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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O Candeeiro - 8


O candeeiro não saía de jeito nenhum. Até parecia que tinha nascido ali, de tal forma estava colado ao chão. Era um candeeiro de pé alto, que tinha uma base redonda bem grande, em pedra. Muito pesado, de facto, mas já o tinha movido várias vezes, pelo que, o problema não era do seu peso. 


Estava no gabinete do meu chefe, aproveitando uma breve ausência dele para pôr coisas em ordem e como o espaço não era muito, precisava de desviar um pouco o candeeiro, mas ele brigava comigo e eu já estava cansada. Olhei para o chão e percebi que havia uma grossa camada de cera que não tinha sido espalhada e, provavelmente, logo após a aplicação, puseram o candeeiro em cima e ele tinha colado. Só podia ser isso e já estava assim há algum tempo. Teria que ligar para a logística e pedir para virem removê-lo. 


Enquanto isto, vejo passar o Cruz, um colega da manutenção, que tinha problemas de vária ordem e uma vida muito complicada. Mas às vezes conseguia ser engraçado e apesar do seu quase permanente semblante fechado, quando finalmente ria, era um riso gostoso. Precisava de se rir mais e precisava de muitas outras coisas que a vida tinha sido obrigada a tirar-lhe, dada a sua condição de dependência de drogas para acabar com outras drogas. 


Para ser totalmente franca, nem nunca entendi muito bem como a DRH conseguia mantê-lo nos quadros da empresa, pois se fosse noutra empresa qualquer, há muito teria sido despedido. Não se podia dizer que não tinha sorte porque, na verdade, tinha um chefe que o protegia, pelo facto de ter um filho pequeno que precisava do emprego do pai para sobreviver. Mas era um quadro difícil, porque estava constantemente a recair e tudo se repetia, com a falsa promessa de que era sempre a última vez. 


Quando vi o Cruz, decidi brincar um bocadinho, sem maldade, apenas para nos descontrairmos um pouco. Chamei-o e ele reagiu como de costume. Primeiro ficava parado, ausente, naquele seu ar aparvalhado, com a barriga exageradamente para fora e as costas completamente curvadas. A boca sempre aberta, com o maxilar inferior descaído e a língua de fora, como um cão cansado. Era o preço da sua pouca força de vontade. E ficava parado sem resposta, na verdade, esperando que desistissem dele, tal como ele desistia de tudo e de todos, a começar por ele mesmo. 


Na segunda chamada ele veio. Chegou ao pé de mim e pedi-lhe para entrar no gabinete, a fim de me ajudar a tirar o candeeiro do lugar onde estava. Sem olhar para mim, perguntou porque não o tirava eu sozinha e essa era a resposta perfeita, a resposta que eu sabia de antemão que viria. Respondi-lhe que não conseguia.

 

Ficou um pouco parado e depois reclamou “não consegues?” E voltei a responder que não. Olhou para mim com um ar super desconfiado e voltei a dizer-lhe a verdade, que não conseguia. Só não lhe disse que ele também não ia conseguir.

 

Podia dizer que não sabia o que se passava na cabeça dele, mas o facto é que sabia exactamente o que ele estava a pensar, porque eu o conhecia muito bem e ainda porque ele era tudo, menos imprevisível.

 

E naquele momento passava pela cabeça dele que, não havia razão alguma para lhe pedir ajuda. Qualquer pessoa faria aquilo. Pedia ajuda porque era a ele, se fosse a outra pessoa não o faria. E nada disto era verdade. Nem uma nem outra coisa. Eu realmente não conseguia levantar o candeeiro do sítio e depois não estava a fazer dele moço de recados. 


É que, por causa das suas limitações, deixavam-no para trabalhos que, por vezes, nada tinham a ver com a sua categoria profissional e ele não gostava disso. Mas também não restava alternativa porque, em boa verdade, para alguma coisa ele tinha que servir, já que o conservavam lá e lhe pagavam um ordenado normal. 


Como ele não reagia e eu estava a perceber que a cabeça dele estava a matutar desnecessariamente, peguei no varão do candeeiro, fazendo mais uma tentativa de o levantar, em vão, para ele ver que realmente não conseguia e percebendo que afinal eu não estava a brincar com ele - e depois era mais um favor quase pessoal, do que outra coisa -, mudou de atitude e deve ter pensado que era uma boa oportunidade para mostrar a sua macheza e, mais, que, afinal as mulheres sem um homem nada são e em alguma altura da vida um homem sempre faz a diferença. 

