estava uma completa bagunça, por conta da greve dos controladores de tráfego aéreo. Havia voos em atraso e outros que nem se chegavam a realizar. No entanto, Inajá e eu conseguimos um voo para Natal.

 

Era um avião muito pequeno, como os que fazem os voos interilhas, nos Açores. E aí estávamos as duas sentadas, à espera de embarcar para um merecido descanso em Ponta Negra. Mas eu nunca tinha visto um vôo assim. Assim, quero dizer, naquelas condições. Bem sei que íamos para o nordeste, mas nunca pensei que aquilo existisse. Havia um indivíduo que não tirava os olhos de mim, o que já me estava a incomodar. Claro que não seria pelos meus lindos olhos, mas talvez me tenha ouvido falar e tenha percebido que era Portuguesa.

 

E, finalmente, lá veio a chamada para o nosso voo. Foi tudo a correr, com certeza com medo de perderem o avião, mas como Inajá não estava com pressa nenhuma, fomos ficando para o fim e quando entrámos, já estava praticamente cheio e não conseguimos lugar juntas. Ela passou à minha frente e fez-me sinal para me sentar na segunda fila do lado esquerdo, porque logo a seguir, ou seja, na terceira fila, também havia um outro lugar e assim poderíamos ficar o mais perto possível uma da outra.

 

Havia muita gente no corredor e não davam passagem. O avião tinha somente duas filas de três lugares de cada lado e o corredor ao meio. Atrás de mim vinha o sujeito que não tirava os olhos de mim e quando me preparei para me sentar - o que não era fácil, porque era um lugar entre duas pessoas e portanto, tinha que passar por cima da primeira, a da ponta, que era uma senhora gorda e que não fazia a menor intenção de se levantar para eu passar, fui obrigada a alçar a perna e praticamente pular por cima dela, que ainda por cima era bastante avantajada -, o indivíduo, o tal que me seguia com o olhar, aproveitou a deixa para comentar “tá vendo como é bom ser magra”?! Fiquei sabendo que gostava de mulheres magras. 


Finalmente consegui chegar ao lugar e sentar-me. Entretanto, Inajá já estava sentada e lá nos acomodámos. Eu levava um livro para me entreter na viagem, mas ainda era cedo para começar a minha leitura. O rebuliço era tremendo. Havia uma agitação fora do vulgar. Um avião tão pequeno conseguia dar mais trabalho do que um grande. Pois é, mas tinha-me esquecido que era um voo doméstico! As hospedeiras não tinham mãos a medir. Uma senhora que ia sentada na fila à minha frente, a primeira, estava muito preocupada, por conta de uma pequena mala que não conseguia acomodar na bagageira e a hospedeira não queria que ela a levasse no colo. Disse-lhe que a acomodaria na parte de trás do avião e que à chegada lha devolveria, mas a senhora não estava nem um pouco descansada. É que eram os medicamentos dela e queria-os debaixo de olho. Foi uma luta. Cada um tinha o seu problema e a sensação que eu tinha é que ouvia galos e galinhas cacarejando… có-có-ró-có-có… por todo o lado, mas acho que isso não podia ser, não sei. É porque as pessoas tinham todas um ar muito rural, gente do “sítio”, muito caipiras e as bagagens que traziam eram igualmente caipiras. Cestos de verga e outras coisas do género. Eu olhava e parecia que transportavam garrafões de vinho ou azeite ou ainda cachaça, sei lá. Também não devia ser nada disso, mas era a impressão que me causava. Só sei que era uma bagunça infernal e que aquela gente não se acomodava nem por nada. 

 

Com tudo isto, tive uma crise de claustrofobia como nunca tinha tido na minha vida, até porque, felizmente, não sofro de claustrofobia. Mas também pode ter sido pânico. Estava um calor infernal e o ar condicionado geral ainda não tinha começado a funcionar. Com aquela gente toda em cima de mim e o avião tão pequeno, parecia que queria respirar e não podia. Comecei a suar, a suar e pensei que me ía dar uma coisa. Estava quase a gritar, descontrolada, quando me lembrei de abrir o ar por cima de mim e fi-lo no momento certo. Mais um segundo e tinha sido uma bronca.

 

Bom, o avião arrancou e finalmente preparava-me para dar início à minha leitura, quando percebi que não ia ser possível. O indivíduo à minha direita, junto à janela, como o voo era de baixa altitude e se via a paisagem lá por baixo, estava deliciado e fez a viagem toda com o pescoço virado a 90 graus à direita e o rosto colado ao vidro da janela, o que me tirava toda a luz. Azar… ainda fiz uma cara feia, mas ele sorria de uma ponta a outra, com os lábios cerrados e percebi que não havia nada a fazer.

 

Entretanto, veio uma “aeromoça” perguntar o que queríamos tomar. Pedi uma coca-cola sem gelo e a senhora do meu lado esquerdo pediu um chá com gelo. Isto, depois de muitas tentativas por parte da hospedeira, porque ela não sabia o que pedir. Encolhia os ombros e sorria, só isso.

 

A confusão tinha abrandado um pouco, mas continuava muita agitação e eu não perdia a esperança de ver um galo ou uma galinha pulando no meio do corredor ou um caipira puxar do garrafão e meter à boca uma cachacinha.