 

Deixei-o divagar um pouco e ver o que decidia, e como o decidia porque, talvez ele ainda não soubesse, mas era livre de pensar, tão livre como o era em agir, embora na maioria das vezes essa liberdade de acção se traduzisse em negativo.  Mas isso ele teria que aprender.


Nesta altura dos acontecimentos, ele já sorria um pouco, com um certo ar de escárnio da minha pessoa, claro, mas não me importei. E o sorriso dele foi aumentando, aumentando, porque devia achar que não tinha como não tirar o candeeiro. Na cabeça dele, e eu percebia isso perfeitamente, aquilo era fácil, fácil, por isso ria com gosto ante a expectativa de me poder mostrar a facilidade com que julgava que o ia fazer. 


E como ele só ria, fazendo-me de ingénua, perguntei-lhe de que se ria. Ele abrandou um pouco, fez uma pausa e, naquela voz rouca e embatucada, respondeu “então não consegues tirar o candeeiro?” Fingi estar chateada e respondi-lhe mais uma vez que não. Ele não entendia, mas também não desconfiou de nada e era essa a minha vantagem, porque eu queria rir, quando ele pegasse no candeeiro e percebesse que também não o conseguia tirar. A menos que eu estivesse enganada o que, evidentemente, podia acontecer. 


Finalmente parou de rir, aproximou-se e pegando no candeeiro, primeiro com uma mão e logo a seguir com as duas, não o conseguiu levantar, claro está. Dobrou o seu empenho e pediu-me para sair do lugar onde estava, para ter mais espaço de manobra. Puxava de um lado, empurrava do outro, ficava rubro do esforço que fazia, mas todas as tentativas foram em vão, até que percebeu que era válido o meu pedido de ajuda, que não era uma brincadeira e que, afinal, tinha ficado mal na fotografia, o que para mim não tinha a menor importância.

 

Perguntei-lhe o que é que se passava e a resposta dele olhando, olhando, mas sem encontrar explicação, foi “não sei”. “Ah, mas riste-te de mim!” - disse-lhe eu e continuei – “Pois é, ri melhor quem ri por último”. 

 

Mas ele estava entristecido. Afinal de contas não tinha conseguido provar nada. Mas eu também não queria que ele ficasse chateado. Então propus-lhe que tentássemos os dois. Voltei para junto do candeeiro e os dois começámos a abanar para lá, para cá, tanto o sacudimos e empurrámos que, finalmente, cedeu, mas ainda assim, não tinha sido fácil. Por baixo, tinha uma enorme camada de cera, claro. 

 

Então ele riu e riu, já todo satisfeito porque, afinal, sempre tinha servido para alguma coisa e não tinha ficado mal visto de todo. E lá foi, no seu andar autómato, batendo os pés um pouco mais apressado do que o costume, impulsionado pela adrenalina, mas com a cara sempre no chão e a língua de fora, como sempre. 

 

Há coisas que nunca mudam.



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Em Cambridge - 7


Quinze dias após o nascimento da minha neta Sofia, estava na minha vez de ir para Inglaterra, mais propriamente para Cambridge, onde eles residiam, para dar assistência à jovem família e conhecer ao vivo a minha pequenina e a mais recente chegada à família.

 

Um dia saí com a minha querida nora, a Tânia, para irmos fazer compras ao supermercado e tive que ser eu a conduzir para ela poder ficar no banco de trás, dando assistência à bebé.

 

Conduzir em Inglaterra pode dizer-se que não foi nada fácil. Eles habituaram-se rapidamente. Para mim foi um suplício. Era muita coisa ao mesmo tempo. Primeiro, o facto de estar sentada no lado contrário ao que era habitual. Segundo, andar na faixa contrária e todo o trânsito a correr no sentido contrário, era um permanente susto. Finalmente, o GPS que eles usavam era sempre em inglês e se bem que não fosse difícil entendê-lo, em condução, tudo se tornava mais complicado, com tendência a bloquear a minha acção.

 

Cada vez que precisava de meter mudanças, porque não era um carro automático, lá ia eu com a mão direita, assim como o travão de mão. Não havia uma única vez que o fizesse logo à primeira com a mão esquerda. Levava sempre em primeiro lugar a mão direita e só quando percebia que não o encontrava é que, rapidamente, ia com a mão esquerda. Por mais curto que fosse o trajecto, até porque Cambridge é uma cidade pequena, quando chegava, estava sempre exausta, por todo o esforço que era obrigada a fazer para me concentrar em tudo ao mesmo tempo. Mas enfim, só conduzia quando era mesmo necessário.

 

Vínhamos carregadas do supermercado e estava na hora de dar de mamar à pequena Sofia, que não gostava de se fazer esperar. Estacionei o carro mesmo em frente à porta de casa, mas no lado oposto da rua, dado que normalmente não usávamos o estacionamento da garagem. Saí e tirei todos os sacos do supermercado, enquanto a Tânia se ocupava da Sofia. Quando abrimos a porta de entrada do prédio e já estava tudo junto ao elevador, a Tânia chama-me, aponta para fora e muito ansiosa diz “o carro… o carro!”…

 

Não percebendo exactamente o que ela queria dizer, olhei para onde apontava e então percebi. O carro estava a deslizar, a deslizar, ou seja, a andar sozinho para trás. Logo me lembrei que me tinha esquecido de puxar o travão de mão e largando tudo, fui a correr que nem uma doida, sem saber exactamente o que fazer. Ou abria o carro e entrava para o travar ou me punha atrás dele para travar o andamento. E enquanto corria pensava em qual das duas situações seria melhor, mas isto em fracções de segundo.  


Havia outros carros estacionados e se não tomasse uma resolução rápida podia ser complicado. E ainda nem bem tinha decidido o que fazer, quando percebi que o carro tinha parado. Não sabia porquê, mas uma vez parado, abri, entrei e então puxei o travão de mão.

 

Entretanto, vim cá fora para ver se estava bem naquele sítio ou se seria melhor chegá-lo um pouco à frente e só então reparei que o passeio, isto é, a calçada, não era em linha recta, fazendo uma ligeira diagonal para o sentido da estrada, o que fez o carro travar, porque o pneu encontrou resistência.

 

O susto não foi pequeno e a minha condução em Inglaterra, por mais que fosse necessária e que mais tarde nos tivesse dado muita vontade de rir, acabava ali. Ponto final. Só voltaria a conduzir em Portugal.



terça-feira, 9 de setembro de 2014

As calças brancas do LQ - 6


LQ era um assessor do CA que foi colocado num gabinete da Direcção Técnica para lhe darmos apoio. Quem trabalhava mais directamente com ele era a Catarina, mas sempre sobrava alguma coisa para mim. 

 

Era curtido e vaidoso, também. Não era muito bem visto pelos trabalhadores, mas com o tempo, acabou por ser aceite, conseguindo uma boa colaboração por parte de todos, pelo menos, na nossa Direcção. 


Era nervoso e irrequieto e fazia questão de dar sempre a entender que estava muito ocupado, mesmo quando era apanhado a dormir, mas considerava-se o maior e queria mandar em tudo e todos. 


Um dia, olhando para ele, sempre em movimento, percebi que as calças do terno branco que usava com frequência, estavam curtas e fora de moda. Comentei com a Catarina, que logo começou a rir e as duas rimos à conta das calças curtas do LQ. A partir daí, sempre que ele punha aquele fato, lá olhávamos nós uma para a outra e lá vinham à baila as calças dele, para nos divertirmos um pouco. E os comentários começavam: “mas a mulher não vê?”, “e não tem outra roupa para vestir?”, “com tanto dinheiro que ganha”... etc, etc. Até que, sugeri à Catarina, que o chamasse à atenção para o facto de as calças estarem muito curtas, mas a Catarina coibiu-se, não tinha muito à vontade para isso. Como vi que ela não iria avançar, disse-lhe que lho diria eu mesma. Ela riu muito, deu muita gargalhada, mas achava que eu não seria capaz de lhe dizer. No fundo ela tinha um certo medo dele, como quase toda a gente. 

 

Os dias passaram e lá vem o LQ novamente com o seu fato branco, imaculado, que devia estar imundo. Ás vezes dava-nos gozo falar mal de qualquer coisa e o LQ prestava-se a isso. No fundo só precisávamos de descontrair um pouco. E dizia ela a rir com gosto: “diz lá, Luisinha, diz”. Ok. Lá o chamava eu “engenheiro”, era assim que o tratávamos “oh engenheiro, pode chegar aqui” e a Catarina a tentar ficar séria, engolindo o riso e o gozo que lhe ia na alma, porque ela era sempre muito correcta, correcta de mais. Sim, sr. engº, sim, sr. engº. Mesmo que não fosse para ser, ela sempre dizia "sim" a tudo. 