 

Entretanto, dá-se um episódio completamente insólito. Um passageiro deficiente precisou de ir ao WC. Até aqui tudo bem. Vieram duas hospedeiras que transportaram o senhor até à porta do WC e depois o transferiram para a sanita. Como o avião era muito pequeno, aquilo era tudo ali à nossa frente. O povo todo se levantou para “espreitar”… eu nem queria acreditar no que os meus olhos viam. Veio uma outra hospedeira que mandou sentar toda a gente e correu um cortinado de um lado ao outro, o que era a coisa certa. Ainda assim, houve quem abrisse o cortinado para ver o senhor deficiente a fazer xixi!? É inacreditável uma coisa desta natureza! Eu estava passada.

 

Tudo voltou ao normal e lá veio uma hospedeira trazendo as bebidas. Quando chegou a vez da minha fila ela perguntou para quem era a coca-cola e antes que eu tivesse tempo de responder, a senhora do meu lado esquerdo respondeu que era dela. Pensei que talvez ela tivesse mudado à última hora e eu não me tivesse apercebido e antes que a bebida fugisse tomou logo um gole. Mas não, claro que não. Quando a hospedeira me vinha dar o chá eu disse “desculpe, coca-cola”. Então a hospedeira percebeu imediatamente que tinha havido uma troca e apressou-se a substituir o chá pela coca-cola que eu tinha pedido. Aí aconteceu outra cena inesquecível. A senhora caipira, na sua doce e ingénua inocência, com toda a calma deste mundo, disse “ai, disculpi, eu minganei”, mas isto foi o de menos. Isto era natural. O que não era natural é o que se segue. Depois de já ter tomado um ou dois goles, não sei, muito solícita e delicadamente, vem devolver-me a coca porque era minha(!?)...

 

 

E viva o Nordeste! Viva o Brasil, que eu amo de paixão.



sábado, 28 de fevereiro de 2015

A caixa de óculos - 13


Era uma vez uma caixa de óculos que jazia há cerca de vinte anos, abandonada numa garagem de uma tia minha já falecida. Um dia fui lá com o meu pai para ver uns sofás que estavam guardados e que precisavam de ser retirados e esbarro numa série de caixas e caixotes e sei lá o que mais. Lá fui empurrando para o lado, mas uma caixa desperta a minha atenção. Espreito e vejo óculos. A caixa, como todas as outras, estava coberta de uma espessa camada de pó. Com as pontas dos dedos de ambas as mãos, abri um pouco e percebi que eram mesmo óculos.

 

Chamei o meu pai para ele ver e depois de o fazer e de ter feito uma cara estranha, disse que era para deitar no lixo. Deitar no lixo(?)… fiquei a pensar com os meus botões e perguntei porquê para o lixo, ao que me respondeu que eram muito antigos e deviam estar ali por esquecimento, talvez desde que a loja fora fechada. Ela tinha tido uma óptica durante muitos anos e àquela data já estava fechada também há muitos anos. Como é que ficava esquecida uma caixa de óculos na garagem? Bom, não valia a pena pensar muito naquilo, até porque naquela garagem tudo estava esquecido. Era o carro, era mobiliário, era tudo o que se possa imaginar. Então, se os óculos iam parar ao lixo, perguntei se podiam ficar comigo e logo ele se prontificou a pôr-me a caixa na bagageira do carro.

 

Curiosa, lá fui com uma caixa enorme cheia de óculos e cheia de pó. Era quase impossível ver os óculos. Ao chegar a casa espetei com tudo na banheira. Peguei em detergente e enfiei tudo lá para dentro. Finalmente, peguei no duche e comecei a limpar um por um. Lavei a caixa também, que era de cartão, mas como era verão, secou rapidamente. E finalmente os óculos começaram a aparecer. Eram dezenas de pares de óculos. Eu já tinha andado a ver nas lojas dos centros comerciais as novas colecções e pude constatar que eram uma e a mesma coisa. Havia de tudo, para todos os gostos. Os modelos repetiam-se, mas não mais do que meia dúzia de cada. E todos eles estavam marcados ainda com os preços em escudos. À medida que ia tirando da água e limpando, voltavam de novo para a caixa, mas agora todos arrumados e limpíssimos. Bem, para o lixo não iriam, com toda a certeza. Até porque os que estavam nas lojas eram réplicas daqueles que eram genuínos, já que tinham, inclusive, a assinatura dos estilistas. Fantástico! Enfim, tinha uma caixa enorme, cheia de dezenas de óculos e não tinha a menor ideia do que ia fazer com eles.

 

No outro dia quando fui para a televisão falei com a Lúcia - minha parceira de viagens e farras - a esse respeito e logo ela disse: “amiga, vende”! Vender?… Ela sabia que eu não sei vender. Não tenho jeito, não gosto de vender. Mas ela insistia “vende a um euro cada”. Nem assim. Vender não combina comigo.

 

Bati à porta da minha vizinha e amiga e perguntei-lhe se não precisava de óculos. Ela riu, contei-lhe a história e começou o desfile dos óculos. O primeiro desfile. Experimentou vários, dos quais escolheu sete pares. Dos sete, não sabia por qual se decidir, por isso disse-lhe que ficasse com todos. E rimos as duas que nem umas tontas. Em seguida, chamei umas miúdas brasileiras também minhas vizinhas e foi outra festa. Experimentaram, ensaiaram, tiraram fotos, uma bagunça e tanto e lá se foram mais uns quantos óculos com dono. A caixa começava a ficar mais leve. No fim-de-semana tínhamos um almoço de aniversário em família e decidi meter a caixa na bagageira do carro. Findo o almoço, fui buscar a caixa e pus em cima da mesa, que era ao ar livre. Foi uma festa. Toda a gente queria saber onde eu tinha ido buscar tudo aquilo. Não havia ninguém que não experimentasse óculos e perguntasse para todos “ficam-me bem”? Uma loucura. As pessoas nas outras mesas olhavam incrédulas, sem entenderem nada do que se estava a passar. E os óculos lá iam andando com dono. Só me perguntavam “posso ficar com estes”? E eu “sim”, sim, sim.