Lá veio ele e quando chegou perto de nós, com muita calma, perguntei-lhe em voz baixa “engenheiro, já viu como essas calças estão curtas, precisa descer essa bainha, se quiser traga-as que eu arranjo, se não tiver quem lhe faça”… ele interrompe, começa a gaguejar - o que acontecia sempre que ficava nervoso, dizendo: “ah, não, este fato já é velho, tenho que o pôr de lado, porque tenho lá um novo”… bla… bla… bla…


A Catarina morta de riso e o homem desfazia-se em desculpas esfarrapadas porque, na verdade, ele tinha sido apanhado de surpresa. Ele nunca pensou que alguém reparasse naquele pormenor e muito menos o dissesse assim, abertamente, sem rodeios. Mas ele ia sempre directo aos assuntos, com tudo e todos, portanto, eu só fiz o mesmo. Tinha aprendido a lidar com ele e amor com amor se paga. 


Bom, depois de muito tagarelar, prometeu que não usaria mais aquele terno, mas olhava para nós com um olhar diferente do habitual. Talvez por ter descoberto que afinal não éramos só o que aparentávamos. Afinal, havia mais em nós, embora estivéssemos sempre caladinhas e a Catarina no sim, sr. engº. Ele foi, e nós ríamos que nem umas perdidas. A Catarina nem queria acreditar do que eu tinha sido capaz. Mas aquilo não era nada. E contámos às outras colegas as história das calças e todas diziam “ah… tu disseste?” É, eu disse. 

 

Os dias passaram e um dia à chegada dele, pela manhã, olho para a Catarina e digo “lá vem ele outra vez com aquelas calças, não acredito!” E diz a Catarina já a desfazer-se a rir: “Então, o que é que tu queres, o homem não tem outras”. Começo a chamar por ele “engenheiro, oh engenheiro” e lá vem ele apressado, a andar de lado, com papéis na mão para mostrar trabalho e com a cara franzida, para se perceber que àquela hora da manhã já estava cansado de trabalhar.

 

“Engenheiro, outra vez essas calças?” Resposta dele, parecendo um garoto que está a ser chamado à atenção por algo que não fez, ao mesmo tempo que se olha de cima a baixo para obter a sua própria aprovação:

 

Mas são outras(?)… ai, vocês!...

 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O Jeep do RM - 5


Em frente ao meu chefe, que estava sentado à secretária, concentrado em qualquer coisa que estava a fazer, aguardava que ele me desse atenção para lhe dizer o que tinha acabado de acontecer. Mas ele fazia tudo menos dar-me a atenção que eu precisava naquele momento. Estava difícil.

 

A seu pedido, evidentemente, porque tinha sido chamado para uma reunião inesperada e que não era possível prever a que horas acabaria, tinha ido à rua buscar o jipe dele, que estava estacionado no parquímetro e dado que já havia lugar na garagem da Rtp, na 5 de Outubro, não valia a pena pôr mais moedas. Apressado, ele atirara-me a chave, pedindo-me para ir buscar o jipe e estacioná-lo na garagem.

 

Nessa altura, ainda não tinha carro da empresa nem direito a estacionamento e, se bem que não fosse das minhas competências fazer aquilo, a nossa camaradagem profissional ultrapassava em grande escala esses limites. Assim, depois dele ter ido para a reunião, lá fui buscar o carro.

 

Na verdade, era a primeira vez que tal acontecia. Já tinha ido pôr moedas no parquímetro, algumas vezes, mas nunca tinha conduzido o jipe, no entanto, não achei que tivesse algum problema, por isso, peguei nas chaves e fui. Pus o jipe a trabalhar e fui conduzindo até à entrada da garagem. Aguardei pelo sinal verde e entrei.

 

Comecei a descer a rampa da garagem até ao piso menos um e ao fazer a esquina, calculei mal a curva e pumba… bati. Ouvi a traseira lateral direita embater com força na parede. Que estupidez(!), pensei. Como é que eu, uma condutora experiente, tinha feito uma coisa daquelas? Ainda por cima com um carro que não era meu? Ele confiava em mim e eu tinha feito um estrago daqueles!? É que, pelo estrondo, não tinha sido pouca coisa. Estava irritadíssima comigo mesma.

 

Continuei a conduzir até ao piso menos dois onde encontrei lugar e estacionei. Estava ansiosa para ver o estrago que tinha feito. Apressadamente, saí do carro e fui inspeccionar. Nem queria acreditar. Que loucura! Aquilo não podia ter acontecido de jeito nenhum. E agora? De quantos vencimentos eu ia precisar para pagar o estrago feito?

 

E aí estava eu, à espera que ele me desse atenção para lhe contar o sucedido. Quem iria ficar mais furioso, ele ou eu? Sim, muitas vezes nos desentendíamos, mas a nossa cumplicidade estava acima dessas coisas. Fazíamos uma dupla imbatível. Podíamos ter um desentendimento forte, mas no instante seguinte estávamos a entender-nos a cem por cento. Tínhamos liberdade para sermos francos um com o outro, até onde isso é humanamente possível, o que era muito mais do que profissional.

 

Não que isso alguma vez me tenha dado privilégios no campo profissional nem tão pouco monetariamente. Para ele eu sempre fui a melhor secretária do mundo, mas traduzi-lo em promoção e em remuneração, jamais. Quando eu o confrontava com essa situação e quando chegava a altura do ano, dos enquadramentos profissionais, muitas vezes o encostei à parede, fazendo-lhe perguntas directas acerca do meu desempenho profissional, a que ele nunca teve dúvidas em reconhecer o mérito que me era devido. E eu sabia que ele o reconhecia com verdade. Mas daí não passava.

 

Todavia, era o meu melhor amigo. Resolvíamos sempre as nossas coisas, os nossos assuntos pessoais e profissionais em equipa, no mais perfeito equilíbrio, protegendo-nos um ao outro, facilitando a vida pessoal e profissional um do outro, quebrando o “galho” um do outro, organizando-nos para facilitar também a vida no âmbito familiar porque, para além do trabalho, há a família, que é preciso respeitar e que precisa da nossa atenção.

 

Sempre que eu tinha descompensações de ordem emocional e ficava esgotada era ele que sabia o que fazer comigo. Era ele que me dava a “mão”, por assim dizer, era com ele que desabafava e o contrário também era válido.

 

A agora aí estava eu, esperando que ele parasse o que estava a fazer e olhasse para mim, para me ouvir dizer que tinha batido com o Honda na esquina da garagem. Como é que iria reagir? É verdade que ele não tinha o direito, legalmente falando, de me culpabilizar. Mas isso, entre nós, não contava. Eu era culpada, sim.

 

Finalmente, ele olhou para mim e como se ainda não tivesse reparado que eu já ali estava há algum tempo, disse: “ah, estás aí!?”. Não sabia como dizer, mas antes que se fosse novamente e me deixasse pendurada, disse-lhe que já tinha posto o carro na garagem. “Ah, já havia lugar… pois àquela hora já tinham saído muitos”…, comentou ele. E antes que continuasse, porque quando começava a falar nunca mais se calava, interrompi, dizendo: “tenho muita pena, desculpa, mas bati com o carro, na garagem”. Estava dito.

 

Surpreendentemente, não ficou muito admirado. Não percebi bem porquê, mas talvez para me poupar. Perguntou se tinha sido muito, respondi que sim, muito. E era. Estava batido e muito riscado. Era feio. Ele ouvia-me, mas não parava de fazer coisas, indo da janela para a secretária, da secretária para a estante, mexendo aqui, mexendo ali, tirando daqui e pondo ali, mas nada de comentar acerca do assunto. Disse-lhe, então, que visse e depois me dissesse, que eu, claro está, contrariada, mas assumia o prejuízo.

 

Findo o dia, retornámos às nossas casas. Quando me deitei, não conseguia dormir, pensando em como ele iria ficar aborrecido quando visse o estrago. Talvez ele não tivesse reagido mal por achar que eu estivesse a exagerar. O pior é que não estava. Tinha sido uma pancada e tanto. Ele nem imaginava. Que chatice! Como não era com um desconhecido, mas sim com o meu chefe, acabei por me acalmar e consegui dormir.

 

No outro dia, lá vou eu a caminho da Rtp para mais um dia. Chego e começo a trabalhar. Ele ainda não tinha chegado e com o trabalho, quase me esqueço do assunto. Mas, de repente, eis que chega, apressado, entra no gabinete, tira o casaco e senta-se. E não diz nada. Que estranho. Esperava que ele entrasse por ali dentro, fazendo-me mil e uma perguntas, porque quando começava a falar nunca mais se calava. Mas, para meu grande espanto, nada disso aconteceu.