 

No final do almoço, quando pedimos a conta, perguntámos às moças que nos serviram se queriam gorjeta ou óculos, a que elas logo responderam que queriam óculos. Lá escolheram e foram todas felizes da vida. Passou uma senhora, com a filha de dezoito anos, que não resistiu e veio perguntar se estávamos a vender. Respondi que não. Disse que a filha gostaria muito de ter uns óculos. Respondi que escolhesse o que quisesse, à vontade dela, pois eram oferta. A miúda escolheu e lá foi já com os óculos postos, toda contentinha.

 

Na segunda-feira seguinte, levei a caixa para a televisão e fui chamando as minhas colegas. Aquilo foi um festival. Havia óculos para toda a gente. E se elas riam! E por mais que eu distribuísse, os óculos nunca mais acabavam. Parecia que nasciam da caixa. Então lembrei-me de chamar a Cristina Emanuel, uma colega Guineense muito engraçada, da Rádio, que costumava almoçar com as colegas dos programas da Televisão e com ela sempre havia histórias de rir perdidamente. Nunca me esqueço do dia em que ela contou que, indo na segunda circular, já de regresso a casa, chovia água que Deus a dava e o trânsito parado. A Cristina aflita para fazer um xixi, não foi de modas, saiu do carro, abriu as duas portas, baixou as calças e desopilou a bexiga.

 

Contando esta cena, ninguém podia ficar indiferente, já que as descrições dela eram de uma sinceridade total. Víamos-lhe no rosto o ar de satisfação ao contar o alívio que sentiu ao esvaziar a bexiga e quando contava que os carros passavam do outro lado e se metiam com ela… claro! Mas ela estava-se nas tintas. Estava aliviada e isso é que contava. De modo que, quando chamei a Cristina, calculei que teríamos uma bela representação, em função dos óculos e não me enganei. Ela perguntava, mas são para mim? E quanto custam? Zero? A Cristina punha e tirava e via-se no espelho da casa de banho e ensaiava e dizia “pareço ou não uma modelo(?)”… eh pá, sou muita gira!” E nós ríamos com a performance dela, encantada por ganhar óculos de sol de borla.

 

 

Quando finalmente o último par de óculos saiu e a caixa ficou vazia, foi um alívio. Aquela caixa estava guardada e destinada a fazer feliz muita gente. E fez.

 

Missão cumprida.



quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Liberdade - 12


Uma balança tem dois pratos lado a lado. Sua função: pesar. Assim, se pusermos um peso num dos pratos, imediatamente ele vai abaixo, na proporção do peso colocado. Em contrapartida, o outro sobe, agindo à acção directa do primeiro. Se, em seguida, colocarmos no outro prato um peso maior que o primeiro, a posição inverte-se, ou seja, o prato desce para fazer subir o primeiro. O certo é que o desequilíbrio se instalou. Mas isto é uma balança e é para isso que ela serve. Se quisermos restabelecer o equilíbrio temos que manter os pratos iguais, isto é, ter pesos iguais em ambos os pratos.

 

Há uns trinta anos atrás, um belo dia em que, por qualquer razão tive que andar no metro, estava uma rapariga africana que deveria ter uns vinte e cinco anos. Reparei nela porque naquela altura ainda não se usavam “leggins” e ela estava com umas calças pretas muito justas, apertadíssimas, onde ela se tinha enfiado a toda a força porque, ainda por cima não era magra, nem um pouco, e a gordura tentava sair por todo o lado. O traseiro era enorme, tudo nela era enorme e tentava dar nas vistas o mais possível, isto é, não queria passar despercebida de maneira nenhuma. Virava-se para todos os lados com o nariz no ar, fixando as pessoas como que a dizer-lhes “aqui estou eu, toda boazona”... enfim. 

 

Quando chegou a minha paragem, saí e ela saiu também. Azar o meu, porque parecia que ela se tinha colado a mim. Saiu na minha saída e tomou o meu caminho. Tentei desviar-me apenas porque, na verdade, ela atraía as atenções num sentido que não me agradava, por isso não me apetecia estar por perto. Todavia, descontraída e provocadora, trocava as minhas voltas e continuava a colar-se a mim sem que eu percebesse o porquê. Não a podia mandar embora, de modo que fui ignorando, embora ela caminhasse praticamente a meu lado.

 

Atravessámos uma rua e estavam uns homens vestidos de fato de macaco azul, que certamente eram da oficina do lado e como era a hora do almoço, deviam estar fazendo uma pausa de descanso, encostados à parede, fumando um cigarrinho descontraído ao mesmo tempo que se aqueciam ao sol, antes de pegarem novamente no batente. E então pensei "agora é que vai ser lindo”, porque era quase certo que iam chover comentários e não seriam agradáveis, de certeza. Apressei o passo e propositadamente desviei-me, para não ouvir nem ver o que não me interessava. Só queria seguir o meu caminho o mais tranquila possível.

 

A rapariga africana passou o mais perto possível dos mecânicos e ainda que eu não quisesse ver nem ouvir, claro que ouvi os assobios e os ditos dos mecânicos, o que não me espantou. O que me espantou foi que ela parou e injuriada, começou a falar com eles. Continuei o mais depressa possível achando que estava livre, mas nem por isso, porque ela correu na minha direcção e mais uma vez prantou-se a meu lado, sem que eu percebesse a razão disso. Fiquei calada e ignorei, mas ela começou a falar comigo em jeito de desabafo. Fui fingindo que não a ouvia, mas ela insistia fazendo o mesmo, como se eu lhe estivesse a dar atenção. Aquilo era uma praga!