 

Vou atrás dele, fico na sua frente e ele apenas me pergunta o que é que há, se eu quero alguma coisa. Oh, digo eu, então e o assunto de ontem? Com uma certa ingenuidade ele pergunta qual era o assunto. Com os nervos já em franja, reavivo a sua memória, lembrando-lhe que ele ficara de ver a batida com o carro. Resposta dele:

 

- Ah, aquilo? Aquilo já estava!


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A Fátima - 4


"Eu sou uma pessoa muito evoluída!..." - dizia a Fátima no seu melhor, isto é, com toda a sua ignóbil desenvoltura, certa da sua pessoa e das suas convicções, perante todo o nosso espanto.

 

 O Zé contava uma anedota e à volta dele estava eu, sentada à secretária, posto que ele estava sentado numa cadeira junto à minha secretária, a que vieram juntar-se o meu chefe, RM e o chefe dela, FP. A Fátima tinha ficado sentada no lugar dela, do outro lado da sala, e como tinha trauma de anedotas, fez cara feia e dali não saiu, mostrando-se aparentemente desinteressada.

 

Nunca percebemos porque razão ela reagia mal às anedotas. Tinha um amigo que todas as tardes passava por lá para a ver e tinha por hábito contar uma anedota, o que muito me encantava, por ser uma forma de quebrar o stress de tantas horas seguidas de trabalho e animar um pouco o espírito. Mas para ele contar, a Fátima exigia sempre que não fosse uma anedota "ordinária", porque ela não gostava. Então, o amigo tinha sempre que ter muito cuidado com o que ia contar, para não ofender os ouvidos da pequena.

 

Naquela tarde era o Zé, que também costumava passar por lá, embora com menos assiduidade. Era só de vez em quando, mas a presença dele era sempre marcada por alguma graça e alguma piada que, verdade seja dita, ele tinha de sobra. Uma boa disposição fora do comum. Grande Zé!

 

“Era uma vez um alentejano”... assim tinha começado a anedota, como começam tantas outras e que a Fátima possivelmente não apanhou desde o início, com a mania de não querer anedotas "ordinárias". E de cada vez que ele se referia ao alentejano, o pressuposto protagonista da anedota, dizia: "então, o homem"... "o homem"... "e o homem"... e à medida que a anedota ia avançando e tomando forma, nós já íamos aumentando o riso, antecipando um final super hilariante, porque tínhamos a certeza de que era esse o seu fim.

 

A Fátima não apanhou o início, mas de repente resolveu que não queria ficar de fora porque, se os outros já se estavam a rir, porque não haveria de rir também? Contrafeita ou não, lá se levantou para se juntar ao grupo. O facto é que, de cada vez que o Zé falava "o homem…", a Fátima interrompia, perguntando com um certo receio e uma ingenuamente completamente desastrosa, naquela voz grossa e meio embargada, que lhe era tão característica: "quem era o homem?", a que o Zé, da primeira vez nem ligou, fazendo apenas uma ligeira pausa para dar continuidade; da segunda vez que ele menciona, no decorrer da anedota "o homem…", lá vem a Fátima novamente a insistir: " mas quem era o homem"(?), porque era tudo o que ela queria saber da anedota.

 

O Zé prolongou a pausa, mas continuou, ignorando a inusitada pergunta, porque não fazia sentido nenhum e nós, quase que já nem precisávamos de ouvir o resto porque, só de ouvi-la interromper para querer saber quem era o homem, já estávamos perdidos de riso, a tentar disfarçar para não nos escangalharmos a rir antes do tempo.

 

E já mesmo na reta final da anedota, quando, mais uma vez o Zé diz: "e o homem"..., a Fátima avança na sua total imbecilidade, com um sorriso mais amarelo do que nunca: "mas quem era o homem?..." E estando mesmo no fim, o Zé pára, olha para ela com os olhos muito arregalados e numa fúria, dá-lhe um grito: "oh porra, sei lá quem era o homem!!!..."

 

Nós, perdidos de rir a bom rir, tanto, que o estômago até me doía. O meu chefe RM perdido de gozo, olhava para mim e falava com os olhos, como só eu entendia. Foi dois em um. A anedota acabou e nós ríamos que nem uns perdidos, sem conseguirmos entender aquelas malogradas intervenções da Fátima que, em vez de ouvir a anedota, só queria saber quem era o homem!?

 

E como não tivesse achado muita piada - nem podia, porque não esteve com atenção - e percebendo que não conseguia acompanhar os outros, começou a resmungar connosco, dizendo que tínhamos a mania que éramos espertos e que ela era parva, etc. Não raras vezes ela se manifestava desta maneira. Mas ela realmente não era parva. Ela era inteligente, só que vivia num mundo à parte, num mundo só dela e depois tinha dias em que estava mais ausente do que outros. Mas a maior parte do tempo não estava presente.

 

Naquele dia a coisa foi mais longe porque ficou muito irritada. E então disse uma coisa que eu não sei como classificar. Disse que nós achávamos que ela era estúpida e atrasada mental o que, segundo ela, não era nada disso, porque se considerava muito esperta e muito evoluída. Muito evoluída! Até aqui… tudo bem. O meu - nosso - grande espanto foi quando ela proferiu esta frase que, para mim, ficou célebre e não foi por ter vindo dela. Viesse de onde viesse, mas foi dela que veio e é estranho:

 

"Eu sou muito evoluída… eu até já tive uma relação extraconjugal!..."

 

E assim, ficámos todos a saber, o que é realmente ser evoluído!...



sábado, 28 de junho de 2014

Um almoço - 3


Tínhamos acabado o ensaio do grupo coral e para marcar as férias, porque era o último dia, decidimos almoçar por ali mesmo. Para isso fomos a um pequeno restaurante pertinho da igreja da Praça de Londres, onde se comem uns gulosos hamburgers.

 

Primeira questão: dentro ou fora? E decidimos ficar cá fora, ao ar livre, onde tem uma pequena esplanada. Veio o "garçon", dispôs as mesas de modo a ficarmos instalados o melhor possível e na sombra, por causa do sol. Fizemos o pedido e enquanto esperávamos, íamos brincando e gracejando com o que surgia.

 

Começaram a cair uns pingos de chuva muito espaçados, que não nos fizeram sair dali porque, entretanto, aparecia o sol e quando aparecia, já não estávamos na sombra. Então, levantávamo-nos todos ao mesmo tempo e fazíamos avançar as mesas, bem como as cadeiras, no sentido da sombra. Mas depois, lá vinham mais uns pingos de chuva que não nos deixavam perceber se ia aumentar ou não. Quando achávamos que tínhamos que nos levantar e procurar assento no interior do restaurante, os pingos de chuva paravam. E mais uma vez, lá vinha o sol e com ele nós continuávamos a afastar-nos no sentido da sombra.

 

Com isto, já estávamos um pouco longe do espaço do âmbito da esplanada e das outras mesas e pessoas que aí estavam, porque os outros estavam abrigados com chapéus de esplanada. Só nós não tínhamos protecção alguma.

 

Já tinham corrido algumas anedotas e piadas que nos iam ajudando a descontrair e a rir muito e lá veio o sol e nós fora da sombra. Não. Não queríamos, não podíamos almoçar debaixo de sol. Então, uma vez mais, os seis cantores voltaram a levantar as mesas mais as cadeiras, um bom bocado mais para diante, distanciando-nos ainda mais do resto da esplanada.

 

E foi então que o Zé, com o humor que toda a vida lhe conheci e que lhe é tão peculiar, nos fez rir tanto que até as pregas do estômago me doíam, dizendo:

 

- Daqui a pouco estamos a almoçar na Mexicana (que é do outro lado da praça)…!?

 

 

quarta-feira, 19 de março de 2014

A mariscada - 2


Era uma vez quatro amigos, que se juntaram para fazer e comer marisco. E como um deles tinha um restaurante nos Açores, era um excelente cozinheiro.  Por isso, depois de terem ido ao mercado, pertinho da minha casa, enfiaram-se na minha cozinha, onde fizeram uma grande festa só para eles. Mas aí, cheguei eu... e... a festa quase acabou. Quase...

 

É claro que um deles era meu marido e os outros três açorianos, todos eles residentes nos Açores, por isso se reuniam em nossa casa, em Lisboa, onde faziam tudo o que lhes apetecia. Ou quase tudo. Como já disse, um, era dono de um restaurante, os outros, incluindo o meu marido, colegas da RTP, como eu.

 

Numa bela tarde de verão, entro em casa, ouço chamar por mim e vou até à cozinha. Eh eh eh eh… que grande farra! Comiam que nem uns alarves. Mas que tinha bom aspecto, tinha, e que cheirava maravilhosamente bem, cheirava.