 

E a conversa dela era esta: “eu sou como sou, visto o qui quero, sô livri, tô num país livri, ninguém tem nada com isso”. Como eu não respondia, porque achava que não tinha nada que responder, nem a conhecia de lado nenhum, ela continuou: “sou livri, eu sô livri, visto o qui quero, faço o qui quero, ninguém tem nada com isso, não achas”? 

 

Bom, agora já era demais, porque ela se estava a dirigir a mim, à minha pessoa, directa e insistentemente. Aquela tinha-me saído na rifa e não havia nada a fazer, só que já estava farta daquela cena e precisava de pôr um fim naquilo. Então, virei-me para ela e falei-lhe na mesma linguagem, dizendo-lhe: “A liberdade não é só para ti, é também para os outros. Se queres ser livre tens que aceitar a liberdade dos outros. Tu podes fazer e dizer o que quiseres, mas eles também. Tu és livre, sim, mas eles também”. Ela parou e soltou um grito de admiração, de indignação, de interrogação, de espanto, sei lá, e ficou lá atrás parada, digerindo o que tinha acabado de ouvir, enquanto eu continuei o meu caminho.

 

 

Os órgãos de comunicação social não param de falar no cenário “França”, com destaque especial para o palco “Paris”. Atentado terrorista contra os direitos democráticos, liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade, liberdade, liberdade… e, de repente, parece que o mundo inteiro se esqueceu de uma coisa que é fundamental: a nossa liberdade termina quando começa a dos outros. É uma frase feita, não tem nada de criativo, mas é crucial nesta questão porque, quem desrespeitar este princípio está lixado; porque quem desrespeitar esta regra de ouro é terrorista. A guerra não é feita só com armas de fogo. A guerra é feita também de provocações, de brincadeiras de mau gosto, de desrespeito por si mesmo e pelo próximo. A guerra é feita de palavras, obscenidades e muita coisa feia que não dignifica nem respeita nada nem ninguém, e então a balança desequilibra-se e, nesse desequilíbrio, onde se pensa que uns ganham enquanto outros perdem, mas onde na verdade ninguém ganha nada e todos perdem, há os bons e os maus. É claro que os bons são o ocidente e tudo o que o representa. O ocidente representa o mundo “civilizado”, o mundo livre, democrático, onde tudo é permitido menos matar. Ainda assim, às vezes é permitido. São excepções, mas há. Por exemplo: Obama versus Ossama.

 

Não. Matar não é permitido nunca. Não há nada que justifique a matança do homem e isto é válido para ocidente como para oriente, para todo o planeta e todo o universo. Tirar a vida não é permitido a ninguém, nem mesmo aos governantes. Estamos todos inseridos nesta regra, nesta lei universal.

 

Mas voltando ao ocidente, o mundo considerado civilizado. Onde está o civismo que provocou o incidente de Paris? Onde ficou a ética, o profissionalismo, a comunicação, o socialismo… onde ficou a arte nos cartoons horrorosos que não dignificam nada nem ninguém, que ferem de morte a susceptibilidade de muitos, não importa quem. Só porque uns se acham donos e senhores da verdade, vamos arrasar com os “bárbaros”, desafiando todas as crenças e todas as doutrinas, todos os credos e toda a humanidade? Que mundo medonho é este?

 

Pergunto-me, no meio deste lixo todo, onde fica a paz? Para quando a paz? Se não há paz não há amor. Onde não há amor há ódio e onde há ódio há guerra e disto não saímos, porque vivemos num mundo civilizado!? Num mundo que quer liberdade a qualquer preço, mas onde ninguém sabe o que é liberdade. E ainda vêm os colegas da RTP com um falso ar pesaroso, manifestar-se em pleno telejornal, que estão completamente solidários com os colegas do jornal que sofreu o atentado!? E eu me pergunto: mas a que propósito? Alguma vez a RTP se mostrou ou transpareceu para o seu público, pelo menos, algo de tão indecoroso? Porventura não foi até suspenso um programa humorístico, por ter sido considerado inadequado? Alguns programas de informação não tiveram cortes por causa da liberdade de expressão dos telespectadores em linha directa? Porque carga de água vêm agora mostrar-se tão solidários com os outros?

 

 

E muito mais haveria para dizer acerca disto, mas não me apetece, porque sou livre…



A Liberdade não é uma conquista, nem um desafio, nem um passatempo.

 

A Liberdade é um Dom.



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O sofá - 11


Era uma vez um sofá, comprado no Ikea…

 

Um dia a minha tia pediu-me para ir com ela ao Ikea comprar um sofá individual para o meu tio se sentar confortavelmente a ver televisão, posto que o seu estado de saúde não era dos melhores. Acontece que o Ikea é a minha loja para todas as ocasiões, para tudo o que se possa imaginar, para mim, para a família e amigos, sempre, Ikea. Todos à minha volta sabem disso.

 

Então, numa tarde de sábado, lá fomos ao Ikea, no carro dos meus tios, por ser bem maior do que o meu. Até aqui, tudo certo. Chegados lá, começámos a ronda pela exposição dos móveis, para o meu tio experimentar por si mesmo e escolher, uma vez que o sofá se destinava exclusivamente a ele e depois de muita escolha, experimenta e não experimenta, lá se chegou a um consenso e o sofá foi eleito. Dirigimo-nos ao andar de baixo, à loja propriamente dita, a fim de carregarmos a embalagem no carrinho de transporte até à caixa.

 

Já aí começou a agitação, porque a minha tia achava que eu sozinha não ia conseguir tirar a embalagem da prateleira para o carro e ela e o meu tio não iam poder ajudar, claro. Com toda a paciência, disse-lhes que não se preocupassem com isso, que era problema meu e lá pus o sofá embalado no carrinho, com grande espanto e admiração deles, que não deixavam de estar preocupados com o modo como o faríamos chegar ao seu destino, porque a cada passo, aumentava a preocupação deles. Por mais que lhes dissesse que estivessem calmos e me deixassem fazer as coisas do meu jeito, estavam sempre a dar palpites e a meter o bedelho e pior, a fingir que ajudavam em alguma coisa, quando na verdade só atrapalhavam as minhas manobras. Mas é assim mesmo.

 

Fomos para a caixa, o sofá foi pago e lá fui eu empurrando o carrinho até ao elevador, com eles atrás de mim, com aquelas caras de aflição, como se de uma missão impossível se tratasse. A cada passo, lá vinha uma questão que, para eles, parecia intransponível. Cansavam-me com tantas perguntas de como é que vamos fazer, como é que vamos acontecer… bla, bla, bla… e eu já não os podia ouvir.

 

Chegámos ao carro e a aflição deles só aumentava a cada minuto, a cada segundo. Eu bem os afastava e lhes pedia por favor para me deixarem fazer as coisas sozinha, mas eles queriam meter o nariz em cima de todos os movimentos que eu fazia. Era uma verdadeira canseira. Abrimos o porta-bagagens do Mazda e percebi que tinha que me livrar da embalagem, levando só o sofá, a fim de caber na mala do carro. E lá foi, com dificuldade, é claro, mas lá enfiei o sofá de modo a conseguir fechar a mala.

 

Todo o caminho tive que ouvi-los “e tu conseguiste, eh pá, como é que tu conseguiste fazer aquilo sozinha(?)”. Enfim, aquela conversa não interessava para nada, mas era um mistério para eles. Chamaram-me precisamente para aquele fim e, depois, tanto espanto porque eu conseguia o que eles queriam. Sinceramente, não os entendia.

 

Finalmente chegámos a casa. Saímos do carro e lá ficaram eles novamente a torrar a minha paciência para tirar o sofá do carro. Tive que lhes dizer outra vez para se afastarem, para eu me poder mover, mas a cena foi idêntica à anterior. Eu a precisar de me movimentar e eles em cima de mim, a meterem o nariz e a dar sugestões, que não faziam sentido nenhum. Mas o sofá saiu e carreguei com ele até à entrada do prédio e depois tive que subir os degraus desde a entrada do prédio até à porta do elevador, que não são poucos. Mas lá foi e tudo isto sob a vigilância atenta dos olhos da minha tia, especialmente, que não perdia nada, completamente espantada com a minha força, com a minha destreza, etc. Agora restava pôr o sofá no elevador e a minha missão estaria cumprida, sem grandes complicações, só que aqui, precisamente, começou a complicação e não foi pouca.

 

Primeiro, o sofá, por um triz, não cabia no elevador ou eu não conseguia fazer com que coubesse porque as portas, por pouco, mas muito pouco mesmo, não fechavam. Por essa eu não esperava e depois de várias tentativas, achei que a solução era carregar com ele até ao terceiro andar. Então, respirei fundo, mentalizando-me de que essa era a solução, enquanto ganhava tempo para me preparar fisicamente, a fim de subir as escadas com ele. Claro que nesta altura os meus tios já estavam alucinados e os meus nervos completamente em franja. Dizia-lhes que fossem para casa que eu resolvia o problema da maneira que tivesse que resolver, mas eles não arredavam o pé dali por nada deste mundo. Bom, fiz a tentativa de carregar o sofá, mas assim que subi os primeiros degraus, logo percebi que não ia ser possível. Era muito complicado e eu não era de ferro. Os meus cinquenta quilos não chegavam para aquilo, portanto, essa não ia ser a solução. 


Deste modo, a possibilidade era tentar voltar a pôr o sofá dentro do elevador, dando o jeito de conseguir fechar a porta e assim o fiz. Lá foi o sofá novamente para o elevador, embora a porta continuasse a não fechar. Empurra daqui, empurra dali, passa para lá, passa para cá e os “mirones” sempre atentos, falando o que lhes vinha à cabeça, que eu nem prestava atenção. A minha concentração era tal, que eu não ouvia nem via nada à minha volta. 


Felizmente, que tudo isto se passou num sábado e o prédio estava silencioso. Ao fim de uma longa hora, consegui finalmente fechar as portas do elevador. Tinha sujado um pouquinho o sofá, mas não era nada de mais, sairia facilmente. Enfim, estava cansada, não o podia negar, mas já podia respirar de alívio, porque estava na ponta final daquela ingrata missão, pensava eu. Entrei no elevador e carreguei para o terceiro andar. O elevador subiu e com grande alívio estávamos chegados ao destino. Eu nem queria acreditar.

 

Saio cá para fora, começo a puxar pelo sofá para o tirar e lá vem a minha tia a “tentar” ajudar e eu a empurrá-la para ela se meter em casa e me deixar manobrar à vontade. Mas então, tu não podes sozinha, dizia ela, como se já não tivesse podido antes. Bem, começa outra vez a minha luta, porque o sofá agora não queria sair de jeito nenhum. Eu puxava, empurrava, saltava por cima, para dentro, para fora, mas o sofá, teimoso, não cedia de maneira nenhuma. Eu estava doida e só me apetecia pegar num martelo e parti-lo todo, de farta que estava daquilo. Mas isso não podia ser, pelo menos até eu fazer todas as tentativas possíveis e impossíveis.