 

Naquela casa, antes de nós, tinha vivido o meu cunhado brasileiro, durante muitos anos em que fingia que estudava medicina em Portugal e partilhava a casa com outros brasileiros nas mesmas condições que ele. Foi por essa altura que ele e a minha irmã se conheceram, namoraram e acabaram por ir para o Brasil onde casaram e foram muito felizes.

 

A questão é que aquela casa nessa altura estava sempre cheia de brasileiros e onde há brasileiros há feijoada. Então, todos os fins-de-semana se fazia uma tachada que dava para um batalhão. Aos fins-de-semana não se fazia outra coisa que não fosse comer, salvo um deles, que estava sempre sentado na varanda com o seu violão - tocando e cantarolando, para quem a música era mais importante que a feijoada -, todos os outros comiam e dormiam. Esse, o da música, era o "Djavan" que, nessa altura ainda não era famoso.

 

Aquelas célebres feijoadas eram cozinhadas num tacho especial. Um tacho de alumínio enorme, uma coisa monstra que por lá ficou, juntamente com outras coisas. Quando eles se foram embora e fomos para lá viver, na necessidade de fazer uma escolha, poupei esse tacho porque me recordava aqueles tempos, embora o tacho não desse muito jeito para guardar, pelo facto de ser muito grande. Mas foi ficando por lá, por cima dos armários da cozinha, o único sítio onde cabia.

 

Mais tarde, decidi armar em tintureira e o dito cujo foi-me de extrema utilidade, porque era o único possível para fazer a mistura das tintas, tendo bastante espaço para puxar a roupa de um lado para o outro, quando eu decidia que já estava farta de uma determinada peça de roupa daquela cor e a mudava drasticamente. Grande tacho! Sem ele, nunca conseguiria fazer aquelas "caldeiradas" e brincadeiras com a roupa.

 

Ora bem, por conta disso, o tacho tinha várias marcas, posto que jamais me dei ao trabalho de o lavar no final de cada trabalho que fazia. Era só o que faltava! E assim, as marcas iam ficando, em altura e cor. No interior do tacho podiam-se ver claramente as marcas de várias cores.

 

Mas, voltando à mariscada dos quatro amigos, eles precisavam de um tacho e depois de rebuscarem tudo na minha cozinha, nem pensaram duas vezes. Era aquele mesmo que servia para o que pretendiam. E lá vai o marisco para o tacho da tinturaria. Claro que eles não viram nada, mesmo porque jamais passaria pela cabeça deles a que se destinava o tacho. Portanto, usaram-no e pronto.

 

Quando entrei na cozinha e os vi a comer com grande apetite, a babar com o marisco e eles a convidarem-me para me sentar com eles e comer, primeiro fiquei aflita, mas tinha que lhes dizer. E se apanhassem uma intoxicação? Podia acontecer?! Ah… mas talvez eles tivessem lavado o tacho… sim, só podia ser… que estupidez a minha. E, rapidamente, aproximei-me do tacho. Cravei o olhar no interior e que vejo: as marcas das tintas intactas!?…

 

Era inacreditável! Aquelas criaturas não se deram ao trabalho de ver o estado do tacho, que estava exactamente como eu o tinha deixado. Eu olhava para as caras deles e via o olhar deles a começar a desconfiar de algo que não percebiam o que poderia ser. Mas a minha expressão de espanto, de um certo nojo e de muitas outras coisas, era notória, porque simplesmente não conseguia esconder. E perguntei porque é que tinham ido buscar aquele tacho. Claro que a resposta era óbvia: "porque era grande, o maior"...

 

E continuei perguntando, com eles a comer: "e não viram as marcas da tinta?" Pararam. Olharam para dentro do tacho e eu apontei, dizendo: "olhem aqui, aqui, aqui…" Foi aí que se deram conta e continuei: "só uso este tacho para tingir roupa, por isso nunca o lavo". Pararam. Engasgaram-se, simularam ou não um vómito, ficaram entre a espada e a parede. E disse: "querem apanhar uma intoxicação?" Houve um vacilo de alguns segundos e depois veio a resposta: "o que não mata engorda!". 

 

E a mariscada continuou entre a boa disposição que redobrou e as gargalhadas e as piadas à boa maneira açoriana.

 

Já se passaram quarenta anos. Estão todos vivos. Só não sei se se lembram(?)…