 

Não adianta explicar aqui as cenas que se passaram. O sofá não saía. Voltei a descer para tentar tirá-lo no rés-do-chão, onde ele tinha entrado, podia ser que a medida não fosse bem a mesma, mas o resultado era igual, não saía e pronto. Passou uma hora e eu estava de rastos. Eu e o sofá numa luta desgraçada. Passou mais uma hora e tudo continuava na mesma, só eu mais e mais cansada. Mais que isso, derrotada, transpirando por todos os poros. O cabelo estava uma verdadeira sopa. Parecia que tinha saído do esgoto. Transpirava dos pés à cabeça, com a roupa colada ao corpo. O meu rosto estava com um aspecto deplorável, com umas olheiras fundas e escuras como eu nunca tinha visto e o pior de tudo é que não via uma saída. 


Parei para pensar e porque já não aguentava mais. Tínhamos ido para o Ikea logo a seguir ao almoço e já era. A noite estava instalada e o diabo do sofá a atazanar a minha paciência. Que fazer? Sentia-me completamente encurralada. Eles tinham-me pedido ajuda porque não tinham alternativa. Só eu estava disponível para os ajudar e olha o que tinha acontecido!? Deus do céu!

 

Estávamos os três parados, em silêncio, com umas caras de defuntos, como se estivéssemos num velório, onde não há nada a fazer a não ser estar. Sozinha comigo mesma, pensei que tinha que resolver aquele assunto, por todas as razões e mais algumas e porque eu sempre resolvo tudo e onde meto os pés meto a cabeça. Só que ali, naquele caso, tinha que o resolver recorrendo à ajuda de alguém, porque verdadeiramente e finalmente tinha que admitir que sozinha não conseguia. Tinha que recorrer a alguém e precisava de agir rapidamente, porque o dia estava a acabar e aquilo era para ser resolvido ainda naquele mesmo dia. Não ficaria para o dia seguinte, de maneira nenhuma, posto que era ponto assente e continuávamos todos em silêncio, dando pequenos passos à toa. Não tinha a quem recorrer, que eu conhecesse e pudesse ir ali, portanto, restava-me a solução mais louca, mas a mais prática e porque sou uma pessoa prática, assim pensei, assim fiz. Anunciei alto e bom som, que ia à rua arranjar um ou dois homens fortes para tirarem o sofá dali. 


Oh, foi o fim da picada. Vieram os comentários da ordem - que eu era doida -, já o sabia. Onde e quem é que eu ia buscar? Aí estava uma coisa a que eu não podia responder porque, sem antes ir, não podia saber. Disse-lhes, então, que ficassem ali a tomar conta do sofá. Insistiam em querer saber onde eu iria. Gritei que não sabia, não tinha ideia, mas iria aonde fosse preciso e necessário para trazer comigo alguém, a fim de resolver o problema. Não sabia quanto tempo levaria e mais nada. Que desassossego, Deus meu! E lá saí eu porta fora, com um ar e um aspecto miserável. Enfim!…

 

Começo a descer a rua e as primeiras pessoas que vi, eram dois casais, gente nova, bem vestidinhos… esses não interessavam. Não eram apropriados para o efeito. Mais uma ou outra pessoa que nem valia a pena indagar. Virei a esquina e passava gente, pouca, mas passava. Tinha mesmo que dar uma de doida e abordar alguém. Não iria presa por isso, foi o que achei. Eu só precisava de ajuda e isso não era crime. Quando os outros precisavam de mim eu estava pronta para o que fosse, portanto, estava na minha vez de pedir ajuda e para isso tinha que pôr de lado e esquecer completamente a ética, o preconceito, o orgulho, a vergonha e mais alguma coisa de que agora não me lembro. Era uma varridela completa ao mais íntimo do meu ser, do meu âmago. Paciência. 


Sempre andando, dou uma olhadela geral e vejo um indivíduo encostado à parede, com um joelho dobrado e o pé para trás, apoiado na parede, com um cigarro, deitando fumaça para o ar. À frente dele estava uma rapariga com quem ele parecia falar. Ainda por cima aquela era uma zona bem afamada, quem me garantia que não era prostituição!? Mas o indivíduo, que de noite e ao longe, aparentava uns trinta e cinco anos, mais ou menos, tinha um porte atlético, exactamente como eu naquele momento precisava. Com toda a certeza ele fazia muito exercício físico, pois ninguém podia ter um cabedal daqueles sem ser assim. Pessoalmente, não gosto de homens demasiado musculados, mas naquele momento, era tudo o que eu precisava. Estava resolvido, ia caçá-lo, fosse como fosse. Pedi a Deus que me desse forças e comecei a encaminhar-me para lá. 


Entretanto, chegou outro indivíduo mais velho, que não tinha nada a ver, também a fumar, mas daria para ajudar, caso eu conseguisse comovê-los com a minha história. Esse é que era o problema e naquele momento eu tinha que ser tudo menos eu, ou não estaria ali a fazer aquela triste figura. Mas lá fui na direcção deles, até que cheguei ao pé dos três, que ficaram a olhar para mim com um ar surpreso e inquisidor, como era de esperar. 


O rapaz mais novo pôs o cigarro na boca e em vez de atirar o fumo para o ar, como o estava a fazer, atirou para a frente, num jeito meio provocador, que tive que me afastar ligeiramente, mas nem por isso desisti. Pedi desculpa pela intromissão e fui direita ao assunto. Disse que tinha ido ao Ikea comprar um sofá para o meu tio, que estava doente, e na volta, o sofá, que tinha entrado no elevador – só não disse o trabalho que deu -, não queria sair e não sabia o que fazer, por isso precisava de alguém que me desse uma ajuda, para não deixar os meus tios a braços com aquela empreitada, dada a idade avançada deles. Saiu, agora restava acreditarem em mim e permitirem-se fazer uma boa acção. 


Silêncio... enquanto o fumo se dispersava no ar, perdendo-se, para logo em seguida vir outra fumaça. Olharam todos uns para os outros, numa atitude de aparente indiferença, até que a rapariga intercedeu por mim e num tom de humildade, pediu ao rapaz para dar uma ajuda. O rapaz olhou para o outro indivíduo e por sua vez pediu-lhe ajuda, enquanto a rapariga continuava a fazer o papel de boa samaritana, instigando-os a irem ajudar-me. Apagaram os cigarros no chão, com o pé, e lá fomos todos, os quatro, enquanto eu começava a respirar aliviada por toda aquela forçada encenação que, com toda a verdade, não estava no programa. E enquanto nos dirigíamos para casa, na direcção contrária, aparecem os meus tios, que me vêm com aquela desconhecida turma. Em vez de estarem calados e quietos, que só facilitavam, nada disso. Começam a fazer as observações mais despropositadas e caóticas possíveis e eu a ver quando é que iam deitar tudo a perder. Santo Deus! Quem são, perguntavam eles, mas quem é essa gente e eu, chiu, chiu, falem baixo. Mas donde é que os conheces? Não os conheço. Então como é que eles vêm contigo? Calem-se, por favor, dizia-lhes eu, que só me apetecia estrangulá-los. Então e agora, o que é que vão fazer? Vão tentar ajudar, se vocês derem licença, a menos que queiram resolver o problema à vossa maneira… enfim… não estava sendo nada fácil.

 

Chegados à entrada do prédio, toda a gente entrou e os homens depararam-se com o problema que eles não faziam ideia do que ia ser. Quando olharam, de certeza acharam que eu era uma inútil, coitada. No olhar deles estava estampado que aquilo era canja. A minha expectativa era grande, pois na verdade, não fazia ideia do que ali se iria passar. Tudo era possível. Tudo.

 

Enquanto a rapariga falava com os meus tios, mais propriamente com a minha tia, os dois homens tinham dado início à tarefa e eu não desviava a minha atenção deles, por nada deste mundo. Queria ver o que aquilo ia dar e rezava para que eles conseguissem resolver o problema. E aí passaram cinco minutos, e dez, e vinte e já estávamos com meia hora bem contada e o sofá não saía e o homem mais velho volta e meia perguntava, foi a senhora que meteu o sofá no elevador? Já não o podia ouvir. E passou mais meia hora e os dois homens estavam alagados. Transpiravam por tudo quanto é lado e a minha tia com as mãos apertadas e os dedos cruzados, não parava com a mesma lamentação “ora esta”, ora esta… os meus ouvidos já estavam saturados e os homens suavam, suavam. Eu estava quase a pôr termo àquilo tudo, indo buscar o martelo para quebrar o sofá e esvaziar o elevador quando, finalmente, como que por milagre, o sofá saiu inteiro, sem precisar de ser abatido.

 

Fantástico!


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A loucura anda à solta - 10



Eu estava de férias, em viagem aos Emirados Árabes, uma viagem que repetiria de bom grado, não fora tantos outros lugares onde ainda gostaria de ir. Mas os Emirados Árabes são feitos à minha medida, porque é uma óptima combinação entre dois mundos, onde tudo está muito bem equilibrado. Isto, do meu ponto de vista, claro está. 

 

Éramos um grupo de quinze pessoas: dois casais, três homens e o restante, mulheres, incluindo eu. Nessa viagem, que durou uma semana, pouco me dei com os demais do grupo, posto que o meu interesse era com os locais, árabes ou não, mas no último dia, mesmo no último, comecei a falar com um dos homens, um senhor um pouco mais velho do que eu, com bom aspecto... enfim, uma pessoa aparentemente normal.

 

O nosso conhecimento foi feito às pressas, pensando que podíamos ter beneficiado mais da companhia um do outro. Em todo o caso, até à chegada a Lisboa, conversámos bastante e acabámos trocando números de telefone para depois nos falarmos. E foi assim, através dos longos telefonemas que todos os dias ele me fazia que, aos poucos, nos fomos conhecendo ou tentando conhecer. 

 

Era reformado da banca, onde tinha trabalhado durante quarenta anos e por esta altura, já há uns anos que se reformara, bem como regressara à sua terra natal, uma pequena aldeia perdida para os lados de Seia, onde tinha várias casas e alguns terrenos que os pais lhe tinham deixado. Para além disso, tinha ainda uma vivenda perto de Cascais, onde ficava sempre que vinha a Lisboa. 


O senhor, que pelo sotaque se percebia que era da província, era uma pessoa que falava bem sobre qualquer assunto e que estava a par da actualidade, dos acontecimentos que iam pelo mundo, etc. Para mim, ele só tinha um senão. Estava sempre enfiado na igreja. Desde criança que era sacristão e não abdicava disso. A igreja era o mundo dele e aquilo não me agradava especialmente, mas cada um é como é. 


Havia ainda uma outra coisa que me intrigava. Nunca tinha casado e sonhava que, ainda assim, apesar dos seus sessenta e três anos, um dia, haveria de casar. Ora bem, se ele tanto o queria e reunindo condições para isso, porque então nunca tinha casado? Era um pouco estranho, mas fomo-nos conhecendo através dos telefonemas diários, que nunca demoravam menos de uma hora. Conversávamos sobre o dia-a-dia, a família, os afazeres e por aí fora. Uma conversa perfeitamente normal, que incluía alguns planeamentos de passeios que gostaríamos de fazer. Falávamos de gostos com a comida, do estilo de vida que fazíamos, no caso ele, porque, por esta altura, eu ainda trabalhava. 

 

E o tempo foi passando, até que algo inédito aconteceu e na história da minha vida o inesperado é sempre algo de relevante importância. Foi o caso. Um dia a conversa dele foi no mínimo estranha. A páginas tantas eu disse-lhe que tinha que ir ao cabeleireiro e que também precisava de arranjar as unhas, etc. Era isto um fim-de-semana. Na sequência da minha conversa, ele disse que também precisava de cortar as unhas, mas que tinha que esperar por segunda-feira. Pensei que seria por falta de tempo, mas não, segundo ele, não tinha nada a ver com isso, apenas porque só à segunda-feira podia cortar as unhas. Achei então que era por uma questão de disciplina. A limpeza na minha casa é feita todas as terças-feiras, portanto, considerei ser esse o motivo, mas imediatamente ele negou, dizendo que também não tinha nada que ver com isso. Comecei a ficar intrigada e continuei a fazer perguntas, até que ele me respondeu que, em tempos idos, quando era novo e tinha começado a trabalhar no banco, ouviu uma conversa de um colega que, conversando ao telefone com um amigo, o outro lhe dizia que, cortar as unhas às segundas-feiras fazia com que nunca se tivesse dor de dentes.

 

Desatei a rir, atribuindo aquela dedução a uma piada, que só podia ser, mas ele logo interrompeu, dizendo que não era piada nenhuma e que desde que tinha ouvido aquilo, sempre cortara as unhas às segundas-feiras e nunca tinha tido dores de dentes. Ainda dentro de um clima de brincadeira a que eu estava a levar as coisas, chamei a atenção dele para o facto de, na semana anterior, ter marcado uma urgência para o dentista, visto estar com dores de dentes, mas ele reagiu fortemente, dizendo que não era uma dor, somente uma moinha. Bom, a conversa estava a ficar difícil, por isso comecei a desconversar, dizendo-lhe que tinha que fazer e que continuaríamos o papo depois, no dia seguinte, ou quando desse e assim foi. 


No dia seguinte, à hora do costume, o telemóvel tocou e para variar era ele. Começou a falar das coisas do costume, da vida dele, do que tinha feito e do que não tinha, etc… até que, decidi voltar ao tema da noite anterior, os dentes ou as unhas do senhor Adelino, que continuou a insistir na sua tese de que, cortar as unhas às segundas-feiras, fazia com que nunca se tivesse dor de dentes. Acontece que eu já estava a ficar farta daquela parvoíce e, portanto, comecei a puxar por ele, no sentido de o fazer perceber que aquilo não tinha ponta por onde se pegasse, pois não fazia o menor sentido.  


Muito chateado comigo disse que, se era bom para os outros, também o era para ele. Insisti, dizendo-lhe que, certamente, tinha sido uma brincadeira do colega porque, ninguém, em sã consciência, podia acreditar num disparate tão grande e ele não me parecia ser uma pessoa estúpida a esse ponto. Mas o senhor Adelino não gostou do meu ponto de vista e foi então que, já muito chateado me disse que, se eu não quisesse acreditar, não acreditasse. Ele, porém, continuaria cumprindo religiosamente aquele ritual porque, até provas em contrário e até à data, só se tinha dado bem. Disse-lhe que a conversa ia acabar por ali, porque não tinha paciência para tanta burrice e assim o telefonema acabou. 


No dia seguinte, como de costume, ele voltou a ligar. Começámos a falar do trivial e, finalmente, a conversa voltou ao mesmo assunto, como não podia deixar de ser. Com toda a calma possível, tive que repassar tudo o que já tinha sido dito, que não me dava gozo nenhum, mas porque precisava de saber com que espécie de pessoa estava a lidar e era-me muito difícil acreditar que alguém fosse tão idiota a ponto de acreditar numa coisa daquelas!?

 

No fundo, acalentava uma certa esperança de que ele caísse em si e percebesse aquilo que, em quarenta anos, não tinha conseguido perceber. E a conversa lá continuou comigo a perder cada vez mais terreno, porque o senhor Adelino, na verdade, estava mesmo convencido daquela treta toda, o que muito me impressionava no pior dos sentidos e, contra todos os meus esforços, teimava obstinadamente, o que me deixava de rastos e sem palavras, sem argumentos, sem paciência, sem nada.

 

E na verdade, com tudo aquilo eu não precisava de saber mais nada dele. Não precisava nem queria. Achava que tinha chegado à meta, mas não. Surpresa das surpresas, o melhor estava para vir.  


E continuava: 

 

- "Quem pode garantir que um dia não aparece nos jornais que os cientistas descobriram que, cortar as unhas às segundas-feiras, faz com que nunca se tenha dores de dentes?!”… 

 

Ponto final. Não havia nem mais uma única palavrinha para dizer e muito menos para ouvir. Nem sequer um suspiro, nada, nada. Silêncio era tudo o que eu queria dali.

 

A loucura anda à solta e tem nome.